Aline por Aline

11 Capítulo 11 - Coração apertado


No finalzinho da quarta série, a Tia Márcia (eu chamo a professora de tia nesse caso porque ela é especial) dedicou um dia a conversar com todos nós, mostrando uns vídeos sobre a puberdade para meninos e meninas. Todo mundo fez piada, inclusive eu, mas em particular conversei com ela mais à vontade para esclarecer algumas dúvidas que ficaram no ar.

Eu sabia que quando aquele sangue descesse já haviam acontecido centenas de modificações no meu corpo, um processo silencioso e lento, mas que ao mesmo tempo já dava seus sinais de acontecerem.

A menarca representava mais que ser “mocinha”. Era o fenecimento da infância para nós. Fim de uma fase. Começo de outra. Pelo menos teoricamente falando. Na prática o susto fala melhor por todos nós.

Transição.

Susto.

Desolação.

Refúgio.

Cuidado.

Apenas um verbo: percorrer...

Mesmo com os olhos vendados...

Mesmo com os olhos molhados...

Mesmo sem querer...

Mesmo que o medo torne a caminhada um fardo...

Mesmo que se tropece nos obstáculos...

Percorrer...

Por ser o caminho...

Por ser o resto...

Por ser...

Nada que eu dissesse consolava a Tita. Meu coração estava partido. Desejei que aquilo tivesse acontecido comigo. Nada podia me machucar mais do que ver minha melhor amiga chorando com tanto desespero, sem ter a quem recorrer, sem saber agir. Eu sabia porque tive a Tia Márcia para comentar a respeito, porque a minha mãe e a minha madrinha sempre sentiram necessidade de me preparar para a puberdade, logo eu que já tinha praticamente doze anos e meio e ainda não era “mocinha”.

Não sei como meus padrinhos chegaram tão rapidamente até a chácara, já que daqui até Campo Largo é longe e tem uma BR bem perigosa. Nós fizemos o que pudemos para que Tita se acalmasse, ela estava soluçando, trêmula, em estado de choque!

Imagino que quando ela era pequenininha apanhava por qualquer coisa que fazia e o efeito dessas surras a princípio não foram notados, mas em longo prazo pedia o que era seu, gerando então muito medo, um medo doente de errar, de falhar, medo de ser real, humana, de conversar com a própria mãe.

Por Deus, como pode ser assim?

Como pode mãe e filha não se entenderem?

Mãe e filha são normalmente o amor mais bonito que pode existir, por isso dizem que a gravidez é a fase em que a mulher se sente mais bonita. É claro que isso faz todo o sentido. Eu não sei o que seria de mim se não tivesse Leonice Pacheco como mãe.

E nada, nada mesmo do que aconteceu me apanhou desprevenida... Eu sabia que a Maria Clara havia aprontado algo e que cedo ou tarde a Cássia ia se cansar de fingir... E eu sabia que a Tita iria sofrer com tudo isso, imaginando que tudo se desenrolou de repente...

A Maria Clara e a Cássia se uniram com um propósito em comum: ferrar com a Tita...

Sabem o que realmente me apanhou desprevenida? O fato de Adolfo ter saído do casco e partido para a briga com o Erick para defender a Tita. Isso sim tirou o meu fôlego.

Eu bem que queria ter evitado a confusão que aconteceu, mas por outro lado queria muito que o Erick tomasse uma surra. Não é que eu goste de violência, é que esse garoto é um mau caráter, um energúmeno, um babaca completo. Morro de raiva de vê-lo aprontar com as meninas e nada lhe acontecer.

Nada de surpreendente. Todo mundo foi parar na sala da diretora Norma, uma mulher cujo azedume apodrece até a mais radiante das flores. Ela acreditou cegamente nas futricas da Cássia e puniu Tita e Adolfo com uma suspensão. Os demais levaram pito, uma advertência e foram liberados.

Quando voltei para a classe a fim de arrumar o meu material, encontrei minha mochila pendurada no ventilador de teto, meus pertences todos pisoteados, derrubados no chão, as mochilas de Tita e Adolfo estavam escancaradas numa poça de lama no gramado.

Esse detalhe me atentou para uma das escolas pelas quais eu passei, quando as meninas valentonas me prensavam contra a parede para me roubar. Eu ia conversar com os meus padrinhos para pedir transferência. Eu disse isso à Tita. Disse e depois me odiei por ter dito. Deixei-me levar pelo calor da raiva. Depois, me perdoei. Sou humana e pessoas de carne e osso também podem padecer a pensamentos de fraqueza e desespero.

