Além do rio

22 Unidos contra o inimigo


Notas iniciais
Pois é, pessoal, a história está acabando... Já estamos no penúltimo capítulo!

[Honorato]

Achei que estava finalmente acordando no pós-morte quando vi as chamas muito próximas de mim. Contudo, eram muito familiares e forcei minha visão para encará-la. Logo percebi que queimavam os cabelos de um garoto sardento e peludo que as ignorava completamente.

—O que aconteceu? –Eu ainda tentava organizar meus pensamentos.

—Basicamente? Tu morreste. –Falou com simplicidade. Notei que eu estava em formato de cobra, mas Curupira sabia falar com animais.

—Eu... O quê?

—Todavia, para vossa felicidade, eu estive a aprender alguns modestos truques com meu primo Caapora e trouxe o senhor de volta a vida. A propósito, achei deveras divertido tu, o Saci e os dois humanos terem deixado aquele demônio tão enfurecido.

—Oh... M-Muito... Muito obrigado, Seu Curupira. Há quanto tempo estive inconsciente?

—Não muito. Só o necessário para ela trazê-lo até mim.

O ruivo apontou para uma criatura estranha e logo as imagens que vi mais cedo começaram a fazer sentido. Parecia um cavalo, jumento ou mula. Mas, no lugar de sua cabeça, estavam chamas que queimavam com gosto, até mais reluzentes do que as do próprio Curupira.

—A senhorita esteve a contar-me sua história. Ficou a perambular pela floresta durante algum tempo, no entanto, apenas agora tomou a iniciativa de fazer contanto conosco. –Alisou as costas do animal. –Ela é nova, mas deixo claro que a floresta terá honra em recebê-la como uma filha. Serás muito bem-vinda aqui.

O animal fez algo como um relincho e Curupira sorriu. Porém, estava bom demais para ser verdade. Se tudo houvesse acontecido tão rapidamente como o Curupira havia dito, então Cris e Wesley ainda estavam em perigo.

—Curupira, precisamos tratar de um assunto urgente. Cristina — a menina carioca — e Wesley estão presos na caverna da Cuca. Ela deve estar a muito pouco de completar sua poção, provavelmente partiu em busca de algum outro ingrediente importante quando eu escapei. –Parei por um momento e mudei de assunto. -Já deve ter percebido o porquê quase não sobrevivi, certo?

Não sobreviveste. Só estás de volta graças a mim, lembra-te disso.

—Certo... Depois de chamar o Boitatá em sua caverna dentro do rio, acabei olhando diretamente em seus olhos e... Aquilo aconteceu. Mas agora, graças ao senhor, estou de volta. –Acrescentei essa última parte, pois me sentia em dívida com o Curupira. Ele pareceu satisfeito quando fiz o discreto agradecimento. –Mas sei que Boitatá vai demorar muito para chegar até a toca da Cuca, ele é lento demais na terra. E a bruxa deve estar a caminho, se já não tiver chagado lá.

—Eu entendo o que dizes... É necessário atrasá-la.

—Exato. Precisamos ganhar tempo.

☀☀☀

[Cristina]

Eu conversava com Biscoito para me distrair, enquanto Wesley tentava se desamarrar. Eu já havia feito o mesmo que ele milhares de vezes, mas era simplesmente impossível. Ele, no entanto, era teimoso demais para aceitar a realidade. Exceto pela extrema dor de cabeça que eu sentia, tudo estava tranquilo demais quando o silêncio finalmente foi quebrado por um grito de horror. A voz abafada parecia pedir socorro.

Wesley aquietou-se e meu coração ficou a mil quando percebemos que Cuca voltara e estava entrando na caverna. Contudo, não estava sozinha. Carregava nas costas uma mulher alta que tinha sua boca tampada com um trapo velho. Ela chorava e tentava fazer de tudo para se livrar do monstro sequestrador.

—Argh... Vocês já acordaram novamente. –Disse Cuca com voz de desprezo.

Dito isso, ela jogou abruptamente a moça que carregava na jaula, junto com Biscoito, que choramingou e deu um pulo. Logo, percebi que os belos olhos da moça se arregalaram de surpresa, assim como fizeram os meus quando nossos olhares se encontraram.

