Aline por Aline

10 Capítulo 10 - Cilada no sábado à noite


Eu gosto de festas, quem não gosta?

Eu gosto de conhecer gente. Gosto de ficar sozinha, mas também gosto de interagir porque a solidão em excesso me perturbar.

É claro que eu gosto de música, dança e diversão.

Uma coisa é diversão, outra é putaria. (Eu evito falar palavrões, mas está inevitável!).

A festa de aniversário da Cássia era sinônimo de putaria. Não era desculpa para comemorar os 13 anos da abelha-rainha, era uma pista de dança para “pegar”.

A Tita não tinha “acordado” para esse detalhe, porque a Cássia convenceu muito bem a D. Meire a conceder a permissão. Pela primeira vez eu fiquei do lado da Meire, apesar de ter minhas divergências com o modo de criação dela.

Era a primeira vez na vida que a Tita iria a uma festa à noite. Tudo bem, festas do pijama acontecem à noite e a Meire pensou que sua única filha estivesse indo a um evento desses. Quando eu disse que a Cássia sabe manipular as pessoas, foi isso que eu quis dizer: ela conseguiu fazer a mãe da Tita acreditar que nada de ilícito iria acontecer naquela chácara...

Meu coração dizia justamente o contrário.

Dizia o quê, Aline?

O quê exatamente eu não sei, porque não sabia calcular com aquela precisão que eu espero ter algum dia. Tudo o que sei é que quando pensava nessa noite, não ficava bem. Não tem nada a ver com despeito ou comparação. Eu não queria ser a Cássia por nada do mundo. Se antes de conhecê-la eu já sabia que nós não tínhamos NADA em comum, a convivência apenas reforçou as primeiras impressões.

Pois bem... A Cássia tem tanto medo do que é diferente que faz piada... Não é uma jogada inocente para descontrair... Ela pega pesado... Ela é muito materialista, fútil, mal-educada, despreza a mesma mãe que ela diz sentir tanta falta, quando o pai telefona, ela faz de tudo para não atender, então agora eu penso se aquela choradeira no jantar foi atuação ou se existem duas Cássias dentro de uma...

Eu, francamente, não suportaria ter que ser falsa. Cássia o faz por vocação. Ela é uma criança mimada, nada, do tipo que com o choro tudo consegue, tudo à base da chantagem, do grito, sempre se esquivando das responsabilidades. Dever de casa não faz, tem que faça, nas provas sempre tem quem lhe passe cola e por aí vai. Eu fico pensando só numa coisa: imagina quando a Cássia Reis tiver que viver por conta própria... Ela vai sofrer muito, muito mesmo!

A Cássia tem muitos amigos e ao mesmo tempo, não é amiga de ninguém.

A Tita não percebia que Cássia estava longe de ser digna de inveja e admiração ou os dois unidos num sentimento indecifrável. Parecia envolvida no ritual de encantamento da abelha-rainha e isso tudo tinha a minha parcela significativa de participação. Eu armei esse circo, eu aproximei as duas, se acontecesse algo à minha amiguinha, eu carregaria comigo esse remorso.

Se no verão eu não tive tempo de ajudá-la a enxergar os fatos, com algumas diferenças pequeninas, o cenário era quase o mesmo. Tita estava cega pelas ilusões e eu sabia que esse baque seria doloroso, mas não queria forçar o afastamento, não queria magoá-la ou dar a entender que agia influenciada pelo ciúme.

Eu não queria ver um monte de pirralho se achando grande coisa por beijar de língua não duas ou três pessoas, mas mais de dez, beijar por beijar, sem sentir o gosto da boca do outro, sem querer conhecer a alma, sem carinho, tocar só por tocar.

Eu não sou desse mundo.

Não, eu não sou.

Não sou e não quero ser.

O amor tem que nos tocar por dentro. O exterior expõe os bordados da alma.

O amor pode se esconder nas ladeiras mais improváveis, mas sem ser uma estraga-prazeres, não creio que ele estivesse escondido por entre a fumaça de cigarro e aquelas luzes chatas que os amigos da Cássia colocaram pra tirar onda.

Cruz credo, aquilo me deixou tonta, tontinha... Eu pensei uma hora que meu coração ia explodir quando comecei a ver tudo embaçado e os garotos rindo, achando graça de tudo aquilo...

