— CAPÍTULO II –


A cabine dos encontrões

Albus Potter se considerava um menino comum em muitos aspectos. Para começar, ele tinha dois pais amorosos e dois irmãos próximos que, assim como outros irmãos, conseguiam brigar e se divertir quase na mesma intensidade. Albus era o irmão do meio com exatos dois anos de diferença entre o mais velho, James, e a mais nova, Lily. Isso significava que, assim como outras pessoas estranhamente comuns, em certos momentos, ele deveria seguir o exemplo e, em outros, ser o exemplo. Ele também tinha muitos, muitos primos, mesmo. Uma de suas primas, Rose Granger-Weasley, inclusive, estava sentada ao seu lado nesta agradável manhã de outono em que começa a nossa história.

Os dois estavam indo para a escola, assim como normalmente fazem os demais meninos e meninas de onze anos. No entanto a escola de Albus e Rose era qualquer coisa menos o que se podia chamar de comum. Hogwarts, fora e continuava sendo, a melhor escola de magia e bruxaria para jovens bruxos e bruxas de todos os tempos. Assim como ele, seus pais, seus irmãos e todos os seus nove primos — mais velhos e mais novos — também eram bruxos. De qualquer forma que fosse visto, era inegável que a magia era um aspecto bastante comum na vida de Albus Potter.

— Não é estranho pensar que nossos pais se conheceram exatamente neste lugar? – disse Rose.

O lugar em questão ao qual Rose se referia era nada mais nada menos que o Expresso de Hogwarts. A grande locomotiva escarlate que saia de Londres todos os anos para levar os estudantes ao seu destino.

— Quer dizer – ela continuou – Pode ter sido até mesmo nesta cabine!

— Acho que sim – disse Albus – mas seria uma coincidência bem estranha.

— Mais que coincidência! Olhe, vê aquele gatinho lá? – Falou Rose apontando pela janela. Um gato rajado se instaurava majestoso entre tijolos que pareciam simplesmente pequenos demais para ele – Sabe-se lá por onde já passou, mas calhou dele estar ali, nesse exato lugar, no exato momento em que decidimos olhar pela janela. Ás vezes, eu acho, se trata mais de uma sucessão de eventos com um resultado inesperado.

Albus pensou no que Rose acabara de dizer e pensou também que talvez aquele fosse somente o local em que o gatinho gostava de ficar todos os dias. Ele abriu a boca para responder, mas antes que as palavras tivessem tempo de se formar, a porta da cabine se abriu. Uma menina de cabelos castanhos ondulados e olhos castanho-esverdeados, apareceu na soleira junto a um menino muito loiro e muito pálido que parou logo atrás dela. A menina tinha sardas espalhadas pelo nariz e um par de olheiras em baixo dos olhos. O menino era alguns centímetros mais alto e vestia um sobretudo preto de algodão que o fazia parecer importante. Pelos rostos de ambos, porém, dava para perceber que eles tinham a mesma idade de Rose e Albus.

— Oi – disse a menina soando amigável — Podemos sentar aqui?

Albus respondeu que sim com um aceno de cabeça e o menino e a menina se sentaram de frente para os outros dois.

— Obrigado. Das cabines que passamos, essa é a mais vazia. Sou Scorpius, aliás.

Rose lançou um olhar sorrateiro para Albus e deu-lhe uma boa cotovelada entre as costelas, mas ele a ignorou completamente.

— Albus. Al, para abreviar – disse cumprimentando os outros dois.

— E eu sou Rose – falou, recompondo-se – Al e eu somos primos na verdade.

Albus olhou com curiosidade para a menina que ainda não tinha dito seu nome. Podia jurar que viu seu cabelo se mexer sozinho e sua roupa ficar amassada perto do ombro. Não só isso, ele também achava que ela se parecia com alguém, só não conseguia se lembrar de quem.

— Meu nome é Riley. Scorpius e eu já nos conhecemos porque nossos pais são amigos.

— É, nos conhecemos praticamente desde bebês, mas depois que o Sr. e a Sra. Travers se mudaram de Devon para Wiltshire, também viramos quase vizinhos.

— Devon? – Repetiu Albus entusiasmado. – Sem essa! Você é a Riley do Rio das Lontras?

