Notas iniciais
Boa leitura galera! Agradecida.

Mais um dia dos namorados.

Novamente, a maior parte da população toma o dia todo junto de seu parceiro para enche-lo de presentes, carinhos e mimos.

E cartões, é claro.

São todos estúpidos.

Os cartões, eu digo.

Sempre a mesma mensagem... Não transferem toda a verdade... Nenhum relacionamento é tão perfeito como em um cartão. Cartões sobre o dia dos namorados transmitem tudo que não se vê em um relacionamento hoje em dia. Tudo em excesso. Exagerado demais?

Quero dizer, porque não se declarar para a pessoa todos os dias? Porque não dizer o que está escrito nos cartões pessoalmente? É bem mais bonito. Ou somente em um cartão há um significado? Depois, ele é guardado em uma caixinha de lembranças e esquecido junto com as memórias da infância. Ou, só o pegam novamente para jogar fora, quando o relacionamento termina.

Hoje vivemos em uma sociedade liquida. Relacionamentos não duram, amizades não duram, vida não dura e as cores do cabelo dela não duram por muito tempo.

Tão sem graça.

É triste dizer, mas, nessa época do ano, especialmente, eu pertenço a bares da cidade. Não é uma coisa tão boa de se fazer. É claro que eu não me orgulho disso também. Olhe pra mim, um careta ficando alcoolizado nos bares? Patético. Mas assim, sinto que essa data passa-se bem depressa...

Como dito, dia dos namorados, cartões... Cá estou eu. Em um bar, vendo baseball pela tv, rodeados de pessoas. Algumas bêbadas, outras sorrindo e conversando como se tudo em suas vidas fossem maravilhoso. Talvez seja. Mas ninguém é tão feliz. Não podem ser...

É engraçado como tentamos nos parecer a melhor pessoa do mundo na frente de quem admiramos ou de quem queremos que nos admirem. Uma besteira. Pra depois descobrirem que você tem um emprego comum como vendedor de carros no centro da cidade, onde os clientes não vão porque há lugares onde outros vendedores sorriem, mesmo sabendo que a comissão não salvará sua vida, mora sozinho com um gato em um apartamento de três andares, come espaguete todas as sextas no jantar e comida enlatada no resto da semana.

É realmente triste pensar em todas essas pessoas e como cada um tem uma rotina e como ela é.

Mas estão aqui. Eu estou aqui.

***

— Então, porque está aqui?

— Gosto da bebida.

— Besteira.

— Verdade. Há bebidas boas aqui.

— Besteira. Há em todos os outros bares.

— Não, não há.

— Conte-me a verdade, Joel.

—... Gosto daqui. Especialmente daqui. Não sei porque. Bebidas são todas iguais. Todas tem álcool, todas me fazem pensar, e pensar, e pensar e pensar... Não gosto do meu emprego. Não gosto mais do meu carro. Desisti de concerta-lo. Gosto de observar as pessoas.

— E porque observar aqui?

— Porque gosto de pensar que consigo ler cada uma delas.

— Ok, porque aqui? Neste bar... Em Montauk?

—... Eu não sei.

— Joel?

—... É Montauk... Eu acho.

— Joelly?

— Porque você vem aqui. Porque adora esse bar. Porque só eles fazem o seu coquetel favorito. E como você vem sempre, sempre aqui, os garçons fazem o seu coquetel pela cor do seu cabelo. E você se acha tanto... Porque eles ficam tão fortes e tão coloridos... Tão vivos, como seu cabelo. Porque você gostava de olhar para as pessoas da mesa do fundo e imaginar que merda eles fizeram no passado, e o motivo de estarem nesse bar agora. As vezes ficávamos dublando essas pessoas. Era engraçado. Você era engraçada. E talvez eu esteja cansado de concertar o meu estupido carro...

— E?

— Gosto de tentar ver as coisas através dos seus olhos.

— Você não me suporta Joelly.

— Oh, claro que suporto... Eu adoro você.

***

Ouço os gritos e gargalhadas dos caras sentados na mesa ao fundo que vem ao bar com os amigos para assistirem e vibrarem a um jogo estupido, porque nenhum deles suporta a pessoa com quem é casado. Principalmente porque essa pessoa quer ver a novela na hora do seu jogo favorito que você tem esperado a semana toda para poder assisti-lo.

Há um riso feminino no meio de todo o bar que não deixa de me chamar atenção.

Ele se mistura com o de outras pessoas.

Ela fala tão empolgadamente.

Fala com os lábios e com as mãos.

Com o seu coquetel azul.

E o seu cabelo azul.

Ela é tão descontrolada.

Não sabe se come os salgadinhos servidos a mesa, ou se bebe a sua bebida, ou se fala com as mãos.

Ou se fala de boca cheia.

Ela é tão sem classe.

Ela me confunde. Muito.

Ela me lembra alguém.

Seus amigos apreciam-na, cheios de sorrisos “Conte-me, como está se sentindo sendo tão maravilhosa” ... Ridículo.

