Além das Palavras

6 Deaths and Entrances


Batidas ecoam pelo escritório, chamando a atenção de Daryl. Um dos seus colegas de trabalho abre a porta e se aproxima com alguns envelopes em mãos.

— Professor, aqui tem os documentos que você me solicitou para o seu seminário — informa o jovem estagiário, entregando os envelopes para o professor.

— Ah, certo. Obrigado — agradece Daryl, colocando os envelopes sobre sua mesa. — Você sabe se alguma garota apareceu vindo nessa direção?

— Não que eu tenha visto — responde o estagiário, pensativo. — Por quê? Está esperando alguém, professor?

— Sim, mas... está tudo bem. Obrigado — garante o professor.

Estranhando o comportamento atípico do professor, o jovem rapaz assente e se despede do homem, voltando as suas atividades.

Daryl encara seu relógio pelo que deveria ser a décima vez naquela manhã. Ele recebeu uma ligação cedo de Beth, informando que levaria seu casaco, além da carteira, o março de cigarro e o isqueiro que ele havia esquecido nos bolsos.

— Já faz um tempo desde que Beth ligou. Quando será que ela vai chegar? — questiona Daryl, batucando os dedos sobre a mesa, até que se retém. — Por que eu me sinto tão ansioso? Eu... eu não quero me atrasar para o seminário e provavelmente estou agindo assim por estar nervoso. Deve ser isso.

Ele suspira e joga o corpo para trás, encarando o teto branco de seu escritório. Seus batimentos cardíacos estavam mais acelerados que o normal. Também sentia uma inquietação que há muitos anos não sentia.

— Isso é raro para mim — sussurra, pensativo.

Batidas tímidas se fazem presentes e um pequeno sorriso surge nos lábios de Daryl. Por algum motivo, ele sentia que dessa vez era mesmo Beth. Ele então se levanta, respira fundo para controlar as emoções e se aproxima da porta. Assim que se se sente mais estável, Daryl abre a porta, encontrando sua linda e dedicada aluna.

Beth o encara surpresa. Não esperava que o professor abrisse a porta para ela tão repentinamente. E essa é a desculpa que ela usa para tentar se convencer de que era por isso que seu coração batia tão intensamente.

— Bom dia, professor — cumprimenta Beth, dando um animado sorriso.

— Bom dia, Beth — responde Daryl, correspondendo ao sorriso com um mais discreto. Ao notar que ela estava com uma sacola grande, ele supõe ser seu casaco. — Parece que a lavanderia fez o trabalho mais rápido do que o esperado.

— Sim. Eu deixei na lavanderia que eu conheço e eles cuidaram na mesma hora. Ah, e eu coloquei de volta o que estava no bolso do casaco — informa Beth, estendendo a sacola parda que tinha o casaco. — Aqui. Obrigada pelo casaco e pela carona, professor. Eu pude chegar aquecida e segura em casa graças a você.

— Eu fico feliz em ouvir isso — responde Daryl, pegando a sacola. Ele nota que Beth estava com um bolsa lateral aberta. Era possível ver alguns livros grossos que estava prestes a cair. — Mas o que é tudo isso na sua bolsa?

— Ah, eu estava louca para ler alguns livros durante as férias. Como viria para o campus, passei na biblioteca para locá-los — conta Beth, ajeitando os livros em sua bolsa.

— Não estão pesados? — indaga o professor, preocupado com a garota de aparência tão frágil.

— Isso não é nada! — garante a loira, sorrindo animada.

Daryl a encara com seriedade. Naquele momento, ele esperava que sua impaciência, agitação e o nervoso que sentia em seu coração enquanto observava fascinado a beleza de sua ex-aluna não passasse de um carinho e respeito pela garota que tanto se dedicou em suas aulas ao longo do semestre.

Sentindo seu coração se agitar com o olhar intenso de Daryl sobre si, Beth resolve que é melhor ir embora, antes que dissesse alguma bobagem ou agisse como uma estúpida na frente do homem que tanto admira.

— De qualquer forma, obrigada por tudo, professor. Eu não quero tomar mais do seu tempo, então eu estou indo — avisa Beth, encarando os próprios pés, tímida demais para encarar os belos olhos de Daryl por mais tempo.

— Vamos descer juntos — oferece Daryl, surpreendendo Beth. — Eu também já estava saindo. Vamos lá.

— Ah... certo — concorda Beth, dando um tímido sorriso.

