Além das Quadras
26 Arco II – 26. É pra isso que servem os amigos
Notas iniciais
Capítulo 26: É pra isso que servem os amigos
Com tantos acontecimentos de uma vez só, Erick achou que não iria sobreviver.
Ficou impressionado em como lidou com tudo, mesmo querendo desistir várias vezes. Talvez ele tivesse piorado as coisas com Henry, mas pelo visto não tinha como tudo acontecer de outro jeito. Talvez até tivesse, mas Erick realmente não conseguia visualizar a cena em sua mente.
Sua mente estava tão submersa nos acontecimentos com Henry que ficou surpreso quando chegou em casa de viajem e recebeu um abraço mega-apertado de sua mãe.
— Surpresa! – disse a mulher alta com um sorriso no rosto. – Meu Deus, como eu estava com saudades de você.
Então seu corpo foi pressionado ainda mais contra o da mãe. Ele não tinha palavras pra dizer o quanto estava surpreso e feliz em vê-la novamente. Durante esse tempo todo, Erick temeu pelo pior e, mesmo que conversassem quase todos os dias, a falta física era grande.
— Por que não avisou que viria? – perguntou Erick, abraçando a mãe ainda mais forte – Fico feliz que esteja bem.
— Eu queria fazer uma surpresinha pra vocês – disse Adriana se desvencilhando do filho e acariciando seu rosto com doçura. – Está tudo bem agora.
Erick conteve as lágrimas de alívio. Saber que sua mãe estava finalmente livre daquele monstro tirava um peso enorme de seu coração. Agora que estavam juntos novamente e longe daquele ser, eles poderiam ser felizes como uma família normal. Tudo que Erick mais queria era ter sua família de volta unida, mesmo que uma parte dela fosse excluída por motivos óbvios.
— Eu vou fazer o jantar. Aí você me conta sobre o que aconteceu no Rio – disse Erick indo para seu quarto, mas sendo interrompido pela mãe.
— Eu te ajudo, meu filho. Estava com saudades de cozinhar com você.
Ele lançou um sorriso sincero para ela e continuou seu caminho para o quarto.
Estava tão feliz com a volta da mãe que nem sabia por onde começar a contar sobre as coisas que aconteceram. Queria muito desabafar com ela sobre sua situação com Henry, mas primeiro queria ouvir a respeito desses meses em que ela ficara naquele inferno.
Assim que entrou no seu quarto, foi recebido por um saco de banhas.
— Meu amor! – ele disse afinando um pouco a voz para falar com Pudim. Pegou o cachorro no colo, que havia crescido bastante nesses últimos meses, e o abraçou com vontade. – Estava com saudades da minha coisinha banhuda.
Pudim lambeu o rosto de Erick com felicidade. Ele não era o tipo de cachorro que recebia o dono na porta de casa. Geralmente ele ficava no quarto de Erick e fazia festinha assim que alguém entrasse. Sem saber se sua mãe já conhecia o novo membro da família, ele tratou de levá-lo para apresentar os dois.
— Mãe, olha seu neto.
— Ai que coisinha mais fofa! – ela falou animada, pegando o pug dos braços do filho. Ela já conhecia o cachorro pelas fotos que Erick mandava, então estava feliz em finalmente conhecer o netinho. – É um prazer finalmente conhecer você, Pudim.
Pudim deu uma cheirada em Adriana e, logo em seguida, lambeu seu rosto. Para o alívio dos dois presentes, ele tinha gostado dela.
— Bom, eu vou deixar vocês se conhecendo e tomar um banho rapidinho.
— Tudo bem, querido.
Então Erick desapareceu no corredor novamente, pegando suas coisas no quarto e indo direto para o banheiro. Tomou um banho rápido e colocou uma roupa confortável. Era bom estar em casa novamente. Por mais que as viagens não durassem muito, ele sentia falta de Pudim e Nathália.
— Vamos? – perguntou aparecendo na sala e vendo sua mãe ainda brincando com o cachorro.
— Sim, sim.
Então os dois foram para a cozinha. Discutiram rapidamente o que fariam e, ao ver não tinham muitos ingredientes, decidiram fazer o básico mesmo: arroz, feijão, purê e bolo de carne moída. Pegaram tudo o que precisavam e colocaram a mão na massa.
— Me conta como foram esses meses aqui em BH – pediu Adriana, pegando uma tábua para cortar cebola.
— Ah, primeiro eu quero ouvir como foi lá no Rio. – disse Erick pegando as panelas e lavando o arroz.
Ele viu o sorriso da mãe vacilar um pouco. Sabia que seria um pouco doloroso para ela contar. Não deveria ser tão insensível assim.
— Quero dizer, se estiver tudo bem para você…
— Não, está tudo bem. Você e sua irmã têm o direito de saber.
Sendo assim, Adriana começou a contar. Contara das tentativas desesperadas de seu pai para fazer com que ela não se divorciasse. Contara das ameaças que sofrera dele por conta disso também, mas por sorte, nenhuma se concretizou, ainda mais que ele corria o risco de ser expulso do exército caso descumprisse a ordem judicial de se manter distante de Adriana. Eles se encontraram várias vezes no tribunal para resolver todas as coisas do divórcio. Adriana disse que, a cada encontro, ele parecia mais perdido e, às vezes, até fora de si.
Anderson tentara ferrar com a vida de Adriana. Tentara conseguir todos os bens que ela possuía, porém, depois de muita conversa, ela conseguiu algumas coisas, o que incluía o carro da família. Ele ficou com a maior parte do resto, mas Adriana não se importou nem um pouco. Só queria distância daquele homem e faria de tudo para se livrar dele, até abrir mão da casa que tinham comprado no Rio de Janeiro.
A cada coisa que Adriana contava, Erick podia ver que era como se ela estivesse tirando um peso de seus ombros. Mas, mesmo depois, ainda podia enxergar a tristeza e mágoa em seus olhos. Ele ficava feliz pela mãe, porém, considerando a dor que ele sentira ao perder o pai, podia imaginar a dor dela ao perder um marido que, antigamente, parecia para sempre… Ainda mais tendo consciência de todas as coisas que ele fez para ambos os filhos. Deveria ser doloroso demais para ela lidar com aquilo tudo.
