Aliados

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Perdoem qualquer erro que eu possa ter deixado passar e boa leitura!

A família Jeon era insuportável.

Desde o antigo rei já falecido até o mais novo recém-nascido, todos da família eram insuportáveis. Jungkook às vezes se sentia mal por pensar daquela forma de seu irmão mais novo, mas todo o sentimento de culpa desaparecia assim que o bebê começava a chorar, implorando pela atenção de sua mãe.

Jungkook observava seu pai com o canto dos olhos no enterro de seu avô, e mal conseguia acreditar que estava vendo o homem segurar suas lágrimas. Ele estava acostumado a ver um príncipe coroado – recentemente transformado em rei – com a expressão séria e fria o tempo todo, raramente deixando um sorriso se formar em seu rosto. Lágrimas eram surreais para o garoto.

As coisas mudaram depois que seu pai virou rei e seu avô faleceu. Agora, Jungkook era o oficial herdeiro do trono, tinha muito mais responsabilidades do que antes, e definitivamente não estava gostando nem um pouco da mudança. Ele tinha apenas dezesseis anos, não queria comparecer às reuniões de guerra em outros países, queria apenas ficar no palácio e se divertir com seus outros amigos nobres.

Seokjin e Hoseok eram os únicos amigos que ele tinha, na verdade. Jungkook sabia que poderia ter muito mais, mas seu pai o impedia de falar com qualquer pessoa que não tivesse sangue nobre puro. Era um milagre o rei deixar seu filho falar com os criados e servos. Por mais que pudesse contar nos dedos as pessoas em quem podia confiar, Jungkook estava satisfeito com o que tinha.

Às vezes, enquanto assistia a seus amigos alimentar os patos no lago do palácio real, Jungkook imaginava como seria sua vida se ele não fosse um príncipe. Se mudasse seu status para um simples nobre, já teria muito mais liberdade para viver e fazer o que bem quisesse. Ele ouvia as histórias de Seokjin e Hoseok que saíam pela cidade à noite conhecendo pessoas novas, fazendo coisas que todo jovem normal fazia.

Jungkook não suportava carregar o sobrenome Jeon.

“Veja pelo lado bom, Jungkookie, você não precisa se alistar no exército sendo um príncipe.” Seokjin disse enquanto olhava para o céu azulado, provavelmente mais imerso em seus pensamentos do que prestando atenção na conversa que acontecia na beira do lago. “Meu alistamento é amanhã, meu pai quer que eu seja general.”

“Você é nobre, não vai ser muito difícil chegar lá.” Hoseok deu de ombros e continuou brincando com a grama. Jungkook o observava, pois sabia que o amigo não gostava daquele assunto. O exército o assustava. “Vai dar tudo certo, Jin.”

Com Seokjin na posição de general, ficou muito mais difícil tê-lo por perto quando Jungkook e Hoseok se encontravam. Eles entendiam que o amigo tinha muito mais responsabilidades agora, mas não conseguiam parar de sentir falta da companhia dele nas tardes de primavera dentro do palácio real. Jungkook tinha só dezesseis anos, ele não queria pensar em exército, guerra, alianças, nada. Ele só queria ficar com seus amigos, conversar, rir e esquecer por alguns segundos que fazia parte de uma família a qual não suportava.

“Ouvi meu pai falando que o rei vai visitar o país vizinho para tentar uma aliança.” Hoseok arqueou uma sobrancelha, como sempre fazia quando queria saber de algo que ele não podia saber, e só Jungkook poderia lhe dar uma resposta. “É verdade?”

“Sim, e eu vou ser obrigado a ir junto.” Jungkook suspirou fundo e se jogou em sua cama ao lado de Hoseok. “Aparentemente a família Kim é cheia de gênios que nunca perderam uma batalha em nenhuma guerra, e meu pai ficou indignado quando descobriu isso e soube que nós não éramos aliados.”

“Quer dizer, ele meio que tem razão.” Hoseok começou a brincar com um fiapo solto no lençol de seda de Jungkook. Quando não tinha grama por perto, ele precisava brincar com algo enquanto falava sobre o exército. Sempre. “Vocês não iam querer esses caras como inimigos, certo?”

“Certo, Hoseok.” Jungkook concordou apenas por concordar. Por ele, a família Kim poderia explodir sua cabeça e ele seria grato. “Certíssimo.”

Jungkook tinha dezoito anos agora, mas ele ainda não queria saber de nada que envolvesse guerra, exército, aliados, nada. Ele só queria saber de ficar no palácio conversando com seus amigos, aproveitando pelo menos um pouco a vida entediante e estressante que levava.

Mas agora, nem mesmo seus amigos ele tinha direito. Jungkook não via Seokjin havia mais de um ano, mas ocasionalmente recebia uma carta do homem apenas o informando que ele estava bem e estava vivo, sobrevivendo cada dia como podia. Hoseok já tinha vinte e um anos, o dia de seu alistamento estava cada vez mais próximo, e Jungkook já conseguia se enxergar dando comida aos patos do lago completamente sozinho porque seus únicos amigos estavam no exército.

O palácio da família Kim não era muito diferente do palácio da família Jeon. Eles tinham um lago, eles tinham uma porção de cômodos, eles tinham servos e criados andando de um lado para o outro para garantir que tudo estaria sempre impecável, principalmente para receber seus visitantes. Eles tinham retratos de reis antigos nas paredes, retratos de milhares de gerações da família, retratos até mesmo de cachorros.

Realmente, não era muito diferente de seu palácio. Jungkook mal tinha pisado seus pés ali e já estava entediado, não sabia como faria para sobreviver os três dias que ainda passaria ali com seu pai saindo e entrando de reuniões o tempo todo. Ele só queria voltar para casa, para seu país, voltar a ter quinze anos para conversar com Seokjin e Hoseok na beira do lago sem precisar pensar em exército, em assumir o trono algum dia e em mil e uma coisas que o assombravam agora.

“Mantenha a postura ereta, Jungkook.” Seu pai disse com a voz fria de sempre, o olhar sério e seus lábios levemente curvados para baixo. A verdadeira postura de um rei. “Essa reunião é importante para nós, você não pode fazer feio, entendeu?”

Jungkook sabia que não deveria responder, apenas fazer o que seu pai havia o mandado. Então ele esticou sua coluna, olhou para frente e tentou imitar o olhar sério do rei. Talvez algum dia ele alcançasse a frieza na expressão, mas por enquanto ele ainda se via apenas como um garoto, e não como um homem capaz de tomar as decisões de um país.