Ela observa o professor entrar em seu escritório, pegando sua pasta de couro, alguns documentos e a sacola que ela trouxe. Assim que Daryl garante que está com tudo o que precisava para seu seminário, ele retorna para perto de Beth.

— Vamos? — indaga o professor e Beth assente, concordando.

— Claro — responde a loira, dando espaço para que Daryl passasse.

Em silêncio, os dois passam a andar para fora do prédio de Letras. Beth se sentia inquieta com a presença marcante do professor. Mesmo assim, ela não conseguia parar de observá-lo pelo canto do olho.

“Ele parece mais focado e concentrado que o de costume. Talvez seja por isso que ele... que ele pareça ainda mais bonito do que geralmente” — pensa Beth, encantada pela aparência de seu ex-professor.

— Beth, você está indo para casa?

— O quê? — questiona Beth, assustada.

Estava tão perdida em pensamentos que se surpreendeu ao ouvir a voz melodiosa de Daryl. Somente nesse momento é que Beth nota que eles chegaram ao estacionamento da faculdade, onde se encontrava o carro do professor. Ele a observa por alguns instantes, analisando seu comportamento estranho, mas desiste de questionar o que estava acontecendo.

— Você está indo para casa? Se estiver, eu te sou uma carona — repete Daryl, destravando o carro.

— Sim, mas está tudo bem. Eu posso pegar o metrô — responde Beth, dando um sorriso tímido. — Não posso abusar ainda mais da sua gentileza do que já abusei.

— Não se preocupe com isso. Para onde estou indo é na mesma direção que a sua casa. Então apenas aceite, senhorita Tamareira — retruca o professor, sorrindo.

“É difícil recusar quando você diz essas coisas com um sorriso tão bonito” — pensa Beth, fascinada pela expressão doce de Daryl.

— Bem... então eu vou aceitar — concorda a garota, aproximando-se timidamente do carro, enquanto Daryl coloca as coisas que levava no banco de trás.

O professor se senta no banco do motorista, enquanto Beth abre a porta do passageiro. A garota se surpreende ao ver que há diversos livros no banco. Daryl imediatamente passa a colocá-los no banco de trás.

— Um momento, por favor — pede o homem, arrumando tudo da melhor maneira que conseguia.

— Ah, esse é o novo livro do escritor Will D. Bruce, certo? — questiona Beth com interesse.

— Você o conhece? — indaga Daryl, surpreso.

— Sim. Ele é um escritor famoso — responde Beth, sorrindo levemente.

— Verdade — relembra Daryl, terminando de arrumar todas as amostras que recebeu do novo livro.

Beth se senta no banco do passageiro e se acomoda, colocando o cinto. Com interesse, a garota passa a encarar o homem.

— Você também gosta dele, professor?

— Bem... — Daryl pensa na pergunta e assente. — Sim. Eu gosto do trabalho dele.

A garota observa novamente a quantidade impressionante do mesmo livro que Daryl recebeu. Ela se perguntava se ele daria para alguém ou venderia. Não parecia que ele era simplesmente um fã.

— Mas... você está carregando várias cópias do mesmo livro. Você pretende escrever uma crítica? — questiona Beth com curiosidade.

— Não. Quando eu fui convidado para a festa de lançamento, os publicadores me enviaram várias cópias. Eu acho que eles querem que eu espalhe a notícia do lançamento — responde o professor, dando de ombros.

— Uau! Então você vai para a festa de lançamento que vai acontecer hoje?

Ele assente, concordando. Beth estava impressionada em saber que o professor tinha tanta influência. Will D. Bruce era um de seus escritores favoritos e sabia o quanto era complicado participar das festas de lançamento de seus livros.

— Se você gosta do autor, por que não pega uma cópia? — sugere Daryl, encarando Beth pelo canto do olho, enquanto dirige.

— Tudo bem. Eu já comprei uma — conta a loira, surpreendendo Daryl.

Ela passa a mexer em sua bolsa e pega o livro, mostrando a capa idêntica aos que se encontravam no banco de trás do carro. Beth exibe um lindo sorriso que mostrava a sua animação por conseguir um livro novo.

— Aqui. Eu comprei hoje. Não vejo a hora de ler. Eu sou uma grande fã dele!

Beth não consegue esconder sua animação e Daryl acaba sorrindo ao pensar que esse tipo de atitude combinava bem com a garota que foi a sua melhor e mais dedicada aluna do semestre.