Se havia uma mulher que Erick admirava e colocava num pedestal, com certeza era Adriana.
Sua mãe conseguiu contar a história inteira sem derramar uma lágrima. Erick sabia que a mãe não era uma mulher frágil, mas, diante de uma situação daquelas, não a julgaria caso ela chorasse. Ele mesmo quase chorou diversas vezes enquanto Adriana falava.
— Bom, foi isso. – ela finalizou com um sorriso triste. – Agora quero saber como estão as coisas com o meu anjinho.
Com um suspiro, Erick começou a contar sobre os últimos meses. Começou falando sobre sua vida no vôlei, deixando de lado as intrigas que teve com Henry. Sua mãe já sabia de bastante coisa, ele sempre a mantinha informada, então tratou de contar as coisas que se lembrava de não ter comentado com ela.
— Você é realmente meu orgulho, Erick – ela disse, animada, sem abraçá-lo por estar com as mãos sujas de carne moída, mas ele sabia que ela o faria se pudesse. – Eu espero mesmo que consiga realizar seu sonho.
Aquilo aqueceu o coração de Erick de um jeito que só Adriana conseguia fazer. O apoio, a felicidade, os conselhos… Aquilo que a mãe proporcionava era tudo o que Erick precisava.
Terminaram de fazer a comida e começaram a colocar a mesa em silêncio. Porém, ele ainda queria falar sobre Henry para a mãe, só não sabia como começar. Pensou várias vezes como podia contar toda aquela situação, mas não chegava a nada plausível.
— Eu beijei o Henry quando estava bêbado no meu aniversário. – disparou quando teve um impulso de coragem.
Sentiu suas bochechas ficarem vermelhas assim que viu o rosto de sua mãe virando para si. Estavam em lados opostos da mesa, fazendo com que Erick visse perfeitamente a expressão indecifrável no rosto de Adriana, deixando-o temeroso para o que viria a seguir.
— Eu esperava que isso acontecesse, mas não esperava que você me contasse dessa forma – ela disse, soltando uma risada leve. Então seu rosto se transformou numa carranca que assustou Erick. – Eu deveria proibir você de beber. Não quero que você… Você sabe…
Erick sabia. Sabia perfeitamente a quem ela estava se referindo. Seu pai sempre fora um alcoólatra, mas havia se controlado nos anos em que conheceu e se casou com Adriana. Porém, a família que construiu não fora suficiente para fazer o pai colocar a cabeça no lugar novamente. Tanto que aconteceu o que aconteceu.
Ele deveria ser uma pessoa que odiava bebida. Mas parece que, para Erick, a vida é uma perfeita ironia.
— Eu sei, eu sei – suspirou Erick. Começou a brincar com um pedaço de bolo de carne em seu prato. – Eu só sinto que todos os meus problemas somem quando eu bebo.
— É exatamente para isso que a bebida serve em muitos casos. Mas você sabe o quanto isso faz mal pra ti, Erick.
Ele apenas concordou com a cabeça, sentindo-se envergonhado por causa dessa situação. Sua mãe já sabia que ele bebia muito antes de completar 18 anos. Mesmo com alguns castigos e broncas, Erick continuou mesmo assim. Mas agora, olhando a cara de sua mãe, percebeu que deveria parar o quanto antes.
— Você já é maior de idade e tem responsabilidade pelos seus atos – começou Adriana. – Só peço que tenha controle sobre essas situações para que você não se arrependa de nada.
“Se você soubesse a quantidade de vezes que já me arrependi...” pensou Erick.
— Bom, vamos deixar isso de lado – completou Adriana para logo em seguida colocar um sorriso malicioso no rosto. – Você beijou o Henry, então.
O rosto de Erick ficou vermelho imediatamente.
— Continue.
— Bom… Talvez eu tenha fingido que nada tivesse acontecido no dia seguinte. Talvez ele tivesse descoberto que eu menti. Talvez ele tivesse ficado muito puto comigo e… – respirou fundo. – Talvez eu queira beijar ele mais uma vez, ou várias, mas nossa situação não está muito agradável.
Sua mãe assentiu levemente, levando Erick a prosseguir com sua história. Com isso ele começou a contar. Desde o início. Desde a festa que ficara com ciúmes de Henry até a última vez que se encontraram. Poucas pessoas sabiam pelo o que ele estava passando. Sempre quis contar para a mãe tudo o que vinha acontecendo. Porém, ela estava ocupada demais tentando sobreviver a seu pai para que pudesse tirar um tempo para ele.
Agora finalmente podia se libertar e dizer tudo a ela. Talvez ela tivesse algum conselho para ele.
— Oh, meu amor – suspirou Adriana quando Erick terminou de falar. Ela pegou em sua mão, fazendo um carinho confortador. – Vocês se conhecem há tanto tempo… São melhores amigos desde que nasceram praticamente. Não deixe as coisas com seu pai te impedirem de voltar a amizade, ou até algo mais, entre vocês.
Erick balançou a cabeça concordando. Já ouvira isso milhares e milhares de vezes.
— Eu prometo que seu pai não vai encostar em um fio de cabelo seu ou de Henry – ela disse, convicta de suas palavras. – Você merece ser feliz e aquele monstro não vai te impedir disso.
Algo na voz de Adriana fez Erick sentir-se acolhido, aconchegado. Talvez, ouvir aquelas coisas de sua mãe tivesse um peso diferente do que ouvir de uma psicóloga ou de seus amigos. Considerava de verdade a opinião de todos que sabiam da história, mas parecia que o que lhe faltava mesmo era a aprovação de sua mãe. Ele necessitava disso para se libertar de todas as coisas ruins que lhe aconteceram. Se seu pai não lhe aceitava como era, sua mãe, além de aceitar, dava o maior apoio do mundo.
As pessoas que o amavam e que ele amava o aceitavam. E isso era suficiente para Erick.
[…]
Henry soltou um resmungo quando o despertador tocou.
