Alejandro

1 Alejandro


Notas iniciais
(É opcional que você ouça a música "Alejandro", da Lady Gaga, a partir do capítulo II, mas tenha em mente que, nesse caso, quando o eu-lírico chama "Alejandro" na música, na verdade ele está explicando o motivo, ele não é o vocativo)

Prólogo — O susto.

Eu estava terminando de por a mesa para jantarmos quando Joe disse que entraria no banho por estar exausto do dia de gravação. E, como sempre, ele deixou suas roupas no chão fazendo uma trilha até o banheiro. Bufei, antes de abaixar para pegá-las do mesmo jeito que fiz ontem e anteontem, apesar de tê-lo avisado sobre isso ontem e anteontem. Pelo visto, vamos ter essa conversa mais uma vez, mas nada que nós não pudéssemos suportar ou, caso nos leve a uma briga, terminar rolando entre os lençóis.

Porém, algo me despertou de meus pensamentos sujos. Algo que vibrou no bolso de trás das calças jeans de Joe.

I — A curiosidade.

Uma olhadinha não vai fazer mal. Qualquer coisa, digo que fui ver as horas e apertei o botão central para a tela de aviso sair e finalmente ver as horas. É isso aí. Ele vai me perdoar, não é como se eu estivesse abrindo a correspondência dele... Mesmo que o ícone das mensagens seja um envelope...

Minhas mãos então abriram o flip do celular, deixando as roupas recolhidas em cima do encosto do sofá. Eu mordia o lado direito do lábio, ainda em dúvida, olhando para a caixa de aviso, no centro da tela, tampando uma parte da imagem de fundo, que era uma foto minha e dele numa festa à fantasia da gravadora, eu vestida de chapeuzinho vermelho e ele de lobisomem. Boas lembranças desse dia me vieram à cabeça sobre como nós éramos o casal irônico naquela festa. Permiti-me um leve risinho pela memória.

"New incoming message" dizia a tela "Read" era a função de um dos botões e "Dismiss" era a do outro. Um número que não estava na agenda dele mandara a mensagem e isso aumentou mais um pouco minha curiosidade. Quem que não é íntimo o suficiente de Joe para estar em sua agenda o mandaria uma mensagem?

Eu hesitei várias vezes com o dedo em cima do dizer "Ler", mas então recuei de vez.

Que tipo de pessoa insegura eu era? Por qual motivo eu estava violando a privacidade do meu marido? Isso não tem sentido. Por mais que sejamos casados e eu tenha certeza que, do mesmo modo que eu não o escondo nada, ele também não me esconde, nós temos nossas próprias vidas, com nossos próprios problemas. Eu não iria gostar que Joe ficasse xeretando meus problemas por aí. Imagina se ele liga para a Ashley e começa a questioná-la sobre como foi meu dia no trabalho? Ou chamasse a Natalie para almoçar para saber se eu tenho tomado as pílulas? Isso seria completamente desagradável.

Com esse pensamento, deixei o celular de Joe em cima da bancada entre a sala e a cozinha, entrando nesta e pegando os dois copos transparentes e deixando-os na mesa da sala de jantar.

Dane-se. Pode ligar para a Ash entre as 18 e 21 horas e a Nat está livre para almoçar ao meio-dia de terça a sexta.

Sentei-me ao sofá com o aparelho em mãos. Virei meu pescoço a fim de ouvir se o chuveiro ainda estava ligado e o som da cascata confirmou minhas expectativas.

O visor brilhava contra meus olhos outra vez, contudo, mais chamativo. No lugar da caixa de mensagem, havia apenas um ícone em forma de ponto de exclamação, piscando a cor vermelha a cada segundo.

"Abre, abre, abre" o vermelho me dizia conforme brilhava. Agora sim eu entendo o que dizem sobre tentações serem irresistíveis.

"1 new message" estava escrito na tela que o ponto de exclamação abriu. Era só tocar na frase e pronto. Mistério resolvido. Provavelmente era uma mensagem de alguém envolvido na gravação do novo cd, pedindo para que ele chegue mais cedo, ou algum amigo nos convidando para jantar no fim de semana, qualquer coisa banal desse tipo.