Assim que colocou seus olhos dentro do salão de reuniões, Jungkook reparou que a família Kim gostava de ostentar. Havia ouro nos quatro cantos do cômodo, o rei usava braceletes, pulseiras, anéis, todos os acessórios possíveis do material, e os príncipes não ficavam muito para trás. Era, também, uma família bonita. Todos tinham uma expressão séria, mas hipnotizante, que prendia a atenção por mais que Jungkook tentasse desviar o olhar. Um príncipe em particular se destacou.

Apenas os reis trocavam palavras naquele salão enorme, suas vozes ecoando e muitas vezes deixando suas entonações mais agressivas do que eram para ser. Jungkook observava a troca de ideias de cenho levemente franzido, perguntando-se o que estava fazendo ali se não falaria nada. O assunto era entediante como ele sabia que seria, então resolveu correr seus olhos pelo local, procurando algo para se distrair.

Achar ouro em cantos escondidos estava sendo uma excelente distração, até Jungkook acidentalmente cruzar o olhar com um dos príncipes e perceber que ele estava o encarando. Ele tentou manter a expressão de seu rosto indiferente, mas quando viu que o príncipe havia sorrido assim que percebeu que havia sido pego, Jungkook não conseguiu evitar que sua sobrancelha se arqueasse.

O príncipe não fez mais nada depois disso. Ele simplesmente desviou o olhar e voltou a prestar atenção na conversa entre os reis, tentando se situar para saber o que estavam decidindo. Jungkook não tirou os olhos dele, no entanto. Continuou observando cada mínimo detalhe, como se comportava, cada piscada que ele dava enquanto estava completamente focado no assunto. Jungkook não sabia explicar porquê, mas aquele homem era fascinante.

Depois de uma longa hora, a primeira reunião acabou. Jungkook respirou fundo e retomou a postura que seu pai havia pedido para que ele mantivesse, acompanhando o rei para fora do salão e em direção aos aposentos que haviam sido preparados para eles. Eles caminhavam em silêncio, um servo os acompanhando para ter certeza de que não se perderiam, e Jungkook até se sentia um pouco mais leve. No fundo, ele sabia que era por causa do príncipe que havia o encarado, mas queria acreditar que era porque a reunião havia corrido bem.

O quarto que havia sido escolhido para Jungkook era um pouco menor que o seu quarto de verdade, mas ele não se incomodava. Na verdade, não entendia porque uma única pessoa precisava de um cômodo tão grande apenas para dormir, mas havia aprendido ainda criança a não questionar os exageros da família real. Mesmo que não estivesse em casa, Jungkook fez tudo o que sempre fazia todas as noites antes de se deitar, e isso incluía ficar acordado por horas encarando o teto, pensando em como sua vida poderia ser diferente.

“Príncipe Jeoooooooooon!”

Jungkook ouviu uma voz baixa o chamando, mas achou que estava delirando. Ele franziu o cenho e virou para o lado para tentar dormir, decidindo que estava ficando tarde demais e seu cérebro estava começando a pregar peças nele. O garoto fechou os olhos e ouviu a mesma voz o chamando novamente, arrastando a sílaba de seu sobrenome, e Jungkook percebeu que não era uma alucinação.

Lá estava um dos príncipes da família Kim, o mesmo que havia o encarado durante a reunião, com a franja caindo sobre seu olho e um sorriso divertido no rosto, sentado na janela como se fosse a coisa mais normal do mundo de se fazer. Jungkook devia começar a ouvir os conselhos de sua mãe e trancar as janelas durante a noite, mas ele claramente não estava esperando que um príncipe o chamasse de madrugada como se eles fossem amigos há anos.

“Príncipe Kim?”

“Só Taehyung já está bom!” O homem entrou no quarto e começou a caminhar em direção à cama de Jungkook, que imediatamente se sentou e se encolheu, tentando ao máximo manter uma certa distância entre eles. “Não precisa fingir que está dormindo, eu te vi encarando o teto por um tempo.”

Jungkook não sabia o que dizer. A aura de Taehyung gritava que ele era simpático, uma pessoa confiável, mas Jungkook não estava acostumado a ter pessoas entrando em seu quarto no meio da noite pela janela. Na verdade, se alguém fizesse aquilo, corria o risco da pessoa sofrer sérias consequências.

“Eu só sei o nome da sua família, não sei o seu.” Taehyung colocou os pés em cima da cama e cruzou as pernas, esperando uma resposta. Jungkook tinha a impressão de que ele não sairia dali enquanto não obtivesse uma. “Então, Jeon, qual seu nome?”

“Jungkook.” O garoto disse com a voz um pouco fraca, o oposto do que geralmente era durante o dia quando seu pai o obrigava a ser forte o tempo todo. “Meu nome é Jungkook.”

“Você vai ser rei algum dia, não é mesmo?” Taehyung apoiou seu queixo em uma mão, deixando um sorriso de canto estampar seu rosto. “Eu fiquei sabendo que o rei Jeon tem dois filhos, mas só tinha você na reunião. É o mais velho?”

“Sim.” Jungkook concordou e afastou suas pernas de seu corpo, um pouco mais confortável com a presença de Taehyung. “Meu irmão tem dois anos.”

“Hmmm, sorte a sua.” Taehyung usou sua outra mão para apoiar o queixo, fazendo suas bochechas ficarem amassadas. Jungkook quase riu. “O meu tem vinte e um, ele que vai ser rei algum dia.”

“Você queria ser rei?”

“Não, mas às vezes é meio chato conviver com o favoritismo do meu pai.” Taehyung deu de ombros e suspirou, mas nunca sem deixar o sorriso sair de seu rosto. Jungkook se perguntava se algum dia seu irmão sofreria com aquilo. “De qualquer forma, eu não vim aqui para falar sobre isso. Quer explorar o palácio?”

Em qualquer outra circunstância, Jungkook diria não. O problema era que tinha alguma coisa em Taehyung que o fazia querer dizer sim inúmeras vezes, algo em seu olhar, algo em seu jeito. Então ele tirou os lençóis de seda de cima de seu corpo, calçou suas pantufas, e seguiu Taehyung para onde quer que ele estivesse o levando.

Em meio a risadas, pedidos de silêncio e pausas para buscar ar de tanto que eles estavam rindo, Taehyung finalmente chegou ao local onde queria levar Jungkook. Era bonito, ele precisava admitir, mas algo dentro dele o dizia que nada seria mais bonito que o palácio em seu país.

“As tartarugas não estão aqui agora, mas nós podemos voltar aqui amanhã para você vê-las.” Taehyung sorriu e se sentou num banco de pedra que tinha à beira do lago, bem debaixo de uma cerejeira. “Tem mais uma área dessas do outro lado do palácio, mas se eu te levasse lá hoje, nós não dormiríamos nada essa noite.”