— Will D. Bruce é um autor muito sortudo por ter uma grande fã como você — comenta Daryl, voltando sua atenção ao trânsito. — Eu vou informá-lo que uma das minhas alunas é fã dele.

— Você consegue falar com o Will D. Bruce? — indaga Beth, surpresa com a informação.

— Não com tanta frequência com a qual gostaria, mas às vezes sim. Quer que eu pegue um autógrafo dele para você? — pergunta o professor.

Beth cora e seus olhos brilham tão intensamente quanto estrelas. Ela se sentia tão animada com a possibilidade de ter o autógrafo de um dos seus autores favoritos, que ela era incapaz de reagir.

— Autógrafo? — sussurra, encantada. — Você está falando sério? Verdade mesmo?

— Claro. Eu vou pegar para você! — afirma Daryl, divertindo-se com a reação de Beth.

— Se não for causar problemas, eu gostaria muito! Você pode pedir para ele assinar esse livro? — pergunta Beth, exibindo o livro que ela havia comprado.

— Claro. Deixe-o aí quando sair — responde o professor, sorrindo. — Mas, o que você gosta nesse autor? Ele é um velho de cabelo branco que já passou muito da idade para excitar garotas da faculdade.

— A idade de um autor não importa quando é sobre como as palavras dele te comovem — retruca Beth, dando um sorriso sonhador. — O coração de uma pessoa pode ser comovido por autores de faleceram centena de anos atrás.

— Ainda assim, hoje em dia, os escritores jovens e bonitos estão com tudo. Acho que isso não funciona com você, Beth — comenta Daryl, observando a garota.

— Will D. Bruce também é bonito. Tem um certo ar sedutor nele que nos atrás. Além disso, ele é bastante inteligente. Por algum motivo, me lembra o Jeremy Irons — fala Beth, pensando na aparência do autor que via nas redes sociais e nos livros.

— Jeremy Irons? Vou me certificar de transmitir isso também — garante Daryl, fazendo Beth arregalar os olhos.

— Oh, não! Não faça isso! — implora a garota.

— Por que não? Eu tenho certeza de que após ele ouvir isso, ficará sorrindo o dia inteiro — comenta o professor, relembrando a personalidade do escritor. — Ele é o tipo de pessoa que não pode ouvir um elogio que fica se gabando.

— Mesmo? — questiona Beth, impressionada. — Como você o conheceu, professor? Foi em uma das festas de lançamento dos livros dele ou em algum dos seus seminários?

— Eu o conheci no dia do meu nascimento — revela Daryl, surpreendendo Beth mais uma vez. — Ele é o meu pai.

— Seu pai? — repete a garota, embasbacada. — Mas o nome dele...?

— Bruce é a parte artística de seu nome. Ele disse que Will Dixon não soaria tão bem quanto Will D. Bruce, então acabou adotando esse nome — explica Daryl, entendendo a dúvida que Beth tinha. — Mas seu verdadeiro nome é Willian Dixon.

— Eu jamais poderia imaginar — comenta Beth, pensativa. — Bom, Will D. Bruce é bastante discreto sobre a família nas redes sociais, assim como a minha mãe.

— Meu pai nunca gostou de se expor. Então, não é tão estranho assim não saber que você não saiba que eu sou filho dele.

— De certa forma, faz todo o sentido.

— O que faz sentindo? — questiona Daryl, confuso com a afirmação da aluna.

— Você se parece com ele, professor. Exala o mesmo ar de maturidade e responsabilidade — confessa Beth, dando um sorriso tímido.

— Então eu sou bonito como Jeremy Irons? — provoca Daryl, relembrando da fala da garota ao comentar sobre seu pai.

O rosto de Beth se torna tão vermelho quanto um tomate. Estava envergonhada por ter elogiado tanto o pai de seu professor e mais ainda por ter comentado sobre sua aparência.

“Você é ainda mais bonito que ele, professor” — pensa Beth, observando o professor.

Ao encarar sua aluna, seus olhos se encontram. Daryl sorri de maneira sugestiva, mostrando que esperava uma resposta. Sabia que estava sendo infantil, mas de alguma forma, queria mesmo ouvir a opinião de Beth sobre sua aparência.

Pela primeira vez em sua vida, Daryl realmente estava preocupado com a maneira como era visto por alguém. O professor não conseguia explicar o que acontecia dentro de si, mas era incapaz de negar que se importava com a avaliação de Beth sobre ele.