Eu fico feliz por não fazer o tipo deles, isso não me ofende. Eles também não fazem o meu tipo.

Ora essa! Quem disse que esses pirralhos pensam em amor?

Mas, espera aí. Por regra, eu também sou pirralha... Não tenho muito argumento para falar de amor... Vão me dizer que daqui a dois anos vou pular a janela de casa para namorar, mas eu não acho.

Eu não fico só por ficar. Não faz o meu tipo.

Eu só fico quando e se gosto.

Eu só beijei dois meninos até hoje. O Tadeu e o Guto.

Eu gosto dos dois.

Do Tadeu eu sei que vou gostar para sempre.

O Guto apareceu meio de surpresa na minha vida, quando fui passar o meu primeiro fim de semana com mamãe no litoral. Eu realmente senti algo diferente quando o vi e ele também sentiu, então decidimos ficar. Ele me considera sua namorada, mas eu apesar de gostar muito dele, não gosto o tanto que eu gosto do Tadeu.

Às vezes penso que estou traindo o Tadeu e fico triste. Às vezes eu acho que exagero por pensar demais em tudo. Minha madrinha fala que eu tenho uma alma velha e é por isso que não me identifico tanto com certas coisas.

A Cássia e as meninas acham que ser adulta é fumar, beber e “dar”.

A Cássia já confessou que tem vontade de “dar”.

Dar o quê, meu Deus do céu? Ela acabou de completar treze anos e só tem titica na cabeça. Como é que pode?

Dar por dar, sem nem gostar. Não é nem essa a questão. Ninguém é santo, ninguém veio trazido por uma cegonha. O que me dói mais é que parece careta e fora de moda não acompanhar a turma. A Cássia contava nos dedos para fazer treze e poder “dar” para esse namoradinho da vez. Com certeza acha que namorar é beijar. E é muito mais que isso. Eu forcei um pouco a barra quando disse que a Tita namorava, mas ainda bem que a Cássia não levou isso a sério, porém sem adultos no ambiente da festa, tudo pode acontecer...

É claro que um dia a Tita vai namorar e vai se entregar para essa pessoa, nada mais normal, só que se rolar muita pressão, ela pode perder o BV com um otário qualquer que vai partir o coração dela e “dar” (espero em Deus que não).

Sem orientação, a Tita vai achar que seja normal ver meninas de doze anos se oferecerem para moleques sem educação que não estão prontos para um relacionamento sério (elas também não) e não têm responsabilidade nenhuma além da escola, isso é, se levassem os estudos a sério, porque de fato, são bem poucos os que se concentram no que importará no futuro, lá na frente, quando não teremos mais a assistência dos nossos pais e o pão de cada dia dependerá de nós. Eu não podia deixar a minha melhor amiga a mercê desses imbecis.

Eu não queria ver um monte de pirralhos bebendo cerveja, vomitando, cagando nas calças e se achando o máximo por falar bobagens ouvindo músicas ressoando em estridentes caixas de som, que apesar de dançantes, não falam mais nada.

Eu preferia estar assistindo televisão com os meus padrinhos, comendo nuggets de frango ou a sopa de legumes maravilhosa que a Tia Marlene sabe fazer, queria no fim da noite ouvir as músicas que eu realmente gosto e ficar no meu mundo particular, só que se eu o fizesse não dormiria em paz.

A Tita é uma menina muito inocente, muito pura, muito ingênua. Ela naturalmente vai querer impressionar a Cássia inclusive fazendo coisas de que não gosta. Seria uma tremenda omissão deixá-la à mercê daquelas meninas cheias de titica na cabeça, sobretudo por terem a Cássia Reis como exemplo.

Meu mau pressentimento foi se cumprindo ao longo do sábado, em primeiro lugar porque a Maria Clara na última hora veio à festa, em segundo lugar porque depois que melhorei do meu mal-estar, percebi que o vestido jeans da Tita estava sujo e era exatamente o que eu estava pensando...

Ela ficou mocinha.

Nessa hora, tive certeza de que fiz a escolha certa decidindo acompanhá-la. Minha melhor amiga, mais do que nunca, precisava de mim.