“Então você vai aparecer na minha janela amanhã também?” Jungkook sorriu de canto, um leve tom de flerte em sua voz. Taehyung colocou um dedo no queixo, fingindo que estava pensando na resposta. O garoto riu e puxou sua mão, chamando sua atenção. “Só me responde. Você vai, não é mesmo?”

“Vou.” Taehyung assentiu. Talvez ele não tivesse percebido, ou não tivesse ligado, mas Jungkook ainda estava segurando sua mão e ele não tinha feito nada para solta-la. “Não tranque sua janela, Jungkook. Eu estarei lá para mais uma aventura no palácio.”

Naquela noite, Jungkook dormiu melhor do que nunca, e, pela primeira vez em anos, com um sorriso em seu rosto.

A reunião do dia seguinte havia sido muito mais interessante do que a primeira. Não porque Jungkook estava realmente prestando atenção no que estava acontecendo, mas porque agora ele podia encarar Taehyung e ter certeza de que ele encararia de volta. Ficar trocando olhares durante uma hora era definitivamente muito mais interessante do que ouvir seu pai falar sobre política e aliança entre países.

O outro príncipe da família Kim, o coroado, percebeu o que eles dois estavam fazendo quando deviam estar prestando atenção na conversa, mas não falou nada. Ele tentou conter um sorriso e voltou a ouvir o que seu pai estava dizendo, também pouco interessado, mas sabendo que era seu dever como herdeiro do trono.

“Essa é minha tartaruga favorita, mas eu ainda não arrumei um nome para ela.” Taehyung disse enquanto fazia carinho no casco do animal, tomando cuidado para não molhar a manga de sua roupa. “Namjoonie não quer me ajudar a escolher, então vou ter que fazer isso sozinho.”

“Você tem uma relação boa com seu irmão?”

“Tenho, tenho sim!” Taehyung assentiu, seus olhos brilhando por Jungkook ter perguntado aquilo. “Ele é muito divertido e muito estabanado, mas tem que manter a postura séria de príncipe o tempo todo. Sabe como é, herdeiro do trono e essas coisas.”

Aquele parecia ser um assunto que chateava Taehyung, então Jungkook resolveu não incomodar mais. Escolheu perguntar sobre as tartarugas que o homem parecia tanto amar, e viu que tinha acertado em cheio quando o ouviu falar sobre os animais sobre horas, até o sol começar a se pôr e eles voltarem para dentro do palácio. O jantar foi em silêncio, salvo por conversas paralelas que rendiam risadas fracas dos reis. Os príncipes, no entanto, preferiram apenas comer sem dizer nada.

“Você vai passar aqui mais tarde?” Jungkook perguntou baixo, com medo que sua voz ecoasse pelo corredor extenso e alguém pudesse ouvi-lo.

Taehyung olhou para os lados e empurrou o garoto um pouco para dentro de seu quarto, querendo ter aquela conversa com um pouco mais de privacidade.

“Sim, eu venho aqui, então é melhor não trancar sua janela.” Taehyung apontou um dedo bem no peito de Jungkook, arrancando uma risadinha do garoto. “Tenta não usar sua roupa de dormir por aí. É meio frio à noite, não posso deixar o príncipe coroado da família Jeon ficar doente logo quando estamos estabelecendo uma aliança entre países.”

Jungkook soltou uma risada baixa, e olhou para o chão. Ele pensou por alguns segundos se deveria fazer o que estava prestes a fazer, refletiu e decidiu que não tinha nada a perder. Taehyung tinha uma alma boa, ele não faria um escândalo e com certeza não faria questão de que a aliança não fosse estabelecida caso fosse contrário ao seu ato.

Então, Jungkook colocou sua cabeça no corredor, olhou para os lados, voltou e segurou o rosto de Taehyung, depositando um beijo rápido em sua bochecha logo em seguida. O príncipe não teve muito tempo para reagir, visto que Jungkook o empurrou e disse para conversarem mais tarde, assustado com o que ele próprio havia feito e batendo a porta com força.

Ele até tinha tentado tirar um cochilo, mas seu coração e sua mente estavam tão agitados que Jungkook só conseguiu andar em círculos dentro do quarto, esperando que Taehyung aparecesse em sua janela a qualquer momento para uma aventura no palácio.

“Príncipe Jeon.”

O coração de Jungkook parou na hora.

“Príncipe Kim o aguarda em sua janela.” Taehyung engrossou sua voz para falar aquilo, e Jungkook soltou uma risada fraca. “Bem agora. Eu estou bem aqui, vire-se para trás. Nós temos um palácio para desbravar, anda logo.”

Taehyung não falou nada do beijo assim que eles se viram, mas suas bochechas estavam levemente coradas, talvez pensando no incidente. Ele também não falou nada quando puxou Jungkook pela mão e entrelaçou seus dedos, trilhando o caminho pelo palácio até chegar onde ele queria. Jungkook sentia como se seu coração estivesse dando pulos dentro de seu peito, e pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que estava gostando de alguém como algo além de amigo.

“Eu não estava esperando que você fizesse aquilo, Jeon Jungkook.” Taehyung disse fazendo uma curva por trás de uma pilastra com uma porta de madeira a um braço de distância. “Mas que bom que você fez, porque combina muito com o lugar que eu vou te levar hoje.”

Jungkook detestava admitir, mas aquele local era definitivamente mais bonito que a área que cercava o lago em sua casa. A forma como a luz da lua batia na água deixava tudo mais especial, e o som fraco da cascata era quase como trilha sonora para admirar a beleza do ambiente. As árvores eram verdes, bem cheias de vida, e o gramado era muito bem cuidado, talvez até mais bem cuidado que o gramado de seu palácio. Era tudo lindo, Jungkook nunca havia visto algo assim.

“Essa parte é meio que exclusiva do meu irmão, mas ele me deixa vir aqui porque sabe como eu gosto dessas coisas.” Taehyung disse, apertando a mão de Jungkook com um pouco mais de força para mostrar que ele estava ali, que eles estavam vivendo aquele momento juntos. “É tudo natural aqui, sem construção nenhuma do homem. Meu lugar favorito.”

“É lindo.” Jungkook disse o que estava pensando, olhando tudo ao seu redor. Ele nem conseguia imaginar como devia ser ver tudo aquilo de dia. “É muito lindo, Taehyung. Obrigado por me trazer aqui.”

“Eu sei que você vai embora amanhã, e eu não sei quando você volta, ou quando vamos nos ver de novo, então...” Taehyung deu de ombros, deixando que seus movimentos falassem por si. “Quis te mostrar aqui.”

“Você planejava se aproximar de mim desde que eu cheguei, não é mesmo?”

“Eu planejava ser seu amigo.” Taehyung riu e se virou de frente para Jungkook. “Nunca imaginei que você fosse querer algo além disso.”