Eu deveria ter dado os estúpidos cartões... Mas eu os acho tão estúpidos. Acho que talvez ela adoraria ter ganho um ou dois... Só para se gabar para seus amigos de como igual a todo mundo ela é. Mas não. Não ela não é.

E agora aqui, olhando para essa mulher...

Olha só esse cabelo...

Quantas dela existem por ai?...

Olha só para ela... Falando com as mãos...

***

— Está me observando?

Ela pergunta enquanto se concentra na tv.

— Desculpe? –Eu não entendo como de repente ela estava de pé ao meu lado.

— Pode me trazer outro coquetel, Charlie? Você está me observando. –Ela sorri enquanto se senta ao meu lado.

— Oh... Mesmo? Me desculpe. Eu não quis...

— Sim, você quis. –Ela estende a mão para o coquetel que Charlie, o garçom, vem trazendo sob a bandeja.

— Faça um para o meu amigo aqui.

— Eu estou bem, obrigada. –Digo tentando recusar, mas ela insiste e Charlie sorri ao fazê-lo.

— Você é daqui?

— Quem me dera.

— Porque?

— Eu adoro esta cidade.

— Porque não se muda pra cá então? –Ela pega um canudo do bar e coloca em seu coquetel.

—... Ah...

— Qual o problema? –Ela diz depois de um bom gole.

— Nada é só... Eu não sei. Gosto do meu apartamento.

— Gosto de apartamentos. Você tem gatos?

— Não...

— São lindos. Deveria tem algum...

— Bom...

Há um silencio então. Charlie traz o meu drinque, mas me sinto estranho para aceita-lo.

— Gosta de jogos de baseball? –pergunto.

—... São interessantes. –Ela continua bebendo sua bebida como se fosse uma criança.

— Sim, de certa forma.

— Porque estava me observando?

— Como?

— Estava olhando pra mim. Como se me conhecesse.

— ... Gosto do seu cabelo... Quero dizer... Conheci alguém uma certa vez aqui em Montauk. Ela me lembra você.

— Oh! Mesmo? –Ela parecia surpresa e alegre.

— Sim. Mas já faz algum tempo. Eu não me lembro muito bem... O cabelo, me chamou a atenção. Seu cabelo também tinha essas cores... São cores vivas. É bem bonito.

— Que bacana! Bem, obrigada! –Ela diz empolgada e com um grande sorriso. Parece ter apreciado o que eu acabei de dizer. — Ei, qual o seu nome? –Ela continuou.

— Joel.

— Joel... Sou Clementine, Joel. Obrigada pelo elogio. Eu dou nome para as cores.

— Você dá nome para as cores das tintas de cabelo?

— Isso mesmo.

— Bom isso é... Ah, legal. Eu acho –tento um sorriso, mas ela percebe que me sinto incomodado. E de alguma forma ela não se importa.

E eu não me importo... Se pelo menos eu me lembrasse de todas as coisas.

— Obrigada Joel.

— Obrigada pelo o que? –pergunto confuso.

— Por não fazer piadas com o meu nome.

— Não pensei em nenhuma piada com o seu nome.

— Dom quixote?

— Como?

—Ela começa a cantar: -“Oh querida, oh querida, oh querida Clementina...” Esse tipo de piada.

— Oh! –lembrei- Não pensei nisso. Desculpe.

— Tudo bem. Gosto quando fazem também. Algumas são boas.

— Sabe Joel, você também me lembra alguém.

Quando me dei conta estávamos conversando sobre várias coisas estupidas e sem sentido. Ela não me convenceu a ter um gato.

Estou tendo aquelas sensações de desconforto de novo, mas ao mesmo tempo sinto que isso seja algo velho. Os borrões continuam, mas tento ignora-los. Talvez seja algo que eu já tenha visto antes. Já tenha presenciado antes. Toques, o riso, o cabelo...

É o que eu mais me lembro dentro de tudo.

Deveria vir mais a Montauk. Mas eu já venho quase toda a semana...

Não gosto de mudanças demais. Elas me chateiam.

Mas gosto do bar, e eu sei porque...

Porque eu tento enxergar tudo ali, através de algum par de olhos que eu me lembro de ter perdido por ai. Eu sei que perdi. Porque todas as vezes que entro aqui, eu ouço o riso, vejo alguma cor forte, e colorida no meio das pessoas. Apenas um vulto... E eu sei que é esse alguém. Eu sei que no fundo da minha mente, alguém por aqui, deixou uma xícara quebrada em minha cozinha...

Alguém por aqui, é tão bagunçado quanto eu, é tão insuportável a ponto de eu querer me esforçar para lembrar... Mas eu só consigo me lembrar das cores do cabelo. Todas elas, é tudo sobre essas cores.

Notas finais
E então? Comentários são muito bem vindos! ♥ Eu realmente adoro escrever essas coisinhas, e todos esses textos me lembram de brilho eterno. Espero escrever mais! Ah, eu imagino que tenha ficado um pouco confuso... Mas essa era a intenção ;) lembrar ou não lembrar? conhecer ou não conhecer? Obrigada pela leitura amores!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!