Notas iniciais
Só agora percebi que eu estou postando esse capítulo bem num sábado a noite! Pena que ainda não é época de festa junina

Sábado á noite

[Wesley]

Não sabia ao certo o motivo, mas era simplesmente impossível dividir o mesmo espaço com Honorato. Ou eu deveria dizer “dividir Cristina com Honorato”? Não... Sem chance. Quer dizer, porque eu me preocupava tanto com isso? Eu nem ao menos tinha sentimentos pela garota. Eu acho... Não! Definitivamente não tinha. O stress de tanta loucura acontecendo ao mesmo tempo, com aquela coisa das lendas folclóricas, provavelmente estava me deixando rabugento. Só isso e nada mais.

Tirei uma longa soneca durante a tarde, contudo, não fora a melhor de minhas escolhas. Tive um pesadelo horrível envolvendo um casamento entre Cristina e Honorato, no qual a igreja era infestada por cobras selvagens e peçonhentas. Acordei ensopado, mas não sabia ao certo se era suor ou gotas de chuva pelo fato de eu ter esquecido a janela aberta. Provavelmente eram os dois líquidos misturados.

Depois de me secar, quando a chuva já havia acabado, percebi que estava sem ânimo para nada. Olhei através da janela e vi a cabana de Cris. Uma mistura de sentimentos estranhos percorreu meu corpo: ódio, felicidade, raiva e até senti um frio na barriga. Tudo ao mesmo tempo. Ora, isso nunca havia acontecido antes. Que espécie de feitiço era esse?! Se meu avô estivesse vivo, seria muito simples. Ele iria arrumar seu cachimbo cuidadosamente, com um sorrisinho sem dentes do rosto; Depois iria coloca-lo na boca, dar uma tragada e finalmente falar que eu estava apaixonado e com ciúmes. Mas isso não tinha lógica nenhuma, eu a conhecia a pouquíssimo tempo para criar laços tão fortes.

Já senti sentimentos por outras garotas antes, mas todas possuíam um perfil completamente diferente do estilo de Cristina. Sempre focadas nos estudos científicos da faculdade; racionais. De certo modo, aquilo me encantava. Talvez pelo fato de ser o que eu mais procurava em mim mesmo. Embora não gostasse de admitir, eu era muito mais emocional do que gostaria de ser. Porém, Cristina não era nada racional, sempre colocando suas emoções em primeiro lugar e procurando por coisas absurdamente malucas.

—É tudo coisa da minha cabeça. –Falei comigo mesmo, rindo levemente. –Eu não gosto dela. Isso é impossível.

Sem muitas opções do que fazer, voltei para a rede que eu usava como cama e peguei aleatoriamente um de meus livros de biologia. Por coincidência ou não, era o livro sobre cobras. Imediatamente o descartei e peguei outro: felinos selvagens. Bem melhor.

Enquanto eu relia pela oitava ou nona vez aquela edição, ouvi a porta ranger. Uma figura conhecida apareceu. Cristina estava ensopada. Porém, bem alegre. Alegre até demais... Ah, claro. Provavelmente passara a tarde toda com aquele Honorato. E obviamente se divertiram pra valer longe de mim, longe de alguém para atrapalhar o belo, feliz e sorridente casal. Fechei o rosto, simplesmente não conseguia encarar aquela garota. Mudei minha posição na rede, ficando de costas para que a mesma não notasse minha expressão e voltei-me para o livro.

—Está animado para a festa? –Puxou assunto.

—Eu não vou.

—O quê?! –Gritou. -Como assim? Todos da Vila não paravam de falar sobre essa tal de festa junina. Claro que tu vai!

—Não.

— Vamos, levante-se. –Insistiu. -Hora de se arrumar.

—Cristina, eu não vou! –Falei um pouco mais alto do que pretendia.

—Nossa, credo. Que bicho te mordeu?

Permaneci em silêncio. Sabendo que não iria me fazer mudar de ideia, Cristina desistiu.

—Tudo bem, já que é assim. Vejo você depois.

Quando ouvi a porta bater, virei-me na rede novamente e tirei a cara do livro, já que, sendo sincero, não estava lendo nada.

Que diacho... O que aquele cara patético tem que eu não tenho? Será o cabelo meio amarelado? Não sabia dizer. Mas, de qualquer modo, isso não era algo com o que eu deveria me preocupar. Afinal, em pouco tempo Cristina já estaria voltando para o Rio de Janeiro para publicar sua história. Por algum motivo, pensar em Cristina se afastando me trouxe uma sensação ruim e desconfortável. Seria possível sentir saudades mesmo antes de ver alguém partir?