Meu dedo apertou bem em cima da palavra "message" e então ela se mostrou.

Ontem à tarde foi o nosso melhor programa. Quero repetir amanhã.

xoxo, Alejandro

II — O desespero.

Era como uma música pop ruim de rádio adolescente que tem um refrão sem sentido com alguma referência — implícita ou não — ao sexo. Grudou na minha cabeça, ficou repetindo e depois de muitas vezes eu já não sabia qual era o começo e qual era o fim. As palavras emendavam umas as outras e perdiam o sentido literal, mas o significado estava estampado no meu rosto.

Joe me traia. Joe me traia com um homem. Joe me traia com um homem chamado Alejandro...

Joe era gay. O meu Joe... Joseph, meu marido... Gay.

Gê, ah, ipslon. G-a-y. Gay.

E eu só conseguia pensar em tudo o que aconteceu para chegarmos aqui. O filme da nossa história rodou em um milésimo de segundo na frente dos meus olhos: como nos conhecemos, nosso primeiro beijo, a primeira vez que ele me chamou para sair e eu acabei o levando para casa porque Joe ficou bêbado, o dia ensolarado em que ele me pediu em namoro, quando eu conheci os pais dele e ele conheceu os meus, o primeiro apartamento em que moramos juntos, o dia em que Joe me pediu em casamento no elevador do prédio onde eu trabalho, nosso casamento, a lua-de-mel na Austrália... Tudo. Absolutamente tudo se formou na minha cabeça, mas eu não conseguia achar nenhum traço de homossexualismo ou qualquer outra coisa. Joseph sempre foi... o Joe. Ele era ele mesmo, não ficava exibindo sua masculinidade a troco de nada, mas também não agia como uma mulher. Sempre teve sua pegada que até hoje me incomoda ouvir alguém dizer "você? Casada com o Joe? Nossa, você tem sorte! Me lembro bem de uma vez que nós..."

Ah, como eu odeio saber que ele já teve outras mulheres... mu-lhe-res. Não homens, mulheres! Joseph beijava mulheres! Eu nunca ao menos soube que ele já experimentou um garoto e agora vejo uma mensagem de um tal "Alejandro" elogiando a "tarde de ontem".

Ou talvez eu que não enxerguei todas as pistas. Talvez Joseph sempre mostrou nas entrelinhas que era homossexual e eu não vi. Quero dizer, eu amo — ou amava, não dá para definir agora — esse homem mais do que qualquer outro que já tenha passado na minha vida e provavelmente isso idealizou o Joseph que eu via. Para mim, ele era perfeito... Mas como eu não pude perceber que ele sempre fora meio desastrado com mulheres, tinha muitas amigas e entendia de assuntos que eu, como mulher tinha a obrigação de entender e, não entendia.

Joseph cuidava de mim com todo o carinho, não com amor... Ou talvez com o amor que um pai sente por uma filha. Joseph apenas zelava por mim, não era... Amor.

Mas, merda, ele sempre soube que eu o amava! Quantas vezes não o disse, quantas vezes não sacrifiquei meu tempo e meu intelecto para aprender sobre as coisas que ele gosta para agradá-lo, tudo o que eu dei para e fiz por ele, as noites perdidas que passei me iludindo pensando no sorriso dele. Pensando que era um sorriso apaixonado por mim... Até mesmo o sorriso safado dele que tanto me excitava antes da gente...

Eu estava perdida entre raiva, vergonha, desgosto ou tristeza.

Como eu olharia para ele depois disso? Como eu controlaria a vontade de descer-lhe um belo de um tapa no rosto? Isso era o mínimo que eu podia fazer depois de descobrir que eu havia sido traída, e traída com um homem.

Céus, Joe tinha um amante! Minha indignação não era maior por falta de espaço no Universo! Toda a minha vida era... Nada! Uma farsa para, provavelmente, servir de pano para cobrir a vergonha que Joseph tinha de se assumir. Eu era uma máscara, um escudo para ele se esconder atrás.