Tinha acabado seu período de férias e parecia que ele não tinha se recuperado o suficiente do último semestre. Claro, ter trabalhos, provas e treinos tinha exaurido o garoto de todas as formas.
Não queria ir para a faculdade naquele dia. Considerou rapidamente faltar, porém, lembrou-se que era um novo semestre e com isso vinha novatos. Novatos significava trote e trote significava calourada no fim do dia. O que Henry mais precisava naquele momento era juntar os amigos e encher a cara.
Com esse pensamento, levantou-se rapidamente, quase derrubando Cheshire no chão.
— Desculpa, amor – ele disse voltando para dar um beijo na cabeça do gato, que soltou um miadinho e voltou a se enrolar nas cobertas.
Tomou seu banho, arrumou-se rapidamente e foi tomar café, sua mãe dizendo que iria deixá-lo na UFMG. Com tudo pronto, partiram para a garagem conversando amenidades como sempre. Jules e Rach estavam mais animados do que o normal.
— Vamos ter uma tia nova! – comemorou Jules.
Rach não parecia tão empolgada com a tia nova. Na verdade, ela só parecia animada porque o irmão estava animado. Henry não deixou de sorrir para aquilo. Mesmo que sua relação com a irmã fosse levemente distante, ele ficava feliz por ela pelo menos ser aberta com o gêmeo.
Não demorou muito para que chegasse na faculdade e encontrasse Bruno já lhe esperando na portaria da UFMG.
— Bom dia – saudou o garoto alto com um sorriso. – Estava com medo de que você me abandonasse no meio das cobras.
Henry riu e deu um soquinho de leve no braço do amigo, equilibrando os livros que carregava com o braço livre.
— Eu cogitei, mas tinha que te salvar, não é mesmo?
— Você fez mais do que certo. – Bruno deu de ombros. – Eu vou esperar o Luiz e a Dani, mas, se quiser, pode ir indo pro DA.
— Na verdade, vou na biblioteca devolver esses livros – disse Henry, mostrando os pesados livros de anatomia e bioquímica. – Não quero nem ver o tamanho da multa que vou receber.
Bruno soltou uma leve risada.
— Boa sorte com isso. Que os deuses estejam com você – ele disse, sorrindo e fazendo Henry sentir-se ligeiramente reconfortado.
Com um aceno de cabeça, Henry foi caminhando em direção à biblioteca da universidade. O ambiente verde e aberto estava com aquele clima de volta às aulas e, junto com as aulas, vinham os trotes. Ele estava até animado para aquilo, mesmo que não fosse veterano dos calouros que entrariam naquele período.
Como já conseguira decorar o caminho até o local, depois de muito se perder na imensidão que era a UFMG, Henry pegou o celular e foi rolando o feed do Facebook. Arrumou uma posição confortável para mexer no celular e carregar os livros, seguindo seu rumo sem prestar muita atenção ao redor.
Ele esperava que as pessoas desviassem dele quando o vissem mexendo no celular. Passou um período inteiro caminhando pela universidade com o celular em mãos e se trombara com três pessoas no processo foi muito. Mas aquela trombada fora definitivamente foi memorável.
— Meu Deus, me desculpe! – Ele exclamou após chocar-se com alguém. Abaixou rapidamente para catar os livros que caíram.
Henry sentiu a pessoa abaixando também, mas ela não falou uma palavra sequer. Ele queria evitar contato visual. Já era humilhante o suficiente ter esbarrado em alguém por falta de atenção. Ele catou dois dos quatro livros rapidamente e esticou a mão para pegar um caderno sem pauta que não lhe pertencia. Ele se assustou imediatamente quando leu por acidente as primeiras palavras que estavam no topo da página, principalmente por ter achado a caligrafia familiar.
“Querido, Henry… eu sei que isso é clichê…”
O caderno foi praticamente arrancado de suas mãos e, com isso, ele levantou os olhos, vendo a tensão no rosto do garoto de cabelos dourados a sua frente.
O coração de Henry disparou imediatamente. Era impossível não disparar.
— Ah… Oi – disse Erick segurando o caderno contra o peito como se aquilo fosse sua vida. E talvez realmente fosse.
— Erick…– ele conseguiu dizer depois de um tempo.
Depois, ficou estagnado no lugar e, para a sua surpresa, Erick recolheu os livros remanescentes e ajudou-o a se levantar. Não conseguia tirar os olhos de Erick de forma alguma.
Todas as coisas que vinham sendo marteladas em sua cabeça vieram à tona. Tudo de uma vez para entorpecer os sentidos e pensamentos de Henry. Por um segundo, ele quis gritar, fazer um tremendo de um barraco e até mesmo partir para a violência (talvez moderada). Mas tudo em que ele conseguira pensar a seguir era a situação que passou com Leo algumas semanas atrás.
— O que faz aqui? – Conseguiu dizer depois de, provavelmente, uns dez minutos encarando o rosto do outro.
Erick coçou a nuca de um jeito desajeitado, evitando contato visual com Henry.
— Passei em Educação Física pra esse semestre – respondeu depois de ter enrolado por uns segundos.
— Ah – Henry soltou, meio sem saber o que dizer realmente.
Estava feliz por Erick. De verdade, estava. Mas também não deixava de se sentir estranho por não saber daquela informação. Não é como se eles fossem melhores amigos de novo para contar de suas vidas, mas de qualquer forma, Henry sentia que podia saber daquilo por outros meios. Principalmente por Marge.
— Parabéns, então – ele disse e forçou um sorriso. Erick franziu o cenho levemente, deixando-o uma das coisas mais lindas que Henry já vira.
— Não vai gritar comigo ou algo do tipo? – perguntou realmente receoso.
Teve que respirar fundo para controlar a vontade de gritar. Simplesmente balançou a cabeça em negativa.
— Sem gritos, sem brigas, sem xingamentos – disse por fim, sentindo que era a coisa certa a se fazer.
As sobrancelhas de Erick se arquearam de forma espantada.
— Uau… as coisas mudaram então – sua fala foi meio sem jeito. – Aconteceu alguma coisa?