Riley concordou parecendo um pouco envergonhada.

— Eu não sabia se você ia se lembrar ou não...

Rose e Scorpius, porém, pareciam igualmente abismados.

— Como vocês dois se conhecem?

— Rose, você não se lembra? A garota que morava do outro lado do rio... a Riley!

Rose ficou em silêncio por um breve momento, mas logo seu rosto se iluminou como se uma lâmpada tivesse acabado de ser acesa.

— Riley! É claro! – Falou enquanto dava um tapa na própria testa – Como é que eu ia me esquecer se você não parava de choramingar “Riley, Riley”, por todo o canto.

— Eu tinha oito! – protestou Albus.

— Você nunca me contou que teve um namorado com oito anos, Riley – sussurrou Scorpius em um tom brincalhão.

— Para de ser esquisito, Scorp – falou Riley no mesmo tom – A gente costumava tentar fazer magia junto porque morava perto um do outro.

— É – sorriu Albus, acobertando-a – Se lembra quando conseguimos fazer o sapo perto da encosta levitar? Queria que a Rosie tivesse te conhecido nessa época também, provavelmente ela ia saber como fazer o sapo parar de subir... uma vez tentei fazer que vocês duas se conhecessem, na verdade...

— Eu me lembro – interrompeu Rose — Ele me fez atravessar o rio e andar até onde era a sua casa, mas estava vazia.

— Desculpe por não ter avisado que ia me mudar.

— Não se preocupa – falou Albus.

E ele estava sendo sincero. Estava verdadeiramente feliz em revê-la. Entre seus irmãos, Albus fora o único que conheceu a menina que morava na casa do outro lado do rio. Um dia, chegara a se questionar se Riley de fato existiu ou se sua mente andara lhe pregando peças.

— Bom, não é tão ruim assim, não é? – disse Scorpius – Quer dizer, pelo menos ela não se mudou para muito longe, só para Wiltshire. Imagina ter que estar indo para Beauxbatons agora ao invés de Hogwarts?

Rose imediatamente ficou na ponta do assento, pronta para começar a compartilhar uma série de conhecimentos carinhosamente adquiridos com sua tia Fleur sobre a Academia de Magia de Beauxbatons, e assim o fez. A locomotiva serpeava por lugares cada vez mais estreitos lá fora, mas nenhum deles parecia prestar atenção nisso. Os assuntos na cabine pareciam muito mais interessantes, e os quatro pulavam de temas em temais tão rápido quanto começavam: as lendas que já tinham ouvido sobre as escolas, as aulas que teriam, os clubes que queriam participar, as passagens secretas para...

— Acabaram de soltar estalinho de Tartalo lá fora.

A porta da cabine havia deslizado mais uma vez e um menino alto de cabelos cor de bronze e olhos azuis pulou para dentro.

— Se importam? – Ele disse enquanto cobria o nariz com a manga das vestes.

Os outros quatro espiaram pela janela do corredor antes de trocarem olhares entre si. Um nevoeiro verde musgo começava a se formar do outro lado da porta.

— Não – disseram Riley e Rose.

— De jeito nenhum – complementaram Albus e Scorpius.

— Sou Ben Nott, muito prazer. Vocês também são calouros?

Albus se surpreendeu um pouco com a pergunta de Ben. Ele parecia um, talvez até dois anos mais velho que os demais. Pensando melhor, Albus concluiu que talvez fosse mais por sua postura e jeito de falar, do que pela aparência do garoto em si.

— Somos. Eu sou Albus. Al. E essa é Rose. Esses são Scorpius e Riley.

— Oi – cumprimentaram os outros três.

Ben abriu um sorriso e logo foi tratando de procurar algo em seu bolso. Albus viu ele tirar um par de saquinhos coloridos.

— Aceitam? Comprei no carrinho lá na frente. Não sei se vai passar pelo corredor daqui tão cedo...

— Legal – disse Riley pegando um dos saquinhos.

— Riley! – Repreendeu Scorpius.

— Que foi? Ele ofereceu...

— Ah, deixa pra lá. Eu trouxe algumas coisas também – disse Scorpius enquanto tirava um pacote de gomas cumpridas de um dos bolsões do casaco – São azedas, minhas preferidas.

