Alias: Psycopath
3 Três segundos.
Notas iniciais
Dizem que quando se acorda tem-se três segundos de completa amnésia, você não sabe onde está, ou mesmo quem é, mas infelizmente o efeito dura apenas três segundos, os melhores segundos de sua vida, mas mesmo assim, apenas três segundos, e depois disso a vida sendo a porcaria que normalmente é te obriga a beber whisky para reproduzir o efeito, o que é uma merda, bebida da boa geralmente custa caro.
–Hummm.... Hummm.- Reclamei enquanto revirava-me na cama, ainda com a visão embaçada e procrastinando o máximo possível antes de levantar da cama.
Mesmo que a amnesia dure apenas 3 míseros segundos seus sentidos demoram para voltar ao normal, e depois de certa de dois minutos virando-me de um lado para o outro, minha audição voltou a ficar tão boa quanto normalmente é, consegui ouvir pássaros do lado de fora com uma cantoria irritante. Quase joguei o travesseiro na janela e mandei-os calarem os bicos, não o fiz porque as pobres aves não tinham nada a ver com meus problemas pessoais.
Sentei-me, e olhei para o relógio que ficava ao lado de minha cama: 10:10, meu senso de responsabilidade deu um grito dentro de minha cabeça, grito esse que minha boca reproduziu.
–Droga!
Como sempre eu bebi demais, e dormi demais, o que não seria um problema, se esse não fosse o dia de buscar Hope na cadeia, a garota deve querer me matar a essa altura. Troquei de roupas o mais rápido possível e desci as escadas.
–Bom dia Je…- Não, ele não ia me encher o saco, não hoje, passei diretamente pelo homem que por alguma razão amava roxo mais do que tudo nessa vida e corri para a porta.
–Hoje não miserável, tenho de pegar Hope.- Disse com a mão na maçaneta.
–Não se preocupe, ela está esperando por você em um ótimo restaurante.- Ele falou quando eu abria a porta, de repente um arrepio cruzou todo meu corpo, e me fez parar.
–O que você disse?
–Que Hope Schlottman está esperando por você em um ótimo restaurante com passagens, passaportes, cidadania francesa, dinheiro para passar a vida inteira sem ter de trabalhar, e vivendo confortavelmente numa bela casa, já paga, ao sul da França.
–Eu te disse para ficar longe dela! Disse indo na direção daquele desgraçado.
–Correção, me disse para não tocar nela, e não se preocupe, eu nem cheguei nem perto da pequena Hope. Aparentemente tios até então desconhecidos chamados Alva e Lorenzo vindos Aquitaine vieram recuperar a querida sobrinha que foi desonrada nessas terras selvagens da América, sabe como nós europeus somos, não é? Temos toda essa coisa sobre sangue e honra. Acho que idade das trevas nos ligou muito mais a nossas famílias.
– Você obrigou os obrigou a fazerem isso?!
–Você realmente não aprendeu eufemismo na escola aprendeu? Porque sempre tem de utilizar a hipérbole?
–Responda à droga da pergunta!
–Como você insiste, a resposta é não. Eu não os obriguei, eu sugeri.- Dei uma risada sem humor.
–Qual a diferença para você?
–Estou falando a verdade, não falei com eles em tom de ordem, nem usei palavras que utilizaria para ordenar alguém a fazer algo. Há outras formas para que eu consiga o que quero, uma delas é dinheiro.
–Você não tinha o direito de fazer isso!
–O que eu fiz de errado Jessica? Libertei Alva e Lorenzo do terror que eles estavam vivendo...
–Terror causado por você.
–E com dinheiro suficiente para viverem tranquilamente pelo resto da vida, ainda mais com uma garota adorável com um futuro promissor para eles cuidarem. O que tem de tão ruim nisso?
–A parte em que eles não pediram por isso! A parte em que isso não muda o que você fez com Hope! E de onde tirou o dinheiro? –Ele deu um sorriso amarelo.
–Ah qual é! Você não pode estar falando sério. Muitas pessoas matariam pela vida que eu dei a eles. Você só não consegue admitir que eu também posso ser bom.
–Essa não é a questão!
–Então o qual é?!- Não respondi. O que ele fez realmente pode até ser uma boa ação, mas não muda o que ele fez com Hope, não muda o que fez Alva e Lorenzo passarem, não muda o que me fez passar, e definitivamente não o faz menos repulsivo.
–Onde eles estão?