Cachorro! Não tem vergonha na cara o suficiente para revelar o que realmente é! Não tem coragem de mostrar sua individualidade! Não tem moral, pois uma pessoa que usa outra para sustentar uma mentira é um amoral!

Joseph, eu nunca quis te matar tanto na minha vida como eu quero agora!

E os outros?

Não que seja algo de suma importância, mas quando o resto do planeta descobrir que Joe Jonas é gay, a mídia não vai parar de encher o saco! Não vão importunar apenas a ele, mas a mim também! "A ex esposa do famoso Joe Jonas foi trocada por um homem! Será que ela fazia fio-terra no ex marido?" Meu nome irá à lama, meu rosto será zombado e meu respeito, vaporizado. Tudo por-se-á abaixo por causa dessa mentira de anos e anos que envolve a mim, a esposa que jurou por tanto tempo amá-lo como nunca amou nenhum outro homem.

Joseph jurou não amar outra mulher no nosso casamento, mas não disse nada sobre outro homem.

Minha vida está destruída, nossa vida está destruída.

E, levando tudo para o lado pessimista destrutivo, será que é só esse amante de Joe? Um Fernando ou um Roberto, talvez? E há quanto tempo ele vem escondendo isso? Desde os doze anos? Desde que virou famoso? Antes de me conhecer? Depois que nós nos casamos? Quem sabe...

Eu tremia como se eu estivesse com febre, o celular já tinha caído no sofá há muito tempo e meus olhos não paravam fixos em lugar nenhum. Eles se moviam inquietamente, observando cada canto ao alcance, tentando achar uma resposta, uma saída ou até mesmo uma explicação. Qualquer coisa que acalmasse as palpitações frenéticas do meu coração servia. Foi quando uma caixinha dentro da porta de vidro da estante me chamou a atenção. Caí de joelhos no chão, na altura da porta e a abri. Dei de cara com uma foto minha e do Joseph, abraçados na praia, ao lado da caixa que eu queria. Minha ira cresceu instantaneamente e sem perceber, lancei o porta retrato de vidro para a direita, se espatifando na parede, próximo a porta da cozinha.

Olhei os cacos por um segundo antes de abrir a caixa onde escondi um pequeno defeito meu.

Meu maço de cigarros estava lá, mas se eu não estiver louca o suficiente para perder a noção de quantidade, tenho certeza de que havia mais cigarros.

Eu parei de fumar por que Joseph não gostava. Ele também fumou por um tempo, mas depois largou e eu em seguida. Eu não queria ser a doente da história. Larguei meu prazer destrutivo por ele, que nem ao menos devia se lembrar do meu nome quando estava com o namorado dele...

A primeira tragada até me acalmou. Liberar a fumaça na frente da TV até que tirou um pouco do nervosismo, como se ele tivesse se misturado à fumaça. Mais duas sugadas no bastão e uma batidinha nele para me livrar das cinzas e então o primeiro pensamento claro se formou:

O que eu tinha como verdade acabou de sair andando da minha vida, como se eu não o merecesse. Por causa de um tal de Alejandro.

III — O rancor.

Meus minutos de auto tortura psicológica foram encerrados assim que o barulho da água caindo do chuveiro cessou-se. Meu cigarro estava na metade e quando ergui a cabeça para soprar a fumaça novamente, Joe apareceu apenas de calça jeans na sala.

- Delilah? O que deu em você?! — ele perguntou alarmado, pendurando a toalha no ombro — Por que está fumando? E por que está fumando dentro de casa?! — ele saiu apressado para abrir a porta da sacada.

"Céus, como meu marido era lindo", eu pensava ao vê-lo se mover pelo cômodo, tentando expulsar o cheiro de nicotina da casa.

Ele era lindo, ele era meu. Eu não aceitava dividi-lo ou perdê-lo. Fosse para um homem ou uma mulher

- Você está me ouvindo? — ele parou em minha frente.

Os cabelos úmidos, os olhos castanhos, o nariz, as bochechas vermelhas pelo calor da água, os lábios em mesma cor...

