Alice S Memories
19 Capítulo 18 Intrigante Festa com Chá da Tarde
Notas iniciais
Segundos se passaram, segundos que se tornaram minutos, passando e passando ela esperava e ainda chorava, mas nada aconteceu, então ela parou, engolindo os soluços, tentou fazer silencio, não ouviu mais nada, somente aquele mesmo silencio anterior da floresta, então lentamente ergueu o corpo agora dolorido e sentou-se, olhava em volta esperando que seu caçador fosse aparecer de qualquer um dos lados, mas o gato não estava em lugar nenhum, estava sozinha de novo, e agora se via onde estava, uma espécie de clareira e a floresta se debruçava sobre o lugar mas parecia não poder passar disso, havia ferido os braços quando caiu esfolando-os um pouco no chão, limpou os vestígios de lagrimas do rosto com a barra do vestido percebendo que este também havia se sujado, limpou algumas das folhas que haviam grudado nos cabelos, quando olhou mais uma vez ao redor daquela clareira pouco a frente por entre as arvores avistou uma luz fraca através da escuridão, levantou sem nem conseguir emitir um gemido de dor, e no inicio cambaleando caminhou naquela direção, ainda desconfiando que mais uma vez seu caçador aparecesse, acabou seguindo para lá, quando aproximava-se viu que havia uma cerca velha marcando o inicio dos limites daquela propriedade, e adiante uma casa que antes mesmo de ter uma vislumbre completo já pensou ser a da tal lebre mencionada antes, por ver que as chaminés possuíam a forma de orelhas de coelho, rapidamente se dirigiu para lá, não olhando para trás temendo que ele estivesse lá, mas parou antes de se aproximar.
—Eu não deveria estar aqui, ou devia ter tomado o outro caminho, rumo ao tal do chapeleiro ao menos não devia ser tão estranho já vi chapeleiros em minha vida, e penso que seria uma pessoa ao menos.—Ela dizia tentando por pensamentos mais suaves em sua cabeça depois do ocorrido, mas já que estava ali não queria voltar, não para aquela floresta, não sozinha, então andou um pouco mais se aproximando tentava não fazer barulho enquanto pensava. —“E se for outro animal como ele?”— Preferiu não pensar muito nisso, sofrer por antecedência não era de sua natureza.
Mesmo com esse receio se aproximou a passos cautelosos, havia um portãozinho enferrujado e um muro baixo com uma fileira de pontas de ferro na parte superior que cercavam a casa enquanto uma cerca viva cresceu e morreu acima dele, agora estavam quase completamente secas e disformes, parecia mal cuidado e velho com aquelas cores escuras e emboloradas enquanto raízes que saiam da terra subiam por ele de encontro as próprias raízes da cerca, tinha um aspecto estranho mesmo para um muro, empurrou o portão que rangeu alto e ela pensou que lá se ia sua chagada discreta por água abaixo, mesmo assim decidiu continuar seguindo o caminho que levava para a luz, embora mais calma sua respiração ainda parecia presa na garganta, quando chegou ao fim do caminho onde a cerca coberta de hera seguia para ambos os lados esquerda e direita, ela esgueirou-se para a esquerda aproveitando a proteção que a cerca proporcionava em mais abundancia ali, se aproximou mais e pode ver o inicio de uma mesa, queria ter uma visão melhor então balançou a cabeça para afastar esses temores e franziu um pouco a testa ao ver a cena a frente, haviam alguns arbustos que se misturavam a cerca então se esgueirou para trás destes e olhando por entre as folhagens viu que era uma grande mesa disposta cheia de objetos como bules, xícaras, pires e tigelas, acompanhados de uma musica desarmônica, também haviam, bolinhos, biscoitos, bolos e outras guloseimas e tudo mais que era necessário para um farto chá da tarde, mas que lembrava mais uma festa de aniversario.—“Um chá”.—Pensou, e ao fim da mesa avistou uma cena que lhe pareceu familiar, viu duas figuras, um animal muito parecido com um coelho mas que possuía o pelo marrom acinzentado, que definiu como sendo a tal Lebre, correndo os olhos pela mesa mais ao fundo dentro de um bule a cabeça de um ratinho estava para fora, haviam bules de vários tipos e formas, assim como cadeiras e bancos diferentes em toda a extensão da mesa, nenhuma delas era exatamente igual, nada era harmônico assim como ao lado da mesa tinha uma cadeira grande mais parecida com uma poltrona vermelha, que estranhamente estava virada de costas para a mesa, de primeira vista não notou mais quando olhou com mais atenção uma segunda vez pode ver as mãos apoiadas nos braços da cadeira, indicando que havia mais alguém ali.
