Notas iniciais
Alicia estava jogada no chão, seus olhos entreabertos, sua boca pálida e morta. O sangue escorria de sua boca, e ela suplicava por ajuda. Alfred correu para ajudá-la, e suas mãos tatearam ao redor do seu corpo. Uma carta estava caída ali. Alfred a pegou e a elevou acima de seus olhos, esforçando para enxergar no breu. E se arrependeu disso até o dia da sua morte. CARTAS AMALDIÇOADAS. MORTE FRIA E SANGRENTA. VOCÊ SERÁ O PRÓXIMO!

A chuva caía cada vez mais depressa, molhando tudo e todos que se colocassem à sua frente. Um sorriso travesso surgiu no belo rosto de Alicia ao pensar nisso.

Um mundo onde a chuva não molhasse. Não seria maravilhoso?, pensou ela, enquanto olhava sonhadoramente pela janela.

Alicia era uma garota de nove anos. Tinha belos cabelos dourados, que caíam sobre seus ombros em longas ondas. Tinha olhos castanhos-caramelados, e um sorriso sonhador que assustava a maioria das pessoas.

Ela estava apoiada ao parapeito da janela, sorrindo para uma lagarta verde que rastejava pelo mogno frio e duro que cercava o vidro.

—Olá, Dona Lagarta. Como você vai? Ainda sente cosquinhas, sente? – Alicia pegou uma folha e começou a balança-la na lagarta, que parou seu trajeto e tentava se desviar a todo custo daquela garota.

Mas mal ela sabia que nunca teria poder para tanto, pois um sapato caiu do céu, bem em cima da lagarta. Alicia gritou de espanto.

—Ah meu Deus, Lagarta, você está... Lagartinha, responda! Lagarta, por favor! – A garota estava prestes a chorar. Uma gargalhada então quebrou o seu pesar.

—Ah, você é uma bela retardada, não é mesmo, Alicia? – Disse Alfred, sorrindo maliciosamente para a garota. Ele era o irmão mais velho de Alicia. Tinha quinze anos, um sorriso que, mesmo quando não queria, só exprimia escárnio, e cabelos negros bagunçados.

—Alfred, seu malvado! Foi você q-quem ma-matou a pobrezinha d-da Lagarta? FOI? – Alicia estava com o rosto vermelho, chorando abertamente. Gostaria de lhe dizer que Alfred ficou com pena dela e correu para lhe pedir desculpas. Mas sinto quando digo que tudo o que ele fez foi rir com o máximo de escárnio possível e começar a insultar sua irmã.

—Você é uma idiota, sempre tive certeza disso. Conversar com uma lagarta? Com uma lagarta?

Ele riu mais um pouco, se deliciando com a cara brava da irmã.

—Bom, pelo menos as lagartas não são tão imundas por dentro e tão malvadas por fora que nem demônios feito você.

Agora foi a vez de Alfred fazer uma careta de bravo.

—Escute aqui, sua...

A porta da sala foi aberta, e a Sra. Aberghaky entrou. Ela era a governanta da casa. Tinha os cabelos grisalhos amarrados num coque, e uma cara bondosa e tranquila. Não se engane. Ela não era nem um pouco bondosa e muito menos tranquila!

—Srta. Hullifuty. Isso são modos de falar com seu irmão? – A voz dela era suave, e tranquilamente ameaçadora. Alicia balançou a cabeça negativamente.

—Sr. Hullifuty, não se trata uma verdadeira dama dessa maneira brutal e horrenda, não acha? – Alfred concordou, meio contrariado.

—Bom, então andem. Dêem as mãos um para o outro e façam as pazes. – Alicia e Alfred fizeram como mandado. A Sra. Aberghaky balançou a cabeça positivamente, sorrindo.

—Agora vão os dois buscar um pouco de fermento para eu fazer um bolo para vocês.

—Mas, Sra...

—AGORA!

Os dois saíram correndo rapidamente, atravessando a casa. A moradia dos Hullifuty era simples. Se resumia numa casa senhorial no meio de tantas outras casas em Londres, um sobrado de grande altura e pouca largura. Tudo se resumia à escadas e à mais escadas, algumas subindo em aspiral, outras descendo em linha reta. Os móveis eram todos de madeira, bem simples e antigos. Mas ainda sim, lindos.

Quando saíram da casa, os dois irmãos puseram-se a correr para escapar da chuva. Raramente tinha que sair para buscar algo para a Sra. Aberghaky, mas quando acontecia, era sempre num mal momento como esse.

Os dois avançaram, atravessando e ziguezagueando as ruelas de Londres. Alicia constestou quando Alfred sugeriu que fossem para tal estabelecimento; achava ele muito normal.

—O Estabelecimento do Sr. Krunk é muito simples. O Sr. Krunk é muito normal.

—Bem ao contrário de você, pelo que percebo!

Alicia ignorou Alfred.

—Poderíamos ir à Casa de Chá do Chapeleiro. É um lugar bem legal!

Alfred bufou.