–Não respondeu minha pergunta.
–Disse que eles estariam em um avião para França, não podem se atrasar e eu não posso deixá-los ir sem me despedir. Vamos, o endereço, agora.- Disse estendendo minha mão. -Podemos terminar isso depois.
–Aqui.- Ele disse anotando em um pequeno pedaço de papel e me entregando com cuidado para não me tocar. Virei-me para ir embora. –De nada. Ele disse.
–Não me faça te transformar em geleia, idiota.- Bati a porta ao sair. Virei a esquina e quando já não estava mais a vista das montanhas de esteroides que Kilgrave chamava de seguranças usei meu celular roubado de Simpson para chamar um taxi.
Parte boa dos subúrbios? Não tem transito, ou seja, os taxis chegam extremamente rápido. Entreguei o endereço ao homem gordo de bigode que dirigia o carro, por sorte ele não era do tipo que gosta de conversar, e esse silêncio me deu tempo para aproveitar a sensação de estar bem distante daquele maldito.
Parte de mim continua a questionar porque aceitei esse ‘’trato’’, a outra parte responde que eu não tinha nada a perder, ao primeiro sinal de que ele não estava cumprindo sua parte eu poderia cair fora, ir até o apartamento de Trish e então nós duas iriamos para algum lugar onde ele jamais nos encontraria, fora que uma chance de ver essa porcaria de mundo se tornar algo aceitável é sempre tentadora, principalmente para alguém como eu. Mas ainda assim é no mínimo desconfortável ter de dividir o mesmo teto com o desgraçado que te estuprou.
Grande parte das mulheres nunca iriam querer olhar na cara de qualquer um que fizesse isso a elas, quanto mais dar uma segunda chance ao indivíduo, porém em primeiro lugar eu não sou como a maioria das mulheres, e em segundo, não estou dando uma segunda chance a ele, por ele, estou dando-lhe uma segunda chance em nome desse planeta.
Não, não acredito que aquele homem vá se tornar um membro fiel da ‘’liga dos mocinhos’’, não sou estupida ao ponto de ter alguma esperança nisso, contudo, se ele se tornar um cara minimamente normal será um babaca a menos nas ruas, menos um com quem terei de preocupar em chutar, e na melhor das hipóteses pode ser alguém a quem se poderá pedir ajuda tranquilamente daqui a alguns (muitos) anos.
O carro parou em frente a um belo lugar, com enormes janelas de vidro, que deixavam a mostra várias pessoas sorrindo, belas mesas forradas com toalhas brancas, paredes em cor vinho, chão de mármore preto e todo o tipo de coisa que se espera encontrar no centro de Nova York, aquele prédio parecia ter saído dos sonhos de qualquer arquiteto. Paguei o motorista e entrei no estabelecimento. Rapidamente veio até mim uma garçonete loira de olhos azuis usando um vestido preto cheio de lantejoulas da mesma cor e bem colado ao corpo, só percebi sua profissão porque a moça carregava um menu.
–Em que posso ajudar? — Ela perguntou, dava para sentir a ironia em sua voz há quilômetros de distância. Não pareço com o tipo de esnobe engomadinho que geralmente frequenta lugares como esses, e não faço a menor questão de esconder isso de ninguém, e se essa mulher vê algo de errado nisso o problema é inteiramente dela.
–Estou procurando por duas pessoas, chamam-se Alva e Lorenzo. Eles têm uma reserva aqui.
–Siga-me.- Ela me levou até uma mesa localizada ao norte, próxima a uma das janelas, de onde podia-se ver todo o movimento de pessoas, carros, e também as lojas. Vi Hope sentada sozinha de um lado da mesa conversando com as pessoas que não muito tempo atrás foram aterrorizados por Kilgrave. A expressão da garota logo tornou-se num grande sorriso ao me avistar.
–Jessica. Quero te apresentar meus tios, Alva e Lorenzo Lafaiete.- Ela disse quando me aproximei, pude ver a expressão de completo medo em seus supostos tios, logo balancei minha cabeça negativamente tranquilizando-os. Não tinha a mínima intenção de entrega-los
–É um prazer. Eu disse.
–Igualmente. Ambos responderam.
–Sente-se conosco Jessica.- Pediu a menina que agora longe da cadeia e com a ideia de uma nova vida parecia mais viva que nunca.
–Muito obrigada, mas apenas vim aqui para dizer adeus, e parabeniza-la por ter sido inocentada.