Ao ver tudo aquilo Alice pareceu lembrar-se de algo, como se já tivesse passado por ali antes, como uma memória viva, e uma estranha saudade, absurda e impraticável de camundongos a dormir, coelhos, lebres e corvos. Se distraiu com esses pensamentos, até que voltasse a si, percebia-se mais calma, e voltou a atenção a cena a sua frente, estava um pouco receosa sobre aquilo, mas não poderia ficar ali para sempre, o gato poderia muito bem saltar de alguma daquelas moitas a qualquer momento, decidiu que iria até lá, mas antes disso analisou sua situação, seus cabelos estavam despenteados a roupa suja e havia ferido seus braços com a queda, nada muito feio, mas seria melhor dar um jeito naquilo, aproveitou um rasgo no tecido inferior de um dos saiotes internos do vestido, que havia feito enquanto corria pela floresta, dividiu-o em dois e usou os pedaços como bandagens que enrolou nos braços de forma que seus ferimentos ficassem ocultos, até sentiu-se com sorte de não ter esfolado o rosto no chão, teria sido bem mais feio, no fim ainda haviam algumas folhas grudadas em seus cabelos e vestido, retirou as folhas restantes no cabelo e bateu as que estavam grudadas no tecido, passou a mão na bainha de seu vestido, fez isso para ajustar o avental branco, ela estava ali na sombra dos arbustos e inconscientemente deslizou os dedos por uma parte de seus cabelos, como se os tivesse escovando, querendo estar mais apresentável depois de tudo, então saiu de seu esconderijo e resolveu ir até lá diretamente, ela os olhava mas pareciam alheios a sua presença, mesmo estando abertamente no campo de visão dos mesmos, aparentemente estavam mais entretidos em suas brincadeiras e cantorias, até que finalmente ao ver Alice chegando a Lebre saltou gritando.—Não, não!— Exclamou ele de repente.
—O que?—Ela parou de repente sem entender.
—Não há lugar! Vai embora!—Falava alto pulando sobre a cadeira.
—Como assim?—Corria os olhos pelas cadeiras ao redor da mesa.—Há vários lugares vagos pelo que vejo.—Completava vendo as muitas cadeiras desocupadas e continuou andando em direção a mesa, a Lebre ficou a observá-la.—Eu me lembro de você, você foi a menina que rudemente convidou-se para a nossa festa do chá daquela vez.—Desta vez ela parou, estranhando mais uma vez mais um dos personagens daquele lugar, se perguntando agora que conversa era aquela, como ela poderia ter estado ali? E ele deveria estar enganado, apesar de que parecia até calmo enquanto falava isso, mas de repente começava a pular de novo.
—Haha! O que está fazendo aí?—Pulava fazendo a cadeira balançar de um lado para outro mas incrivelmente ela não caia, a Lebre virava para o rato apontando para Alice ao mesmo tempo, e depois voltava-se para ela.— Mas olha a visita e é você de novo! Quantas vezes vou ter que dizer, não prestou atenção daquela vez?! Atrasada, atrasada, atrasada! E também não foi convidada! Então não tem lugar, não tem lugar!—E sem aviso prévio, ou qualquer coisa do tipo lhe atirou um pires do qual por pouco ela desviou, havia parado de se aproximar já há algum tempo, mas agora não estava mais tão inclinada a arriscar dois passos adiante, sem ter certeza de que não seria atingida por nenhum objeto, mas não deixaria passar.
—Pare com isso! Quase me acertou!—Rosnou ela obviamente indignada.
—Quase é uma pena.—Dizia a Lebre passando a pata na lateral da xícara e fitando-a com expressão distante.
—É doido? Atirar coisas nas pessoas assim? É estupidez e muito rude também!—Disse entre dentes parecendo mais indignada que antes, embora tivesse mais cautela que raiva, mas sabia que isso não era algo tão grave assim e naturalmente se acalmaria.