Meu Joe... Com um homem.

- Sabe, eu também tenho perguntas a fazer — disse serena, pausando para a tragada final e acendendo outro logo em seguida — Como, por exemplo, "quem é Alejandro?"- repousei meu cigarro na boca e descansei minhas duas mãos nos bolsos dianteiros da minha calça. Observei-o enquanto seus olhos se quebravam em espanto e suas manchas vermelhas no rosto e nos ombros desapareciam quase como se houvesse uma calefação ao contrário em seu corpo. Ao invés de evaporação imediata por calor, era por frio. Seus lábios juntaram-se em uma linha e eu quase pude ouvir a última batida do seu coração.

- Como assim "quem é Alejandro?" — ele perguntou hesitante.

- Você sabe, o cara com quem você passou a tarde de ontem — fiz minha melhor cara-de-pau — Ele deixou uma mensagem dizendo que adorou e que quer repetir amanhã? Você está livre? — cigarro voltou aos meus lábios.

- O que? Você leu minhas mensagens? — seu rosto mudou para indignação no mesmo instante — Delilah, você não pode ficar lendo as minhas mensagens!

- Calma, eu li só uma, a que acabou de chegar. Será que tem mais alguma mensagem que te entregue? — fumaça — E não mude de assunto. O foco aqui não é o que eu faço escondida e sim o que você anda fazendo escondido! — minha voz aumentou levemente.

- O que você pensa que esta insinuando? — Joseph me olhou como se eu fosse louca.

Como eu odiava que me tratassem como louca.

- Pega seu celular e lê o belo elogio que recebeu do Alejandro. Pelo visto você fez seu trabalho direitinho — apontei o aparelho com escárnio.

Sem delongas, Joe pegou seu celular e abriu o flip, vendo a mensagem que ainda era exibida mesmo que o aparelho estivesse fechado. Não demorou dois segundos inteiros para que ele lesse.

Seus olhos encontraram os meus ao saírem do telefone, exibindo desespero, e tudo o que pude fazer foi abaixar a cabeça. Eu não olharia para ele no momento.

- Isso... Não é o que parece — sua voz estava firme, mesmo que ele tivesse suspirado.

- Não me venha com explicações baratas, pois será perda de tempo. Eu só queria saber o porquê. Digo... Isso tudo — abri os braços englobando a casa, na verdade me referindo à nossa vida — não significa nada, já que você gosta de...

- Ei! Pára! Pode parar com isso! — ele andou até mim e levantou meu rosto com uma mão — Você acha que eu...? Que eu não...? Wow, isso... Isso não tem... Não! — ele se enrolou nas palavras. Puxou os cabelos para trás e deu meia volta, bufando devagar — Você tem que estar brincando...

- Joseph, não se esconda mais. Não precisa. Eu descobri. Fim — meu cigarro pendia entre meus dedos indicador e médio — Nós ainda somos jovens e talvez você me ame, mas não desse jeito. Eu não me importo com isso, o problema é a farsa. Eu não posso mais ficar com você desse jeito.

- Desse jeito como, Delilah? — ele gritou, virado para mim de novo — Você acha que eu sou gay? Você lê uma mensagem minha totalmente subjetiva e acha que eu estou te traindo? Com um homem, Delilah? Você está louca?

- Não diz meu nome — eu, basicamente, ignorei o que ele disse. Eu sabia que de algum jeito isso era apenas o discurso pronto caso alguém descobrisse — Eu só não entendo o que eu fiz de errado. Eu devo ter uma parcela de culpa nisso, não é? Não que homossexualismo seja uma catástrofe, mas...

- Delilah! Eu não sou gay! Pelo amor de Deus! Como você duvida disso? Nós somos casados, porra! — me interrompeu.

- Joseph...

- Amor, olha pra mim... — ele segurou meu rosto de frente para o dele novamente.

- Não sou seu amor — tirei suas mãos de mim e me joguei no sofá, com mais um trago me acompanhando.

- Delilah, me escuta...