“E você se incomoda?” Jungkook perguntou ainda um pouco incerto, apesar da proximidade e o olhar de Taehyung já serem uma resposta.

“Nem um pouco.”

Jungkook e Taehyung deram as mãos enquanto se beijavam, deixando os sons dos animais noturnos e da água caindo definir o ritmo. Era lento, apenas com o toque de lábios, e para eles estava perfeito. Não queriam ousar e nem precisavam, aquele momento era só deles e não tinha nada no mundo que pudesse o estragar.

“Isso sim que eu chamo de uma aliança entre países.” Jungkook murmurou contra a boca de Taehyung assim que eles se separaram, fazendo o homem soltar uma risada fraca.

No dia seguinte, os dois conseguiram fingir muito bem que a despedida não estava os machucando. Namjoon os observava atento, ainda mais depois de ver as interações deles durante a última reunião. Por mais que estivesse triste de ter que ir embora, o coração de Jungkook estava completamente aquecido e ele se sentia mais feliz do que nunca.

Quando chegou em casa, foi recebido pelo povo e pelos homens de maior patente no exército. Entre eles estava Seokjin, agora com o rosto um pouco mais maduro e uma cicatriz quase invisível em seu maxilar, mas que ainda se mostrava presente. Assim que colocou os pés no palácio, correu para o local onde sempre encontrava seus amigos e abriu um sorriso enorme ao ver Seokjin e Hoseok parados ali, alimentando os patos, apenas os esperando para que eles conversassem.

Era perceptível o amadurecimento de Seokjin, mas ele não havia deixado de ser a pessoa divertida que era antes de entrar no exército. Hoseok o bombardeava com um milhão de perguntas, claramente com medo de quando sua hora de se alistar chegaria. Jungkook ouvia tudo com um sorriso no rosto, esquecendo completamente quem ele era e o sobrenome que carregava, apenas contente por ter amigos e um amor em sua vida para manter sua sanidade intacta.

O alistamento de Hoseok veio mais rápido que Jungkook esperava, e agora ele se via cada vez mais sozinho no palácio. Às vezes ainda recebia a visita dele, raramente a visita dos dois, mas ainda era muito solitário passar seus dias sem falar com muitas pessoas ou fazer muitas coisas diferentes. Ele chegou a andar pela cidade, visitando lojas e adquirindo algumas peças de ouro, mas ainda sentia que faltava alguma coisa.

Jungkook resolveu escrever um diário. Quis falar sobre como havia sido seu dia, apesar de muitas vezes suas palavras se repetirem e ele falar das mesmas coisas mesmo que em dias diferentes. Era uma forma dele não se perder no tempo, e ainda ter algo para fazer antes de ir para a cama. Muitas vezes ele se pegou deixando sua janela aberta, no caso de um certo príncipe de uma certa família Kim aparecer para eles explorarem o palácio.

Hoseok estava visitando, um pouco do brilho em seu olhar perdido por conta da vida no exército, quando um servo chamou o nome de Jungkook e pediu com urgência que ele fosse à sala do trono para conversar com seu pai. O garoto pediu socorro com os olhos para Hoseok, mas não havia nada que ele poderia fazer para salvá-lo.

“Vou manda-lo para o país vizinho por alguns meses para reforçar os laços de amizade.” Jungkook ouviu seu pai dizendo enquanto ele estava curvado diante do homem, pronto para receber qualquer ordem. Seus olhos se arregalaram um pouco, e ele agradeceu por seu pai não conseguir vê-los. “Sinto que uma guerra está para começar, nós precisamos desse aliado mais do que nunca agora. Entendeu?”

“Sim, senhor.” Jungkook concordou na hora e agradeceu por sua voz não ter falhado em um momento crítico. “A família Kim já está sabendo, senhor?”

“Sim, Jungkook.” O garoto ouviu seu pai suspirar, e questionou-se o quão séria a ameaça de guerra era. Talvez ele tivesse que começar a prestar mais atenção nas reuniões se quisesse saber. “Você parte em uma semana. Todas as reuniões que acontecerem, você será o representante de seu país, de sua família. Não me decepcione.”

Jungkook não disse mais nada e saiu da sala com um sorriso no rosto, mas fazendo de tudo para escondê-lo dos servos. Eles tinham ouvido a conversa e não era uma notícia boa saber que seu país podia entrar em guerra, então por que o príncipe estava sorrindo? Jungkook só conseguia pensar no príncipe mais novo da família Kim, só conseguia pensar em um sorriso que tomava conta de sua vida apesar dele ter o visto tão poucas vezes.

“Então, como foi lá dentro?” Hoseok disse com uma sobrancelha arqueada, claramente curioso para saber do que a conversa tão rápida havia se tratado. “Ele brigou com você?”

“Eu vou passar alguns meses no reino vizinho.” Jungkook disse ainda tentando conter o sorriso, mas falhando miseravelmente. Ele não viu, mas Hoseok também estava sorrindo. “Meu pai disse que uma guerra pode começar a qualquer momento, e nós precisamos reforçar os laços com a família Kim.”

“Você com certeza vai reforçar seus laços com um certo membro da família Kim.” Hoseok cutucou as costelas de Jungkook com seu cotovelo, fazendo o garoto corar um pouco. “Só toma cuidado, eu ouvi sobre essa guerra algumas vezes e parece ser bem sério. Até mesmo Seokjin já me falou sobre isso.”

“Eu estou indo para um país que nunca perdeu uma batalha, Hoseok.” Jungkook colocou uma mão no ombro do amigo e apertou o local levemente, assegurando-o como podia de que ficaria bem. “Não se preocupe comigo, preocupe-se com si mesmo.”

Hoseok assentiu e puxou o príncipe para um abraço, apenas para ter certeza de que ele ficaria bem. Era fato que Hoseok precisava se preocupar consigo mesmo muito mais, afinal de contas, se houvesse uma guerra seria ele que lutaria, mas ele não deixava de pensar em Jungkook, que antes de ser o príncipe coroado e futuro rei, era seu amigo.

A semana passou mais devagar do que qualquer outra até então. Já havia se passado quase um ano desde que Jungkook havia visto Taehyung, mas era como se, mesmo com a distância e o tempo, o sentimento tivesse apenas se fortalecido. Ele mal conseguia acreditar que o veria de novo em tão pouco tempo, e se perguntava se Taehyung estava tão animado quanto ele.

O rei Jeon dava uma aula a seu filho todos os dias ensinando-o a se comportar e o que deveria dizer caso o perguntassem alguma coisa. Jungkook estava se esforçando para prestar atenção pela primeira vez em sua vida, porque ele sabia que seria mandado para casa assim que cometesse o primeiro erro.