–Não teria conseguido sem sua ajuda.- Dei um sorriso amarelo.
–Imagina. Você está feliz?
–Mais do que imagina. Estar a centenas de quilômetros de distância daquele animal é como um sonho se tornando realidade.- Eu sorri vendo o quão bem ela estava. –Você poderia vir conosco, seriamos todos muito felizes vivendo juntos na França. Não acham titios?
–Acho que sua amiga não pode largar tudo na cidade para ir conosco. Não é Jessica? — Perguntou o homem. Podia ver o suor que descia por seu pescoço.
–Sim, perdão. Passarei para visita-los quando tiver dinheiro para isso. Tenha uma boa vida. Hope Schlottman, você merece isso mais do que ninguém.- Ela sorriu. –Foi bom conhecer vocês.- Disse para os dois cozinheiros que agora tornavam-se tios de uma garota espetacular. Acenei, saí.
Sinceramente estou com um pouco de inveja deles por poderem cuidar de uma garota tão forte e incrível como ela.
Ao sair do restaurante respirei fundo e comecei a fazer meu caminho para as ruas que um dia me trouxeram conforto e que hoje abrigam minha prisão. Seria um longo caminho de volta, principalmente a pé, de carro leva mais ou menos 1 hora e meia, a pé provavelmente.... Ah que se dane, quem se importa com o tempo? Eu certamente não estou nem um pouco preocupada, na verdade tive uma súbita vontade de caminhar até o mundo acabar, acho que esse é o verdadeiro sentido de ‘’saudades da liberdade’’, estar tão presa que subitamente deseja fazer algo completamente estupido.
...
Cheguei em ‘’casa’’ bem depois das 17:00, não que tenha passado todo esse tempo caminhando, fiz uma ligação para Hogarth, tenho negócios inacabados com ela, ou resolvo ou meu nome ficará manchado, e como dizem por aí, minha reputação é tudo o que tenho.
Abri a porta e vi Kilgrave jogado no sofá com os pés sobre a mesa de centro, parecia uma pessoa normal, é engraçado que eu tenha utilizado esse adjetivo com ele duas vezes, ‘’normal’’ não é algo que geralmente se usa para descrever alguém como ele, mas o que dizer de um homem largado no sofá vendo futebol? Talvez bem no fundo isso e o que todos nós somos. Malditas pessoas normais que gostam de assistir televisão pela manhã e beber á noite, talvez seja isso que todos desejam, poder orgulhosamente dizer que tem uma rotina, que tem amigos para ver nos fins de semana, que tem uma família para visitar. Mas isso definitivamente não é o que eu e ele somos, somos anomalias, mesmo que não tenhamos pedido por isso, é o que somos, e aprendemos a viver com isso, e mesmo que a forma dele de viver seja a mais desprezível possível, foi a que ele arranjou.
–Primeira regra para ser um herói, não se vanglorie por suas ações, babacas fazem isso, heróis não fazem boas ações por drogas desfiles ou por reconhecimento de pessoas que não se importam, fazem pelo desejo de ajudar os outros. Disse batendo a porta atrás de mim.
–Você voltou.- Ele levantou-se rapidamente para me olhar.
–Temos um trato, não temos? Continue fazendo sua parte e eu farei a minha.- Fui em direção a cozinha, ele me seguiu, comecei a abrir todos os armários procurando alguma bebida.
–Então por onde começamos? Vigiar as ruas com um carro? Fazer as roupas ou...
–Você só pode estar de brincadeira. Onde aprendeu sobre heroísmo? Lendo Batman? Já entrou no meu apartamento? Não precisa de todas aquelas coisas para fazer o bem.- Andei para o outro lado da cozinha como naquele não havia nada do que eu procurava nos armários.
–Então como se faz?
–Droga! — Gritei não encontrando nada para beber. –Segunda regra, tenha contatos.
–Eu tenho contatos.
–Lícitos? — Ele calou-se. –Foi o que pensei, vamos, vou te ensinar a fazer as pessoas falarem.
–Agora você está brincando.- Ele disse dando uma risada.
–Faze-las falar sem infringir seu livre arbítrio. Você não vai usar seu poder a não ser que seja extremamente necessário.
–Tudo bem.- Kilgrave fez uma careta infantil. -Então aonde vamos?
–O lugar onde todos deixam os podres voarem pela janela.- Ele arqueou uma sobrancelha. –O bar, seu imbecil.
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