Alice in My Veins
11 O abismo que parecia não ter fim
Notas iniciais
Capítulo 11 — O abismo que parecia não ter fim
Alexia e Jared se sentiam puxados por fadinhas.
Literalmente.
Aquelas pequenas criaturas grudaram no tecido de suas roupas e os puxavam em direção a saída. Chegava ser engraçado o esforço que todos aqueles serezinhos faziam. Mas permaneceram quietos, para não ofende-las.
Apesar de que ser arrastado até a saída é um pouco grosseiro.
— Esses bichinhos são mal educados — Bufou Jared batendo em sua blusa enquanto as fadinhas voltavam para sua toca, deixando os dois sozinhos.
Alexia teve vontade de começar a rir. Muitas vezes, Jared se irritava com pouco. E por isso era divertido. Alexia poderia tira-lo do sério a hora que quisesse.
— Só são travessos Jared, não seja tão ranzinza... E então? O que acha do fato de agora termos armas e sermos... Super demais?
— Super retardados, você quis dizer. Venha, vamos procurar pelo gato “vapor de chá” — Disse ele negando com a cabeça.
Alexia achava estranho o gato não ter aparecido. Morfeu disse que ele estaria aos arredores do castelo. Porém caminhar poderia fazer com que eles se perdessem.
Por todo canto que olhassem, parecia que tudo era igual. O país das maravilhas era confuso e mortal. Mesmo que conhece os caminhos pode se perder entre as trilhas e encontrar muitos perigos. As cores florescentes criavam confusão e Alexia podia jurar que tinha um tipo de poder alucinógeno bem potente.
— Onde ele pode estar? — Jared cruzou os braços — Tipo... Ele é... O nada!
Alexia deu de ombros e olho envolta. Era verdade. Ele podia estar em sua frente e ela nunca o não o veria. Cheshire com certeza é alguém que ninguém irá querer como inimigo.
— Está errado meu caro... — Quase que imediatamente, Alexia sentiu um arrepio em sua nuca e uma voz que se misturava com um ronronar. — Eu não sou o nada. Mas o tudo... Quem sabe.
— Cheshire! — Digo me virando para trás rapidamente para encara-lo.
Ao contrário daquele filme macabro do Tim Burton, Cheshire não era azul. Porém, era difícil distinguir sua cor. Ora amarelo, ora vermelho e ora alaranjado. Mas seu sorriso continuava inconfundível. De orelha a orelha, chegava ser assustador. Quase como se tivessem costurado-o em seu rosto como aquele filme estranho da Coraline.
De qualquer modo, Tim Burton, foi um bom produtor. Mas sua “macabridade” não chegava aos pés do quão realmente era estranho e louco o país das maravilhas.
— Ah, finalmente deu as caras... — Suspirou Jared olhando para o gato que continuava com o sorriso inabalado no rosto enquanto flutuava por ai.
— Deviam ter um pouco de paciência... Eu estava no meio da minha soneca — Dizia ele num tom arrastado ainda com o seu ronronar. Alexia se perguntou mentalmente como o gato costumava dormir sendo bem... Daquele jeito.
— É mas nós estamos meio... Apressados — Suspirou Jared. Alexia conseguia ver que o garoto também sentia falta de casa.
— Tudo bem, tudo bem — Cheshire suspirou. Parecia completamente indiferente. — Terão que me seguir e peço que fiquem atentos. Odeio quando me perdem de vista. E tomem cuidado. Eu não sou babá de ninguém.
Alexia e Jared se entreolharam. Morfeu havia dito para não contarem com o gato. Talvez fosse melhor ficarem atentos.
Então, mais do que depressa, Cheshire começou a flutuar por ali. As vezes era difícil identifica-lo, já que por não ser tão físico ou tangível como o resto. Sua forma ondulava como fumaça e ao se misturar com as cores neon dava a mesma sensação de ter-se usado algumas drogas.
Porém, ficar ali parado esperando-o sumir estava fora de cogitação. Alexia puxou o braço de Jared e começou a seguir o gato. Vez ou outra ele parava e direcionava seus olhos grandes, verdes e brilhantes para trás para assim ter certeza de que ainda estava sendo seguido.
O caminho era íngreme, com muitas pedras, folhagens densas, coloridas e pesadas atrapalhando o caminho e o ar estava abafado. Porém Alexia não reclamava disso. Poderia ser pior. Sabe-se lá que tipos de inimigos podiam ter ali no submundo.