- Já falei para não dizer meu nome — as lágrimas que eu tanto segurei começaram a impor força contra mim.

- Você vai me ouvir... — sentou-se ao meu lado.

- Joseph, eu já escolhi. Não tenho nada a perder com isso mesmo.

- Ah, escolheu? — disse irônico — O que você decidiu? Que vai pedir o divórcio? É isso o que você quer, Delilah? O divórcio? Foi por isso que você inventou essa desculpa ridícula? Pra ter um motivo pra se divorciar de mim? Não precisava de tudo isso, sabe? Era só...

- Não! — eu explodi com os ataques dele. Se ele nunca me feriu antes, dessa vez ele me machucou para uma vida inteira — Eu amo você, Joe! Você sabe disso, mas olha para o seu celular! Olha o que está escrito! — eu cheguei ao ponto em que minhas lágrimas formavam um filete contínuo e vertical em minhas bochechas — Você quer que eu reaja como? Nós estamos casados há três anos e, do nada, eu descubro a "possibilidade" — usei das aspas de dedos — do meu marido ter um caso com um homem! Você tem a mínima noção do quão perturbador isso é? Do quanto doeu? — meu volume era quase nulo na última frase, para então o único som a sair da minha boca ser o dos soluços, intensificando-se quando senti os braços dele envolvendo meus ombros, levando minha cabeça para junto de seu peito.

- Eu... Nem conheço esse número — ele começou a sussurrar com a voz trêmula, enquanto eu ainda perdia a batalha contra meu choro — Ontem à tarde eu estava trabalhando, pode ligar para meus irmãos e perguntar. Talvez esse "Alejandro" tenha mandado a mensagem para o número errado... — ele acariciava meus cabelos e, como se fosse o único jeito, a voz dele segurava meu choro aos poucos — Talvez ele nem ao menos seja gay... — e um leve riso nos escapou.

Mas não durou nada. Um ato atrevido dele me fez despertar. Joseph beijou o topo da minha cabeça, me trazendo de volta à realidade. Com um pulo saí do sofá e de seus braços.

Eu não podia ceder fácil assim só por causa de um carinho conveniente.

- Não... Não posso, Joseph — sussurrei mais atordoada ainda — Eu vou dar uma volta — foi a única opção que eu achei consciente no momento. Peguei as chaves sem perceber onde estavam, já que eu olhava para baixo para evitar olhar para Joseph.

- Você não vai a lugar nenhum.

- Saia já da minha frente — disse sem um pingo de educação, tentando empurrá-lo para o lado, mas obviamente não consegui movê-lo um centímetro sequer para longe da porta.

- Não! Delilah, não vou deixar você acabar com nosso casamento por causa de um mal entendido sem fundamento — cruzou os braços e fixou-se na frente da porta

- Por favor, Joseph, me deixa ir — eu olhei para o chão novamente, já cansada dessa palhaçada toda.

- Não. É muito difícil pra você parar de fazer birra e agir como adulta? Será que você pode parar um minuto e me ouvir?

Isso me fez mais enraivecida e eu quase pude sentir meu sangue borbulhar nas veias.

- Ah, ouvir você? Você quer ser ouvido? — perguntei cuspindo sarcasmo — Então tudo bem – virei-me e voltei a sentar ao sofá, com as pernas juntas como as de aeromoças — Venha me contar sua desculpa.

Joseph virou os olhos e senti que tinha o autocontrole de Edward Cullen, pois minha vontade de atacar o pescoço dele não foi pouca.

- Eu não conheço nenhum Alejandro — ele parou na minha frente e pois as mãos na cintura.

- E a Lindsay Lohan não é drogada. Próxima.

- Del...

- Vamos, continue — pedi, cínica.

- Eu nunca tive relações homossexuais...

- Até agora. Prossiga — eu pude ver a raiva dançando nos olhos dele. Eu estava tirando-lhe a paciência.

- E eu nunca te trairia porque você é minha esposa e eu amo você.

- Não apela. O que me garante que você está dizendo a verdade?

- Eu, alguma vez, menti pra você?