No dia em que partiu, Hoseok e Seokjin estavam no palácio para se despedir. Jungkook se lembrou de uma época em que todos eles se viam todos os dias, e pensou em onde estavam agora. Exército, viagens em nome de uma nação. Jungkook ainda sentia falta da época que ele não precisava se preocupar com guerras ou alianças, mas também estava orgulhoso do que ele e seus amigos haviam se tornado.

“Às vezes eu passo por lá, nós podíamos nos encontrar enquanto você está ocupando espaço no palácio da família Kim.” Seokjin arqueou uma sobrancelha e arrancou uma risada de Hoseok, mas fazendo Jungkook bufar. “Quantos meses vai passar fora?”

“Mais de dois, com certeza.” Jungkook olhou para o navio que o aguardava para partir e suspirou. “Mas é indeterminado. Talvez até as coisas acalmarem, ou até a guerra começar. Eu ainda não sei direito.”

Jungkook raramente via seus amigos agora que eles passavam tanto tempo fora, mas doeu da mesma forma quando precisou se despedir deles. Era doloroso ver algumas das pessoas mais importantes de sua vida ficando para trás quando era ele que estava indo embora.

Todo sentimento de saudade foi esquecido por alguns momentos quando Jungkook ficou de frente para a porta principal do palácio da família Kim. Ele pensou na primeira vez que esteve ali com seu pai, quase um ano atrás, e como detestou os primeiros momentos no lugar. Isso foi até um certo príncipe o encarar durante a reunião e mudar completamente sua vida em apenas uma noite.

Jungkook não se lembrava do rei Kim ser tão caloroso e receptivo, mas não negou um sorriso ao homem quando colocou os pés dentro do palácio. Ele falava mil e uma coisas sobre diplomacia, amizade e um monte de blá blá blá que Jungkook não ouviu porque estava ocupado demais olhando para os lados discretamente, tentando achar um certo príncipe que não saía de seus pensamentos nem por um segundo.

Quando o viu, no entanto, foi dentro da mesma sala de reuniões que trocaram olhares pela primeira vez todos aqueles meses antes. Taehyung estava sério como nunca, ouvindo atentamente a tudo que seu pai dizia. Jungkook queria desviar o olhar e encarar o príncipe, queria fazer de tudo para chamar sua atenção, mas sem seu pai ao lado, ele era o foco principal da conversa e não tinha como ele procurar sua distração para reuniões entediantes em outro lugar.

Ao fim, todos se cumprimentaram formalmente, mas com um pequeno toque de amizade em cada ato. Rei Kim abriu um sorriso largo, exalando simpatia e fazendo Jungkook se sentir em casa. Namjoon o cumprimentou e abriu um pequeno sorriso, um lembrete de que ele era bem-vindo ali, e que ele ainda se lembrava do garoto. Taehyung, no entanto, permaneceu sério. Do início ao fim, a seriedade em seu rosto e ações chegava a ser assustadora, e Jungkook não sabia o que fazer.

Depois disso, príncipe Jeon resolveu andar pelo palácio e reconhecer alguns locais. Ele parou para falar com as tartarugas, observou a natureza, e pensou o que podia ter feito de errado para Taehyung não querer falar com ele. Talvez ele estivesse daquele jeito por Jungkook não ter mandado uma carta, mas Taehyung também não havia mandado nada. Talvez estivesse apenas tentando se mostrar o mais indiferente possível por ter medo de seu pai descobrir o que eles tinham.

Jungkook suspirou e fez carinho no casco de uma tartaruga, procurando no animal uma resposta para seu problema. De repente, ele ficou receoso por ter que passar tantos meses fora de casa.

À noite, por hábito, Jungkook deixou sua janela destrancada. Havia muito tempo que ele tinha começado a conseguir dormir assim que se deitava na cama, então não ficou olhando para o teto como da primeira vez que tinha ido visitar.

Só que, quando estava prestes a pegar no sono, um peso extra em sua cama o acordou.

Príncipe Taehyung estava sentado de pernas cruzadas na beira da cama de Jungkook com um sorriso enorme no rosto, agindo como se nada tivesse acontecido, como se eles tivessem voltado no tempo e fosse a primeira vez que ele estivesse ali.

“Taehyung?”

“Oi, Jungkook.” Taehyung abriu um sorriso de canto e mexeu suas sobrancelhas para cima e para baixo, claramente se divertindo com a situação. “Sentiu minha falta?”

A expressão no rosto de Jungkook devia estar hilária, porque a risada que Taehyung soltou depois do silêncio que recebeu como resposta saiu do fundo de seu peito.

“Senti!” Jungkook franziu o cenho e jogou as cobertas para o lado, engatinhando de forma desesperada em direção à Taehyung, que já estava de braços abertos o esperando. “Óbvio que senti sua falta, mas eu achei que você tinha se esquecido de mim!”

Taehyung ainda estava rindo quando Jungkook se jogou em seus braços, falando um milhão de coisas ao mesmo tempo sobre como isso não se faz, mas eles estavam felizes. Eles estavam juntos depois de meses, só eles dois, e era tudo que importava.

“Desculpa ter agido com você daquela forma hoje.” Taehyung colocou um pouco do cabelo de Jungkook para trás, buscando ver cada detalhe de seu rosto. “Eu quis te assustar um pouquinho.”

Pouquinho?” Jungkook se afastou de Taehyung, ainda indignado com a história. “Eu achei que você tinha se esquecido de mim, eu passei o dia inteiro andando pelo palácio me perguntando o que eu tinha feito de errado, se eu tinha feito alguma coisa de errado, eu–”

Por mais que Jungkook ficasse adorável quando estivesse falando uma porção de coisas ao mesmo tempo, Taehyung precisava fazer com que ele ficasse quieto e se acalmasse. Então, logicamente, a única solução para aquele problema era puxar o rosto do garoto mais novo e beijá-lo, colocando todos os sentimentos que ficaram reprimidos por meses em um simples gesto.

“Agora que você vai ficar aqui por uns meses, nós vamos ter tempo para nos conhecer melhor.” Taehyung separou o beijo para falar, mas Jungkook era impaciente e só concordava com a cabeça, procurando os lábios do príncipe novamente. “Namorar, ficar horas com as tartarugas, beijar, eu quero te beijar muito—”

“Beijos, beijos, muitos beijos.” Jungkook roubou um selinho de Taehyung, mas o outro homem o afastou. “Nós podíamos começar a parte dos beijos agora, tem uma cama enorme aqui só nos esperando!”

“Eu quero falar com você primeiro.” Taehyung acariciou a bochecha de Jungkook, fazendo o garoto mais novo fechar os olhos e apreciar o toque. “Saber mais sobre você. Nós temos tempo agora.”