Eles passaram os doces entre si e Albus reconheceu as bolotas que vinham dentro dos saquinhos que Ben trouxera. Eram as arde-cuspe. Ele pegou uma das azuis e comeu. Não precisou morder para que ela mesma estourasse, e Albus logo sentiu um ardor gelado encher a boca. Riley escolheu a laranja e tão pronto a comeu, uma ligeira névoa opala saiu de sua boca ao dizer:

— Arde-cuspe de fogo... sempre deixa a língua cheia de bolinhas rosas.

E estirou a língua salpicada para que os outros vissem que ficava mesmo. Em pouco tempo já haviam embalagens abertas por todo canto e quitutes diversos espalhados pelas poltronas. As gomas de Scorpius eram realmente azedas, e a vermelha, Albus comprovou, a mais de todas. Ben voltou a se recostar na porta, recém abrindo sua primeira embalagem de gomas azedas.

— Melhor evitar as vermelhas – aconselhou Albus.

E Ben trocou a que havia acabado de pegar por uma verde.

— Então, já sabem para qual casa querem ir? – Perguntou Ben antes de dar uma boa dentada no doce e fazer uma careta logo em seguida.

A pergunta que Albus mais queria evitar o pegou totalmente desprevenido. Antes que pudesse pensar em uma resposta, porém, Rose já tinha a dela.

— Grifinória. Definitivamente.

— Sonserina – disse Scorpius.

— Hum... não tenho certeza, talvez Sonserina também – falou Riley.

— Para mim é Sonserina, sem dúvidas nisso – afirmou Ben — Vocês tiveram sorte, na minha cabine só tem corvinos e grifinórios. Foi mal, Rose.

Albus ficou atônico. Tão atônico quando Rose estava; mas provavelmente não pelas mesmas razões da prima — já que Albus acreditava que ela estava usando o máximo do seu autocontrole para não desatar a falar de sua interminável lista com todas as razões pelas quais não seria nunca, em hipótese alguma, uma sonserina — mas sim porque se deu conta de que, pela primeira vez na vida, estava em um grupo de pessoas que majoritariamente não passou, e nem se importava em passar, pela casa dos bravos e corajosos grifinórios.

— E você, Al? – Questionou Ben.

— Ah... também não tenho certeza ainda...

— Bom, acho que não tem problema. Vamos descobrir em pouco tempo de qualquer jeito.

Ben virou-se para o corredor e espiou pelo vidro da porta de correr.

— Certo... vou indo então, acho que a bomba já dissipou. Nos vemos na cerimônia? Ah... e obrigado!

— Certo – falou Albus.

— Tchau – disseram os outros três.

Ben saiu com um sorriso confiante, mas os outros quatro que restaram pareciam terem sido acertados em cheio por um balde de água fria. Albus evitou o olhar fulminante da prima e voltou sua atenção para a paisagem da janela. Ovelhas e carneiros e vacas pastavam por extensos montes verdes cercados por nuvens opacas. Rose cruzou os braços, claramente não querendo mais papo com ninguém. Nem todos, porém, pareceram dispostos a respeitar sua vontade.

— Sabe, a Sonserina não é realmente uma casa tão ruim assim. Olhe – falou Scorpius enquanto tirava uma carta prateada e reluzente do bolso e a mostrava para o trio – Todos sabem que Merlin foi o maior bruxo de todos os tempos, mas quase ninguém conta que ele foi aluno do próprio Salazar Slytherin.

— Ele foi? – Perguntou Albus curioso antes que pudesse se conter.

Scorpius fez que sim com a cabeça e lhe passou o card para que desse uma olhada. O Merlin da carta sorriu-lhe, como geralmente fazia em sua figurinha, mas, diferentemente das outras cartas de Sapos de Chocolate que Albus tinha, esta apresentava diferentes furinhos bem na extremidade. Ele virou-a para ler em seu verso:

“O mais famoso mago de todos os tempos. Também conhecido como Príncipe dos Encantamentos. Fundador da Ordem de Merlin e idealizador de um dos artefatos mágicos mais poderosos do mundo bruxo, o Cajado de Merlin. Membro reconhecido da corte do Rei Arthur. Ajudou a unificar os dois mundos e trouxe luz para um período de trevas”.

E também vem com informações extas. Pensou Albus antes de passar a carta para Rose. A garota, porém, não fez questão de pegá-la.