Toda aquela situação era extremamente estranha para Henry e sentia que para o outro também era igualmente fora do comum. Parecia até que os dois estavam acostumados a trocar palavras rudes e grossas, como se num passado distante nunca tivessem tido uma amizade sem essas coisas.
— Na verdade, aconteceu – resolveu admitir. – Decidi uma coisa que sinto que é o certo agora. Então cá estamos nós nessa situação estranha e constrangedora.
Erick confirmou com a cabeça, sem saber muito bem o que dizer. Ficaram vários minutos em silêncio, até Erick quebrá-lo.
— Seus livros – ele disse e os entregou para Henry.
— Obrigado – agradeceu e se conteve completamente para não perguntar a respeito do que tinha lido no caderno que Erick carregava. – Então… Primeiro dia de aula… animado?
Henry estava se esforçando ao máximo para não deixar aquele cenário estranho, mas tudo lhe parecia tão surreal que era realmente difícil imaginar que estava mesmo tendo uma conversa decente com seu ex-melhor amigo.
— Ah, sim e não – respondeu com naturalidade – Estou um pouco méh por causa do trote, mas seguimos a vida.
Henry se permitiu sorrir.
— Relaxa, os trotes não são tão pesados assim, você vai ver.
— Espero mesmo. A última coisa que eu queria era andar de cueca pela faculdade.
— Olha, não garanto nada – riu Henry. – Mesmo não sendo seu veterano, converso com algumas pessoas que são. Sem contar que eles não têm muita criatividade pra mudar os trotes.
Erick arregalou os olhos levemente.
— Não me diga que realmente vou ter que andar de cueca pela faculdade.
— Talvez não pela faculdade, mas na rua com certeza – deu de ombros com um leve sorriso.
Henry se pegou imaginando Erick pintado dos pés a cabeça apenas de cueca pedindo dinheiro no sinal.
Tratou de retirar aquela imagem da cabeça ao ver que o outro parecia apreensivo.
— Mas você não precisa fazer nada que não queira. A galera da Educação Física é insistente, mas, se você disser com firmeza que não quer, eles não vão te obrigar.
Henry viu os músculos de Erick relaxarem sutilmente. Ficou se perguntando qual era o real problema de ficar sem camisa, já que geralmente os garotos ficavam só de bermuda para pedir dinheiro para a tão esperada choppada. Reunir a galera do curso num local com chopp e cerveja era um dos pontos altas da faculdaade.
Teve que se conter mais uma vez para não ser invasivo.
— Fico feliz em saber disso.
Ele assentiu com um sorriso confortador para o outro e, antes que caíssem em mais um silêncio constrangedor, Henry tratou de falar.
— Eu estava indo levar esses livros pra biblioteca, se…
— Ah, me desculpa – interrompeu Erick, realmente com cara de culpado. – Eu estava distraído lendo umas coisas, não queria te atrapalhar e tomar seu tempo.
Aquilo tudo era de fato muito estranho.
— Tudo bem, a culpa foi minha também.
Queria convidá-lo para ir com ele, mas o receio de ficarem em silêncio novamente lhe incomodava mais que a vontade de ter a companhia do outro, que era grande. Ele estava realmente tentando e, num pensamento rápido, decidiu que ir aos poucos era melhor do que forçar as coisas, uma vez que elas poderiam ficar ainda mais estranhas.
— Bom, eu vou indo lá então. Ainda quero ver o trote de vocês e tenho que encontrar o Bruno antes. Nos vemos por aí? – prosseguiu Henry, tentando ser simpático.
Erick abriu um sorriso sem dentes e assentiu.
— Devemos nos ver com bastante frequência agora, então sim.
Henry evitou se derreter por aquele sorrisinho. Rapidamente se recompôs e assentiu.
— Então, até mais.
— Até.
Mas mesmo depois daquela despedida, os dois permaneceram em seus lugares, como se quisessem seguir seus caminhos apenas se estivessem um na companhia do outro. Na verdade, era exatamente isso que ambos queriam, mas estavam com medo de alguma coisa dar errado se tentassem ter uma interação mais duradoura do que aquela.
Erick soltou uma risadinha.
— Até mais, Henry.
E com isso, seguiu seu caminho, deixando para trás um Henry sem reação.
[...]
Erick sabia que encontraria Henry em algum momento já faculdade. Só não imaginava que fosse da forma mais clichê possível.
Ficou verdadeiramente atônito com a situação, principalmente ao se lembrar da reação de Henry. Para quem está acostumado a brigar toda vez que se encontram, Erick não soube o que aconteceu para que o outro agisse de forma tão amigável.
E aquela forma amigável perdurou por todos os dias que se encontraram durante aquela semana. O trote durou dois dias e Henry até ajudou Erick vez ou outra. Nada parecia forçado, mas ainda assim era uma situação deveras estranha aos olhos de Erick.
Mas isso estava sendo algo positivo. Ele estava começando a se sentir mais próximo de Henry e isso significava que estava ficando mais confortável para contar as coisas para o outro. Claro que as coisas mais pesadas ele não ia contar de maneira tão fácil, mas situações como os treinos no Argos, sua relação com Nathy e coisas mais simples ele conseguia falar.
A única coisa que desagradava Erick era a aparição repentina de Christian quando os dois estavam conversando. Nas primeiras vezes, ele bateu o pé e ficou, dando tiradas no outro e fazendo birra. Mas depois de um tempo, sentia uma energia tão pesada e negativa perto dele que Erick simplesmente se afastava de Henry assim que avistava Christian. Ele não queria, de verdade que não queria, pois as coisas com Henry estavam indo bem, mas ficar perto daquele cara era verdadeiramente insuportável.
Mas, tirando isso, estava feliz que a situação com Henry estava se encaminhando para algo melhor. Ele queria não ter esperanças de que as coisas iam voltar ao normal, como eram antes de tudo acontecer, mas, no fundo, ele sabia que era uma das coisas que mais desejava. Ele tinha ciência que ambos haviam mudado muito. Sabia que nada seria o mesmo, principalmente quando os sentimentos não eram mais os mesmos. Mas aquela esperança em seu peito ainda esmagava um pouco seu coração.