- Depende. Há quanto tempo você descobriu que é gay?

O rosto de Joseph enrubesceu.

- Vamos fazer assim — ele disse depois de um momento apenas bufando e puxando os cabelos para trás, obviamente para segurar a louca vontade que ele sentia de me bater, pois, acredite, eu teria vontade de bater em mim se eu fosse ele — Liga para o número que me mandou a mensagem e pergunta — estendeu-me o celular.

- Perguntar o quê? Está louco?

- Pergunta o que você quer saber. Se o tal de Alejandro é meu... — ele suspirou, como se fosse difícil dizer — amante.

Ergui uma sobrancelha, desconfiada. Era uma proposta muito arriscada para ele. Se esse Alejandro atendesse e, sem saber que era a esposa de Joseph, contasse a verdade, eu não ouviria mais nenhum pio do meu "marido". Não tinha conversa fiada que o livrasse de um divórcio bem prejudicial à conta bancária dele.

Epílogo — O alívio.

Tomei-lhe o aparelho das mãos e com apenas alguns toques na tela o número do remetente estava sendo chamado. Tocou uma, tocou duas e eu olhava desafiadora para Joseph, sendo retribuída a nível.

- Alô? — uma voz grave atendeu, fazendo minhas falhas esperanças enfraquecerem.

- Olá, senhor... — disse nervosa — Eu... Eu sou do centro de pesquisas de psicologia na... Faculdade de Santa Barbara — foi a única coisa que me veio a mente e saiu gaguejando pela minha boca. Joe fechou os olhos e colocou o indicador e o dedão em cima de cada um, deixando um risinho subestimador escapar — E eu gostaria de fazer algumas perguntas...

- Hm... Claro — o homem (ou mulher com voz de homem) do outro lado pareceu inseguro.

- Primeiro, qual é seu nome? — minha aflição me fez morder o lábio inferior assim que terminei a frase.

- Michael Donavon, mas me chamam de Big Mike.

Meus olhos se arregalaram no mesmo instante, imaginando o ser humano com quem eu falava.

- E... de onde o senhor veio? Quero dizer, pais e avós...? — quem sabe ele não é mexicano e o nome da "night" dele seja Alejandro?

- Eu vim de Atlanta e, bem, meus antepassados vieram da mãe África.

Minha imaginação trabalhou mais um pouco no seu dever de me botar medo.

- Ah, sim, certo e... Pra terminar; por favor, não se ofenda; — adicionei desesperada, temendo a reação dele à pergunta — O senhor é heterossexual, certo?

- Mas é claro!

O cúmulo da perturbação seria se ele dissesse que não.

- Você não conhece ninguém com acesso a esse telefone que possa ser?

- Não. Meus filhos são pequenos, mas são homens e meu irmão nunca fez nada do tipo.

- Claro, entendo — meu alívio estava crescendo dentro de mim, proporcionalmente ao meu remorso por ter acusado Joseph, meu marido. Joe, o homem que eu amo — Só mais uma pergunta... — respirei fundo — O senhor não conhece nenhum Alejandro, por acaso?

- Alejandro...? Acho que não. Não tem Alejandro nos mexicanos daqui... Só um momento — sua voz se afastou — Ô, mulher! Tem algum Alejandro nos latinos aqui do bairro?

- Não tem, não! — uma voz estridente feminina ecoou ainda mais longe, mas pude ouvir plenamente — Tem um Carlos, um Diego, um Enrique, um Juan, mas Alejandro não tem, não!

- Desculpe, moça — "Big Mike" voltou a falar perto do telefone — Nenhum Alejandro.

- Ah, sim... — eu estava morrendo de medo de olhar para Joseph agora — Obrigada pela colaboração.

- Sempre que precisar. Tchau.

Eu focava o celular fechado no meu colo. A cabeça baixa e as mãos pousadas nos joelhos. Encará-lo agora seria dolorido.

Primeiro porque eu o havia ferido e agora que ele provara que estava certo, ele teria todo o direito de me ferir também. Segundo porque se ele estava ferido, eu também estava e a carga da culpa dilacerava ainda mais meu machucado.

