As cartas brancas ficam juntas

Assim como as pretas.

Pois elas são distintas,

E esta é a tradição sucinta

Que dia lindo! O sol está levantando, agora eu só tenho que ir para a escola.

Aquele sonho foi tão legal! Eu queria que ele continuasse. Viver com o Jojo, Kit, Zak, Cally... Era emocionante.

Sentei me espreguiçando e olhei para a janela, vendo o campo verde que se estendia ao longe com as árvores do naipe de Paus.

...

...

Não era um sonho! Maravilhoso! Eu te amo Vó Alice!

Corri para os corredores, saltitando de alegria e cantarolando.

Feliz desaniversário pra ti! — gritei feliz abrindo a porta para o jardim.

Bom... Eu achei que era o jardim, e não uma sala de reunião.

Kit colocou a mão na boca para segurar o riso, mesmo assim eu ouvi. Zak riu abertamente, assim como os outros. Até a minha prima.

A única que não riu foi a Callyda.

Por que será?

— As folhas protetoras da noite são mais amigáveis que as diurnas.

— Cally, você só diz isso porque detesta as flores do jardim da Rose. — um ser que eu nunca vi antes afirmou. — Não que eu tenha entendido.

— Ela disse que as roupas de dormir são mais confortáveis do que aquelas que usamos durante o dia. — respondi dando de ombros. — Eu só não troquei por dois motivos: acordei feliz e esqueci.

— A sua roupa está lavando, vamos que eu te ajudo. — Willow se levantou e pegou minha mão, puxando-me para fora da sala.

— Quem era aquele loiro? — perguntei — Albino? Aquele lá de cabelo dupla cor!

— O rei de Ouros, Dean. — franzi as sobrancelhas.

— Por que ele estava aqui?

— Eles tinham um assunto a tratar, estavam prestes a começar quando você entrou.

— E você sabe o que é?

— Não tenho ideia.

Silêncio constrangedor. Fiquei quieta até colocar uma roupa apresentável, e depois Will me deixou passear pelo castelo, desde que eu não entrasse em locais proibidos.

Não sei quais são proibidos, então não sei onde não entrar.

Andei por algum tempo, até chegar nos corredores maiores, com mais luz.

Fantasmas não, fantasmas não, por favor!

.. Venha...

Andei hesitante em direção ao som, e parei em frente a uma grande porta. Com o naipe no centro, e Amélia escrito em baixo. Pelos rococós eu já sabia que era da minha avó, ela desenha isso em tudo que é canto.

— Muito bem, eu estou ouvindo vozes vindas daqui. Eu acho que por ser o quarto da minha avó não vão ter fantasmas.

Puxei a maçaneta.

Não abriu.

Empurrei.

Também não.

Acho que está trancada.

Você acha?

Não é hora de me chamar a atenção, consciência.

— A vovó me deu uma chave de aniversário... — coloquei a mão no pescoço procurando o cordão. — Achei! — comemorei vendo os adornos prateados. — Será que ela sabia que eu viria?

O quarto era natural, mais ainda que a casa da vó Melly.

Sério, nunca vi tanta planta num cômodo só.

Venha, pequena Allya.

E a voz está vindo... Do armário!

Vamos para Nárnia!

...

Santa Liddel!

Dei um passo para trás, vendo milhares olhos negros me encararem.

'Vovózinha, que olhos grandes você tem.'

Consciência, não é hora para brincadeiras.

Estávamos esperando por você, aliada.

O interior inteiro tremulou, as borboletas voaram para o quarto.

Detesto camuflagem. Malditas asas que parecem olhos.

— É... Quem me chama?

Venha aqui, quero te ver melhor.

— Por favor, me diga que não é um lobo mau usando a roupa da minha avó.

Uma risada sibilante preencheu meus ouvidos.

Ouviram, queridas? Ela pensa que sou daquela história infantil.

Esse ser tem um 's' bem puxado, estou pensando que é uma cobra.

Não insulte-me comparando àqueles seres rastejantes.

Pensar alto não é uma boa escolha nessas horas.

— Onde você está? — perguntei procurando o ser no armário, mas a única coisa que via era aquela moldura que minha avó tem por todos os lados da casa.

Moldura?

Sim, minha avó diz que é decorativa, uma moldura vazia na parede.

Não estou vazia, sabe? Amélia foi a primeira a nos levar para longe daqui. E suponho que há uma na sua casa também.

— Um pedaço de madeira está falando comigo? Eu sabia que era insana o suficiente para vir para cá, mas conversar com objetos?

Você está me tirando do sério, é quase tão ruim quanto a jovem Amélia.

Fitei o rabicho que caia para dentro, e ele me encarava com os olhos estreitos.

Não sou um rabicho.

— Bambu? Você é um animal de verdade? Sério mesmo?! Que feliz!

Bati palmas. Quando criança, minha mãe me levou para psicólogos porque eu fiquei um bom tempo conversando com as molduras da vovó. Tanto que, um dia, ela tirou a nossa de casa. Eu chamava todas pelo mesmo nome, agora tudo faz sentido.

Finalmente me reconheceu, Lya. Lembra-se agora?

— Sim, Bambu.

Pare de me chamar assim.

— Eu não sei o seu nome, você nunca me disse. — cruzei os braços emburrada enquanto o pequenino balançava.

Bambuídward.

— Bambu é muito mais fácil.

Que seja. Você está em Maravilhas e tenho algo para te entregar.

O interior da moldura começou a brilhar, e ondular como água, então, ficou branco, mostrando apenas uma caixa no centro.

— Você quer que eu pegue esta caixa?

Sou um portal, e eu estarei levando sua mão até o local onde a caixa está.

— Como assim você é um portal? Que eu saiba, existe um guardião para os portais, e um ser que comanda eles.

Sou o guardião, e meu mestre ainda não está neste mundo.

— Como o seu mestre é?

Ele ainda não nasceu. Quer fazer o favor de pegar essa caixa logo?

Criatura estressada... Estiquei a mão, atravessando o portal e peguei a coisa branca, com os desenhos dos naipes.

Bem nacionalistas, colocam naipe em tudo que é coisa.

— Mais uma chave? — falei pegando a corrente dourada. — Para que?

Essa chave é especial, a nova Alice sempre deve andar com ela durante o Festival de Copas. É um amuleto protetor.

Muito bem.

Uma chave.

Ninguém desconfia de uma chave, as pessoas desse país são bem espertas.

— Maravilha. — coloquei o cordão no pescoço. — O que vou fazer agora?

Faça o que bem entender.

Eu queria que o Bambu fosse meu pai, ou minha mãe!

— Até outro dia. — antes de sair, virei, lembrando algo. — Como eu posso usar os portais?

Você vai saber.

Quem é pior? Ele ou a Callyda?

A Madge.

Definitivamente. Segurei a barra do vestido azul, para variar, e passei pela mini floresta.

Andando por corredores secretos, adoro isso. Ouvi a voz do Jojo em algum momento, mas não tenho certeza... Eu me lembro de ter aberto alguma porta e ver ele, no entanto... Não lembro.

Maldita perda de memória.

Comecei a cantarolar baixinho, e ouvi sons vindos de um lugar próximo. Curiosa como sou, fui ver.

Alice do céu! Não sei quem são os sortudos, mas esse beijo parece de filme! Os dedos dela no cabelo dele, o amor preenchendo tudo e mais um pouco. Movimentos suaves e envolventes... Que lindo!

— Eu te amo.

...

...

Kit!?