Tudo bem, no livro de Lewis Carroll podíamos ver diversos personagens e seres do país das maravilhas... Mas ele não citou que as flores na verdade eram humanoides carnívoras. Portanto, não teria como saber em quem confiar.
— Então Cheshire... — Alexia chamou atenção do gato. Aquele silêncio era torturante — O que sabe sobre a Vermelha?
— Oh... A Vermelha é cruel — Ele assentiu com a cabeça como se aquela fosse a maior verdade que já existiu — Ela vê as pessoas perderem as suas cabeças quase como se troca de roupa.
É claro que disso Alexia já sabia. Sabia muito sobre a história da Vermelha. — Viveu escutando as histórias, estava tudo em seu sangue.
— A rainha é como um furacão. Só sabe deixar destruição por onde passa. É gananciosa e ninguém sabe o porquê de ela ter crescido assim.
— Mas ela tem que ter alguma fraqueza... Não tem? — Alexia franziu o cenho.
— A rainha nunca deixou transparecer o que teme ou o que gosta... Mas sabemos que o som da uma chaleira apitando a acalma. Lembra sua mãe, cantando para ela antes de dormir, toda noite.
Aquilo de fato era bizarro. A Vermelha com certeza tem gostos peculiares. Para Alexia, se a sua mãe tivesse uma voz semelhante com uma chaleira de chá, ela com certeza ficaria traumatizada e seus ouvidos sangrariam.
— E... Ela tem um cabeção? — Perguntou Jared.
— Não, garoto tolo. A Vermelha não é gorda, ou tem um cabeção. Já ouvi dizer sobre as atualizações que vocês mundanos criaram sobre o nosso mundo. Não, meu amigo, a Vermelha é magnífica.
— Então já a viu? Como ela é? — Alexia interrompeu o gato.
— Sim, eu já vi. Na verdade é difícil não vê-la. E não acho que seria bom você saber como ela é... por enquanto — Ele dá um daqueles sorrisos largos e assustadores e volta a andar... Quer dizer, flutuar pelo caminho.
Continuamos seguindo Cheshire. Alguns lugares se tornavam familiares para Alexia, como a casinha que Alice havia destruído quando comeu o bolo que fazia crescer. Chegava ser assustador como a garota conhecia aquele lugar tão bem.
Porém, num piscar de olhos Alexia sentiu uma pontada nas costas. Uma dor lancinante e estranha. O que estava acontecendo? Estavam sendo atacados? Não... Não haviam indícios disso.
A garota se sentiu cair no chão. O ar havia sumido de seus pulmões. Era como se algo rasgasse as suas costas.
Havia sido rápido. Não teria como prever e nem perceber. Foi fatal. Quando se deram por conta, Alexia já estava no chão.
— Lexy? — Jared arregalou os olhos e foi até a garota, se ajoelhando no chão e colocando a cabeça dela sobre seus joelhos sacudindo-a — O que houve?
— Você verá — Cheshire sorriu mais uma vez. Não continuou o trajeto, continuou ali. Porém, não interferiu. Jared achou estranho o gato não tentar socorre-la. Falava até como se soubesse o que iria acontecer. E isso de fato era assustador.
Alexia se contorcia no chão com os olhos fechados e os punhos cerrados. Lágrimas brotavam involuntariamente em seus olhos. A dor queimava.
Aos poucos a sua visão foi se escurecendo e a garota achou que estava perdendo a consciência. Mas não era bem assim.
Um vislumbre passava pela sua cabeça. Quase como aqueles flashbacks de programas de televisão. Era tudo embaçado nas bordas e confuso, mas ainda sim a garota conseguia observar atentamente.
Duas meninas. Do mesmo tamanho. Mesma aparência. Estavam ambas sentadas no tapete de uma sala, brincando com bules e xícaras de chá. O cômodo parecia familiar para Alexia.
— Alice, onde estão seus sapatos? — Alexia escutou uma voz feminina familiar chamando uma das garotas que se levanta preocupada que olha para a irmã gêmea ao lado.
— Eu não conto se você não contar — A garota disse. Alexia não conseguia ver seu rosto. De nenhuma das duas para falar a verdade. Mas eram muito parecidas.
Jared já estava ficando apreensivo balançando Alexia delicadamente com medo de que algo ruim tivesse acontecido. Cheshire assistia sem nenhuma expressão.
Aos poucos a visão de Alexia ia ficando mais embaçada quando ia abrindo seus olhos devagar. Sua cabeça doía mas a garota se levantava com cuidado.
— Ei... O que houve? — Perguntou Jared colocando a mão sobre um de seus ombros com cuidado.
