Algo Mais Em Um Detalhe
1 Capítulo único
Notas iniciais
– Ai, droga! – praguejou ao bater o dedo mindinho na porta do banheiro ao abri-la com pressa e muita má vontade, amaldiçoando quem quer que fosse o infeliz que apertava ininterruptamente a campainha há quase três minutos, atrapalhando seu merecido e relaxante banho depois de um longo dia de trabalho. – Já vai, já vai! – gritou ao alcançar o pequeno corredor ainda terminando de enrolar a toalha de qualquer jeito na cintura, logo chegando até a porta e destrancando-a, abrindo-a em seguida – Izaya...?! – ficou um pouco surpreso por encontrar o informante ali em sua porta, não que o fato de Izaya aparecer por ali fosse alguma surpresa, mas naquele dia em específico, era ele quem pretendia ir até a casa do moreno, ou melhor, voltar à casa do moreno.
– E quem mais poderia ser? – retrucou o informante com seu típico tom irônico – Ou por acaso o Shizu-chan estava esperando outra pessoa? – fingiu um tom escandalizado e logo depois um magoado – Shizu-chan está tendo um caso, é isso?! Quer dizer então que... que não me ama mais? – continuou com o teatrinho, fingindo até mesmo um soluço – E todas aquelas promessas? Todas as juras de amor? Todos aqueles passeios românticos ao pôr-do-sol?
– Tsk! – o loiro rangeu os dentes e deu meia volta, refazendo o caminho até o banheiro e deixando o moreno ali, ainda na porta, se desfazendo em sonoras gargalhadas por ter alcançado seu objetivo: irritá-lo!
A toalha que envolvia sua cintura foi deixada de qualquer jeito sobre a privada antes que o guarda-costas adentrasse novamente o box e ligasse o chuveiro, deixando que a água aquecesse e relaxe seu corpo por algum tempo, não muito, o fato de Izaya estar ali, em seu apartamento, o deixava ansioso; queria tocá-lo, abraçá-lo, beijá-lo, envolvê-lo completamente em seus braços e talvez estrangulá-lo um pouco, só um pouco... Mas a sua ansiedade, em grande parte, se dava ao fato de não saber qual seria a resposta de Izaya à proposta, um tanto desajeitada, que lhe havia feito ainda naquela manhã. O informante sempre lhe dizia que era imprevisível, não discordava dele; mas Izaya não era muito diferente, principalmente quando sentimentos estavam envolvidos, não tinha certeza se a reação dele seria positiva ou não àquela proposta que seria um grande passo na relação deles. Mas se Izaya havia ido até ali, era um bom sinal, certo?
Suspirou. Nada era certo se tratando de Izaya.
Vestiu-se e terminou de secar os cabelos, acabando por penteá-lo com os próprios dedos. Sorriu. Nunca se importou muito com a própria aparência e Izaya sempre o repreendia por isso, alegando que seu cabelo parecia um ninho de pássaros e tentando ajeitá-lo com os próprios dedos. Acabou adquirindo essa mania com o passar dos anos.
Quando chegou na sala o cheiro de comida recém-preparada lhe invadiu o olfato; seu estômago protestou alto, lembrando-o que não comia nada desde o almoço. Apenas três passos foram necessários para chegar à cozinha, deparando-se com variados pratos perfeitamente arrumados sobre a mesa, fazendo-o se questionar por quanto tempo havia ficado pensando em seu relacionamento com Izaya.
– Oh, já não era sem tempo Shizu-chan. Termine de pôr a mesa pra mim, sim? Já está quase pronto. – disse o moreno assim que o viu, nada em suas atitudes denunciando qual seria sua resposta.
O jantar transcorreu normalmente, bom, normalmente para os padrões deles, havia rosnados, xingamentos, provocações, risadas sarcásticas e algumas louças quebradas, nada fora do comum, e talvez, justamente por isso, a incerteza e a ansiedade pela resposta de Izaya o estavam consumindo por dentro; estava louco pra saber a resposta mas ao mesmo tempo tinha receio de tocar no assunto, sabia que havia a possibilidade de levar um grande ‘não’ seguido de uma risadinha desdenhosa. Tsk. Por que gostar de Izaya tinha que ser tão complicado?