A pessoa que estava na cadeira grande não se moveu, mas Alice não estava dando atenção a ela, estava mais preocupada com a Lebre que gritava e saltava derrubando o chá da xícara. —“É mesmo louco, como aquele gato odioso disso, e tem muito lugar aqui também.”—Pensava ela olhando a Lebre até que a voz se sobressaiu em meio aos gritos.
—Hum, pare com isso! –Gritou fechando os punhos na laterais do corpo.—Isso é exagero, tenha modos! E não fique me chamando de menina se me conhece, ou se nem se deu ao trabalho de perguntar quem eu sou, meu nome é Alice.—Disse desconfortável mas querendo obter controle da situação.—Caso tenha esquecido, ou só pra você saber.
—E ainda sim você volta a convidar-se?—Perguntou severamente a Lebre, Alice girou os olhos, precisava tentar algo tão estranho quanto a tudo que havia visto ali, eram personagens malucos isso era fato, então teria de agir como tais, ou quase voltar a ser o que era da fato.
—Você não disse que eu não poderia convidar a mim mesma, não se lembra?—Blefou com a primeira idéia que lhe surgiu.
—É rude, convidar a si mesma.—A Lebre a olhava com firmeza, não parecia ter funcionado.
Mas que para sua surpresa havia obtido algum progresso, pois ele parou antes de arremessar contra ela mais uma xícara com chá fervendo dentro, então resolveu tentar mais um pouco.
—Tem certeza?—Perguntou inocentemente , a Lebre girou os olhos e soltou um pequeno suspiro e Alice olhou de soslaio para ele antes de ouvir sua voz, sentia uma expectativa estranha.
—Alice, minha cara.—A lebre começou parecendo agora mais amigável.—Que bom que você veio para minha festinha então!—Começava a falar cada vez mais animado e Alice quase engastou com mais aquela estranhice, esperava menos, a Lebre continuou.— Veja Dormy, eu não disse que em uma desses ela viria, sem ser convidada de novo, eu tinha certeza!—E a Lebre falava aquilo tudo de repente quase cantando no final como se fosse alguma vitória obtida depois de uma aposta, e pulou para o lado de Alice que teria se afastado se isso tivesse acontecido nos primeiros momentos em que chegara ali, mas não precisou fazê-lo agora, o ratinho que dormia no bule abriu um dos olhos somente um pouco para espiar o que se passava, mas parecendo sonolento demais para prestar atenção em qualquer coisa, Alice sorriu um pouco achando que aquele animal era até mais louco que ela, mas como se lembrava da boa educação fez uma mesura.
—É bom ver você de novo!—Disse a Lebre evidentemente feliz, Alice levantou uma sobrancelha com aquele “de novo”, já que nunca havia o visto antes, mas o que esperar de um lugar como aquele? Optou por deixar de lado.
—Mas venha agora, sente-se.—Por fim disse a Lebre, e Alice a seguiu, sentou-se em uma extremidade da mesa, agradecendo ao anfitrião, mas assim que sentou ela pode ouvir um tique-taque estranho ao redor, e parecia constrangida agora depois de sua faceta, acabou convencendo a deixarem que ela se sentasse a mesa, mas para que? Não conhecia ninguém ali pra começo de conversa, realmente sentiu-se culpada agora, a Lebre sentada em seu lugar dirigiu seus olhos negros para Alice.
—Não se acanhe, gostaria de um chá?
—Hm, chá? Ah, sim, por favor.—Sorriu gentil para oferta pegando a xícara que a Lebre lhe havia entregue que ela mal percebeu quando o Gato de Cheshire apareceu discretamente, antes de tomar acento ao seu lado.
—Você!—Ela recuou quase para fora da cadeira, e por muito pouco não derrubou a xícara que segurava, a primeira coisa que pensou em fazer seria fugir, mas algo a impediu de fazer isso sentia receio, mas não o medo ou pavor de antes, talvez porque não estivesse mais sozinha em uma floresta escura, então deu um suspiro e murmurou com desgosto escondendo seu receio.—Cheshire.—O ela disse nome olhando o gato que lentamente se materializou ao seu lado, preferiu ignorar aquele sorriso, pois sua atenção acabou ficando focada apenas naquele som incessante, sentia-se melhor com isso, antes de voltar sua atenção algumas para os vários lugares vagos a sua frente pensando seriamente em mudar de lugar, menos aquela cadeira que estava voltada para o outro lado, agora estranhava o posicionamento impar dela por alguns instantes. “Porque está virada para o outro lado afinal?”. Logo colocou esta preocupação tola de lado, achou que eram mais esquisitices daquele lugar e de seus habitantes.