— E-eu não sei — Alexia gemeu. Suas costas ainda ardiam mas bem menos do que antes.
— L-lexy... Suas costas — Jared disse apreensivo enquanto engolia em seco olhando para as costas da garota. O gato apenas sorria.
Alexia então virou sua cabeça para trás e se assustou com o que viu.
Um par de asas aparentemente frágeis e finas como teias de aranha, de um azul escuro e cintilante com alguns toques de um branco prateado. Algumas joias como diamantes e rubis eram incrustadas ali seguidas por linhas emaranhadas como raízes de árvores.
Aquilo era assustador... Mas também era de tirar o fôlego.
Alexia assustada tentou se levantar. As asas eram pesadas e ao mesmo tempo leves. Tinham uma aparência frágil e ao mesmo tempo poderosa. Um paradoxo completo.
O peso das asas era reconfortante, como se uma parte que faltava em Alexia tivesse finalmente aparecido. Mas isso não impedia a garota de sentir-se horrorizada. Será que fazia parte da maldição?
Será que foi por isso que a Bisavó de Alexia se jogou de um lugar tão alto? Ela sabia sobre a existência das asas?
— O que está acontecendo? — A garota perguntou com a voz trêmula.
— Você agora tem asas... Use-as com sabedoria. — Disse Cheshire como se aquilo fosse óbvio. E de fato era. Então, o gato assumiu uma expressão sombria. Suas orelhas que nem sólidas eram, se moviam. Pareciam capitar algo — Tsc tsc... Suas asas chegaram bem a tempo. Estamos sendo caçados.
— Caçados?! Como assim? Nem faz tanto tempo que saímos dos domínios de Morfeu! — Jared arregalou os olhos.
— A rainha vermelha não descansa. Ela com certeza soube que vocês estavam aqui a partir do momento em que Alexia pisou nos nossos domínios. No castelo de Morfeu vocês estavam protegidos por uma magia mas aqui fora não. E Alexia acabou de revelar as suas asas. É como se um dispositivo de localização fosse colocado nela. O seu lado intraterreno está falando mais forte agora. — Explicou Cheshire apressadamente — Vocês precisaram ir!
Logo Cheshire apertou o passo — o que não faz muito sentido já que ele dá passos e sim flutua — enquanto Alexia e Jared corriam.
Conseguiam ouvir que não muito longe dali um marcha esquisita e coisas batendo no chão sincronizadamente.
Correram por alguns minutos e o som dos capangas da Vermelha ficavam cada vez mais difíceis de ouvir, mas tinham plena consciência de que não havia acabado por ali.
E para o azar de nossos queridos aventureiros, eles se encontravam em frente a um abismo.
— O que? Este é o único caminho? Como as pessoas chegam até o chapeleiro ou seja lá o que tem do outro lado?! — Alexia vociferou indignada. Estavam sendo perseguidos, não queria perder tempo e ter sua cabeça na coleção da Vermelha.
— Temos uma ponte não muito longe daqui mas... Tenho certeza que a essa altura do campeonato, eles já tomaram-na. Esperam que a gente atravesse-a. A rainha sabe que suas asas estão intactas mas seus capangas não. Como ela não tem como avisar eles foram todos para a ponte para evitar sua passagem. Trouxe-os aqui porque é o único meio de prosseguir — Dizia Chelshire. Era incrível como um gato que nem ao menos tinha um cérebro tangível podia ser tão estratégico.
— E como quer que passemos para lá?! — Jared ralhou pegando uma de suas armas à espera do inimigo que ficava cada vez mais próximo. Pelo menos é o que o som indicava. — Muito provavelmente eles se dividiram. Alguns para a ponte e outros para seguir-nos e nos levar direto para uma emboscada! Isso mostra que o exército da Vermelha é grande.
— Uma emboscada?! — Alexia revirou os olhos — Mudou muita coisa. A diferença é que em um dos lugares onde seríamos pegos ainda havia uma ponte!
— Grande?! O exército da Vermelha é aniquilador. Poucos vencem as suas guerras. Muito menos tendo o Jaguadarte ao seu lado. — Chelshire dizia calmamente. Quase como se a ignorância de ambos lhe cansasse — De qualquer modo, Alexia não será uma emboscada. Você tem asas, use-as. O abismo é profundo, porém o trajeto para chegar a outra ponta não é tão grande. O único problema será... Carregar esse trambolho — Disse o gato apontando disfarçadamente para Jared.