Adolfo e Tita estavam abraçados, que milagre era esse?

A princípio, não quis interrogar para não deixar a Tita mais constrangida do que ela já estava com tantas bombas caindo sobre a cabecinha dela ao mesmo tempo sem trégua. Mas com ele eu podia.

Pelo menos algo bom tinha de acontecer em meio a aquela desgraça.

― E aí, almôndega? Como é que foi com a tampinha? — Fiz barulhos de beijinhos e ouvi o que parecia ser uma risada. Já era um avanço saber que ele queria beijá-la. Cabia-me tentar descobrir se ela também queria beijá-lo, porque aí com um esforcinho isso seria possível.

― Juro que subiu o meu sangue ver a Cássia fazendo aquelas gracinhas, cara. Eu sei que perdi a razão saindo para a briga, mas...

— Adolfo, não precisa ficar se justificando, relaxa... ― Coloquei minha mão sobre o ombro gorducho dele. Eu não o julgaria com o rigor exagerado da diretora Norma.

— Eu não ia deixar o povo tirar com a cara da Tita... ― Adolfo seguia se justificando como se não estivesse falando comigo.

— Estou surpresa...

― E eu ainda mais... Mas eu tô mais feliz por saber que agora a Tita vai acordar e ver quem é a Cássia.

— Saber quem é a Cássia, ela sabe muito bem, só teimava em não aceitar!

― Eu não podia deixar.

— Eu sei tolinho. Mas agora vai tomar a iniciativa ou vai ficar no 0x0?

― O que você tá querendo dizer?

— Isso mesmo que você ouviu! Vai ter que tomar a iniciativa.

― Do quê? — Ele pensou que iria me convencer se fazendo de sonso.

É claro que ele a cada dia que passa gosta mais e mais dela e espera pelo momento em que vai dizer tudo o que sente, só que eu preciso lembrá-lo que essa ocasião perfeita não vai cair do céu.

― Adolfo Hass é bom de briga, mas não bom de beijo.

— E como eu vou ser bom de beijo?

― Treina, ué.

— Como?

― Com cubo de gelo.

― Que nojento! — Reclamou ele, tão cínico quanto uma vilã de novela mexicana prestes a ser desmascarada.

— Nojento? Tá amarelando, é? Corta uma laranja no meio e manda ver. Ou faz melhor: beija a palma da tua mão, mas beija devagarinho para sentir a tua boca tocando a mão, sabe... faz isso mais devagar para não morder a língua dela, né? Vai ser o primeiro beijo dela, viu?

― Então quer dizer que ela não ficou com ninguém na festa, né?

— Ficou com ciúmes?

― Bem capaz... ― Adolfo fez uma careta que entregava o seu ciúme velado.

— Ah! Como não? Fica fazendo um interrogatório e depois diz que não gosta, que tá esquecendo... Tô sabendo das tuas, Almôndega.

— “Cê” é doida, Aline. ― Eu gostava de fazê-lo rir. Por muito conviver com meninos, sei que eles são condicionados a esconderem os sentimentos por medo de parecerem bobos, então é muito importante não trair a confiança deles. Um bom amigo vale muito. Em tempos os quais se distorce o sentido da palavra, posso dizer sem dúvida que sou uma menina de sorte por entender os garotos ou chegar pertinho disso.

— E você é doido de brigar para defender a menina e fingir que não gosta dela. Isso aqui não é a novela da tarde, não, que dá para enrolar até o final do ano, tá? E do jeito que as coisas andam, tempo é algo que não dá para perder... É tipo futebol: time que não faz gol leva. E olha que eu não entendo bulhufas de futebol.

― Pelo menos você sabe o que é gol.

— Sei o que é gol, cartão vermelho, essas coisas, mas saber nome de jogador e tudo o mais, isso eu não sei não... Mas, voltando ao nosso assunto, fujão, agora é uma boa hora pra você se aproximar dela, chegar com jeitinho, conquistar... Agora, mais do que nunca, ela precisa da sua amizade...

― Vou falar o que para ela? Para tomar um fora?

— Mais rabugento que você, só o meu vô e ainda acho que nem tanto, pois ele chegou e pediu para ficar com a minha vó, já você...

Adolfo precisaria de um tempo e mais uma dose de confiança, mas eu sabia que ele iria conseguir.