Além da vida

11 Renesmee- Black's Haras


Eu estava em um sonho estranho, como se estivesse assistindo a cena de um filme, mas eu sabia que aquilo não era ficção. Era a vida de Eva, minha vida passada. Eu podia ver tudo claramente, como se estivesse lá, mas sem poder intervir.

Jacob estava em pé, seu semblante fechado e cansado. Seus olhos fixavam-se em Eva com uma intensidade que eu conhecia bem.

— Eu sei que você não me ama, Eva — disse ele, sua voz era firme, mas havia dor ali, uma tristeza profunda. — E é por isso que vou te dar a liberdade que você tanto quer. Não faz sentido ficarmos juntos quando seu coração pertence a outro.

Eva arregalou os olhos, a surpresa claramente estampada em seu rosto.

— Jacob, você está errado! — Ela avançou um passo, tentando tocá-lo, mas ele recuou. — Eu te amo, você está confundindo as coisas.

Jacob balançou a cabeça, o amargor em seu olhar era difícil de ignorar.

— Não, Eva. Eu ouvi você no telefone com Seth. Eu ouvi tudo.

Eva congelou. Seus lábios tremiam levemente, como se procurassem as palavras certas, mas tudo que saiu foi um sussurro frágil.

— Jacob, por favor, me escuta...

Antes que ela pudesse continuar, sua prima Isa entrou na sala, sua expressão alarmada. Ela olhou de Eva para Jacob, percebendo de imediato a tensão no ar.

— O que está acontecendo aqui? Vocês dois estão gritando... A filha de vocês vai acordar! — disse Isa, cruzando os braços com um olhar sério para os dois.

Jacob respirou fundo, seu corpo tensionando ainda mais.

— Não precisa se preocupar com isso, Isa. Eu já estou indo — disse ele, lançando um último olhar para Eva antes de sair, batendo a porta com força.

O som da porta ecoou pela casa, deixando um silêncio pesado no ar. Eva se deixou cair no sofá, o rosto enterrado nas mãos enquanto lágrimas silenciosas rolavam pelo seu rosto. Isa se aproximou e a abraçou, oferecendo o consolo que Eva tanto precisava naquele momento.

— Como ele descobriu? — Isa perguntou, sua voz baixa e cautelosa.

Eva levantou os olhos úmidos e cansados.

— Ele me ouviu falando com Seth no celular — confessou, a voz entrecortada pelo choro.

Isa suspirou, balançando a cabeça.

— Você precisa pensar em você mesma, Eva. — Ela hesitou por um momento, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Mas também precisa pensar na sua filha. Jacob ama essa criança, ele nunca vai abrir mão dela. E Seth... — Isa parou por um momento. — Você precisa acabar com isso, antes que piore.

Eu podia sentir o peso dessa conversa, como se estivesse vivendo cada palavra junto de Eva. E então, de repente, tudo se desfez.

Acordei com o coração acelerado, minha respiração pesada. Sentei-me na cama, o suor frio escorrendo pela minha testa. Mais uma vez, eu havia vivido uma das memórias de Eva.

— Jacob e Eva não estavam bem... — sussurrei para mim mesma, tentando processar tudo o que tinha visto.

Um aperto dolorido formou-se no meu peito. Eva amava Jacob, mas estava presa em um ciclo de dor e culpa.

Eu me deitei novamente, tentando acalmar meu coração que batia descontroladamente no meu peito. O encontro com Jacob estava cada vez mais próximo, e a verdade era que eu não sabia se estava pronta para isso.

Eu suspirei, fechando os olhos por um breve momento, sabendo que faltavam poucas horas para conhecer, finalmente, o homem que habitava tantas das minhas lembranças de outra vida.

Acordei com o som suave do alarme, os primeiros raios de sol atravessando as cortinas do meu quarto. Minha mente ainda estava cheia das lembranças perturbadoras do sonho da noite anterior, mas não havia tempo para isso agora. Hoje era o dia em que eu conheceria Jacob Black. Finalmente.

