— Ela tem olhos bonitos

— Quem?

— A garota de óculos vermelho, ela tem olhos bonitos. – Arthur gritava no ouvido de Ely, mesmo assim, era difícil de escutá-lo com clareza.

— Se você diz.

— Qual foi? Só porque você decidiu que hoje ia ser eremita, não significa que eu não vou comentar sobre garotas. – Tinha cabelos lisos e loiros, iam até seu ombro. No pescoço, tinha um cordão de surfista. – Será que tenho chance?

— Nem sabia que você conhecia a palavra eremita. De qualquer forma, se eu falar que não, estarei te dando um gás e se eu falar que sim, só vai aumentar sua confiança. Vou ficar com um “talvez”. – Ely desbloqueava a tela do celular com uma mão e com a outra arrumava o fone nos ouvidos, enquanto se encostava na bancada da cozinha. Não estava tão entusiasmado para essa festa, normalmente, estaria na pista de dança com seu melhor amigo.

— É o suficiente. – Ele sorria, indo na direção da garota. Ely apenas suspirava.

Ficava em silêncio, ajustando os fones na tentativa de abafar um pouco a genérica música de festas que estava tocando. Ir embora não era uma de suas possíveis alternativas, era o motorista da vez (já faziam algumas vezes, na verdade).

Ele e Arthur eram amigos desde o colegial, o segundo sempre foi o mais avoado e festeiro, mas Ely sempre soube acompanhar seu ritmo perfeitamente. Leais um ao outro, agora dividiam o mesmo teto.

Permanecia estático por alguns minutos, mas seus olhos perambulavam pela sala da casa, conhecia as músicas e suas respectivas letras, seus pés se movimentavam no ritmo da batida, mas não era o suficiente para contagiá-lo para algo a mais. Achava que estava perdendo o gosto por festas, mais interessado em conversar do que beber e dançar em si.

Pensava sobre cada um dos que dançavam e andavam pelos corredores da casa e imaginava o que tinha dentro de suas cabeças além do cérebro e seus acompanhamentos, até ter sua linha de pensamento interrompida com o brusco bater das portas do armário ao seu lado, dando um leve salto para o lado.

— O que você tá ouvindo? – A mulher responsável pelo barulho perguntava, fazendo um sinal apontando para o próprio ouvido.

— Nada, é só para abafar a música. – Ele respondia sem contato visual.

— Qual seu problema com a música? Não gosta de festas? Por que veio se não gosta? – Ela falava rapidamente, mal dava para acompanhar seu raciocínio.

— Calma aí, moça. Quer minha biografia também ou porque eu uso fones pretos ao invés dos brancos? – A encarava, dando um leve sorrisinho, cruzando os braços.

— Eu aceito, e você ainda não me respondeu. – Ela sorria, o encarando fixamente com os olhos castanhos e um copo vazio em mãos.

— Eu não tenho nada contra a música, eu gosto da batida e tudo mais, gosto de festas, apenas não me sinto no clima ultimamente. Estou um pouco cansado, mas não posso deixar meu amigo aqui, sou a carona para casa. – Ely agora abaixava os braços, se jogando levemente para trás, apoiando-se na bancada com as mãos. – Mais alguma coisa?

— Parece bom, já sei o que queria agora. – O sorriso continuava firme, enquanto estendia sua mão para cumprimenta-lo. – Meu nome é Alex.

— Ely. – A cumprimentava educadamente. – O que te traz nessa festa?

— Bebida de graça.