O tempo passou e permaneci deitado na rede, até que um “Toc, toc” me despertou.

—Última chamada para me acompanhar até a festa.

—Cristina, eu já disse que não vou! –Falei rapidamente, mas logo que a encarei emudeci.

Cristina estava deslumbrante. Eu não fazia ideia do que ela tinha feito, mas seus cabelos, mais cacheados do que antes, pareciam ganhar força e vida própria. A blusa branca e saia florida, despojadas, porém adequadas para o seu tamanho, salientavam as curvas bem definidas do pequeno corpo e o salto alto lhe deixava muito elegante. Ela tinha uma flor bem colorida presa no cabelo para enfeitar. Usava também o colar com a cruz que Dona Geraldina lhe deu; a menina realmente havia se apegado ao objeto. E é óbvio que não deixei de reparar no rosto delicado repleto de maquiagem. O batom, que parecia muito com a cor de vinho tinto, deixava seus lábios carnudos ainda mais cheios e acho que acabei os encarando mais do que o aceitável. Olhei para baixo quando percebi esse detalhe, envergonhado.

—Certo. –Suspirou. Ela, de fato, estava muito bonita. –Desisto. Divirta-se com seus livros do Zoboomafoo.

Revirei os olhos. Eu nem sequer assistia esse programa, preferia observar os bichos pessoalmente. Mas isso não vinha ao caso.

O estranho sentimento de solidão e vazio me atacou novamente. Estava começando a me arrepender de não ter ido para a festa.

[Cristina]

Aquele índio era um verdadeiro chato! Tudo bem que a tarde não havia sido uma das melhores para ele, mas eu me esforcei para que pudéssemos ter uma noite agradável ao lado dos moradores da Vila. Bem, talvez ele apenas não gostasse da minha companhia, afinal de contas. Era melhor assim.

Quando cheguei ao local, meus sapatos estavam cheios de lama e decidi ficar descalça. Não vi problema, pois o chão não estava frio e aquele não era nenhum baile de gala ou coisa do tipo. Na verdade, tratava-se de uma festa típica bem simples, o que a deixava ainda mais aconchegante e familiar. Muitas pessoas usavam chapéus de palha e roupas com remendos. Além disso, o cheiro de pipoca e milho me laçaram de jeito, sem contar os outros petiscos.

Nem é preciso comentar que a primeira coisa que avistei foi a maravilhosa mesa de comidas típicas. Sem perder tempo, já belisquei alguns bolos e doces. Depois, caminhei pelo local, que se estendia desde o pátio da igreja até a pracinha central da Vila. Procurei por Otto imaginando que pelo menos na festa mais especial da cidade ele iria, mas não o encontrei. Embora a música animada e a decoração cheia de bandeirinhas coloridas me deixassem feliz, eu estava ficando entediada por não encontrar nenhum conhecido. Até que ouvi uma voz muito alegre e radiante vindo por trás.

—Cris! Que bom que tu não demorou, eu estava te procurando.

Quando olhei para trás, vi Lucia correndo em minha direção. E, pelas barbas do Papai Noel... Como essa menina estava bonita! A maquiagem realçava os pontos mais bonitos de seu rosto meigo e rosado (que eram praticamente todos, diga-se de passagem), além de deixar seus lábios parecendo pétalas de rosa. Senti uma boa dose de inveja saltitando dentro de mim, mas tratei de expulsá-la o mais rápido possível. O vestido não fora nenhuma surpresa, eu já havia visto como ele ficara encantador e elegante na loja de roupas. Posso afirmar com convicção: Lucia era literalmente a garota mais bonita da festa.

—Lucia! –Exclamei. –Tu está um arraso, menina!

—Ah, isso é bondade tua. Quem está arrasando aqui é você!

Sei que a garota apenas estava sendo educada. Ficou claro que ela chamava bem mais a atenção do que eu, pelo tanto de olhares que recebia.

—Vamos! –Chamou. –A dança já vai começar e eu quero que tu assista.

—Que dança?

—Carimbó. –Falou com naturalidade.

Quando entramos em uma rodinha que se formava para assistir ao espetáculo, fiquei imaginando como seria essa dança. Logo, descobri que a primeira apresentação seria de um grupo infantil. Depois era vez dos adultos e então teríamos uma pausa para os comes e bebes.

Quando a música começou a tocar, achei o ritmo contagiante. Eu gostaria de dançar, se soubesse a coreografia e houvesse sido chamada para os ensaios com o grupo. Mas o que me chamou a atenção mesmo foram as crianças! Uma mais adorável do que a outra, ainda mais com aquelas roupas coloridas e saias magníficas para as meninas.