Na imaginação de Jungkook, passar uns meses no palácio da família Kim seria bom, mas na realidade, estava sendo excelente. Ele ainda tinha suas responsabilidades e precisava comparecer a diversas reuniões entediantes, mas só de saber que Taehyung apareceria em sua janela no meio da noite, cada reunião e cada acordo que ele fazia estava valendo totalmente a pena.

Com a convivência ali, Jungkook passou a enxergar Namjoon não só como o herdeiro do trono, mas também um irmão mais velho que ele sabia que poderia depositar sua confiança. Muitas vezes, quando Taehyung estava ocupado em alguma reunião ou provando roupas, os dois sentavam e conversavam sobre a vida – sobre como era carregar o peso de ser o próximo rei, sobre as responsabilidades de ser quem era, sobre como era cansativo.

Namjoon não era de reclamar. Taehyung havia dito que admirava muito seu irmão por aguentar tudo que o mundo jogava nas costas dele, mas que às vezes ele precisava falar sobre o que pensava. Jungkook descobriu que era uma pessoa que podia ouvi-lo, principalmente porque o ouviria sem olhar torto ou julgá-lo.

Nem um mês ali, e Jungkook já se sentia em casa. O rei Kim era um homem agradável de se conviver, apesar da postura séria e inteligência que era demonstrada em cada palavra dita. Ele, ao contrário de seu próprio pai, o tratava como um filho quando todos podiam esquecer dos títulos que carregavam. Namjoon era o irmão mais velho que Jungkook nunca teve. Parecia que tudo que saía de sua boca era repleto de sabedoria, e o garoto precisava admitir, ele se sentia um pouco intimidado quando falava com alguém tão inteligente.

Agora, Taehyung. Ele fazia Jungkook se sentir em casa de uma forma que ele nunca havia sentido antes. Nem mesmo no palácio de sua família, em seu país, dentro de seu quarto ele se sentia tão confortável. A risada de Taehyung, seus beijos e o jeito como ele se comportava tinham algum feitiço que fazia Jungkook gostar dele cada vez mais. Talvez seus sentimentos estivessem crescendo demais de maneira muito rápida, mas aquilo deixava de ser uma preocupação quando Taehyung se agachava e pegava uma flor do chão para colocar atrás da orelha de Jungkook.

Ele arriscaria dizer que estava apaixonado. Na verdade, Jungkook não sabia exatamente o que era paixão – ele só ouviu as histórias de sua mãe quando era pequeno, quando a mulher dizia que era apaixonado pelo seu pai. Ela sorria quando dizia aquilo, olhava para o até então príncipe coroado, suspirava e soltava uma risada enquanto olhava para seu próprio colo. Jungkook devia ter perguntado como ela se sentia por dentro quando dizia que era apaixonada, acabaria com a confusão que o perturbava quando pensava em seus sentimentos.

“A guerra está para começar.”

Jungkook estava em transe, pensando no cheiro da pele de Taehyung, quando as palavras do rei Kim o despertaram para a realidade. Todos no salão ficaram em silêncio, desde o príncipe coroado até os oficiais de guerra que haviam sido convocados. A guerra estava para começar, e Jungkook estava apavorado. Seria a primeira que ele presenciaria e veria de perto. Agora ele tinha que pensar juntos com os outros oficiais uma maneira de vencer não só uma batalha, mas todas. Agora ele entendia que ter aquele país como aliado era vantajoso, mas ainda assim, confrontos eram confrontos, e não era possível sair completamente ileso de um.

“Você sabe que não precisa ficar com medo, certo?” Taehyung disse com a voz baixa, rolando na cama e ficando de barriga para baixo para ter uma visão melhor do rosto de Jungkook. “Meu pai e meu irmão são bons nessa coisa de guerra. Eles sabem o que fazem, nós nunca perdemos uma batalha.”

“Eu sei, só que ainda dá medo.” Jungkook murmurou olhando para o teto. Ele não queria encarar Taehyung agora, não quando estava sentindo tanto medo e ele estava tão tranquilo. “Nunca dá para saber o dia de amanhã. Não dá para saber se amanhã vocês vão perder uma batalha, é tudo muito incerto.”

A respiração de Jungkook estava pesada. A reunião de mais cedo tinha o assustado, e mais uma vez ele desejou voltar a ser criança. Ele só queria voltar para o seu palácio e passar a tarde toda conversando com Hoseok e Seokjin, queria alimentar os patos e talvez fazer uma brincadeira com um dos servos. Colocou as mãos no rosto e tentou repassar memórias de sua infância, de quando ele não tinha preocupações. Quando não precisava ter medo de perder seus amigos na guerra, quando não precisava pensar na possibilidade de uma guerra.

“Jungkookie.” Taehyung disse com a voz séria, e Jungkook só quis ficar em posição fetal para não ter que ouvir o que ele tinha para dizer. Ele sabia que à noite era o único momento que eles tinham para ficar completamente sozinhos, mas Jungkook estava quase o pedindo para ir embora. “Tem razão, o futuro é incerto. Mas pensar que tudo vai dar errado quando tudo só tem dado certo até agora não faz sentido. Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem, sua família vai ficar bem.”

“Eu não quero te perder na guerra.” Jungkook murmurou.

Taehyung soltou uma risada fraca e aproximou seu rosto de Jungkook, roubando um beijo rápido e acariciando sua bochecha.

“Você não vai me perder em circunstância alguma, Jungkook.”

Passar um tempo longe de casa estava fazendo Jungkook descobrir uma porção de coisas novas. Ele descobriu o medo, a insegurança, a incerteza. Descobriu que por mais que se preparasse para qualquer coisa que suas responsabilidades pudessem trazer, ele nunca estaria cem por cento preparado. Por fora, Namjoon parecia pronto para qualquer coisa, mas por dentro, Jungkook sabia que ele estava com medo assim como ele. Mesmo com o histórico impecável de sua família, Namjoon ainda deixava o pequeno ‘e se’ atormentar seus pensamentos.

Além disso, Jungkook também estava descobrindo sentimentos positivos. Ele descobriu que não precisava que sua mãe o explicasse o que era paixão, porque cada vez que olhava para Taehyung, sabia que era aquilo que estava sentindo. Ele descobriu que o conforto que Taehyung trazia em sua vida era algo que ele nunca teve antes, e nunca mais teria em outra pessoa. Com Taehyung, Jungkook descobriu algo que ele achou que nunca fosse sentir em toda sua vida: amor.

“Nós estamos namorando há dois meses ou um ano?” Taehyung perguntou em uma noite que eles resolveram sair da cama para apreciar o céu. “Porque nós nos beijamos daquela vez que você veio aqui um ano atrás, mas nós só nos conhecemos de verdade agora que você voltou.”