— Tô falando com você, pirralho – a voz de Nathy tirou Erick de seus devaneios.
— Oi, desculpa… tava viajando aqui – ele disse, sentando-se na cama e virando para a porta, onde a irmã estava.
— A Marge está aí. Só vim conferir se você estava vestido antes de deixar ela entrar.
— Não me importo de Marge me ver de cueca – respondeu Erick, dando de ombros.
A garota já sabia de suas cicatrizes mesmo e, depois da conversa que teve com Gabriel, Erick sentia-se mais a vontade de deixá-las a mostra. Obviamente não o fazia perto de pessoas desconhecidas, mas em casa, por exemplo, ficava sem camisa com tranquilidade, o que não conseguia fazer antes.
— Mas eu ligo. Só eu tenho permissão de te ver pelado – rebateu Nathy com uma cara autoritária. Erick arqueou uma sobrancelha com um sorrisinho nos lábios.
— Desde quando sou propriedade sua?
— Desde o momento que compartilhamos o mesmo útero. Mesmo que não tenha sido simultaneamente… você entendeu – Nathy revirou os olhos e encarou o irmão. – Coloca uma camisa que vou deixar a Marge entrar. Eu tô indo embora daqui a pouco, não dê trabalho pra mamãe.
Erick apenas riu e assentiu. Levantou-se da cama e pegou uma camisa qualquer jogada na cadeira. Colocou a peça no momento exato que a voz de Marge preencheu o cômodo.
— Quem é a coisinha mais fofa do mundo? – Ela dizia com Pudim no colo, que ficava enlouquecido quando falavam fino com ele. – O que o senhor tá fazendo? Por que não está pronto?
— Pronto pra que, meu Deus? – Erick franziu o cenho. Marge colocou Pudim no chão e colocou as mãos na cintura, pronta pra dar uma bronca em Erick.
— Hoje é sexta-feira e o dia da choppada para os calouros. É óbvio que o senhor vai.
Erick fez uma careta.
— Tenho mesmo que ir? Realmente não tô com muito saco pra interação social hoje
— Mas é claro que sim! – Marge parecia indignada – É sua calourada. Você só é universitário de verdade depois de ir nas choppadas da faculdade.
— Desde quando isso é uma regra? – brincou ele, cruzando os braços sobre o peito e encarando Marge com um olhar meio desafiador, meio debochado.
— Desde agora, senhor Erick Moreira. Anda, a parada começou 13h e já são 15h. Estamos mega-atrasados.
— Como se você se importasse – riu ele.
— Ainda bem que me conhece. Agora vai tomar banho que eu vou escolher sua roupa.
— Tenho alguma outra opção? – suspirou Erick.
Marge apenas arqueou uma sobrancelha e negou com a cabeça. Aquilo era basicamente uma intimação.
Ele pegou uma cueca e sua toalha, caminhando para a porta enquanto Marge revirava seu armário.
— Se te motiva a ir, Henry vai tá lá – foi a última coisa que ouviu quando saiu pela porta.
Aquilo fez o coração de Erick disparar. Era sempre assim que via o outro ou que tinha certeza de que iria encontrá-lo em alguma situação. Erick era o tipo de pessoa que não sossegava enquanto não via quem queria. Ficava na rodinha, mas sem prestar muita atenção no que falavam, apenas olhando ao seu redor, esperando a chegada de alguém especial.
E esse alguém era sempre Henry.
Tomou um banho rápido, talvez pela ansiedade para se encontrar logo com Henry e poder passar um tempo maior com ele. Já que não estavam no mesmo período, não conseguiam ficar por muito tempo conversando quando se viam. Mas aquele dia teria todo o tempo do mundo para isso. Só queria que fosse num lugar mais reservado, porém Erick não estava em posição de escolher muito.
Voltou para o quarto secando o cabelo e vendo Marge tirando fotos de Pudim. Não precisou trocar muitas palavras com ela, pois a roupa que a garota escolhera estava esticava sobre a cama. Vestiu a camisa preta de gola V, assim como a calça jeans escura. Tratou de colocar rápido seu All Star vermelho de cano médio e pegar a camisa xadrez vermelha e preta, amarrando-a na cintura já que não estava com frio no momento.
— Eu deveria ser estilista. Se não fosse praticamente meu irmão, eu te pegava – disse Marge com a mão no queixo e olhando pra Erick de forma analítica.
Erick fez uma cara de desgosto. A possibilidade de beijar Marge além da bochecha lhe causava arrepios. Não que a garota fosse feia, pelo contrário, Erick a achava estupidamente bonita. Mas, como ela mesmo disse, são praticamente irmãos. Seria muito estranho.
Sem contar que seu interesse era na boca de uma pessoa bem específica.
Marge levantou-se e caminhou até Erick para ajeitar seus cachos rebeldes. Ela vestia uma calça azul marinho e uma blusa de botões branca. Em seus pés, sapatilhas bege completavam o look da garota. Erick sempre achou divertido o modo completamente aleatório que Marge tinha de se vestia. Se ela estivesse com vontade de ir para a padaria toda arrumada, ela faria. Se quisesse ir a um evento formal de moletom, ela iria. E não estava nem aí para o que pensavam dela.
— Agora vamos. Dia de encher a cara, então vamos de ônibus.
— Posso ver se a Nathy nos deixa lá antes de ir pra casa.
A amiga apenas concordou, pegou sua bolsa, despediu-se de Pudim e foram para a sala. Erick teve que implorar para Nathy levá-los até a universidade e só depois de um “não custa nada, Nathália” de sua mãe é que a irmã finalmente cedeu.
Tiveram que esperar mais alguns minutos, pois Nathy estava ajudando a mãe a organizar a casa. Não demorou muito para Adriana arrumar um apartamento aconchegante para ela e Erick. Como Nathy já estava muito bem instalada na cidade, ela não fora morar com eles, mas sempre ia ajudá-los na organização da casa nova.