— Bom, e todos sabem que o melhor bruxo da modernidade era um grifinório convicto: Dumbledore – retrucou Rose – Têm um capítulo inteiro dedicado a ele na última edição de Magos que entraram para História.

— Eu sei, e Merlin continua aparecendo desde a edição número um – disse Scorpius simplesmente — Acho que ele continua importante mesmo depois desse tempo todo, não é?

Albus olhou para Riley e ficou aliviado ao perceber que ela também tentava, mesmo que com pouco sucesso, conter o riso. Ele sabia que a prima era uma menina muito inteligente e também muito educada — mais a graças à sua Tia Hermione do que ao seu Tio Ron, ele admitia isso — e, talvez com exceção do irmão mais novo, Hugo, Rose dificilmente era vista entrando em discussões calorosas. Ao que tudo indicava, Scorpius Malfoy acabara de ser adicionado a curta lista de exceções de Rose Granger-Weasley.

— De qualquer maneira... – Albus tentou ponderar — os dois foram grandes bruxos de seu tempo, certo?

— E ambos também começaram em Hogwarts... consegue imaginar um de nós virando o próximo Grande Feiticeiro? – Falou Scorpius, fazendo Riley e Albus rirem, e até Rose soltar um sorrisinho. — Querem ver como os dois se saem num duelo?

Scorpius puxou outra carta, desta vez dourada, e colocou as duas lado-a-lado, em cima de um apoio de madeira. Instantaneamente, duas miniaturas de bruxos barbados projetaram-se para fora das cartas. Um mini Dumbledore trajava um manto púrpura e se apossava de uma varinha bem fina e cumprida sob sua carta dourada, enquanto um mini Merlin posava em sua carta prateada segurando um cajado cravado de safiras em sua extremidade. Riley se ajeitou na cadeira e Albus e Rose chegaram mais perto.

— Essa é a coleção limitada, não é? – Perguntou Riley animada.

— Incrível – comentou Albus – eu só comecei a juntar a nova coleção dos Sapos de Chocolate na semana passada... por enquanto só tenho uma.

— Mal posso imaginar qual é a sua carta, Albus Potter— falou Rose, e os outros três riram.

— Elas também vêm com isso aqui.

Scorpius abriu um saquinho preto de veludo e pequeninas réplicas de pedras preciosas rolaram para fora.

— Cada uma é de uma cor e corresponde com o tipo de ataque que você quer escolher. Você coloca elas bem em cima desses pontinhos que tem na carta, estão vendo? Você faz isso antes de começar a partida. É isso que vai determinar a ordem escolhida para que cada ataque seja lançado. Aqui, Rose, quer jogar com o Dumbledore? – Perguntou Scorpius entregando-lhe o card. — Pode fazer dupla com a Riley, e Al e eu jogamos com o Merlin. Que tal?

Rose concordou com um aceno de cabeça e rapidamente os quatro se dividiram em duplas. Pequeninas faíscas sobrevoavam pelo local através dos ataques trocados pelos cards e refletiram no vidro da janela. Do lado de fora, montanhas cada vez maiores indicavam que as cidades ficavam cada vez mais para trás. Em pouco tempo, Albus estava se divertindo o suficiente para deixar as preocupações que tivera quando ainda estava na King’s Cross de lado. Talvez seu pai estivesse certo. Talvez ele devesse começar a dar menos atenção para as provocações de James. Tudo ia bem, afinal, e ele finalmente estava realizando seu sonho. Ele estava indo para Hogwarts.

Rodeados pelos diferentes pacotinhos de guloseimas, o quarteto se revezava em jogar as cartas colecionáveis, falar mais um pouco e mostrar pequenos – mas práticos – feitiços que já tinham aprendido (Albus conseguira fazer o feitiço de amarrar cadarço). Quando se cansavam, logo tratavam de recuperar as energias com as tortas de caldeirão e limpar a garganta com sucos de abóbora. Tinham conseguido os lanches com uma mulher velha e simpática, quando ela finalmente passara com o carrinho. Cada um, com exceção de Scorpius, também comprou dois pacotes de Sapos de Chocolate edição limitada para igualar no número de cartas. Foi somente quando o sol começou a abaixar que Rose decidiu que já era hora de colocar as vestes novas.