“Isso importa?” Jungkook perguntou dando de ombros, e Taehyung refletiu. Bom, se ele havia perguntado, era porque importava, mas ele não teve tempo de responder antes de Jungkook voltar a falar. “O que importa é que nós vamos ficar juntos para sempre, ok? Daqui a alguns anos, você vai morar comigo. Vamos ser casados e vamos viver com tudo do bom e do melhor, o que me diz?”

“Eu não posso te dar um herdeiro para o trono, futuro rei Jeon.” Taehyung arqueou uma sobrancelha desafiando o garoto, mas com medo da resposta que poderia ouvir. “Eu não sei se você se lembra, mas assim como você, eu também sou homem.”

“É para isso que os irmãos servem.” Jungkook deu de ombros e não percebeu o suspiro de alívio que Taehyung soltou. “Eu não me incomodo se o rei depois de mim não for meu filho.”

“Então,” Taehyung respirou fundo e parou para pensar em um futuro com Jungkook ao seu lado. Ele não se incomodaria de ir para o país vizinho, contanto que fosse para ficar com o homem que amava. “Vamos ficar juntos mesmo? Para sempre? Daqui a muitos anos, quando você nem for mais rei, nós vamos aproveitar o palácio como dois velhinhos apaixonados?”

“Sim, Tae.” Jungkook soltou uma risada fraca e deu um beijo na bochecha de Taehyung, que segurou o braço do garoto com um pouco mais de força para demonstrar seu afeto. “Dois velhinhos apaixonados.”

Jungkook também descobriu que amor poderia ser demonstrado de diferentes formas.

Às vezes, apenas andar de mãos dadas significava amor. Às vezes, beijos escondidos atrás das enormes pilastras do salão de reuniões significava amor. Às vezes, só ficar na companhia um do outro em um dos lagos brincando com as tartarugas significava amor. Jungkook gostava de viver cada momento desses, mas com o tempo, ele descobriu sua demonstração de amor favorita.

Quando Taehyung segurava sua mão e a apertava com força, perguntando se podia se mexer, era amor. Quando Taehyung completava Jungkook e gemia baixo seu nome com medo de que alguém pudesse ouvir, era amor. Quando Taehyung o olhava nos olhos e fazia promessas de que ficariam juntos para sempre, era amor. Cada toque de Taehyung era uma forma de expressar amor, e Jungkook queria ser amado por ele pelo resto de sua vida.

Jungkook sempre arrumava um problema quando ficava aéreo no meio de reuniões de guerra. Depois que ele e Taehyung fizeram amor pela primeira vez, era muito mais fácil se distrair e pensar em tudo que tinha acontecido na noite anterior. Só que a guerra estava ficando cada vez mais próxima, alguns ataques a pequenas cidades já aconteciam e Jungkook não tinha como não prestar atenção.

“Você estava em um universo paralelo durante a reunião.” Seokjin disse enquanto encarava o lago, suas sobrancelhas unidas no centro e uma expressão séria no rosto. Jungkook nunca havia o visto daquele jeito. “Isso é sério, Jungkook. Você é o príncipe coroado, nosso país está para entrar em guerra. Com dezenove anos você não tem mais idade para brincar, sua vida agora é isso.”

“O país do Tae nunca perdeu uma batalha.” Jungkook disse fazendo biquinho, parecendo extremamente com uma criança. Ele quis retirar o que disse no momento em que as palavras saíram de sua boca, mas era tarde demais.

“País do Tae? Jungkook!” Seokjin se virou para encarar o amigo, que já tinha fechado os olhos esperando a bronca que ia levar. “Seu namoradinho nem é o príncipe coroado, esse país não é dele. Você não veio para namorar, você veio para falar de guerra!”

“Eu não quero falar de guerra!” Jungkook gritou, e novamente se arrependeu do que havia dito. Alguns servos que cuidavam da área paralisaram por alguns segundos, mas voltaram ao trabalho logo em seguida, fingindo que não estavam escutando. “Eu não vim para cá querendo falar de guerra, eu só vim por um motivo.”

“Mude seu motivo então.” Seokjin se levantou do banco onde eles estavam sentados com uma expressão fria, e Jungkook quis mais do que nunca voltar no tempo. “Eu vou participar de um ataque semana que vem, Jungkook. Isso é real, está acontecendo. Você não pode viver num mundo de amor e fantasia com o príncipe para sempre. Eu lamento.”

Jungkook sabia que não. Ele só queria acreditar que conseguiria.

As visitas do pai de Jungkook ao rei Kim ficaram muito mais frequentes com o início da guerra. Nenhum dos príncipes via a parte feia acontecendo, mas eles ouviam as notícias, compareciam às reuniões e prestavam atenção nas palavras dos oficiais. Era assustador. Só de ouvir aquilo tudo era assustador, eles não conseguiam imaginar como seria fazer aquilo tudo acontecer com as próprias mãos.

Namjoon estava mais distante do que nunca. Ele passava horas e horas trancado na biblioteca lendo sobre antigas estratégias de ataque, e quando não estava lendo, estava em seu quarto escrevendo e montando planos que algum dia poderiam ser usados. Namjoon era dedicado de uma forma que Jungkook deveria ser, mas não queria, não conseguia. Ele se perguntava se o rei Jeon via aquilo acontecendo e pensava que gostaria que seu filho fosse melhor.

Taehyung ainda estava por perto fisicamente, mas Jungkook conseguia perceber que sua mente estava distante. Logo ele que dizia que não havia com o que se preocupar, que sua família nunca havia perdido uma batalha. Era perceptível que ele estava pensando em um milhão de coisas diferentes quando estavam juntos, e Jungkook queria fazer algo para ajudar, só não sabia o que.

Às vezes, Jungkook se perguntava se ele era tão bom para Taehyung quanto Taehyung era bom para ele. Especialmente em momentos como aqueles, quando o príncipe Kim estava aéreo mesmo na presença de Jungkook, ele queria saber se era o suficiente, se o deixava feliz da forma como Taehyung deixava Jungkook feliz, se o que ele podia dar de si era o bastante para deixa-lo em paz.

“Você anda pensativo demais.” Jungkook comentou uma noite. Ele sentiu a perna de Taehyung mexer-se um pouco contra a sua, mas não disse nada, esperando que seu namorado dissesse alguma coisa.

“Você me fez pensar.” Taehyung se mexeu mais um pouco, quase fazendo o lençol de seda cair. Não que eles precisassem esconder alguma coisa um do outro, mas Jungkook não gostava de ficar muito exposto. “Sobre a guerra.”

