Alice: a outra face
1 Alice
Notas iniciais
Se passava da meia-noite, os pés doíam, a mente balançava como um barco em um maremoto. Havia um gosto amargo na boca, seria o rum? Tudo culpa do rum! Precisava de um chá, queria um chá naquele momento e desejava mais que tudo, que o Chapeleiro passasse por ali e te oferecesse uma xícara de chá de Psilocybe, que era sua especialidade. Talvez uma dose daquelas pilulas azuis ou um pouco do fumo da lagarta. É, precisava de algo.
No meio do caminho, adentrando a floresta escura e longe das festanças, encontrou cogumelos amarelos. Pegou um pedaço da borda e devorou. Começou a crescer, crescer e crescer, até ficar do tamanho de uma árvore. Mesmo que não pudesse tocar o céu, ser maior que todos ainda era uma vantagem para Alice. Homens vestido de branco vieram correndo em sua direção, gritando 'Pare, Alice, não se mexa'. E ela, mais alta que as arvores, tentava, frustradamente, pisar em cima dos pequenos homenzinhos vestidos de branco. Os quatro a pegaram, cada um por uma extremidade e seguiram de volta, ao lugar onde Alice não deveria ter saído.
- Isto é um absurdo, eu exijo que me cortejem sempre. Sou amiga intima da rainha de Copas, e se não quiserem suas cabeças degoladas, é melhor me tratarem com menos desdém. — Disse Alice, furiosamente.
Fora empurrada — e emburrada — para seus aposentos. Um grande quarto, com uma enorme cama, tv, um rádio, um enorme guarda-roupa recheado de nada, seu chinelo e roupas novas, sobre a cama.
Jogada na cama, ouviu os guardas saírem e trancarem a porta. Um segundo depois, ouviu abrir novamente. Dessa vez, era a Madame Richeau. Com um olhar fulminante, Alice se levantou, cambaleando e a olhou. Quando conseguiu ficar ereta, mandou um sorriso meio amarelado.
- O que pensa que fazes? — Perguntou Madame.
- Estava a sair deste mundo de insanidades. Estais loucas que irei ficar aqui — bateu os pés — neste lugar — novamente — repleto de loucos — uma ultima batida, para mostrar sua fúria.
- Vou lhe dizer novamente, mocinha — Disse Madame,segurando uma de suas orelhas — Não sou tua mãe, mas tenho liberdade para lhe por de castigo — A puxava para o banheiro — A menos que te ponha no lugar, não comerás a janta de hoje. Entendeu? — A jogou dentro do banheiro.
- Entendi. — Disse Alice, quase chorando.
- Muito bem, tomes teu banho, esteja na mesa em vinte minutos, um a menos, e não comerás por sete luas! — Disse Madame, lançando chamas pelo olhar furioso. Jogou uma toalha para a garota e saiu.
- Ficarei louca, qualquer hora dessas.
Retirou toda sua roupa e entrou na banheira. A água estava gelada, pois a garota havia fugido antes de o tomar. Odiava o frio, era dolorido e Alice não gostava de dores.
Espalhando sabão pelo corpo, ouvia-se miados leves, vindo da pequena janela, no alto do banheiro. Olhou e não o viu. Devia ser mais uma de suas alucinações. Então duas batidas na janela. Olhou e o formato de orelhas pontudas apareceram, depois de estourar um dos barulhentos fogos e iluminando tudo. Era o Gato. Ela se aprontou a sair da banheira, colocou seu roupão e subiu na cadeira, podendo abrir uma pequena fresta, a que chamavam de janela.
- Garota, não conseguistes fujir? Vamos ver os fogos do Alto do Morro. Anda. Se apronte. — Disse o Gato, do outro lado da janela.
- Eu havia fugido, mas acho que teu rum me fizeste mal e me desviei do caminho. Estava a ir pro norte, dentro da Dark Forest. Eles me encontraram e me trouxeram de volta. — Disse, com um olhar triste.
- Nós vamos te tirar dai, menina.
- Nós? — Questionou, Alice.
- Eu e o coelho. — E então viu uma longa e pontuda orelha, logo atrás do gato. — Não se mexa tanto, vamos cair daqui, seu tolo!
- Está bem. — Respondeu o coelho.
- Esperamos você na porta dos fundos, na cozinha.
- Tudo bem. — Disse a garota, agora feliz.
Correu para se arrumar, com teu novo vestido azul e branco. Se olhou no espelho, ainda estava mareada, mas não podia deixar de ficar com os amigos queridos, precisava de mais diversão. Estava cansada de apenas ficar confinada no seu pequeno cubículo a que chamavam de quarto.
- Quanta audácia! — Dizia Alice, em voz alta, ao pensar que aquilo era realmente um quarto.
Abriu a porta do quarto e desceu as escadas silenciosamente. Se sentou na mesa, junto com outras garotas e garotos, e a Madame, sempre na ponta da mesa. Chegara na hora, então poderia jantar aquela noite. Quando foi servida de pão e sopa, derrubou, desastradamente, a cesta de pães.
- Alice! Vá já pegar a vassoura na cozinha e buscar mais pão para seus colegas. — Madame a pegava pela orelha — Nada de pão hoje.
- Tudo bem! — Entrou na cozinha, pegou a vassoura e varreu as migalhas de pães espalhados pelo chão. Deu uma resmungada, como de costume. E voltou para cozinha, guardar a vassoura.
Olhando no relógio de parede, Madame já estava furiosa pela demora da garota de não voltar com os pães. As crianças reclamavam de fome e estava cansada demais para bota-las de castigo.
- Volto já, queridos. — Se levantou da mesa e foi em direção a cozinha. — Alice, onde estás? — Gritava. — Alice!? — Furiosamente. Alice não estava em nenhum canto da cozinha. — Essa menina, ainda te boto na masmorra e não te tiro mais de lá!
- A paisagem daqui de cima é estupenda. Podíamos repetir a dose, Sr. Coelho? — Dizia enquanto olhava fixamente para o horizonte, onde o sol nascia.
- Sempre que quiser, querida Alice. — Disse ajeitando suas orelhas enquanto ficava de pé. — Acho que já podemos ir, não?
- Tá cedo. — Disse o Gato. E todos riram.
- Não queria mais voltar pra aquela pocilga. Aquela velha só se irrita comigo. Acho que sou a culpada. — Dizia Alice. Gato chegou perto e a abraçou.
- Nós te amamos e queremos teu bem, então fique bem. Vamos fugir daqui 5 luas. Tudo bem? Vamos voltar para Wonderland. — Dizia o Gato, com um ar de felicidade.
- Tudo bem. — Deu um beijo no Gato e sorriu. — Não vejo a hora de voltar para Wonderland.
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