— É melhor vocês se trocarem também – ela disse quando voltou para cabine devidamente vestida com seu traje de Hogwarts.

Scorpius e Riley concordaram e saíram para o corredor. Albus se levantou para ir também, mas Rose o puxou pelo braço antes que pudesse continuar.

— Podem ir na frente – avisou ao ver que os outros dois tinham parado para esperar.

Eles assentiram e logo desaparecerem pelo corredor. Rose fechou a porta atrás de si, e então restaram somente Albus e ela.

— Você sabe que aquele é Scorpius Malfoy, não é? Papai me contou que o pai dele era... um comensal da morte – murmurou Rose — E Travers também... eu já ouvi mamãe falando de um velho Travers dando trabalho em Azkaban. Ele é avô da Riley, Al. Outro comensal...

— Eu sei – confessou Albus.

Será que ela se esquecera de quem ele era filho? Albus não conseguiu evitar de pensar. É claro que ele sabia de quem eram parentes. Ele havia juntado os pontos no momento em que os outros dois tinham dito seus nomes.

— Mesmo assim... – ele continuou – Isso seria culpar os dois pelo que seus avôs ou até mesmo seus pais fizeram, não é? E eles não se parecem muito com bruxos das trevas, não é Rosie?

— Não estou dizendo que eles são, mas acho que no fundo você nunca sabe como o outro verdadeira pensa, não é? Bom, de qualquer maneira, vi a Dominique lá na frente, vou lá dar um oi.

Albus teve a sensação que Rose não estava mais falando só de Riley e Scorpius.

— Ainda tenho que me trocar, então nos vemos depois, pode ser?

Rose saiu da cabine e deixou Albus abrindo o malão para pegar suas vestes. Ele tinha acabado de jogar a capa preta e cumprida por cima dos ombros quando Riley e Scorpius voltaram para a cabine.

— Rose acabou de passar pela gente no corredor. Não tinha uma cara muito boa... ela está bem, Al? – Perguntou Scorpius.

— É... está. Ela só foi falar com a Dominique... outra prima nossa.

Mal terminara de falar, porém, e uma voz grave e altiva ecoou pelo trem:

— PREPAREM-SE PARA DESENBARCAR. EM BREVE CHEGAREMOS EM HOGWARTS. FAVOR DEIXAR A BAGAGEM NOS COMPATILHAMENTOS.

Quando Albus, Riley e Scorpius saíram da cabine, os corredores já estavam amontoados de gente. Albus olhou para os dois lados a procura de Rose, mas não havia nem sinal dela ou de qualquer outro rosto conhecido. Ele começou a andar a pequenos passos pelo corredor, tentando cruzar espaço entre a multidão que a cada segundo parecia aumentar mais e mais. A velocidade do trem, por sua vez, foi diminuindo até finalmente parar por completo. Alguns minutos depois, os três estavam do lado de fora. O céu estava púrpura e pontilhado de estrelas. Albus pôde sentir a brisa fria da noite outonal bater em seu rosto.

— Alunos do primeiro ano! Alunos do primeiro ano, me acompanhem! Ei, você... primeiro ano... aqui comigo...

Albus soube identificar imediatamente a voz familiar que fazia o anúncio.

— Hagrid!

— Ah, Alô, Al! Que bom que chegou bem! Minha nossa... você já está em Hogwarts... como o tempo passa rápido, hein? – Falou o gigante dando uma boa gargalhada – E quem são seus amigos?

— Ah esses são Riley Travers e Scorpius Malfoy.

— Oi – disse Riley.

— Olá – cumprimentou Scorpius.

Hagrid parou de solavanco e um menino baixinho que vinha logo atrás bateu na batata da perna do gigante, cambaleou alguns passos para trás e caiu no chão.

— Um Malfoy hein... ora, Al, quem diria... ah desculpe aí atrás. Bem, olá. Eu confio no Albus, então se são amigos dele, são meus também. Sou Rúbeo Hagrid, guardião das chaves e das terras de Hogwarts e professor de Trato de Criaturas Mágicas.

Riley, e sobretudo Scorpius, pareceram impressionados em conhecer um professor e ainda serem considerados amigos dele logo no primeiro dia.

