Alarde dos corvos
5 Capítulo 5 - Encarando a realidade
Era horrível estar do lado de fora. A cidade havia mergulhado em completo caos e eu só me perguntava o que estava acontecendo com todo mundo. Teriam todos enlouquecido? Ou talvez eu tivesse esquecido de acordar naquela manhã e tive mais um dos meus devaneios, que sempre parecem muito reais? Será que todos que eu conheço estariam bem? Muitas perguntas ficavam atormentando a minha cabeça enquanto andávamos cuidadosamente pelas ruas próximas a região, que por sorte estavam pouco movimentadas.
Era irônico que tudo aquilo estivesse acontecendo em plena segunda-feira. A vida podia ser bem cômica e catastrófica ao mesmo tempo pelo visto.
— Você está pensando o mesmo que eu não é? — Perguntei ao Anderson, quebrando o silêncio que assolavam nossos passos. — Quer dizer... essas coisas...
— Cara... Eu tenho certeza.
— Nunca pensei que isso pudesse acontecer... Então você acha mesmo que eles são...
— Zumbis? — Disse ele em tom de voz baixa, como se a ideia fosse um pouco aterrorizante.
— É. — Respondi, me abaixando atrás de um carro e puxando seu braços para que se escondesse.
Uma horda passava pelo outro lado da rua seguindo pela esquerda; Eram em 17 talvez, andando lentamente sem rumo, apenas procurando por uma presa.
Olhei para o Anderson e fiz com a mão para que ele seguisse atrás dos carros estacionados à direita; Ele seguiu lentamente abaixado, enquanto eu acompanhava logo atrás, sempre observando a retaguarda e com a barra de metal em mãos. Uns 7 carros depois já era possível levantar e seguir viagem de pé, o que me levou a um pensamento;
— Cara, precisamos de um carro. Desse jeito a gente vai sempre quase morrer toda vez que sairmos pra pegar alguma coisa.
— Eu não se dirigir cara... Se eu soubesse já teria pegado o primeiro carro que a gente viu pela frente.
—Tive uma ideia. — Disse eu meio apressado, enquanto corri em direção a um dos carros parado no meio da rua.
Fui até a janela do motorista com a barra em mãos e dei um golpe com força, fazendo-a despedaçar; Só então percebi que havia um zumbi dentro do carro, que assim que me notou fez de tudo para me atacar, me dando um susto enorme. Percebi em seu rosto que algumas partes como as bochechas e os lábios já estavam apodrecendo, me levando muitas coisas sobre tudo que eu sabia sobre zumbis a cabeça. Por sorte ele estava preso ao cinto, então só foi preciso alguns golpes para matá-lo.
Tirei o corpo e entrei no carro, percebendo então o cheiro horrível lá dentro. Anderson entrou logo em seguida.
— Agora eu acho que vai ser um pouco mais fácil. — Concluí, com um sorriso no canto do rosto.
— Cara, tem certeza que sabe dirigir isso? — Me perguntou Anderson, aparentemente muito nervoso.
— É o que vamos descobrir agora — Respondi, enquanto ajustava o retrovisor do carro.
Juro que tentei passar a impressão de que tinha tudo sob controle, de que sabia perfeitamente o que estava fazendo. A questão era que a única noção que eu tinha sobre dirigir era de simuladores que já tinha jogado, mas nada na prática.
Com muita apreensão pisei na embreagem e girei a chave, ligando então o motor do carro; Fui seguindo assim todo o procedimento, até que consegui seguir finalmente em frente com o veículo nos metros que se seguiam. Admito que não me saí bem nas primeiras curvas e desvio de outros carros parados, mas em pouco tempo já estávamos indo um pouco mais rápido e atropelando algumas das criaturas pelo caminho.
Algumas quadras depois paramos ao lado de uma grande farmácia entre uma loja de calçados e uma esquina com vários carros estacionados ao lado da rua (não preciso mencionar que eu dei uma leve batida em um outro carro enquanto estacionava não é ?). A porta automática de entrada estava aberta e aparentemente emperrada e suas vidraças quebradas, além de ter sangue pelas paredes e por todo o chão.
O barulho do automóvel parecia ter atraído para fora os zumbis que estavam dentro de todos os escritórios e lojas a nossa volta, então ao invés de simplesmente sairmos do carro e enfrentarmos eles eu tive uma ideia que economizaria muito mais tempo; Liguei o carro novamente e assim que eles se aproximavam eu os atropelava, facilitando muito mais a nossa vida. Claro que um ou outro se agarrava a porta, me forçando a tirá-los a força, mas em pouco tempo a área estava limpa.
