Alice in Wonderblood
2 A lagoa de sangue.
— Coelho! — A garota gritou em uma voz rouca, colocando-se de pé e correndo entre as árvores secas até o coelho que saltitava com leveza e rapidez pelo gramado alto. — Ei, espere! — Correu em sua direção, derrapando em uma poça de lama e vendo-o submergir em uma toca. — Humf. — Suspirou. — Lá vamos nós de novo Alice. — Murmurou para si mesma; enxugou seus olhos na barra de vestido de cetim azul e abaixou-se, engatinhando pela apertada.
No mesmo instante, começou a cair. Seus cabelos platinados flutuavam ao seu redor, enquanto Alice berrava, com mil coisas e mil lembranças passando por sua mente: "Estão mortos? Todos eles? Minha família... por quanto tempo fiquei lá?", "Se passou tanto tempo, como Charlotte ainda estava lá? Sentada?", "Será que o tempo parou e os desastres naturais não?", "Será que... eu não tenho mais um lar? Uma... uma vida?". Esses pensamentos perturbavam-a, e novamente em uma crise de choro e soluços, ouviu gritos de dores, gritos desesperados de socorro vindos da parede, não, não era da parede, e sim de lugar algum. Os gritos embaralharam-se com palavras de uma língua estranha e sussurros. Cabeças de caveiras apareceram, rangendo seus dentes e cantando em um coro medonho; Alice cobriu o rosto com suas mãos. Três palhaços sorrindo sadicamente com dentes amarelados, ensanguentados e pontiagudos, suas maquiagens borradas em lama, ambos com paletós negros. A queda como da ultima vez, não parecia ter um fim, mas por quê essas coisas assustadoras? Será que de fato, o País das Maravilhas refletia seu estado emocional? Da ultima vez, Alice realmente viu coisas estranhas ao seu redor enquanto caia, como pianos, potes de geleia de laranja vazios, cabides, mapas e quadros pendurados, quando finalmente, parou.
A três centímetros do ar, sentiu apenas um leve baque, acolchoado por folhas e gravetos. Levantou-se com dificuldade, ainda abalada pela queda; olhou ao redor, parando no coelho que agora atordoado e apressado, analisava repetidamente seu relógio de bolso e murmurava "Era tarde demais", mas, o coelho não era o mesmo, estava diferente, não era mais branco, e sim negro, e seus olhos, grande bolas azuis, agora eram vermelhas; ele estava magro e mal cuidado, e seu paletó gasto e desbotado. Saltitou para uma outra toca, dessa vez maior, e após vários zigue-zagues, parou em uma comprida e baixa saleta mal iluminada com um cheiro mofado, onde magicamente, o coelho havia sumido.
— A chave... — Lembrou-se Alice da ultima vez, girando os calcanhares e indo até a uma mesa toda de vidro no centro da sala e apanhando uma minuscula chave; encaminhou-se até uma cortina, puxou-a e virou a chave em sua tranca, abrindo-a, revelando nada mais nada menos que um pequeno buraco de rato. Agaichou-se e observou entre o pequenino buraco, mas diferentemente de antes, onde viu um lindo campo com flores viscosas diferenciadas e coloridas, agora via apenas uma breu. Voltou-se a mesa, apanhando agora uma garrafinha roseada que havia aparecido, em suas letras impressas, liam-se "Beba-me". Abriu a tampa da garrafinha e bebericou o líquido; afastou-o com rapidez, fazendo uma careta pelo gosto ácido e azedo. Antes, ele teria um gosto com uma mistura de torta de cereja, creme de ovos, leite e açúcar, abacaxi, peru assado, toffy e torradas quentes, agora era algo pior que limão. Sem outras alternativas, prendeu a respiração e bebeu de uma vez. No mesmo instante, sentiu-se encolher vários e vários metros, tornando-se uma "miniatura de Alice". Desta vez, Alice já com a chave em mãos, não necessitando de Altestrudel, um bolo que fazia você crescer.
Já com a chave e encolhida, arrastou os pés até a pequena portinha, e nesse mesmo momento, escorregou e caiu não no piso frio, mas sim, em uma lagoa, mas não em uma lagoa comum, uma lagoa vermelha exalando um forte cheiro de... sangue.
Alice desesperou-se, debatendo-se no mediano lago de sangue, enquanto tentava chegar a qualquer custo na sua borda, porém, parou os movimentos agitados quando viu algumas bolhas vindo do sangue, e no instante seguinte, surgiu um rato magricela com a aparência cansada e com sua pelagem suja. — Rato... — Murmurou Alice.
— A-a-alice. — Guinchou o animal, nadando poucos centímetros ao que faltava para a beira do lago e agarrando-se nas gramas. — Veio novamente para me falar de gatos?
— Ainda tem medo deles?
— Não mais. Já vi tantas coisas assustadoras por aqui nos últimos anos...
— Assustadoras? Está brincando? Aqui é o País das Maravilhas.
O rato deu uma risadinha seca. — Maravilhas, Alice? Olhe ao redor.
Segui sua ordem, e na realidade, não havia mais maravilha alguma ali. Uma árvore ou outra encontravam-se ainda plantadas, porém, secas e queimadas, a grama na mesma situação, nada muito diferente do que ela havia visto na superfície, onde não existia mais nada. — Como? E-eu perdi tudo o quê tinha lá encima, agora... a minha única casa, também?
— Tudo mudou desde que você se foi, Alice. — Dodô surgiu igual a ultima vez, acompanhado do pato, do papagaio e da águia.
— Desde a ultima vez? Eu não fiquei nem uma hora longe daqui...
— É o quê você acha. Os mundos são diferentes, Alice. — Disse a águia.
— Onde está o Chapeleiro?
Os quatro entreolharam-se e abaixaram os olhos. Dodô foi o único a responder. — Supostamente... morto.
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