“Eu não queria te preocupar.” Jungkook pousou uma mão na bochecha de Taehyung, acariciando o local com seu dedão. O homem fechou os olhos por uns segundos e pensou em tudo que estava acontecendo. “Eu estava assustado, mas você me assegurou de que vai ficar tudo bem–”

“Eu conversei com meu pai e meu irmão, Jungkook.” Taehyung se afastou do toque do namorado e se colocou de bruços na cama, escolhendo encarar o travesseiro ao invés do garoto ao seu lado. “Eles estão com medo. Os números para essa guerra estão alarmantes, nunca viram nada parecido antes, eu mesmo vi os registros e realmente é assustador, eu não sei o que eu faria se eu te per–”

“Nós não vamos pensar nisso.” Jungkook interrompeu Taehyung antes que ele pudesse terminar sua frase. “Nós só vamos pensar em ir para o meu palácio, casar, e envelhecer juntos. Nada além disso.”

“Então me promete que eu não vou te perder.”

Jungkook queria prometer, mas ele sabia que não podia. Taehyung também sabia que ele não podia, mas queria ouvir algo para assegura-lo de qualquer maneira. A promessa não foi feita – Jungkook optou por beijar Taehyung e fingir que aquilo era suficiente.

Com a guerra, vinha a morte. Todos os dias Jungkook acordava com medo de receber a notícia de que Seokjin ou Hoseok haviam morrido, e todos os dias se deitava com medo do que poderia ouvir no dia seguinte. Ele tentava se concentrar em ser feliz com Taehyung, mas os números só cresciam, as batalhas estavam chegando no país e eles já ouviam os cochichos pelos corredores falando de quantos civis haviam morrido em uma cidade perto do litoral.

Jungkook estava vendo seu pai com menos frequência porque o rei precisava ficar em seu país para se preparar para possíveis ataques. Até mesmo o rei Kim parecia mais distante – ele já não era mais tão visto andando pelos corredores, geralmente passava seu tempo falando com oficiais de guerra em salões enormes onde nem ele nem Taehyung podiam entrar.

Era agoniante viver sabendo que as chances de algo ruim acontecer a qualquer momento eram enormes.

Algo como Hoseok se ferir gravemente em uma batalha.

Jungkook não pensou duas vezes antes de arrumar suas coisas para visitar o amigo. Taehyung estava sentado na cama assistindo a tudo com uma expressão preocupada no rosto, querendo dizer alguma coisa, mas sem coragem para colocar tudo para fora. Algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Jungkook e ele estava quieto – andando de um lado para o outro, colocando tudo dentro de uma bolsa.

“Eu preciso vê-lo.”

Taehyung não respondeu.

“Eu preciso ver o Hoseok, eu sabia que uma hora isso ia acontecer!” Jungkook parou o que estava fazendo e passou as mãos pelo cabelo, tentando colocar seus pensamentos em ordem. “Eu preciso voltar para casa, ver meu pai, ver meu amigo, eu preciso–”

“Eu não acho que seja uma boa ideia você sair do país agora.”

Jungkook congelou. Ele olhou para Taehyung completamente indignado com o que tinha acabado de ouvir. No fundo, ele sabia que era uma má ideia sair do palácio, quem dirá do país. Mas o medo de perder seu amigo estava o cegando, e Jungkook não aceitaria que dissessem aquilo para ele.

“Não é uma boa ideia eu deixar o Hoseok sozinho agora!”

“Jungkook, escuta.” Taehyung se levantou e caminhou em direção ao namorado, que se afastou na mesma hora. “Me escuta, estamos vivendo uma situação muito séria, você não é só um civil para poder desfilar assim por aí.”

“Eu preciso ver meu amigo.” Jungkook murmurou.

“Você corre risco de vida se sair desse palácio!”

“Meu amigo também corre risco de vida.”

“Nós não vamos envelhecer juntos se você voltar para casa agora, Jungkook!”

Aquelas palavras deviam ter feito Jungkook parar para refletir. Ele ainda conseguia enxergar um futuro muito distante ao lado de Taehyung, mas ele também queria que seus amigos estivessem por perto para ver tudo acontecendo.

Jungkook pegou sua bolsa e saiu do quarto em passos fortes, Taehyung o seguindo e ainda tentando impedi-lo de ir com palavras que ele sabia que seriam inúteis. Jungkook estava determinado a ir visitar Hoseok, e nada tiraria aquilo de sua cabeça.

As pessoas estranhavam ver dois príncipes correndo pela cidade em direção ao porto. Jungkook era rápido demais mesmo com o peso de sua roupa e de sua bolsa, e infelizmente Taehyung não conseguia alcança-lo, não importava o quanto corresse. Nunca haviam se sentido tão cansados daquela forma, mas não conseguiam parar – e no caso de Jungkook, não queria parar.

“É sua última chance.” Taehyung apoiou suas mãos no joelho e tentou estabilizar sua respiração depois de tanto correr. O capitão do navio da família Kim encarava a cena de longe, pronto para partir a qualquer momento, bastava que Jungkook ordenasse. “Nós podemos voltar para o palácio agora e fingir que nada disso aconteceu. Nós podemos–”

“Eu te amo, Taehyung.” Jungkook o interrompeu, fazendo Taehyung olhar para cima no mesmo segundo. Seus olhos estavam arregalados, e Jungkook não sabia decifrar sua reação. “Mas eu também amo meu amigo, e ele precisa de mim agora.”

“Eu também te amo.” Taehyung assentiu e olhou para baixo, sua voz ficando embargada. Naquele momento, Jungkook quase decidiu que seria melhor se ele ficasse. “Eu também te amo, mas por favor, não vai embora.”

Jungkook ficou grato por não ter prometido que Taehyung não iria perde-lo. Ele ficou grato por pelo menos ter dito que o amava antes de entrar no navio. Ficou grato por eles terem dado um último abraço, cheio de carinho e carregando palavras que eles não conseguiram dizer nos meses em que passaram juntos.

E teria ficado grato de saber que nunca se tornaria rei.

Taehyung dormiu no quarto de Jungkook naquela noite. Quer dizer, ele tentou. O cheiro do garoto estava o deixando com saudades mesmo que estivessem separados havia apenas algumas horas. Sua cabeça estava a mil, suas lágrimas não paravam de escorrer por seu rosto nem por um segundo, molhando toda a cama e os lençóis de seda.

Foi só uma questão de tempo até Taehyung receber a notícia de que Hoseok estava se recuperando bem sob os cuidados dos médicos da família Jeon.

E de que o navio da família Kim havia sido abatido durante a noite perto do país da família Jeon, matando não só o capitão e a tripulação, como também o príncipe coroado, Jeon Jungkook.

Taehyung nunca mais deixou que alguém entrasse no quarto de Jungkook.

Nunca mais deixou que lavassem os lençóis de seda que poderiam contar toda sua história com o homem que ele amava, mas nunca mais veria.

A família Kim não perdeu a guerra. Não perderam uma batalha sequer.

Mas Taehyung sentia como se tivesse perdido tudo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!