Quando a segunda apresentação estava prestes a começar, meu estômago decidiu que gostaria de fazer mais uma visita à mesa de alimentos. E eu não poderia desapontá-lo. Como Lucia queria observar o show de perto, achamos que não teria problema se nos separássemos.

Enquanto todos se divertiam na festa, notei que havia alguém afastado e que, assim como eu, apenas observava as pessoas de longe. No entanto, meu olhar ficou tão absurdamente vidrado em sua direção que era como se todo o resto já não importasse mais; nem mesmo a deliciosa comida ao meu lado.

Ele era incrível. Aquele era definitivamente o homem mais bonito que eu já vira em toda a minha vida. Extremamente elegante, o desconhecido usava roupa social completamente branca e um chapéu de mesma cor. Era forte e bem mais alto do que os homens da região, porém nem um pouquinho atrapalhado ou desengonçado. Muito pelo contrário, sua postura tinha cortesia e delicadeza, mas ao mesmo tempo era muito firme e sedutora. O nariz, fino e comprido, era apenas um detalhe a ser ignorado naquele rosto digno de um deus grego de primeira classe. Parecia ser quase careca e, apesar de que seu olhar não estivesse voltado diretamente para mim, pude sentir o poder fascinante e atrativo que ele emanava.

Estava tão concentrada no estranho misterioso que acabei deixando um pedaço da tapioca que eu comia cair no chão, sem ao menos perceber. Até que reconheci uma voz vinda da direção oposta.

—Meu Deus, Cristina! Ninguém te ensinou que é feio desperdiçar comida? E ainda sujou o chão.

Quando virei-me, tive uma agradável surpresa. Wesley estava lindo como eu nunca imaginei que ele ficaria! Roupas bonitas, cabelo bem arrumado e um perfume que me fez ter vontade de abraça-lo por horas, apenas para afundar meu nariz em seu pescoço e sentir a fragrância refrescante e natural. Fiquei tão feliz em vê-lo que abri um enorme sorriso.

—Não foi minha culpa! Mas o que tu está fazendo aqui, afinal? Os livros não eram bem mais divertidos do que a festa?

—Eu fiquei... Ahn... Entediado. –Disfarçou. –Além disso, a comida de casa acabou e pensei em pegar um pouco daqui.

Eu ri e olhei para a direção do estranho bonitão, verificando se o mesmo ainda estava ali. E, realmente, ele não havia ido a lugar algum. Porém agora, embora ainda muito atraente, parecia já não possuir todo aquele charme completamente irresistível de outrora. Era como se a presença de Wesley quebrasse o feitiço.

—Vêm! –Chamei. –Tu precisa experimentar; essa comida é de outro mundo.

Peguei um bolinho salgado, provavelmente recheado com peixe, e pedi para que o índio falasse “A”. Quando ele o fez, coloquei o petisco entre seus dentes e o mesmo fingiu que iria morder meus dedos, fazendo com que eu os afastasse imediatamente.

—Tu é um idiota, Wesley!

—Diga o que quiser, não estou prestando atenção. –Ainda estava de boca cheia. –Esses bolinhos estão ótimos! Com eles eu realmente me importo.

Bati levemente em seu peito, o que fez com que ele risse com a boca cheia de peixe triturado. Ele ficava adorável enquanto sorria com as bochechas cheias.

[Geraldina]

A festa junina estava uma beleza, como sempre. Todos se empenharam muito com os preparativos e, de fato, valeu a pena. Estava tudo tão bonito e alegre!

Enquanto os mais jovens dançavam, achei melhor ficar sentada tranquilamente, apenas relaxando e descansando o esqueleto. Aproveitei também para conversar com algumas senhoras amigas e pôr o papo em dia. Com o tempo e a conversa fluindo, não pude esconder os meus próprios problemas e sentimentos. Afinal, já estavam tão bem guardados em meu peito que eu precisava fazer algo para aliviar antes que explodisse. Ademais, elas adoravam saber o que se passava na vida dos outros, logo, não iriam ficar incomodadas caso eu desatasse a falar.

—Bem, vocês já conhecem a história. –Falei. –Ainda prezo muito pelo meu marido, mesmo depois de tantos anos. Mas... Não consigo evitar que outros pensamentos e interesses surjam em minha cabeça.

