Assim que subi as escadas, saí correndo até meu quarto, para tentar pesquisar alguma coisa relacionada à anjos no notebook.

Não que o Google tenha ajudado, já que a maioria que aparecia sobre o assunto eram histórias ou algum tipo de quiz relacionado à anjos da guarda.

Havia também uma página na Wikipédia, bastante detalhada sobre as tríades dos anjos, e reconheci alguns nomes que Miguel e as garotas haviam falado, como potestades, anjos da guarda e querubins. Era como uma espécie de hierarquia, em que os mais baixos — principados, arcanjos e anjos da guarda — eram os mais próximos dos humanos entre eles.

Algum tempo depois pesquisei a palavra "nefilim" e não tinha quase nada, a não ser um parágrafo curto na Wikipédia e um texto feito por fãs de uma série.

Suspirei, desistindo e abaixando a tela até fechar. Berenice estava deitada em sua cama do outro lado do quarto, sua metade do quarto era de um lilás suave, enquanto a minha era verde. Ela teve essa ideia assim que nos mudamos, sua metade do quarto tinha os bonecos de super heróis e pôsteres de filmes, cama decorada com corações e borboletas. A minha parte era só verde mesmo, com alguns pôsteres de bandas e séries.

Naquela noite eu fui dormir com a janela que dava para a sacada aberta, com os braços atrás da cabeça, olhando para o teto cheio de estrelas fluorescentes que brilhavam no escuro. Já passava das duas da manhã e eu estava virada para Berenice, vendo seu borrão na cama — já que estava sem óculos — e não conseguindo pregar os olhos. Tinha tanta coisa que eu queria perguntar pra eles, tanta coisa que eu queria saber sobre isso.

Eu estava ficando louca? Provavelmente.

Quer dizer, em uma tarde meu suposto novo namorado se revela um anjo, e eu uma nefilim. E havia uma sociedade secreta de anjos caídos e nefilins por aí e ninguém nunca tinha ouvido falar deles!

E aliás, eu me certifiquei quando cheguei em casa se não tinha mesmo fumado ou inalado nada estranho, só por garantia.

Fechei os olhos e respirei fundo, tentando dormir e falhando miseravelmente pela quinta vez naquela noite. Bufei, revirando os olhos só por rotina, e então senti o colchão ao meu lado afundando um pouco mais e uma mão um pouco acima do meu quadril.

Virei rápido assustada e suspirei quando vi quem era meu intruso.

— Não estava conseguindo dormir, eu consigo sentir você se revirando aqui. — ele sussurrou, me puxando pra mais perto até ficarmos praticamente abraçados na cama, com cabeça em meu pescoço e minha boca perto de sua orelha.

— Sentir? Como assim? — respondi, tentando ao máximo não fazer barulho.

— É isso que eu quero conversar com você. Lembra do que eu falei sobre as conexões? — ele agora estava com a boca contra minha orelha e seu hálito quente me provocava arrepios pelo corpo todo.

Concordei com a cabeça, mesmo que ele não pudesse ver.

— Eu acho que...tive uma com você. Não sei como funciona, Dim tava me ajudando a diferenciar uma conexão de só uma paixonite. Eu consigo sentir como se sente e antes que você diga alguma coisa — eu já estava me afastando e com a boca aberta pra falar — eu realmente não consigo me manter longe de você, eu tentei. Nesses últimos dias, quero dizer, e-eu tentei ficar longe de você d-depois da festa, acho que c-começou lá, foi quando te vi pela primeira vez, a-achei que fosse s-só porque eu te achei bonita mas d-depois eu vi que n-não.

— Por que está gaguejando? — foi a única coisa que consegui formular naquele momento.

— Eu não sei, Ali-lice. Coisas acontecem q-quando você está por p-perto. Eu fico mais s-sorri...sorridente. — ele respirou fundo e continuou — Todo mundo nota isso. É uma bagunça quando você está p-perto, digo, na minha cabeça, nada fica certo, e eu não consigo pensar direito, acho que é culpa desse corpo, por ser jovem, pelo menos a gagueira.

