Além do rio
5 Amazônia, a floresta assombrada
Terça-Feira
[Cristina]
Depois que eu e o índio Made in China terminamos as compras, voltamos para a floresta.
Na cabana dele, tomamos um maravilhoso café da manhã, com direito a frutas, suco natural de acerola e pão com manteiga. Senti saudade do café expresso que costumava tomar em minha cidade natal, mas não seria nem um pouco difícil me acostumar com aquilo.
Depois da refeição, Wesley disse que iríamos até a floresta e voltaríamos apenas ao pôr-do-sol, como ele havia prometido.
Dessa vez, não coloquei o boné. Deixei meu cabelo amarrado em um rabo de cavalo, com os fios cacheados tocando minhas costas. A roupa era a mesma do dia anterior e guardei um sanduíche que fiz no café da manhã em minha mochila, para comer mais tarde.
Passei mais um pouco de repelente e dei um laço nos cadarços, que estavam desamarrados. Notei que Biscoito estava dormindo na varanda e o acariciei.
—Se comporte, garotinho. Eu até te levaria junto, mas depois de ter lido tanto sobre as travessuras que as criaturas da floresta fazem com animais, é melhor deixa-lo aqui.
Wesley estava terminando de arrumar sua mochila e decidi espera-lo do lado de fora, observando a paisagem. Nunca me cansava de contemplar as árvores e toda aquela imensidão verde e barulhenta.
O vento soprou algumas folhas, rodopiando-as e balançando meu cabelo, mas logo parou.
—Estou pronto. –Wesley surgiu. –Podemos ir?
—Sim, senhor.
Caminhamos até o rio e tentei ignorar a lembrança de meu guia turístico tomando banho, embora seja mais difícil controlar nossos pensamentos do que parece. Por sorte, ele não estava me olhando quando corei, o que teria piorado mil vezes mais a situação.
Ele foi na direção do barco, mas lembrou-se da minha preferência pela canoa e mudou seu percurso. Fiquei feliz por isso. A canoa era um ótimo meio de locomoção, exceto pelas dores em meus braços que ficaram piores no exato momento em que olhei para os remos. Mas segui em frente.
Assim como no dia anterior, a água estava calma. O dia estava ensolarado e perfeito para uma aventura pela floresta. Apalpei o bolso da calça e senti que o dente bizarro ainda estava guardado lá. Eu não tinha nenhuma oferenda de frutas dessa vez. Abri a boca para perguntar se teríamos uma chance de encontrar a criatura sem oferecer alimentos, mas o que eu acabei dizendo foi totalmente inesperado:
—Mas o que diabos...?
A correnteza havia acelerado o ritmo. Usar os remos agora era inútil e estávamos deslizando pelo rio cada vez mais rápido.
—O que é isso? –O falso índio parecia tão atordoado quanto eu.
—É você quem deveria saber!
—Isso nunca aconteceu antes. Tem algo errado.
Segurei firme nas bordas da canoa para não cair, tamanha era a velocidade em que estávamos. Nossos cabelos voavam com o vento.
—Wesley... –Comecei a sentir medo. Aquilo era anormal.
Antes que eu pudesse olhar sua expressão, senti o mundo girar. Literalmente. Havíamos entrado em uma espécie de redemoinho e a sensação era de que eu havia ido parar em um parque de diversões. Exceto pelo fato de que aquela era a Floresta Amazônica e isso não era divertido.
Ouvi o indígena xingar algo que não entendi e só parei de gritar quando percebi que, aos poucos, estávamos perdendo velocidade. Quando paramos, tudo ficou silencioso e calmo, como se aquilo nunca tivesse acontecido. Estávamos no meio do rio.
—Que porra foi...
—Eu sei. –Me interrompeu, piscando rápido para voltar ao foco. Ele pegou seu remo enquanto eu ainda estava agarrada à borda da canoa. –Vamos sair daqui logo, antes que aconteça de novo.
Ainda com um pouco de tontura, ajudei-o a remar até chegarmos ao outro lado. Caminhei em sua frente na direção que eu tinha certeza de que nos levaria à árvore de raízes grandes, onde outrora estivera o dente pontudo que guardei.
Após ouvir um barulho atrás de mim, mal tive tempo de olhar o que acontecera, pois minha visão foi completamente tampada por um brutamontes que estava caindo e me levando junto. Gritamos na queda.
—Wesley, sai de cima de mim. –Briguei.
Não sabia se estava brava ou muito envergonhada pela proximidade com ele. O que deu naquele índio maldito?
—Me desculpe, Cris. –Levantou-se e depois me ajudou. –Foi um acidente.
Olhei para os seus pés e vi que os cadarços dos tênis de caminhada estavam desamarrados.
—É claro, você não amarrou esses sapatos direito. –Repreendi. Eu estava vermelha e para disfarçar fui andando na frente. –Achei que índios soubessem dar nós.