—Ora, Geraldina, deixe de bobagem! –Disse uma delas. –Passado é passado. O que ficou para trás deve ser deixado lá. Se o seu coração diz para seguir em frente, tu tens mais é que seguir! O falecido, e que Deus o tenha, já está em paz. Agora é tu que tem que ser feliz.

—Pois, é menina! –Disse outra. –O meu sexto casamento foi o único que durou. E eu só consegui coisa boa porque persisti bastante e obedeci o que meu coração me mandou fazer.

—Mas vê se arruma um homem direito. –Uma terceira entrou para a conversa. –O meu marido só fica no bar o dia inteiro, nem parece que tem esposa e casa pra cuidar. Se fosse assim, era melhor ter ficado solteirona.

—Ah, dessa preocupação eu já me livrei. –Sorri, pensativa. –Ele é muito direito, sim. Um homem exemplar, diga-se de passagem.

—Pois então trate de fisgar o moço, pois já estou doida de curiosidade para conhecê-lo.

—Mas, não sei... –Refleti. –Não me parece a coisa certa.

—E vai ficar com essa tristeza na alma pelo resto da vida? Deixe disso, mulher!

Por mais difícil que a situação fosse, elas estavam certas. Eu deveria seguir meu coração e me entregar para a belíssima sensação do amor depois de muitos anos tristes e cinzentos. Aos poucos, a coragem e motivação foram tomando conta de mim, ainda mais quando olhava para frente e encarava aquela lua tão brilhante e poderosa que parecia emanar a energia necessária para me encorajar.

Eu precisava falar com ele. E precisava ser esta noite.

[Cristina]

Depois que a dança dos adultos acabou, uma música um pouco mais lenta, porém com ritmo delicioso começou a tocar. Muitos se aproximaram das comidas, enquanto outros partiram para o centro para dançar, de maneira individual ou com seus respectivos pares.

—Tu gosta de dançar? –Perguntou. Wesley estava sorridente esta noite. Além disso, eu sentia que estávamos cada vez mais próximos, no sentido de intimidade.

—Gosto. Mas não sei como se dança essa música.

—Eu também não. –Confessou. Depois afastou-se e pediu minha mão. –Momento perfeito para aprender, não?

Sorri e coloquei minha mão sobre a dele, que logo a segurou firme e me puxou para onde todos dançavam. Entrelacei meus dedos atrás de sua nuca e olhei diretamente em seus olhos, enquanto o mesmo segurava minha cintura suavemente. Notei que os casais dançarinos estavam mais próximos entre si, então cheguei mais perto do índio-pé-valsa. Estávamos tão próximos que o momento ficou constrangedor, mas Wesley, que provavelmente sentia o mesmo, tratou de puxar assunto.

—Lucia veio? Será que ela está sozinha?

—Sim, ela veio. –Olhei por cima de seu ombro e notei que a esperta estava dançando com, ninguém mais, ninguém menos, do que o bonitão de roupa social branca. E que casal magnifico eles formavam! Sorri. –Não se preocupe, ela está bem acompanhada.

Wesley e eu conversamos por alguns minutos, apenas seguindo o ritmo da música e fingindo que sabíamos o que estávamos fazendo.

—Tu é chibata, Cris.

—O quê? –Me afastei abruptamente. Aquele cretino estava me xingando?

—Calma, não foi nada. –Riu largamente. -É só uma gíria.

—Ah. –Voltei para perto, mais tranquila. -Espero que seja algo bom.

—Sim. –Ainda sorria. -É algo bom, sim.

Por incrível que pareça, conseguimos manter nossos olhares fixos um no outro o tempo todo, até que eu percebi que seus lábios ficavam cada vez mais próximos dos meus e a sensação era de que o mundo ficara para trás e estávamos sozinhos. Apenas nós dois e a música. Eu na ponta dos pés, Wesley um pouco contorcido para baixo e o ritmo envolvente.

Quando o índio estava tão perto a ponto de eu sentir sua respiração, uma estridente voz ao microfone interrompeu a música e fez com que eu desprendesse meus braços do pescoço de Wesley.

—É hora de mais uma apresentação! –Disse a maldita voz vinda do além. –Preparem-se para o show!

Sem melhor alternativa após o clima interrompido, Wesley e eu nos acomodamos perto da pequena multidão que se juntava para assistir o que estava por vir, embora eu estivesse um pouco desapontada. Senti o índio passar seu braço por mim e me encostei em seu ombro, de maneira muito confortável. O perfume ainda estava incrível.

Nesse momento, eu já havia perdido Lucia de vista.

Notas finais
Pra quem não conhece, esse é o carimbó: https://www.youtube.com/watch?v=pshEoagc0t4