—Lucia... –Minha voz enfraquecida era inaudível. Senti meus olhos ficarem marejados.

—Fique quietinha aí, mocinha. –Cuca parecia estar cansada de ter tido o trabalho de buscar Lucia e carrega-la até lá. Esticou as costas. –Não quero saber de esforços desnecessários.

Biscoito juntou-se a Lucia, que o acolheu com carinho e pareceu mais tranquila com uma companhia. Sua barriga estava muito maior do que quando a vimos pela última vez.

—Você é um monstro! –Gritei. Não iria suportar que aquela mulher fizesse o que bem entendesse comigo, Lucia, Wesley e Biscoito, sem contar em todas as outras pessoas que sofreram em suas mãos ásperas e sujas. Ela não tinha o direito.

—Escute bem, garotinha... –Seu olhar era penetrante e ameaçador, assim como sua voz. –Tu não vai querer me irritar. Eu tenho muitas ideias de como dar um fim nessa sua vida inútil que são muito piores do que simplesmente jogá-la no meu caldeirão. E, acredite, você não quer saber o que eu penso.

—Eu estou pouco me fodendo para o que tu pensa! Deixa a gente sair daqui. Agora!
—Cris, cala a boca! –Eu sabia que Wesley estava tentado me impedir de confrontá-la com medo do que pudesse acontecer a mim. Contudo, não estava disposta a me aquietar.

—Não passa de uma lagartixa metida a besta, uma bruxinha tão fraca que precisa apelar pra feitiços ruins na esperança de ganhar algum poder. –Continuei. -O que tu não sabe é que tu não conseguiria ser dona dessa floresta nem que ela fosse abrigada só por vermes.

Com o sangue subindo nos olhos, Cuca ficou tão perto de mim que senti o ar saindo e entrando muito rápido de suas narinas. Eu, mesmo tremendo de medo e com o coração disparado, não quis que ela percebesse o temor que eu sentia. Encarei-a diretamente nos olhos e fingi que suas ameaças não tinham o menor efeito sobre mim.

—Tu vai se arrepender por cada palavra malcriada que disse a mim, menina insolente!

Assim que disse isso, Cuca agarrou a corda que me prendia a algum lugar do teto e a puxou para baixo. Senti um cheiro horrível quando a ponta de meus cabelos foram queimadas ao encostarem no líquido gosmento do caldeirão, fazendo-o borbulhar ainda mais. Lucia, que até então só assistia enquanto tremia de medo, agora gritava o mais alto que podia, apesar de sua boca estar amordaçada. Wesley se balançava furiosamente na tentativa falha de se libertar.

—Deixa a Cristina em paz! –Gritava com todo o seu fôlego.

Eu tentava pensar em algo, quando percebi que havia um barulho muito estranho se aproximando. De algo pesado e muito veloz. Encarei a entrada da caverna por alguns instantes e logo algo impressionante atravessou a noite escura e veio até nós.

Cuca se virou com um ar de dúvida misturado com ódio quando percebeu que havia invasores em sua casa. Eu, diferentemente, senti meu coração se encher de uma sensação calorosa e boa, com um tremendo alívio. Diante de mim, estava Curupira armado de sua lança, montado a um javali muito grande, que lembrava aqueles animais pré-históricos gigantes que não existem mais. Ao seu lado, estava um cachorro de pelo amarelo escuro que parecia um tanto louco e raivoso, cheio de cicatrizes e com presas tão grandes que nem cabiam dentro de sua boca. Do outro lado, outro animal com a cabeça em chamas parecia furioso e pronto para atacar. Enrolado em quase todo o seu corpo, estava uma anaconda (ou Sucuri) que só poderia ser Otto.

—O que é que você está fazendo aqui? –Falou a mulher em forma de jacaré muito pausadamente, como se estivesse tentando controlar sua paciência.

—Há quanto não a vejo, Cuca. –Cumprimentou Curupira, ainda sério. –Mas temo informar que já está muito tarde. É hora de a senhora voltar a dormir.