- Bom... — ele sussurrou, ainda em pé na minha frente, depois de um longo período de silêncio torturante.

- Não... Não diz nada, por favor — pedi em mesmo tom — minha culpa e meu remorso já estão acabando comigo suficientemente.

- Não se preocupe, eu nem ao menos sei o que falar — meu campo de visão permitia ver suas pernas cobertas por jeans se movendo para minha esquerda depois para minha direita e então parar no lugar inicial — Sabe, isso até pode fortalecer sua confiança em mim e...

- Desculpa — disse logo, interrompendo o longo discurso soberano que estava por vir. Ele só iria parar de falar quando eu dissesse, mesmo — Desculpa ter lhe chamado de gay, por não ter ouvido suas explicações ou acreditado nelas. Desculpa — afundei meus dedos em meus cabelos, soltando o ar dos pulmões, que parecia estar preso em mim por séculos.

Eu acho que nunca senti tanto alívio na minha existência. E o alívio é o melhor sentimento de todos, porque com ele vem a alegria e a sensação de que a Terra está de volta ao seu curso natural.

- Ah, vem aqui — senti o peso de Joseph afundar ao meu lado no sofá e pela segunda vez ele me abraçou e repousou minha cabeça em seu tórax.

Eu o abracei, inalando o cheiro bom que seu corpo tinha assim que saia do banho, podendo sentir sua pele ainda úmida e macia como nunca. Como eu adorava isso.

- Espero que isso nunca mais se repita — os dedos dele puxavam toda concentração da minha cabeça pelos fios de cabelos que ele alisava — Foi estúpido e eu odeio brigar com você.

- Desculpa — suspirei mais uma vez, relaxada com o aroma dele — Mas você tem que entender que eu pirei com a hipótese...

- Chega — ele virou minha cabeça de volta contra seu peito para me calar — Não quero mais falar nisso, é esquisito demais. Eu até admito que estava esperando uma brecha pra dizer "você quer que eu te mostre que sou gay?" e então eu te arrastava pra cama — eu comecei a rir abafadamente -, mas parece que você não vai deixar. Com isso, vamos jantar, por que eu estou morrendo de fome — seus braços se apertaram contra mim, que ainda ria. Ele realmente conseguiu fazer uma piada de toda essa tensão.

- Você me perdoa? — ergui meu rosto até ficar da altura dele, olhando-o nos olhos pela primeira vez.

- Claro que eu perdôo. Eu amo você — jogou meus cabelos para trás dos meus ombros e mexeu em alguns fios do topo, fazendo-me imaginar quão descabelada eu estava.

- Eu também te amo — dei-lhe um selinho, mas recuei quando ele já segurava minha nuca — Mas nunca mais receba mensagens desse tipo.

- Se você não mexer mais nas minhas coisas — disse como se me desse uma bronca. Um pouco divertido, mas ele falava sério — prometo que não recebo mais mensagens estranhas.

- Combinado — voltei com minha boca de encontro à dele, sem impedi-lo de beijar-me de verdade desta vez.

E, adivinha: terminamos rolando entre os lençóis.

*

O Sol insistia em estapear meu rosto com seus raios quentes e brilhantes. Eu estava exausta, descabelada e nua; tudo o que eu queria agora era dormir até...

- Não, relaxa, ela não desconfia de mais nada — minha audição ainda desconcentrada pelo sono me fez ouvir Joe dizer estas palavras ao longe, mesmo que eu o estivesse vendo perto, apesar de minha visão também não estar 100% nítida. Aos poucos a imagem do meu marido em pé, vestindo boxers brancas e segurando o telefone entre a orelha e o ombro formou-se na minha frente — Acredite, ela nem desconfia...

Notas finais
Maôe! Tudo bom com você? Acho que não, depois desse susto, né? pobre - e neurótica - Delilah... UHAISUHIHS. Ah, só pra falar, achei super legal umas garotas do FFOBS que também frequentam o Nyah! Mágico, isso! UHAISH. Obrigada por ler e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!