Aline por Aline

1 Capítulo 1 - Os apuros de Lilica


Notas iniciais
Olá! Tudo bem com você aí do outro lado? Espero que sim! *-* Independentemente de você ter lido ou não Simplesmente Tita (ST para os íntimos hehe), é possível acompanhar Aline por Aline, mas se bater a curiosidade, ST está postada (a versão antiga, Aline por Aline também terá uma versão mais moderna, estilo notas de diário, tenho o ano de 1997 escrito) e você pode ler, caso queira.

Todas as histórias geralmente têm um começo e nem precisa ser extenso. No prólogo os personagens se apresentam e nos instiga a folhear a página seguinte. A curiosidade move até os mais desinteressados quando se trata de um bom mistério e embora essa história não seja predestinada a figurar nas prateleiras de livrarias famosas, por que não conta-la?

É estranho conversar com um diário como se ele fosse uma pessoa, mas os escritores fazem isso. Decidi ter um e não garanto que vou escrever todos os dias, pois não tenho tanta habilidade com a escrita do jeito que se espera de uma escritora habitual, ainda tenho muitas dúvidas e não sei se vou me lembrar de todo dia na mesma hora cultivar esse hábito, mas tentar é sempre bom. A Tia Márcia me disse que nessa nova fase da minha vida que é o ginásio é muito importante escrever, já que estou crescendo e vai ser bom ter do que me lembrar.

Eu me chamo Aline Gisele Pacheco, chamada por todos de Aline e não tenho nenhum apelido em especial. Nasci no dia 03 de fevereiro de 1987 de parto normal em Prudentópolis, então (nesse momento) tenho onze anos e alguns meses. Sou do signo de aquário e gosto muito, pois tem a ver comigo.

Sou filha de Leonice e Rubens José Pacheco e tenho um irmão mais novo, o Rubinho. Tenho um cachorro chamado Beethoven (é assim que escreve?) por causa do filme daquele São Bernardo bonachão e travesso. Adotei-o ainda filhotinho e o amo muito. Minha melhor amiga se chama Tita e eu espero que ela também me considere sua melhor amiga.

Até os onze anos eu morei na mesma cidade e no terreno dos meus avós paternos, eles na casa da frente e nós atrás, cantinho o qual Rubens Pacheco construiu praticamente sozinho para poder pedir a mão da minha mãe em casamento, ou seja, um ano e meio antes de eu nascer. Meu pai trabalhava em outra cidade e dirigia todo dia uns 30 km contando o percurso de ida e volta, enquanto a minha mãe era balconista em uma papelaria no centro da cidade. Eu era, resumindo, uma criança como qualquer outra... Feliz!

Cresci brincando na rua até meus pais me chamarem para dentro de casa, vendo desenhos animados, novelas e séries, juntando moedinhas para comprar doce na venda da esquina, sempre gostei de Chaves e a minha personagem favorita é a Chiquinha, adoro ouvir música, ver novelas, colecionar papeis de carta, escrever cartinhas também, fazer amizades e nunca escondi de ninguém a minha paixão pelo verão. Aprendi as primeiras palavrinhas com a Tia Márcia, minha professora do pré-escolar até o quarto ano.

Eu estudei na mesma escola desde sempre, então conhecia todo mundo, todo mundo mesmo, desde os alunos até os professores. Era aquela escola que quando entra um novo aluno não se fala de outro assunto por um bom tempo. Tudo gira em torno do novato que com certeza deve ser incomodar um pouquinho por ser o centro das atenções. Eu conversava com todos, nunca gostei desse negócio de ignorar alguém e implicar como vi aqui em Curitiba, mesmo não gostando. Não é tão fácil ser gentil com gente como a Maria Clara, aquela prima da Tita, mas sei que infelizmente pra viver bem em sociedade precisamos fazer algumas concessões um pouco chatas.

Sempre tento ser educada porque devemos tratar os outros do jeitinho que queremos ser tratados, no entanto o meu melhor amigo desde que me entendo por gente era o Tadeu, filho do dono da panificadora onde eu comprava sonhos para colocar na conta do vô. Só que eu não sentia por ele aquele sentimento de amiga, sentia algo a mais, uma alegria, um frio na barriga, uma coisa bem doida, estranha, porém... boa...

Eu acho que comecei a gostar dele no final da terceira série e também em partes porque todo mundo da nossa sala (estudamos juntos desde o pré) comentava que andando juntos até parecíamos namoradinhos... A essas alturas eu não sabia se isso era bom ou ruim porque não sabia nada do que ele sentia, nem duvidava que eu sentisse tudo aquilo e essa ideia de ser namorada dele me agradava...

Quando chegou a reta final da quarta série, eu decidi que conversaria com ele sobre... sobre as coisas que vinha sentindo... e pra minha surpresa ele também gostava de mim e nós demos o nosso primeiro beijo que na verdade foi um selinho muito fofo, aí ele pediu pra segurar a minha mão e eu deixei, ele perguntou se eu queria ser namorada dele e eu disse que sim... Nas férias de janeiro de 1998 ele e eu começamos a ser vistos de mãos dadas pelos nossos amiguinhos, eles é claro ficavam tirando sarro... Depois de criar coragem, demos o nosso primeiro beijo de verdade e foi muito bom porque apesar daquele friozinho todo na barriga, tudo deu certo...