— Uau... sem essa... você é amigo de um professor? – Sussurrou Riley para Albus.

— É um prazer conhece-lo, professor Hagrid – disse Scorpius.

— Ora, vamos, não é para tanto – falou Hagrid enquanto ajeitava o cinto e passava a grande mão polpuda pela barba marrom e grisalha — Pode me chamar de Hagrid por enquanto e vamos deixar o professor para as aulas, sim? Agora, vamos ver...

— Ei! – Albus ouviu gritarem mais atrás. — Albus! Al!

— Rose! Onde é que você tava? – Perguntou ao vê-la se aproximar.

— Estive procurando você, é claro. Dominique foi com o restante dos alunos do segundo ano e depois encontrei com o James e ele disse algo sobre não sermos devorados pela Lula Gigante e... ah olá, Hagrid!

— Alô pequena Rosie. Puxa, vocês não param de crescer... E não liguem para o James, a Lula Gigante pode ser uma criatura muito amável. De qualquer maneira, todos já estão aqui? Ótimo... muito bem, por aqui!

E Hagrid foi guiando a todos por um caminhozinho estreito que parecia feito de pedras e cascalhos. Ninguém falou muito e Albus achou que, assim como ele, os demais também deviam estar empenhados em não cair. Houve uma hora que ele sentiu a mão de Rose apoiar em seu ombro para evitar escorregar.

— Atenção agora – anunciou Hagrid.

Todos fizeram uma curva de repente e tudo pareceu subitamente mais claro. Bem a sua frente estava um impetuoso e antigo castelo, que se erguia na beira de um enorme rochedo, e resplendia com todos seus janelões e luzinhas amarelas. Albus sentiu que seu coração tinha errado uma batida e achou que se Hagrid não tivesse pedido ao grupo para continuar andando, teria ficado parado por ali mesmo.

— Vamos, vamos, subam todos. Quatro em cada um – explicou Hagrid quando chegaram na beira de um lago com barquinhos de madeira flutuando em sua margem.

Albus, Riley, Scorpius e Rose subiram em um e foram deslizando lado a lado com outros barquinhos pelo grande espelho d’água. Cada bote era iluminado por uma lanterna alaranjada flutuante que os ia acompanhando e Albus conseguiu ver Riley esticar a mão para fora e mergulhar os dedos no lago. Ele imaginou que a água devia estar extremamente fria, mas ela pareceu não se importar com isso.

— Olhos à frente! – Avisou Hagrid.

E Albus virou-se bem a tempo de ver os longos feixes de hera que se penduravam na altura de suas cabeças.

— Ouch... alguma coisa puxou meu cabelo – reclamou Rose.

— Talvez tenha ficado preso em uma das heras – disse Scorpius.

— Não, não foi isso. Que estranho... – murmurou Rose.

Os barquinhos seguiram flutuando e logo passaram por um túnel de pedra que refletia as ondulações causadas pela agitação na água. Não demorou muito, porém, para começarem a diminuir a velocidade e, pouco tempo depois, sentiram a ponta do barco bater na margem de terra. Os quatro pularam para o chão firme e se juntaram ao restante da garotada. Uma menina de cabelo castanho-claro muito liso que estava perto deles quase escorregou na beirada do lago, mas Riley conseguiu segurá-la pelo capuz das vestes bem a tempo.

— Valeu... – cochichou a menina aliviada.

— Todos em terra? – Perguntou Hagrid dando uma última conferida nos barquinhos com sua lanternona antes de virar-se para os primeiranistas — Tudo bem então, me sigam!

E lá foi o gigante mais uma vez guiando o caminho íngreme e pedregoso para os calouros. Quando param de subir, Albus percebeu que tinham chegado a um extenso e bem cortado gramado. Hagrid seguiu caminho com seus passos de gigante e o grupinho logo tratou de acompanhar. Eles subiram por alguns degraus de pedra e pararam bem em frente a uma portona dupla de madeira que, Albus observou, “daria para quatro Hagrids passar”. O gigante fechou um punho e deu três boas batidas na porta.

— Woaaaaaaaah – exclamou Albus junto aos demais quando viu a porta se abrir.

Notas finais
Oi! E aí... o que acharam? Deixe seu comentário; toda crítica construtiva é bem-vinda!