Alianças de Sangue e Ferro

10 O Beijo de Judas e o Adeus Salgado



​O Porto de Marselha estava mergulhado em uma névoa matinal que cheirava a salitre e despedida. O majestoso navio real britânico balançava suavemente nas águas, aguardando seus passageiros. No cais, a guarda real formava um corredor de honra, mas o foco estava todo na pequena e tensa reunião da família real.

​Alice aproximou-se do pai primeiro. O abraço foi apertado, um refúgio contra o futuro incerto.

— Cuide-se, meu pai. Não deixe que os franceses amoleçam demais o seu coração — sussurrou ela, tentando manter a voz firme.

— Volte mais sábia, minha pequena loba — respondeu Ricardo, beijando-lhe o topo da cabeça.

​Em seguida, ela se voltou para Katherine. O abraço entre as duas foi surpreendentemente sincero, um reconhecimento da trégua emocional que haviam construído.

— Obrigada pelas lições, Majestade. Prometo não esquecer como ser uma rainha, mesmo que eu prefira ser uma guerreira — disse Alice.

— O mundo precisa de ambas, Alice. Estarei esperando por você — Katherine respondeu com um olhar carregado de um carinho contido.

​Por fim, Alice parou em frente a Lucas. O silêncio entre eles era quase palpável. Lucas mantinha os braços cruzados, a expressão de tédio mascarando uma irritação profunda. Alice deu um passo à frente, diminuindo a distância até que seus rostos estivessem a poucos centímetros. Ela inclinou a cabeça e suavizou o olhar, deixando um sorriso doce e quase romântico curvar seus lábios. Por um segundo, Lucas hesitou; ele viu a inclinação do rosto dela e, por um reflexo involuntário, começou a se inclinar também, achando que ela selaria a despedida com um beijo de trégua.

​Foi então que o desastre aconteceu.

​Em um movimento rápido como o bote de uma serpente, Alice desferiu um chute certeiro entre as pernas do príncipe e, antes que ele pudesse gritar, ela pisou com toda a força de seu salto sobre o peito do pé dele.

​— Até daqui a três anos, "querido" noivo — sibilou ela no ouvido dele, enquanto Lucas dobrava os joelhos, o rosto passando de pálido para um roxo alarmante.

​Alice girou sobre os calcanhares e subiu a rampa do navio com a elegância de uma imperatriz, sem olhar para trás nem uma única vez.

​Marcone e Sofie ficaram estáticos por um momento, as bocas abertas em choque absoluto. Ricardo levou a mão ao rosto, escondendo um sorriso involuntário, enquanto Katherine soltava um suspiro de descrença.

— Pelos santos! — exclamou Marcone, correndo para ajudar Lucas a se levantar. — Você está bem, homem?

— Eu... vou... matá-la — conseguiu grunhir Lucas, apoiando-se no ombro do irmão de consideração, enquanto tentava recuperar o fôlego e a dignidade perdida diante de metade da guarda francesa.

​No Coração do Oceano

​Horas depois, já em alto-mar, o navio cortava as ondas com determinação. No salão nobre da embarcação, o jantar era servido sob a luz de candeeiros de óleo. Marcone, Sofie e Alice estavam à mesa, cercados pelo som do mar batendo no casco.

​Marcone, incapaz de se conter, soltou uma gargalhada que ecoou pelo salão.

— Eu juro pela minha coroa, Alice! A cara dele... o jeito que ele se dobrou! Eu nunca vi ninguém desarmar o Príncipe Lucas de Petrovic de forma tão... letal.

— Ele mereceu — disse Alice, cortando um pedaço de carne com precisão. — Ele precisava de algo para se lembrar de mim nos próximos três anos.

​Sofie riu também, mas logo sua expressão tornou-se mais sóbria. Ela estendeu a mão e tocou a de Alice.

— Foi uma saída triunfal, eu admito. Mas, Alice, precisamos falar seriamente. Infelizmente, daqui a três anos, o tempo das brincadeiras acaba. Vocês serão marido e mulher. O reino dependerá da estabilidade de vocês. Terão que ser maduros, mesmo que o ódio seja a única coisa que compartilhem.

​Alice parou de comer. As palavras de Sofie pesaram mais que a âncora do navio.

— Você terá que se acostumar com a ideia de que aquele homem é o seu destino — continuou Sofie. — Transformar o palácio em um campo de batalha permanente só trará ruína para nós dois.

​Alice não respondeu. Ela se levantou e caminhou até a janela de vidro, observando o rastro de espuma branca que o navio deixava para trás, em direção à Inglaterra. O pensamento de pertencer a Lucas, de dividir uma vida com alguém que ela tanto desprezava, fez seu peito apertar.

​Pela primeira vez em dias, ela não sentiu vontade de lutar. Apenas se perdeu na imensidão do oceano, perguntando-se se três anos seriam suficientes para transformar uma loba em uma esposa... ou se a distância apenas tornaria o reencontro ainda mais explosivo.