Sorri, observando todas as mudanças passando pelo seu rosto e o ver franzindo o cenho.

— Isso quer dizer que... — comecei, ansiosa.

— Que eu vou te perseguir até o fim do mundo pra te fazer sorrir, mesmo que esteja casada com outro ou velha e sozinha.

— Que romântico — reviro os olhos, tentando esconder meu sorriso. — Faz parte da conexão?

— É, e eu acho que você deve ter sentido algo também durante esses dias. Pense bem.

Eu nem precisava, sabia que sim.

Aquela sensação estranha quando ele me tocou na festa, e em como eu fiquei automaticamente feliz só pelo fato de ele estar ali.

E o incômodo nos dois dias que eu não tive notícias dele.

— Você tem razão — sussurrei, perdida nos seus olhos castanho-dourados que brilhavam suavemente no escuro.

— Pode repetir de novo? Você quase nunca me fala isso — ele sorria, com os olhos também, e parecia inegavelmente angelical.

— Vá se foder — disse sem nenhum som, tentando não sorrir.

— Eu queria te perguntar uma coisa. — Miguel aproximou mais nossos corpos, fazendo meu tronco ficar pressionado contra o dele. — Eu gosto de você, e você sabe disso. E eu acho que também gosta de mim, não só porque está determinada a ficar perto de mim pela conexão.

Balancei a cabeça concordando.

— Queria saber se você não gostaria de, bom, sair... comigo. — ele estava com um sorriso tenso nos lábios, em expectativa.

— Bom, vou pensar na sua proposta — sussurro e viro de costas pra ele, me afastando e enterrando a cabeça no travesseiro.

— Ah pelo amor de Deus. — ele bufou e quase pude sentir ele revirando os olhos. Virei para ele piscando os olhos e mordendo o lábio inferior, com ele observando cada passo com os olhos apertados, ele gemeu baixo e jogou o corpo contra a cama, com um braço em cima dos olhos. — Que droga Alice, não me olha assim.

— Bom, quando vamos sair?

Ele espiou por debaixo do braço e um sorriso enorme brotou nos seus lábios.

— Amanhã tipo, umas seis horas. Eu venho aqui te buscar, você vai adorar. — seu sorriso cruzava todo o rosto, com as meias luas debaixo dos olhos brilhantes ele era a coisa mais adorável do universo naquele momento.

— Só nós dois? — não pude deixar de sorrir em resposta.

— Bom, até agora sim.

— Como assim? — perguntei curiosa.

— Maya quer que a gente saia em três casais, Anne e Marcos, ela e Samuel e você e eu.

— E você não quer isso. — arqueei uma sobrancelha em sua direção.

— Eu preferiria ter você só pra mim um pouco, a família está sempre por perto.

— Gosto deles — sorri, e era uma verdade. Gostava da confusão que é ter todos os membros de sua família juntos, eles transmitiam uma energia boa, como se não houvesse nada que não pudessem resolver em conjunto, sem contar que todos tinham me acolhido como se já fosse da família.

— Eu também gosto deles, mas todos falam tanto — ele suspirou, erguendo os braços e deixando eles caírem dos lados do seu corpo. — Eu gostaria de um tempo à sós com você.

— Nem imagino o porquê. — ele sorriu, se aproximando de mim não restando praticamente nenhum espaço entre nós.

— Eu adoraria te mostrar — ele encostou os lábios nos meus, mas fui mais rápida e o afastei um segundo depois.

— Se eu vou sair com você amanhã, tenho que estar descansada, vai ver que eu pareço um panda bronzeado se não dormir direito.

— Você...Ah, esquece — ele bufou e revirou os olhos de novo, então se afastou e sentou na mureta da janela, com as costas dobradas e ainda me encarando.

— Até amanhã, Miguel. — sorri para ele, tentando não parecer tão ansiosa como eu estava.

— Boa noite, Alice. — ele desistiu, suspirando e saiu da janela, indo embora.

E eu pude dormir naquela noite, tão relaxada quanto foi possível naquele momento.

Notas finais
Espero que gostem, comentem, se estiverem aí '-'