​O sol nasceu sobre Versalhes com uma claridade irritante para quem passara a noite em claro. O palácio fervilhava: o som de carruagens chegando, o aroma de milhares de flores sendo arranjadas e o burburinho constante da nobreza europeia que vinha testemunhar a união que selaria o destino do continente. Mas, dentro dos aposentos reais, o clima era de um cerco militar.

​Alice estava de pé, cercada por seis criadas que puxavam os cordões de seu espartilho com uma força impiedosa. Cada puxão parecia apertar não apenas suas costelas, mas sua própria garganta.

​— Mais devagar! Eu pretendo respirar durante os votos, não desmaiar como uma dama de companhia fraca! — Alice disparou, sua voz carregada de uma irritação que fazia as moças tremerem.

​Sua cabeça latejava sob o peso da tiara cravejada de safiras, e o vestido, embora a obra-prima mais magnífica que já vira, parecia uma armadura de seda feita para prendê-la. Katherine entrou no quarto, impecável, observando o caos com uma calma que só aumentava a fúria de Alice.

​— A irritação tira o brilho da pele, Alice. Tente canalizar essa energia para a sua caminhada até o altar. O mundo inteiro está olhando — disse a rainha.

​— O mundo inteiro está olhando para um sacrifício, Katherine, não para um casamento — rebateu Alice, olhando para o próprio reflexo com um desprezo mal disfarçado.

​Enquanto isso, nos aposentos do noivo, o clima não era mais leve. Lucas terminava de abotoar sua túnica de gala, adornada com as medalhas de sua linhagem. Ele observava Marcone, que tentava oferecer algumas palavras de apoio.

​— Você está pronto, irmão? — perguntou Marcone, preocupado com o silêncio do príncipe.

​Lucas virou-se, um sorriso cínico e venenoso curvando seus lábios. Ele parecia mais forte, mas seus olhos guardavam uma malícia que indicava que ele não aceitaria o decreto dos reis sem deixar cicatrizes.

​— Pronto? Ah, eu estou ansioso, Marcone. Ansioso para ver como a nossa "leoa" inglesa vai reagir ao ser finalmente enjaulada. Meus pais querem um herdeiro em meses? Pois eu pretendo garantir que cada segundo dessa união seja uma lembrança constante para Alice de que ela agora pertence à França... e a mim.

​Quando as portas da catedral se abriram, a música triunfal da orquestra preencheu o espaço. Alice caminhou ao lado de Ricardo, cada passo sendo uma batalha interna para manter a classe. Ao chegar ao altar, seus olhos encontraram os de Lucas.

​Ele não a olhava com a adoração de um noivo, mas com a satisfação de um vencedor de um duelo. Ele se inclinou levemente para frente quando ela parou ao seu lado, sussurrando de forma que apenas ela ouvisse, por trás do sorriso ensaiado para o público.

​— Você está deslumbrante, Alice. Uma pena que esse vestido seja tão difícil de tirar. Teremos muito trabalho esta noite para cumprir as ordens do seu pai, não acha?

​Alice apertou o buquê com tanta força que os caules de algumas flores quebraram. Ela não desviou o olhar, mantendo o queixo erguido enquanto o padre começava a cerimônia.

​— Tente não se cansar com as palavras, Lucas — ela devolveu, com um veneno igualmente letal na voz baixa. — Você vai precisar de toda a sua energia para sobreviver ao que eu planejei para a nossa noite de núpcias. O herdeiro virá, mas eu garanto que você pagará um preço alto por cada toque.

​O celebrante iniciou os votos, e sob o olhar atento de reis, rainhas e nações, dois corações que se incendiavam em ódio e desejo mútuo preparavam-se para a consumação de um pacto que mudaria a história — ou destruiria ambos no processo.