Quando terminaram de jantar o loiro foi até a geladeira e pegou o pequeno bolo de morango e baunilha que havia comprado ao sair do trabalho, pretendia levá-lo consigo quando fosse até a casa de Izaya, mas como o moreno se antecipou a sua visita, comeriam ali mesmo. Aquele era um bolo simples, já que o aniversariante não era fã de doces, se tornava quase como um gesto simbólico, praticamente uma tradição, ao qual o loiro sempre cumpria desde o início daquele relacionamento, e isso era algo que Izaya achava extremamente adorável, mesmo não dando a mínima para o doce.
– Não vai cantar o “Parabéns” Shizu-chan? Como vou assoprar as velinhas sem uma trilha sonora? – perguntou debochado.
– Tsk. A única trilha sonora que vai ouvir são os seus ossos se quebrando depois que eu te jogar pela janela. – resmungou apenas por hábito.
O informante riu e partiu o bolo, pondo uma grande fatia para o loiro e uma pequena e fina para si, apenas para provar mesmo, o restante seria comido por Shizuo depois ou talvez no dia seguinte, era sempre assim.
– O que foi?
– O que foi o quê?
– Por que está me olhando tanto? – perguntou o ex-barmen. Izaya, após terminar sua fatia de bolo, simplesmente havia se posto a observá-lo, de uma forma, inclusive, muito semelhante a que havia feito com ele naquela manhã.
– Gosto de olhar pra você. – foi a resposta simples, porém sincera, do moreno.
– Tsk. Faça como quiser. – resmungou um pouco constrangido, não necessariamente por causa das palavras, mas sim pela veracidade contida nelas. Continuou comendo o bolo, mas o olhar de Izaya cravado em si não era algo que dava pra ignorar tão facilmente. – Droga, Izaya, fala de uma vez!
– Falar o quê, Shizu-chan?
Shizuo estreitou os olhos ao notar o quase imperceptível sorriso no canto dos lábios finos do moreno. Aquilo era apenas provocação, ou melhor, vingança pelo que havia feito pela manhã. Izaya estava fazendo aquilo apenas para torturá-lo, e admitia que aquela brincadeira não era nada divertida agora que estava do outro lado, principalmente por que, no seu caso, esperava ansiosamente por uma resposta. Contudo, paciência nunca foi uma das virtudes do loiro.
– Qual a sua resposta? – foi direto, não gostava de rodeios.
– Resposta do quê, Shizu-chan?
– Izaya! – o loiro disse sério, deixando claro que a brincadeira havia acabado.
– Shizu-chan não é nada divertido. – fez bico, inclinando a cabeça pro lado e apoiando-a na mão direita – E também não é nada inteligente. – provocou.
– Oe, pulga!
– Por que se fosse – continuou o informante, ignorando o protesto do guarda-costas por conta da ofensa – já teria percebido que eu já dei a minha resposta. – disse calmamente.
Shizuo o encarou confuso, tentando se lembrar de algum momento no qual o moreno pudesse ter lhe respondido sem que se desse conta, mas nada lhe veio a mente. Estava prestes a pedir maiores esclarecimentos quando algo lhe chamou a atenção, um detalhe que até então lhe havia passado despercebido. Um detalhe localizado na mão esquerda do informante, mais precisamente ao redor do dedo anelar. Um detalhe dourado e simples ao qual ele sabia ter suas iniciais gravadas no interior. Um detalhe que definitivamente era uma resposta. A melhor resposta que poderia querer. Se sentiu mais leve. Tão leve que talvez fosse até capaz de voar, por que foi exatamente assim que se sentiu enquanto aproximava seu rosto do de Izaya, ainda separados pela mesa onde jantaram, e colou seus lábios aos dele, num beijo tão cheio de sentimentos que chegava a ser impossível de descrever.
– Pulga maldita... – xingou-o enquanto o puxava, fazendo-o rodear a mesa e o trazendo para seus braços – Isso lá é jeito de dizer que aceita? – abraçou-o, envolvendo-o completamente em seus braços, se sentindo absurdamente feliz naquele momento, e nem mesmo a expressão sarcástica de Izaya que claramente dizia “olha só quem fala”, que com certeza seria verbalizada se o loiro não tivesse se antecipado a ela e calado qualquer futuro protesto do moreno com um novo beijo. Izaya, definitivamente, não estava reclamando.
FIM.
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