— Não façam nada que eu não faria – disse Nathy quando parou o carro em frente ao bar onde estava sendo a choppada.
Erick e Marge riram, agradeceram e saíram do carro. O local estava lotado, o que não impressionou nem um pouco Erick. Ele já ouvira histórias de como eram as calouradas. Danilo, Amanda, até mesmo Nathy sempre disseram que era um caos, mas um caos divertido.
Respirou fundo sem que Marge percebesse. Já que estava ali, iria abraçar a situação. O som estava alto e várias pessoas dançavam com latas e copos de cerveja na mão. Marge o puxava por entre as pessoas em direção ao local onde estava sendo servida a cerveja. Pegaram dois latões de Skol e arranjaram um local com menos gente. Erick no momento só queria sentar.
Ficaram conversando por algum tempo, sendo interrompidos várias vezes por milhares de pessoas que cumprimentavam Marge.
— Ora se a senhora não é popularzinha – brincou Erick com um sorrisinho no rosto.
— Ou você se enturma ou morre – ela respondeu dando de ombros.
— Você gosta de colocar medo nos calouros, não é?
— A culpa não é minha se a cara que eles fazem é impagável.
— Ainda bem que estou vacinado contra sua malvadeza.
— Tem é sorte, isso sim. – ela riu.
Ela checou seu celular rapidamente e pegou Erick pela mão novamente, o arrastando para sabe-se lá onde.
— Meu Deus, que saudades – Rayssa apareceu em sua visão, dando um abraço apertado em Marge. – A gente não se vê desde o seu aniversário.
— Lógico, a piranha me abandonou pra ficar com macho. – retrucou Marge com tom de brincadeira, mas Erick sabia que ela sentia ciúmes de Cássio.
— Deixa de ser boba – Ray revirou os olhos. – Oi, Erick! Quanto tempo!
Ele a cumprimentou devidamente, com abraços e beijos. Então ficaram ali parados conversando, com Erick toda hora olhando ao redor para ver se encontrava uma pessoa em especial.
— Ele já deve tá chegando, deixa de ser ansioso – reclamou Marge ao notar o que Erick fazia. Ela balançou a latinha na frente de seu rosto. – Mais, vamos.
— Gente, eu preciso achar minha prima. Ela veio antes e pediu pra eu entregar mais dinheiro pra ela quando eu chegasse.
— Vamos pegar mais bebida e no processo a gente procura a moça. – decidiu Marge.
Então voltaram para o bar, dessa vez procurando a prima de Rayssa. No caso, Erick estava mais preocupado em achar Henry do que procurar por Karine, mas obviamente usou o fato como desculpa para procurá-lo. Depois de alguns minutos passando os olhos pelo local, ele finalmente havia encontrado Henry. Porém uma tristeza e ciúmes lhe deram um tapa com tanta força que ele quis sair quebrando tudo.
Queria desviar o olhar, mas não conseguia, principalmente por causa da outra pessoa com quem Henry estava trocando saliva ali no meio de todo mundo. Quando Erick reconheceu Karine, sentiu seu mundo cair. Deixou todos os sentimentos por Henry de lado, focando apenas na raiva que sentia da garota por estar traindo um de seus melhores amigos.
Erick sabia que ela viria para Belo Horizonte fazer faculdade. Sabia que seus pais eram complicados. Sabia que ela não via Danilo há pelo menos seis meses desde que se mudara em janeiro. Claro, uma das pautas que mais eram discutidas nas conversas com o outro era sobre Karine e o fato de Danilo odiar os pais dela por prendê-la demais.
Ele tinha certeza que seria o primeiro a saber caso os dois tivessem terminado.
— Acho que encontrei sua prima, Ray – disse Erick tentando manter um tom neutro.
Rayssa virou e quando ela viu o que a prima estava fazendo, sua expressão mudou completamente.
— Puta que pariu, Karine – ela sussurrou. – Eu não tô acreditando no que eu tô vendo. – ela parecia verdadeiramente irritada. – Desculpa por isso, Erick.
— A culpa não é sua… E eu não me importo… A questão é que ela vai foder a vida do meu amigo.
Rayssa torceu a boca. Ele não sabia se ela tinha noção do quanto Danilo significava pra Erick. Na verdade, sequer sabia se ela tinha ciência de que os dois se conheciam.
— Essa garota vai se ver comigo. – disse por fim e saiu pisando fundo em direção a Karine, que tinha acabado de largar Henry.
Eles dois sorriram maliciosamente um para o outro e aquilo deixou Erick mais emputecido ainda. A mistura dos sentimentos que estava tendo no momento era horrível. Queria poder pegar alguma coisa e quebrar no meio. Erick viu Rayssa chegando perto dos dois e falando sério com Karine. Ela pegou no braço da prima e a arrastou para longe de Henry. No fundo, Erick ficou aliviado, mas ainda sim o ciúme e a raiva permaneciam. Pelo menos não iria mais ver aquele tipo de coisa.
— Uau, isso vai dar uma novela… – comentou Marge ao seu lado, tomando um gole da cerveja.
— Você não tem ideia… – resmungou Erick. Ele fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. – Olha, eu vou pra casa… Perdeu completamente a graça ficar aqui.
— Ah, sério? Vai embora por ciúmes? – Marge estava indignada e Erick não a culpava.
— Olha, é mais complexo que isso e eu não tô com cabeça pra pensar nessa treta agora. Eu te recompenso depois, prometo.
Marge revirou os olhos, mas acabou concordando e oferecendo companhia para ir até o ponto de ônibus. Erick negou prontamente, pois não queria que a amiga perdesse a diversão. Mas ela insistiu em acompanhá-lo. Sem querer se estressar mais, ele apenas concordou, ficando grato pela companhia apesar de tudo.
— Ei, Marge! Finalmente encontrei você! – a voz de Henry entrou em seus ouvidos, deixando Erick sem saber o que fazer. – Ah, oi Erick. Não sabia que vinha.
— É, eu fui meio intimado – respondeu Erick olhando acusadoramente para Marge. – E eu já tô indo. Não tô me sentindo muito bem.