Sem esperar nem mais um segundo sequer, Curupira avançou. Contudo, ao invés de partir para cima de Cuca, como todos imaginávamos que ele iria fazer, sua lança libertou a mim e Wesley de uma maneira tão prática e rápida que deveria ser muito mais afiada do que um objeto normal. Além disso, a mula, usando suas patas traseiras, chutou de maneira poderosa o caldeirão, que caiu espalhando o líquido borbulhante que agora parecia ácido. Levantei-me rapidamente e puxei Wesley antes que ele fosse contaminado com o que quer que fosse aquilo.

—Imbecis! Vocês arruinaram a minha poção! Sabem quão difícil foi arrumar os ingredientes?!

Tomada pela fúria, Cuca avançou para o Curupira, que desceu de seu javali gigante para alcança-la melhor. Ao nosso lado, vi que o cachorro louco estraçalhava os galhos que mantinham os prisioneiros. Lucia pegou Biscoito e correu para onde Wesley e eu estávamos.

—Precisamos sair daqui! –Disse ela.

—Como? –Perguntou Wesley. –A saída está bloqueada!

Caso quiséssemos sair, precisaríamos passar no meio da luta entre aquelas criaturas e isso era tudo o que eu não queria fazer em um momento como aquele. Principalmente, pois, bem ali, Curupira tentava perfurar a pele de Cuca com sua arma, enquanto a mesma usava suas garras para tentar mantê-lo parado e mordê-lo, enquanto a cauda mais parecia um chicote poderoso que afastava com eficiência os ataques do javali e do cachorro. Otto, enroscado na lança do Curupira – que deveria ser muito forte para aguentar aquela cobra enorme – tentava abocanhar as mãos de Cuca.

Cansada de não chegar a lugar nenhum, a impaciente bruxa virou-se de uma vez para o javali, agarrou as presas de marfim que ficavam foram de sua boca e o empurrou para trás com uma força absurda. Depois de alcançar certa distância, deu-lhe um soco tão poderoso que o mesmo ficou atordoado e caiu. Quando o cachorro foi atacar, ela o chutou no estômago e o atingiu com a cauda cheia de “dentes” até que o mesmo começasse a emitir um som de dar pena.

—Papa-Mel! –Gritou Curupira, depois se virou para a Cuca. –Não te atrevas a encostar-te em meu cão!

Eu entendia perfeitamente como ele se sentia, pois ficava igualmente doida de raiva quando Biscoito corria perigo. Um Curupira muito enraivecido acertou em cheio a ponta de sua lança nas costas de Cuca, fazendo-a soltar um grito tão alto e horroroso que tampei meus ouvidos. Aproveitando a proximidade com a bruxa, Otto deslizou para seu corpo em uma tentativa de sufoca-la, que funcionou por alguns segundos, até que ela usasse uma pequena rocha solta no chão para ataca-lo, batendo o objeto na cabeça do animal. Senti-me mal quando isso ocorreu e quase fui até o meio da confusão para ajuda-lo, porém sabia que seria suicídio. E então algo ainda mais surreal aconteceu: Cuca usou o próprio corpo de Otto para tentar enforcar o Curupira, que, com a falta de ar, foi obrigado a soltar sua lança para tentar se livrar do bicho.

Eu, horrorizada, não conseguia tirar meus olhos da cena até que senti o ambiente esquentar. Com o suor escorrendo em meu rosto, notei que estava quente até demais. Quando olhei para o lado, vi que lá estava aquela espécie de mula com a cabeça em chamas. Ela parecia estar chamando nossa atenção, como se pedisse para segui-la, e foi então que percebi que a saída estava liberada. Chamei Wesley e Lucia, avisando-os silenciosamente para que seguissem o animal. Para nossa sorte, Cuca estava preocupada demais tentando dar conta de um Curupira muito resistente.