— Sim — murmura Beth ao perceber que seu professor realmente esperava uma resposta de sua parte. — Você é muito bonito, professor.

Ela sentia seu rosto pegando fogo. Admirava o professor e a convivência durante o semestre só a fez ter ainda mais fascínio pelo homem. E mais um detalhe que Beth observou nos meses em que tem convivido com o professor é que o sorriso de Daryl era o maior ponto fraco da garota.

Ver o sorriso satisfeito de Daryl ao ouvir sua resposta fazia o coração de Beth se tornar ainda mais caótico. Sua mente parecia ficar em branco e tudo o que ela conseguia fazer é admirar o belo rosto do homem.

Daryl volta sua atenção ao trânsito e liga a rádio, onde novamente passava uma canção de Annette. O professor se lembra da conversa que teve com a aluna no dia anterior e a encara com preocupação.

— Eu deveria trocar de estação? — questiona Daryl e Beth o encara confusa.

— Por quê? Não gosta dessa música? — pergunta Beth e dessa vez era ela quem estava preocupada com a opinião do professor.

— Eu gosto dessa música. Ela é realmente boa. Mas notei ontem que você parecia incomodada ao falar sobre a sua mãe. Se você não gostar de ouvir a canção, eu posso trocar. Não precisa se forçar.

— Eu não me incomodo de falar com a minha mãe. Eu a admiro muito. O que aconteceu foi apenas um mal-entendido. Na verdade, me interessa muito saber qual a sua opinião sobre Boy Band Hero — afirma a garota com sinceridade, evitando falar no verdadeiro assunto que a incomodou.

— Minha opinião sobre a música da sua mãe? — indaga Daryl, surpreso. Beth assente, encarando-o com expectativas. — Por quê?

— Porque fui eu quem escreveu essa música. Quero a sua opinião sincera, professor.

— Você escreveu? Espera. Você é compositora, Beth?

— Sim — confirma Beth, dando um sorriso inseguro. — Ao menos tento ser.

— Então é você quem escreveu as músicas do último álbum de sua mãe — deduz Daryl e a loira assente. — Por isso as músicas estão tão diferentes. Você tem feito um excelente trabalho.

— O senhor acha isso mesmo, professor? — indaga Beth, observando-o com os olhos brilhando em animação.

— Eu jamais mentiria sobre algo relacionado a letras — garante Daryl, encarando-a com seriedade. — Você é talentosa. As letras das músicas de sua mãe se tornaram muito mais sensíveis e bonitas desde que você se tornou a compositora dela.

— Obrigada.

Beth se sentia genuinamente feliz pelas palavras do professor. Mesmo amando escrever e sabendo que os fãs de sua mãe a tem elogiado bastante pelas canções, ela ainda se sentia insegura em alguns momentos.

— Então pretende se tornar uma reconhecida compositora? — supõe o professor e Beth nega.

— Claro que quero ser reconhecida pelas minhas composições, mas meu sonho mesmo é me tornar cantora — conta Beth, encarando as próprias mãos.

— Mas, se você quer se tornar cantora, não deveria ter escolhido o curso de Música? — questiona o professor, confuso. — Por que escolheu Letras?

— Bom...

Beth hesita. Sentia um peso em seu coração ao relembrar dos motivos que a levaram a fazer Letras. Pensar nesse assunto trazia à tona a pior fase da sua vida e onde começou o seu inferno pessoal.

— Está tudo bem se não quiser contar — afirma Daryl, notando que a garota parecia desconfortável com o assunto.

A loira observa os olhos preocupados de seu professor. Ele transmitia tanta doçura e compreensão que por algum motivo, ela sentia que poderia confiar nele para contar o seu passado complicado.

— Não é que eu não queira contar. Apenas não sei como começar — explica Beth, dando um fraco sorriso. — Se trata de uma história longa, cheia de dramas e traumas. Temo ocupar demais do seu tempo.

Daryl encara Beth e nota a tristeza em seus olhos. No entanto, o professor também podia sentir que sua aluna precisava desabafar. Assim, tomado pelo impulso e um desesperado desejo de ajudar a garota, ele resolve fazer algo que jamais imaginou que faria com um aluno.

— Eu tenho um seminário em Atlanta. São cerca de três horas de viagem e eu ainda tenho que ir à festa de lançamento do livro do meu pai, o que será quase uma festa de família. Você... — Daryl respira fundo, criando coragem. Sentia-se nervoso com a situação. — Você gostaria de vir comigo?