Saímos do veículo e finalmente entramos na farmácia. Enquanto pegávamos esparadrapos, analgésicos, gases e tudo que podíamos carregar lembrei que não pegamos nenhuma mochila antes de sair do colégio, o que ia dificultar muito nas nossas saídas para buscar por suprimentos. Depois de pegar tudo que podíamos carregar com as mãos, saímos de lá e colocamos tudo no banco de trás do carro e entramos, fazendo então o caminho de volta para casa.
A volta foi marcada por atropelamentos e o silêncio, que incomodaria até mesmo as pessoas mais pensativas. Eu podia chutar pela cara do Anderson que ele e muito provavelmente os outros estariam nesse momento se tocando de que suas famílias e muitas das pessoas que amam provavelmente poderiam estar mortos ou em perigo. Deve ser desesperador imaginar seu pai ou sua família inteira sendo devorados ou vagando por aí e você ser forçado a matá-los como se fossem algo totalmente diferente do que já foram. Era só um palpite é claro, eu não sabia como isso poderia ser exatamente. Era órfão.
Ao chegarmos, limpamos a área e pegamos a nossa pequena pilha de medicamentos e curativos e entramos. O sol já estava perto de se por, mas por algum motivo não queria nem mesmo saber as horas naquele momento.
— Me pergunto porquê eu não pensei em levar sacolas... O calor do momento deixa a gente meio burro cara. — Pensei em voz alta tentando quebrar o silêncio, mas consegui ainda mais dele como resposta.
Ao entrar chegamos a sala de estar, aparentemente vazia, deixando tudo em uma mesa de centro de madeira.
Nesse meio tempo as garotas haviam cuidado de limpar a casa e bloquear as janelas com algumas peças de metal e plástico que encontraram pela casa, o que dava uma sensação muito boa de segurança. Sophia estava de cama com febre, o que não levantava muito a nossa moral, mas por sorte já tínhamos como cuidar dela. Depois de fazer um curativo de verdade e dar alguns analgésicos, deixamos ela descansando em um dos quartos e nos reunimos na sala para finalmente colocarmos as ideias no lugar.
— Acho que vocês devem ter chegado a mesma conclusão, mas eu e o Anderson pensamos que essas coisas podem ser... Zumbis.
Houve uma inquietação geral instantaneamente. A maioria discordava, dizendo que a ideia era ridícula e as vozes começaram a se sobrepor umas as outras, até que eu senti que aquilo não levaria a nada.
— Gente! Porra! — Interrompi em tom alto e sério. — Tanto faz se são ou não zumbis, o importante é que eles estão por toda a cidade, são muitos e querem comer a gente! Tão entendendo?! Se a gente ficar discutindo não vamos durar nem até o final desse dia.
Nessa hora o silêncio havia se restaurado e as pessoas começavam a refletir.
— Temos que ficar juntos agora, como uma família! Provavelmente vocês devem estar se perguntando se seus pais ou seus irmãos estão vivos. Eu também tenho pessoas que amo lá fora, mas de qualquer forma temos que ficar fortes. Se tivermos sorte poderemos depois procurar por eles, mas por enquanto temos que garantir que nós ficaremos vivos.
Podia perceber muitas lágrimas caindo dos rostos deles nessa hora. Senti que fui um pouco duro, mas acho que em tempos como aqueles era necessário para que todos ficassem firmes.
— Vocês devem estar com fome. — Disse Bruna, que parecia tentar animar os outros. — A gente podia fazer tipo um jantar pra comemorar que estamos vivos.
Aquilo não parecia animar muito o pessoal, mas acho que depois de comer talvez o clima melhorasse um pouco.
— Boa ideia. — Concordei. — Vamos aproveitar e ver se tem algum filme por aqui que a gente possa ver juntos.
E assim prosseguimos com o nosso primeiro dia de fim do mundo. Fizeram várias caixas de lasanha de microondas e ficaram contando sobre suas vidas, sobre o que tinham feito no fim de semana antes de tudo aquilo acontecer.
Enquanto isso eu ficava observando o por do sol na janela nos fundos, a única que não havia sido bloqueada. Não estava com fome e nem muito afim de conversar sobre o que havia acontecido nos dias anteriores. Era muita coisa perdida para quem nunca teve muita coisa a vida inteira.
Eu me perguntava onde o meu melhor amigo, Caio, poderia estar naquele momento. Tinha um ótimo reflexo e pensava muito rápido, provavelmente ainda estaria vivo e abrigado, mas talvez sozinho e com medo. Pensava também em todos os meus amigos que eu não fazia ideia de como poderiam estar. Giovanna, Lucca, Mari e muitos outros, todos que para cada um motivo que eu tinha para morrer me davam dez para viver. Eu precisar saber se estavam todos bem.
Eu precisava encontrá-los.
Fale com o autor