Quando finalmente nos afastamos da caverna, fui obrigada a parar a corrida, pois senti um tremor na terra que não parecia ser apenas coisa da minha cabeça. Olhando para o lado, percebi que algo extremamente grande se aproximava do local com um brilho intenso, como se fosse feito de fogo. Aquela criatura era exclusiva demais para ser confundida com qualquer outra e eu sabia exatamente de quem se tratava. Embora estivesse maravilhada e aterrorizada ao mesmo tempo com sua presença, eu tinha em mente que não deveria admirá-lo. Avisei os outros de que não deveríamos encarar aquele bicho, seu olhar era fatal.

Continuamos nossa fuga, porém Lucia parecia exausta e diminuímos o ritmo. Eu e Wesley ajudamos a garota a caminhar, com Biscoito vigiando o caminho e a mula nos guiando para fora daquele inferno. No entanto, minha cabeça automaticamente virou para trás quando ouvi um grito mil vezes pior que o de outrora, porém ele já estava um tanto distante. Logo após o grito, vi que um corpo gigantesco e brilhante, envolto por chamas, saía da caverna.

—Já estamos quase chegando no rio. –Disse Wesley. –Falta pouco.

—Precisamos correr! Ele está vindo em nossa direção!

Apressadamente e com as mãos tremendo, Wesley pegou o barco que nunca usamos e o preparou para o embarque. Duvido que ele iria optar pela canoa em um momento como esse, principalmente com uma grávida a bordo. Enquanto ele preparava a embarcação para partir, notei que o animal sem cabeça nos encarava de longe, ele não iria conosco. Contudo, senti uma estranha sensação de conforto enquanto o observava, como se fosse algum velho conhecido, embora essa fosse a primeira vez que vi uma mula sem cabeça pessoalmente.

—Tu me é familiar. –Falei e ela pareceu entender.

—Cris, precisamos da sua ajuda!

Com o chamado de Wesley, despertei-me e fui ao seu encontro. Mas não sem antes olhar brevemente para o animal, feliz por ainda estarmos vivos e intactos.

—Obrigada pela ajuda.

A mula desapareceu pela floresta logo depois de fazer uma breve reverência no instante em que eu sumi na embarcação. Já estávamos quase chegando até a outra margem quando ouvi um barulho muito alto de árvores sendo estraçalhadas e arrastadas. Minha curiosidade poderia ter-me custado a vida em outras circunstâncias, no entanto, aquilo foi realmente um golpe de sorte.

Como estava prestes a entrar no fundo do rio, Boitatá já havia fechado os olhos, de modo que não era mais fatal encará-lo. As chamas de seu corpo também se apagavam conforme ele entrava na água. Mas o mais impressionante era que, muito bem encaixada dentro de suas presas que eram facilmente maiores do que eu, estava a Cuca, se remexendo furiosamente e gritando coisas que não consegui ouvir direito. Sorri, vitoriosa.

De maneira lenta e elegante, a cobra gigantesca e pré-histórica mergulhou no rio até sumir completamente e tudo o que sobrou foram algumas bolhas, que logo também encontraram seu fim. Como se estivéssemos sob uma tempestade, Wesley, Lucia e eu sentimos o barco elevar-se há uns bons metros de altura com as ondas que se formaram durante o mergulho de Boitatá. Segurei Biscoito com força para que ele não caísse, enquanto me apoiava na madeira do barco. Wesley ajudou Lucia a se manter de pé e os dois, com muita dificuldade, permaneceram firmes até que o barco fosse arrastado para uma região muito além das margens do rio, quase em frente às cabanas. Devo ter batido minha cabeça no teto durante o processo, pois senti um galo se formando.

Quando descemos do barco, encaramos o caminho que levava ao rio e à caverna da Cuca durante alguns minutos, esperando que algo acontecesse. No entanto, tudo estava silencioso na floresta que costumava ser barulhenta.

—Então é isso? –Perguntou Lucia, um pouco menos preocupada do que antes, enquanto segurava sua barriga. –Acabou?

—Acabou. –Falei, satisfeita e cheia de alívio.

Notas finais
Diz a lenda que Boitatá foi o único animal que não entrou na arca de Noé, mas mesmo assim sobreviveu. Mais uma criatura magnífica do nosso folclore ♥