Ele estava se controlando ao máximo e, quanto mais rápido ele saísse dali, melhor para ele.
— Eu só vou deixar ele no ponto e já volto. Vai pegando uma cerveja pra mim – disse Marge com as mãos nas costas de Erick, já o empurrando na direção da rua.
Erick agradeceu imensamente por aquilo.
— Ah, tudo bem. Não precisa de ajuda? Podemos procurar algum remédio com alguém.
— Ah, não precisa. Realmente não tô no clima.
— Entendi… – Henry torceu a boca, fazendo Erick perceber que não estava feliz com aquilo. – Melhoras.
— Obrigado. – ele forçou um sorriso para Henry e saiu andando com Marge logo atrás.
Agradeceu Marge por tudo e como uma boa amiga, ela entendeu e o esperou pegar o ônibus para ir para casa. Durante o percurso todo ficou pensando o que faria com aquela informação. Sua cabeça estava explodindo, pois não sabia se cabia a ele dizer algo para Danilo. Mas eram praticamente melhores amigos, se fosse o contrário, Erick gostaria que o outro contasse. Não sabia qual seria a reação de Danilo caso, mais pra frente, descobrisse que Erick sabia da traição e não havia contado.
Estava entre a cruz e a espada. Naquele momento ele só queria não ter visto aquela cena.
[...]
Havia se passado um pouco mais de uma semana desde que conversara Erick pela última vez.
Henry falara com ele na calourada rapidamente e depois na segunda-feira quando Erick estava indo para o treino de vôlei do time da UFMG. Infelizmente, daquela vez, não iria participar por precisar ficar com os gêmeos, mas não deixou de dar uma passada na quadra para avisar o treinador e cumprimentar os colegas. Não conversou muito com Erick por conta de estar atrasado, mas mesmo assim sentiu que alguma coisa não estava certa.
Para Henry ainda era tudo mundo estranho, então concluiu que Erick estava se acostumando à nova vida e à nova relação entre os dois tanto quanto ele.
Desde então, ele só vira Erick rapidamente pelos corredores e nas aulas de anatomia onde estava sendo monitor voluntário. De qualquer forma, não estava conseguindo falar com Erick. Com isso, as semanas se passaram rapidamente. A faculdade mal tinha começado, mas já se encontrava atolado de coisas para fazer.
Era uma quarta-feira quando finalmente teve uma folga. Não tinha nada para o resto da semana, nenhum trabalho ou prova e os treinos do dia tinham sido cancelados. Podia respirar tranquilo e, para a sua felicidade, Leo também tiraria folga do trabalho, então decidiram se encontrar na cafeteria onde o outro trabalhava.
— Então, como vão as coisas? – perguntou Henry para Leo.
Leo estava tentando se manter forte depois de tudo que aconteceu. Henry tentava se manter presente e apoiar o amigo. Ele queria saber como andava a investigação da morte de seu pai, mas não queria ser tão invasivo nem afetar Leo de alguma forma. Então sempre tentava saber das coisas indiretamente. Se Leo falasse, ótimo, se não, Henry se continha e mudava de assunto.
— Ah, tá tudo um saco – resmungou Leo. – O trabalho tá um saco, meus vizinhos são um saco, as pessoas são um saco… Você não, você é um amorzinho.
Henry soltou uma risada e agradeceu.
— Mas de resto tô levando a vida. Tentando superar a perda e tal… A única coisa que me mantém positivo é pensar que pelo menos ele não tá mais nesse mundo de bosta. – Leo deu de ombros e tomou um gole do seu frapuccino.
Henry torceu a boca, tentando não sentir pena de Leo. Era complicado ouvir uma pessoa querida falar daquela forma sobre o mundo e a vida. Queria poder ajudá-lo melhor e mais, porém não tinha muita coisa que pudesse fazer.
— As coisas não são tão ruins assim…
— Você não sabe do que as pessoas são capazes, Henry – Leo estava com um semblante sério. – Acredite, as coisas são tão ruins assim.
Henry ficou quieto depois daquilo. Pela forma como Leo falava, parecia que ele tinha ido para o inferno e voltado por um triz.
— Mas vamos falar de coisa boa – começou Leo abrindo um sorriso. – Como vai sua treta com o Erick?
Por mais que não quisesse que o assunto virasse para ele, Henry começou a falar sobre aquilo. Se aquilo distraísse Leo dos pensamentos ruins, ele o faria, mesmo não sabendo exatamente como isso poderia ser algo bom para o outro.
Sendo assim, Henry começou a contar das últimas interações que teve com o outro.
— Parece que as coisas tão se encaminhando bem – finalizou Henry depois de contar em detalhes os últimos acontecimentos. – Espero mesmo que possamos voltar...
— Falando no diabo… – Leo cortou Henry rapidamente, fazendo o outro gelar.
Ele olhou para trás, vendo o garoto alto de cabelos loiros na entrada do estabelecimento com uma coleira na mão. Henry seguiu o objeto com os olhos, vendo um filhote de Pug meio lerdinho aos pés de Erick.
— Foi ótimo que o chefe liberou a entrada de animais aqui, eu fico babando nos dogs que entram aqui. – comentou Leo, mas Henry não estava prestando muita atenção.
Não demorou muito para os olhos castanhos claro de Erick encontrarem os escuros de Henry. A sensação de vê-lo era sempre a mesma: coração disparado, frio na barriga, calafrio na coluna… Henry gostava e detestava aquelas reações que tinha. Mas pior mesmo era quando Erick sorria. Aquilo era como uma flechada em seu coração e era exatamente isso que o outro estava fazendo.
Henry não sabia onde se enfiar quando Erick se aproximou da mesa dos dois.
— Oi, Henry – disse o outro sorrindo. Ele ainda iria morrer por ouvir seu nome sendo pronunciado por aquele ser. – Oi…
— Leo – completou Leonardo abrindo um sorriso amigável. – Quer se juntar a nós?
Erick passou os olhos rapidamente pela cafeteria, constatando que não teria lugar pra ele ficar em paz e sozinho.