— Ei! — Jared quase deu um soco no gato. Mas provavelmente sua mão passaria pelo corpo do gato e ele não sentiria nada.
— Mas eu nem sei voar! Acabei de ganhar essas belezuras! — Protestou Alexia.
— Tudo tem a sua primeira... Não será tão difícil assim e se for... Bem... Será a queda mais longa que poderão imaginar. Portanto, saiba como usa-las.
Graças a pequena discussão que parecia não ter fim entre os três ali os vilões estavam cada vez mais próximos. Alexia conseguia distingui-los se movendo entre as árvores.
Eram criaturas de dois metros de altura, todas carregando lanças e foices afiadíssimas. Seu corpo era todo coberto por uma armadura no formato de cartas de baralho vermelhas como sangue. No meio de onde deveria ser sua barriga, temos um espaço em vazio. Um buraco no formato de coração onde conseguíamos ver sem problemas o que tinha atrás do ser. Desde a uma árvore até uma pessoa.
Alexia se perguntou onde foi parar o estômago daquelas criaturas.
Eles tinham olhos totalmente negros e brilhavam. Mas não era um brilho bonito. Na verdade, era assustador. Sedentos por sangue, assim como suas bocas com dentes afiados e assustadores. Eram dignos de uma cena de terror em um filme. Pareciam um pouco com alguns vilões do jogo Alice Madness Return.
Todos eles urravam marchando em direção aos nosso aventureiros e cada passo que davam era como se estivesse acontecendo um pequeno terremoto. Alexia, mais do que depressa pegou seu arco e fechou um dos olhos, mirando em um deles.
— Menina tola! — Disse o gato. E ele estava certo. Alexia não havia treinado. Não sabia como usar um daqueles. Mas antes que o gato dissesse algo ela disparou a flecha, que foi em direção a uma das cartas ambulantes.
A flecha se chocou contra a armadura e caiu. Era... impenetrável.
— Como... Como vencemos eles? — Disse Alexia começando a se desesperar sem desarmar o arco. Porém, sem pegar outra flecha.
— Use a cabeça, docinho... Sei que ela está ai dentro em algum lugar — O gato deu um sorriso cínico uma última vez até que Puff se tornou fumaça.
— Arrgh, gato desgraçado! — Grunhiu Jared.
Alexia estava completamente sem reação. A única ajuda que eles tinham, agora tinha desaparecido. E aparentemente de livre e espontânea vontade.
— Morfeu disse para não confiarmos no gato... — Alexia murmurava baixinho e logo depois aumento o tom de voz — Nós estamos no comando agora. Ou pensamos em algo, ou seremos capturados e degolados pela Vermelha.
— O que sugere? — Alexia podia notar uma pontada de desespero na voz de Jared. Os inimigos estavam próximos.
— Vamos ter que pular... — Alexia engoliu em seco.
— O que?! Não! Você nem sabe voar e não sabemos se aguentará o meu e seu peso. Pode perder as asas que mal recebeu.
— É a nossa única chance! — Insistiu Alexia guardando o arco rapidamente, preparando as asas.
— E-espere — Jared interrompeu. Alexia se virou para ele, pronta para retrucar. Estavam perdendo tempo.
Mas ao abrir seus lábios para uma reclamação, seus lábios foram selados inesperadamente pelos de Jared.
Alexia não saberia dizer quanto tempo esperou por um momento daquele. Sempre imaginou algo perfeito mas de fato, estar sendo perseguida e ter que pular de um abismo não estava em seu conceito de romantismo pós-beijo.
Alexia retribuía o beijo com o cenho franzido. Estava preocupada e podia sentir a preocupação de Jared na tensão de seus lábios. Ele temia. Não só por ele. Mas por ela também.
Ao terminar ele levou as duas mãos ao rosto de Alexia, segurando seu rosto, com as mãos logo abaixo de seu maxilar, perto de seu pescoço obrigando-a a olhar para ela.
— Vai dar tudo certo... Okay? — Disse ele. Seus olhos exalavam coragem e tranquilidade por mais que não se sentisse nem um pouco assim. Mas precisava fazer com que Alexia se sentisse capaz.
Alexia assentiu um tanto complexa. Jared se afastou dela. Os inimigos estavam a poucos metros deles. Estavam com suas armas brandidas e já gritavam algo que deveria se parecer com um grito de guerra enquanto corriam em direção a descendente de Alice e seu fiel cavalheiro.
Alexia apertou a mão de Jared com força. E depois de um último olhar, os dois correram em direção ao abismo que não parecia ter fim.
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