—Ahn... Cristina...
—O que foi? –Me virei. Ele estava arrumando seus calçados enquanto me encarava com dúvida.
—Seus cabelos estavam trançados antes de sairmos?
Estranhei sua pergunta.
—O quê? É claro que não. –Levei minha mão ao rabo de cavalo e pude sentir que eu usava tranças perfeitas. Aquilo não poderia ser obra do vento. –Ai meu Deus, o que é isso? Eu estava histérica como se houvesse insetos em minha cabeça, evitando tocá-la. –Isso não estava aqui antes!
—Espere, fique calma. É só uma trança. –Wesley não conseguia entender o que estava acontecendo, mas me ajudou a desfazê-las.
Minhas mãos tremiam quando fiz um coque apressadamente. Mas as estranhezas não pararam por aí.
O vento voltou a rodopiar as folhas e ouvimos uma gargalhada. Ela era divertida, porém, assustadora e ecoava pela mata. Eu já ouvira aquela voz antes, acompanhada de um assobio. Definitivamente não pertencia a Wesley.
Tentamos descobrir de onde vinha aquele som, mas ele parecia mudar de local a todo momento. Adentramos um pouco mais a mata, mas não havia nenhum sinal do que estávamos procurando. Não encontramos nenhum outro dente, rastro ou qualquer coisa que servisse para nos orientar.
De repente, um arbusto se mexeu a alguns metros de nós e o índio ficou na minha frente, preparado caso algo resolvesse atacar. Meu coração estava acelerado, contudo, tornou-se uma verdadeira pedra quando um enorme grupo de animais surgiu correndo em nossa direção. Eles estavam assustados e agindo feito loucos. Eram tão rápidos que não reparei a que espécie pertenciam.
—O que são essas coisas? –Falei. Não sabia como agir.
—Foda-se o que elas são. –Ele segurou o meu braço. –Precisamos sair do caminho.
Wesley me puxou e corremos sem olhar para trás. Minha cabeça não conseguia pensar em mais nada além da corrida, mas pude jurar que ouvi aquelas risadas novamente.
Quando tivemos certeza de que os bichos estavam indo em outra direção, paramos e Wesley me soltou. Estávamos em uma pequena descida.
—Eram antas. –Ele recuperava o fôlego e mal conseguia falar. Depois, sua voz finalmente se estabilizou. –Muitas e muitas antas. Elas nunca se comportaram desse jeito... Algo está assustando os animais.
Eu estava pronta para voltar e verificar se elas já haviam ido embora. Ergui o pé para dar meia volta, mas, mais uma vez, meus planos não estavam indo exatamente do jeito que eu gostaria.
Com um grito meu, Wesley imediatamente abriu seus braços e se preparou para segurar uma Cristina que estava caindo sobre ele. Entretanto, a descida em que estávamos era cheia de lama e ele acabou escorregando, de modo que nós dois caímos.
Lá embaixo, o índio sujo de lama abaixo de mim fazia uma careta pela dor de ter batido as costas no chão. Por sorte, ele amorteceu minha queda, então apenas me sujei.
—E você ainda reclama de mim...
—Você não está entendendo! –Falei, assustada. –Alguém me empurrou.
A risada ecoou pela floresta novamente. Alguém estava gostando do show e, a esse ponto, eu nem me importava em estar sob Wesley. Olhei para frente e ele seguiu meu olhar. O rio estava logo ali e dei espaço para ele levantar.
—Essa coisa está nos mandando ir embora. Temos que voltar, Cris!
Ao mesmo tempo que eu desejava partir daquele lugar estranho nesse exato momento, a ansiedade por descobrir quem ou o que estava nos perseguindo preenchia grande parte de mim.
Eu não queria ir embora. Queria voltar para o meio da floresta e encarar frente a frente o responsável por essa bagunça que deixara minhas roupas cheias de terra e folhas.
Entretanto, o medo voltou a percorrer meu corpo quando senti que estava sendo observada. Olhei ao redor, mas não vi ninguém. Um vulto desaparecia quando eu estava perto de encontra-lo. Meus pelos da nuca se eriçaram e as pernas tremeram. Estava muito perto.
Meu corpo se arrepiou e levei um susto quando Wesley agarrou meu braço, me puxando de volta para o rio.
—Precisamos sair desse lugar.
☀☀☀
A viagem de canoa para voltar foi tranquila. Permanecemos em silêncio durante a maior parte do tempo.
—Eu... –Wesley parecia tentar organizar um milhão de pensamentos em sua cabeça. –Eu não acreditava nessas coisas.
Fitei a floresta que se distanciava. Aquele lugar parecia ficar mais estranho conforme adentrávamos a mata, como se cada passo que déssemos desafiasse os poderes sobrenaturais do local. Quanto mais longe do rio, mais perigoso fica.
Contudo, eu não iria desistir tão fácil assim.
—Agora você acredita.
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