—O que é isso? Um sanatório? – Alice o fuzilou com o olhar, o que fez Alfred sorrir. – Com certeza um lugar para gente como você, Alicia.

A garota parecia que ia chorar, mas se limitou em abaixar a cabeça. Logo em seguida, Alicia saiu correndo pela rua da direita.

—Alicia... Espere! O Estabelecimento dos Krunk é para esquerda e... ALICIA! – A garota já tinha se enfiado no meio da multidão que transitava entre as calçadas. Alfred grunhiu.

—Ah, garota... Qualquer dia desses eu te mato! – E saiu correndo atrás da irmã. Mas não parecia conseguir lhe alcançar. Sempre estava longe demais, e sempre que parecia estar chegando perto, alguma pessoa abençoada por Deus entrava em sua frente e trombava com ele.

Logo a multidão se dispersou. A chuva aumentou, tanto que Alfred achou que era uma tempestade que estava enfrentando. E literalmente, era.

Com os ossos encharcados e com a roupa grudando na pele, o garoto começou a gritar por sua irmã. Apesar dele não admitir, gostava dela. Ela era sua irmã, oras.

—ALICIA! ALICIA! Era só uma brincadeira... Você não é louca, pelo amor de Deus, eu é que sou! — Mas ela não apareceu. E quando ele perguntava para alguém que passava pelas ruas onde era a Casa de Chá do Chapeleiro, ninguém sabia.

Alfred tinha desistido. Não acharia sua irmã, isso estava claro. Com as roupas encharcadas e sujas, o garoto começou a refazer o trajeto para sua casa. Numa hora daquelas, o Estabelecimento dos Krunk devia estar fechado. Provavelmente Alfred receberia umas boas palmadas: tanto por deixar sua irmã fugir, quanto por não ter trazido o fermento à Sra. Aberghaky.

Enquanto andava, a chuva se transformou em chuviscos leves e prazerosos. Alfred gostava quando isso acontecia, mas naquele momento, estava triste demais por ter perdido Alicia.

—Muito obrigado, Sr. Lewis. – Uma voz soou alegremente, vindo de uma das vitrines escuras que preenchiam as ruas. Alfred parou instantaneamente de andar. Ele conhecia essa voz.

—ALICIA! – Gritou ele, virando-se rapidamente e passando os olhos pelas vitrines. Mas não viu nada. Não, nada que já não tivesse visto antes e nada de sua irmã. Cabisbaixo, Alfred voltou para a sua caminhada.

—Sinceramente, Sr. Lewis, não, muito obrigado! Não quero cartas. – Novamente a voz de Alicia. Dessa vez Alfred nem parou, apenas sacudiu a cabeça, como se estivesse louco.

—Sr. Lewis! SR. LEWIS! SOCORRO, SOC... – A voz gritou. O sangue de Alfred gelou.

Alicia... Não, não, tudo menos Alicia..., pensou ele, seu coração batendo cada vez mais forte.

Outro grito, dessa vez mais alto e forte. Mas esse morreu rapidamente, com um leve gemido. Alfred se virou, procurando por entre as pessoas, por entre os becos, por entre o universo, qualquer sinal de sua irmã.

Alguns dos pedestres pararam e olharam ao redor, confusos. Tinham ouvido os gritos, tinham escutado Alicia gritar. Não era imaginação de Alfred, não era...

Ele então encontrou algo. Era uma pequena fresta no início de um beco, que antes ele achara ser um buraco... Alfred correu até lá, e puxou a fresta. Podia parecer bem idiota aos olhos dos outros, mas ele tinha assistido alguns filmes. Geralmente era ali que a princesa sequestrada ficava.

Alfred enfiou o braço na fresta, e puxou. Com facilidade, a pedra se moveu para a direita. No grande buraco que agora seguia à sua frente, Alfred só via uma escada que ia cada vez mais baixo.

Outro grito soou, dessa vez bem mais alto. Alfred mergulhou na escuridão, descendo as escadas de mármore.

Então tropeçou em algo, caindo no chão. Suas mãos foram molhadas por algo viscoso e quente... Sangue.

Alfred gritou. Suas mãos estavam sujas de sangue. Seja lá no que ele tivesse tropeçado, estava sangrando...

Uma idéia passou por sua mente. Alfred negou com a cabeça, sua espinha esfriando. Não podia ser, não podia ser...

O garoto se esforçou para enxergar no meio da escuridão. Mas logo seus olhos se avistaram, e ele conseguiu enxergar no que, afinal, tinha tropeçado.

Alicia estava jogada no chão, seus olhos entreabertos, sua boca pálida e morta. O sangue escorria de sua boca, e ela suplicava por ajuda. Alfred correu para ajudá-la, e suas mãos tatearam ao redor do seu corpo. Uma carta estava caída ali. Alfred a pegou e a elevou acima de seus olhos, esforçando para enxergar no breu.

Então o garoto enxergou, e se arrependeu até a morte por isso.

“CARTAS AMALDIÇOADAS. MORTE FRIA E SANGRENTA PARA ELA. E VOCÊ SERÁ O PRÓXIMO!”