Além do Olhar
13 O Golpe de Misericórdia
A calmaria em que o casal vivia era apenas o olho do furacão. Dr. Arthur Stanford não era um homem que aceitava a derrota; ele apenas esperava o momento em que a guarda do inimigo estivesse baixa o suficiente para um golpe fatal.
Era uma manhã comum de terça-feira na faculdade. David estava em sua sala na Reitoria, revisando o orçamento para novas bolsas de estudo, quando o som pesado de passos em marcha ecoou pelo corredor. Sem aviso, a porta foi escancarada por três policiais civis, acompanhados pelo reitor, que parecia pálido e trêmulo.
— David Sinclair? — um dos policiais perguntou, já sacando as algemas.
— Sim, sou eu. O que está acontecendo? — David se levantou, a calma habitual dando lugar a uma confusão genuína.
— Você está preso em flagrante por tráfico de drogas e corrupção de menores dentro de instituição de ensino.
O mundo pareceu girar. David olhou para o reitor, buscando alguma sanidade.
— Isso é um erro. Do que vocês estão falando?
— Recebemos uma denúncia anônima e o depoimento de três alunos. Fizemos uma busca no seu carro e no seu armário particular no ginásio há dez minutos. Encontramos dois quilos de cocaína pura — o policial disse, enquanto prendia os pulsos de David.
Nesse momento, Kyara, que passava pelo corredor a caminho de uma aula, viu a movimentação. Ela parou na porta, o coração saindo pela boca ao ver David algemado.
— David! O que é isso? Soltem ele! — ela gritou, tentando entrar na sala, mas sendo barrada por um dos agentes.
— Kyara, não se aproxime! — David exclamou, os olhos injetados de choque. — Eu não fiz nada, eu juro!
— Ele foi denunciado por alunos, professora — o reitor murmurou, sem coragem de encará-la. — Três rapazes do time de futebol afirmam que compravam dele há meses. Eles entregaram até mensagens de texto...
Kyara olhou para o lado e viu, ao fundo do corredor, Pedro Albuquerque e dois de seus amigos. Eles sustentavam um olhar vitimista, fingindo estarem abalados, mas Kyara viu o brilho de satisfação nos olhos de Pedro. Ela sabia quem pagava a conta daquele grupo.
— Foi ele... foi o meu pai — Kyara sussurrou, sentindo uma náusea insuportável.
A Humilhação Pública
Os policiais conduziram David pelo saguão principal. A notícia se espalhou como fogo. Alunos se aglomeravam, celulares em punho, filmando o "professor herói" sendo levado como um criminoso comum. Os comentários eram cruéis:
— “Sempre soube que tinha algo errado com ele.”
— “Esses caras de subúrbio não mudam, o crime está no sangue.”
David mantinha a cabeça erguida, mas o brilho em seus olhos havia sido substituído por uma dor profunda. Ele olhou para Kyara uma última vez antes de ser colocado na viatura.
O Confronto de Sangue
Kyara não chorou. A dor era tão grande que se transformou em uma pedra de gelo no seu peito. Ela entrou no carro da avó e dirigiu até a mansão dos Stanford. Ela não bateu na porta; ela a arrombou com o ombro.
Seu pai estava na biblioteca, lendo calmamente, com um sorriso de soslaio ao ver a filha entrar em estado de choque.
— Você é um demônio — Kyara disse, a voz num tom mortalmente baixo. — Você plantou aquela droga. Você pagou o Pedro e aqueles idiotas para mentirem.
Arthur pai fechou o livro e se levantou, caminhando até ela com uma calma aterrorizante.
— Eu avisei, Kyara. Eu disse que a vida dele ia desmoronar. Eu apenas acelerei o destino. Pessoas como ele não pertencem ao nosso mundo, e agora o mundo dele é uma cela de dois por dois metros.
— Ele é inocente! Você destruiu a carreira dele, a honra dele!
— A honra de um negro traficante? — Arthur riu, uma risada sombria. — Quem vai acreditar nele? Três alunos brancos de famílias influentes contra um professor divorciado vindo do nada? O juiz é meu amigo de golfe, Kyara. David Sinclair vai apodrecer na cadeia antes mesmo de ver o sol.
Kyara deu um passo à frente e, pela primeira vez na vida, levantou a mão para o pai, parando a milímetros do rosto dele.
— Você acha que venceu? Você acabou de assinar sua própria sentença. Eu vou usar cada centavo do nome Stanford que a vovó me deu para contratar os melhores advogados e peritos do país. Eu vou provar que você é o criminoso aqui.
— Você não tem provas, menina — o pai desdenhou.
— Eu tenho a verdade. E a verdade é uma coisa que você nunca conseguiu comprar. De hoje em diante, eu não sou mais sua filha. Eu sou o seu pior pesadelo.
Kyara saiu da mansão sob o olhar vitorioso do pai, mas o que ele não sabia é que, no bolso de sua jaqueta, o celular de Kyara estava gravando cada palavra daquela confissão arrogante. A guerra não era mais por um namoro; era pela vida de David.
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