Infelizmente minha alegria não durou o tanto que eu esperava: meu pai andava meio estranho, vomitava muito, vivia com diarreia, não tinha fome, começou a emagrecer sem se exercitar, uma coisa que deixou Nice muitíssimo preocupada, pois meu pai adorava assar churrasco quase sempre que sobrava um dinheirinho para comprar carne, carvão e cerveja.

Era estranho que logo ele perdesse o apetite pelo que mais gostava. Não foi só isso. Papai estava com a tez mais pálida, o olho fundo, tão magro que tinha de furar a cinta para poder usar calça jeans. Aceitando a contragosto a imposição de mamãe, se consultou no postinho de saúde 24 horas, o médico de plantão disse que a probabilidade de estar com uma infecção intestinal era bem grande, portanto prescreveu remédios os quais meu vô ajudou a comprar e nada de melhoras. Vovô colocou meu pai no carro e eles foram até Curitiba...

Num dia, lá por março, logo depois do Carnaval, eu seguia um pouco preocupada com papai que não voltava nunca daquela viagem, nem ele e nem vovô, minha mãe estava chorando muito quando voltei para casa, então eu fui até ela perguntar o que estava acontecendo porque pensei que naturalmente era o meu avô que estava adoentado.

― Eu preciso muito te contar uma coisa, Lilica — fungava Nice com os olhos rasos de lágrimas. ― Venha cá, minha criança. — Pendurei a minha mochila na alça da cadeira e dei a minha mão direita para ela que limpou a garganta na tentativa de conter os soluços:

― Sinto falta do pai. ― Lamentei cabisbaixa. Era tão estranho ver o lugar dele vazio na mesa, não escutar mais a voz dele nem os assobios nem a mamãe implicando porque ele entrou com os sapatos dentro de casa ou ainda porque deixou a tampa do vaso levantada. Eu sentia falta daquele homem forte das fotografias, que figurava nas minhas lembranças, crendo que cada dia longe dele era apenas um a menos de tristeza, um a menos sem aquela incerteza, um a menos de lar incompleto.

— Eu preciso falar com você... sobre ele! — Explicou Nice com a voz embargada.

― Ele vai demorar mais para voltar?

Nice assentiu:

― Acredite, Aline, eu não queria que você e o seu irmão tivessem que passar por isso, mas...

Era isso. Papai não estava bem, nem um pouco. Ninguém sabia dizer se ele ficaria pleno, se se curaria daquele tal câncer que estava evoluindo muito rapidamente e devorando o seu frágil corpo internamente. Perguntei se havia algo que eu pudesse fazer e mamãe disse para dobrar os joelhos e orar muito, muito mesmo, pois Deus estava nos testando.

Não satisfeita, insisti em saber por que Deus deixou o meu paizinho ficar doente, porque não tinha resposta. Até o final do ano anterior ele carregava peso, trabalhava um monte, gostava de churrasco bem passado, não desperdiçava uma migalha de comida, era uma boa pessoa, por que aquilo tinha que acontecer com ele?

Eu não conseguia orar. Era difícil. Quando se tem onze anos de idade é quase impossível compreender o propósito de certas coisas. Rubens não era um homem mau, nunca matou ninguém, nunca roubou nada que não lhe pertencesse, era um bom esposo para a minha mãe, um bom pai para mim e para o meu irmão pequeno Rubinho, vivia para trabalhar mesmo ganhando tão pouco que não pudesse sonhar com grandes coisas.

Eu não podia acreditar que o meu pai estava com câncer. Não podia também aceitar que Deus estava permitindo aquele sofrimento sem fim. Eu estava muito triste, tão triste que nem sabia me colocar de joelhos, sentia-me confusa demais, que nem quando alguém que amamos bastante toma alguma atitude que nos decepciona. Pensei, talvez, que estava sendo castigada por estar namorando sério com Tadeu.

Ele percebeu que eu estava mais entristecida:

― Faz tempo que eu não vejo mais o seu pai, Lilica. ― Tadeu era a única pessoa no mundo que me chamava de Lilica. Ninguém mais chamava e nem mais podia. Era um privilégio dele. E irrevogável. ― Está tudo bem com ele?

― Meu pai está muito doente, Tadeu.

― O que ele tem?

― A minha mãe me explicou que é câncer.

Tadeu olhou para a calçada de paralelepípedos e aproximou sua mão da minha, mas recuou um pouco chateado, como se não tivesse nada para me dizer:

― Você acha que o meu pai vai sair dessa? — Perguntei.

― Eu acho que vai, Lilica. — Tadeu encaixou as nossas mãos para atravessarmos a rua e passarmos na distribuidora de doces: ― Deus não iria deixar que acontecesse nada de ruim com o seu pai.

Antes de entrarmos na fila para a distribuidora de doces cujo toldo era vermelho, parei em frente a Tadeu:

— Posso te pedir uma coisa, Tadeu?

― Pede o que você quiser, Lilica.

— Qualquer coisa?

Ele balançou a cabeça num gesto de confirmação:

― Reza bastante pelo meu pai?

— Rezo ― ele confirmou. — Rezo sim.

Eu devia ter pedido para que ele guardasse segredo.

Notas finais
Até o próximo capítulo. ♥