—Acorde Dormy! Você não pode dormir agora, Alice está aqui!—Insistiu a Lebre, mas o ratinho apesar das melhores intenções de seu amigo para desperta-lo, dormiu de novo dizendo.—“Alice...Alice...é bonito seu vestido azul...”—falou em meio a murmúrios incoerentes.—“Voltou através de tempos, e espaços...para encontrar um coração que já foi tão negro quanto a toca do coelho...”—A Lebre de Março suspirou, por aquelas coisas um tanto perturbadoras que o amigo disse, e lançou a Alice um olhar de desculpas.
—Ele tem uma memória muito fraca, na verdade ele quase nunca se lembra das coisas, como hoje mesmo tive de lembrá-lo de nosso chá, no fundo ele não se lembra de nada do que aconteceu, um medicamento administrado pelo Chapeleiro há muito nublou a mente e seus sentidos remanescentes...mas não se importe afinal ele é apenas um camundongo que dorme, dorme e sonha muito e isso foi melhor para ele.—Completava a Lebre, e ouviram o gato bufar em resposta mesmo que a conversa não fosse com ele.
—Certamente...nem todos os corações são tão negros como as sombras, alguns corações são puros, mas estes são os piores, pois podem tonarem-se corrompidos, na tentativa de impedir um outro de seguir esse caminho sombreado de delicias ilusórias.—Cheshire disse maliciosamente, torcendo a cauda imitando o formato de um coração.—Alguns corações bondosos tendem a escolher um destino melancólico, como você sabe muito bem.
Alice não olhou para ele, a lembrança dos acontecimentos na floresta ainda estava bem viva em sua mente, apesar de que uma parte de si desejava que aquilo tudo tivesse sido apenas um brincadeira de mal gosto por parte dele, mesmo assim sentia receio disso e as palavras ferinas parecia ter lhe atingido de certa forma, “Como ele poderia saber destas coisas?”, se perguntava em pensamento. A Lebre que até o momento ainda não tinha se dado conta da presença do gato ali então acenou para ele com um olhar estranho e o felino o cumprimentou em silencio, logo a Lebre terminava de tomar seu chá.
—Minha nossa, ao que parece estou me esquecendo de alguma coisa sem duvida!—Se levantou de seu acento deixando sobre a mesa a xícara vazia, pediu desculpas dizendo que não demoraria e saiu da mesa, sumindo das vistas de Alice, que quase pediu para que ele ficasse, na verdade teria implorado se tivesse tido tempo.
Ela sabia que havia mais alguém ali, mas este não havia se expressado em momento algum, então não contava e ficar sozinha ali com o gato lhe causava quase pânico, tinha de tentar se focar em algum outra coisa, fixou os olhos na cadeira a sua frente mais uma vez e estava curiosa com aquele fato, não sabia o porque daquela pessoa não se prontificar em momento algum desde que chegou ali, mas não revelou seus pensamentos, muito embora o gato a olhasse cautelosamente, como se quisesse ler seus pensamentos, mas ela não iria permitir que aquele maldito o fizesse.
Cheshire sorriu ao ver a Lebre se afastar e bocejou esticando o corpo, espreguiçando-se apoiou as patas da frente no braço da cadeira e começou a falar.
—Ho, ho, ho... Parece que você foi mais rápida do que eu pensava pequena Alice, chegou há algum lugar no final, mas quem sabe poderemos jogar mais, uma próxima vez...
E sorriu mais uma vez antes de entrar embaixo da mesa e passar esfregando o corpo nas pernas de Alice, ela sentiu-se gelar e ele percebeu a reação nervosa dela sem duvida e riu.
—Parece que terei que me despedir por hoje, bem como existem coisas de maior importância que exigem minha atenção, você compreende, é claro.—Falou parecendo mais um alerta e voltou a sorrir quando a viu concordar parecendo insegura, nem sequer ousava olhar para baixo mas seu sorriso foi a única e ultima coisa que ela viu antes dele desaparecer, assim como foi a primeira coisa que viu quando o encontrou.
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