— Se vocês não se incomodarem com o Pudim, por mim tudo bem – ele deu de ombros.
— Ai meu Deus, o nome dessa coisinha é Pudim? Que fofura! – exclamou Leo brincando com o cachorro, que fazia a maior festa ao receber atenção.
— Não sabia que tinha um cachorro – comentou Henry vendo Erick sentando-se na cadeira vazia da mesa redonda.
— É, a Nathy me deu de aniversário esse ano. – Erick acariciou a cabeça de Pudim rapidamente. – E o Cheshire? Como ele vai?
— Preguiçoso como sempre. Aquele gato só sabe dormir, comer e pedir carinho.
Erick sorriu. Henry lembrava-se que o outro gostava bastante de Cheshire.
— Sinto saudades dele.
Aquela seria a deixa perfeita para que Henry o convidasse para ir a sua casa, porém, alguma coisa o impedia de fazer o convite. Para seu alívio, um garçom chegou perto da mesa perguntando o que Erick queria. Ele voltou sua atenção para o moço e fez seu pedido. Então Henry rapidamente mudou de assunto.
— Tá gostando da faculdade?
— Ah, sim. Um pouco estressante, mas tá indo. Meu maior problema mesmo é anatomia.
— Posso te ajudar se quiser – ofereceu Henry antes mesmo de pensar. – Quero dizer, sou monitor… Minha função é ajudar quem tá com dificuldade e tudo o mais.
Erick sorriu. Aquele maldito sorriso.
— Obrigado, se precisar eu peço ajuda.
Caíram num silêncio por alguns minutos, que só foi quebrado quando Leo se endireitou na cadeira, já que estava inclinado para brincar com o cachorro, e olhou pra Erick.
— Como foi sua primeira choppada? Henry disse que foi melhor que a dele.
A expressão de Erick não pareceu muito feliz. Henry via que o outro se esforçava para manter-se neutro, mas não estava conseguindo. Pelo menos ele conseguia reparar no quanto Erick não estava muito confortável.
— Ah, eu passei um pouco mal e fui embora mais cedo. – ele fez uma pausa. – Aconteceu uma coisa chata também que me tirou do clima.
— Fofoca. Adoro uma fofoca. Põe na mesa. – Leo parecia mesmo animado com aquilo. Já Henry ficou curioso a respeito do que aconteceu.
— Bom, talvez vocês possam me ajudar com isso – Erick deu de ombros. – Não vou entrar muito em detalhes, mas eu vi a namorada do meu melhor amigo traindo ele… E, tipo, eu tenho certeza que eles ainda estavam juntos quando isso aconteceu. Eu só não sei se deixo rolar e esperar que ela conte e termine com ele decentemente ou se eu mesmo jogo a bomba e vejo como vai ser.
Leo ouvia atentamente a narração de Erick com a mão no queixo, ao passo que Henry estava simplesmente no chão ao ouvir as palavras “melhor amigo”. Então ele tinha sido trocado. De verdade. Para valer. Sem ao menos ter noção do motivo real. Ele tinha certeza que teria uma crise se não tivesse tomado seu ansiolítico há pouco tempo. Ele sabia que aquilo iria vir em sua mente mais tarde. Mas no momento não precisava de uma crise. Erick estava pedindo ajuda e Henry queria ajudá-lo apesar de tudo.
— Bom, no seu lugar eu contaria – disse Leo. – Tipo, é uma situação complicada, mas seu amigo pode ficar realmente chateado se descobrir que você sabia e não contou nada. Pelo menos eu ficaria.
— Bom saber que você é desses – comentou Henry com um tom levemente irônico e depois olhou para Erick, controlando um pouco a mágoa que sentia. – Eu conversaria com ela. Tentaria convencê-la a contar. Não chantagear, porque pode ser pior, mas tentar fazer ela ver o que fez de errado. Sem contar que você pode dizer pro seu amigo— a palavra amargou em sua boca – que achava que era uma situação entre eles, que você não achava certo se meter.
Com os olhares indecifráveis de Erick e Leo que Henry perguntou-se se tinha falado demais.
— Me exaltei, me desculpa.
— Não, tá tudo bem – comentou Erick e depois sorriu. – Na verdade me ajudou bastante. Então obrigado.
— Disponha – ele forçou um sorriso e torceu para que ninguém percebesse.
Então ficaram conversando ali por mais um tempo até Erick ter que ir embora, pois Pudim já estava roncando ao seu lado no chão. Os três se despediram e Erick saiu da cafeteria, fazendo com que Henry finalmente pudesse respirar.
— Okay, o que aconteceu? – perguntou Leo. Parecia que não tinha disfarçado o suficiente.
— Eu fui trocado… – falar aquilo em voz alta tornava tudo verdade. – Substituído… Eu fui…
Seu coração acelerou tão abruptamente que parecia que ia explodir. Sua respiração começou a ficar ofegante enquanto tentava colocar ar suficiente para dentro dos pulmões, mas não parecia suficiente.
— Não, por favor…
Leo rapidamente pegou suas mãos e olhou no fundo dos olhos de Henry.
— Fica comigo, okay? Faça o que eu pedir, tá bem? – Henry apenas concordou minimamente com a cabeça. – Inspira, expira. Vamos, comigo. Pensa, inspiração, expiração.
Foi se concentrando em sua respiração. Fechava os olhos de vez em quando, mas logo os abria para ter certeza que Leo continuava ali do seu lado. Apertou as mãos do outro com força, o que pareceu não ter sido algo incômodo. Leo falava algumas coisas para desviar a mente de Henry daquela crise.
Depois de alguns minutos e de um atendente aparecer com um copo com água e açúcar, os músculos de Henry foram relaxando aos poucos. A pressão que exercia nas mãos de Leo não passava de um aperto de agradecimento. Seu coração foi voltando ao ritmo normal, assim como sua respiração.
— Obrigado – agradeceu Henry quando ele finalmente conseguiu pronunciar alguma coisa. – E me desculpa por te fazer passar por isso.
Leo apenas levantou-se da cadeira e abraçou Henry.
— É pra isso que servem os amigos.
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