Levantei-me e fui direto para o armário, decidida a escolher algo confortável, mas que não chamasse atenção demais. Peguei uma calça jeans escura, justa o suficiente para me sentir à vontade, mas sem ser provocativa. Combinei com uma camisa solta de linho branco, simples e prática. Completei o visual com botas marrons de couro, perfeitas para o ambiente rural de um haras. Prendi meu cabelo em um coque alto e rápido, deixando alguns fios soltos ao redor do rosto.

Depois de pegar minha bolsa e conferir se estava com todos os documentos necessários, desci para a sala de jantar. Meus pais já estavam à mesa, tomando o café da manhã em silêncio. O cheiro de café fresco e torradas enchia o ar.

— Bom dia, filha — disse minha mãe, com um sorriso suave enquanto passava manteiga em uma fatia de pão.

— Bom dia, mãe. Pai — cumprimentei, me sentando ao lado deles. Peguei uma xícara de café, sentindo que precisaria de toda a energia possível para enfrentar o que estava por vir.

Edward me olhou por cima da xícara de chá que segurava, sua expressão grave e atenta. Eu sabia que ele estava preocupado, mais do que estava deixando transparecer.

— Tem certeza de que quer fazer isso hoje, Nessie? — começou ele, colocando a xícara sobre a mesa com um suspiro. — Não acha que seria melhor esperar um pouco mais? Refletir melhor sobre esse encontro com Jacob Black?

Revirei os olhos, já antecipando esse tipo de conversa.

— Pai, eu já tomei minha decisão. Adiar não vai mudar nada — respondi calmamente, cortando um pedaço de fruta. — Cedo ou tarde, vou ter que lidar com ele. E quanto mais eu adiar, mais difícil vai ficar.

Edward me observou em silêncio por alguns instantes, seu olhar penetrante como sempre. Ele parecia estar ponderando suas próximas palavras com cuidado.

— Eu só não quero que você se machuque — disse ele, sua voz um pouco mais suave. — Jacob... ele carrega muitos fantasmas do passado. Não é uma pessoa fácil de lidar, principalmente com tudo o que aconteceu entre ele e Eva.

Suspirei, tomando um gole do café.

— Eu entendo suas preocupações, pai. Mas eu não sou Eva. Eu sou Renesmee. E estou indo lá por um motivo profissional, não pessoal.

Minha mãe, que estava em silêncio até então, me observava com uma expressão de leve apreensão, mas ela sabia que minha decisão estava tomada. Edward, no entanto, parecia ainda mais tenso.

— Só me prometa que será cuidadosa — insistiu ele.

— Eu prometo — disse, com um leve sorriso, tentando tranquilizá-lo. Me levantei da mesa, sentindo a tensão no ar, mas determinada a seguir com meus planos. — Preciso ir agora.

Dei um beijo rápido na testa de minha mãe, que me desejou boa sorte, e abracei meu pai, sentindo a preocupação irradiar dele como uma onda invisível. Ele me segurou um pouco mais do que o normal, como se estivesse tentando me convencer pela última vez.

— Eu confio em você, filha — disse ele, finalmente me soltando. — Mas, por favor, tenha cuidado.

— Eu vou, pai. Não se preocupe — respondi, antes de me despedir e sair pela porta.

Entrei no meu carro e liguei o motor. As ruas de Seattle pareciam familiares, mais do que deveriam. Era como se eu já tivesse feito aquele trajeto muitas vezes antes. Talvez fossem as memórias de Eva, mais uma vez se infiltrando em minha consciência. Eu balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e me concentrei na estrada.

Depois de alguns minutos, cheguei ao Haras. O lugar era imponente, com grandes campos verdes que se estendiam ao horizonte. Cavalos pastavam tranquilamente, e o ar cheirava a terra molhada e grama. O portão de entrada era de ferro, com o nome "Black's Haras" esculpido em grandes letras. Respirei fundo, preparando-me mentalmente para o que viria a seguir.

Assim que saí do carro e comecei a caminhar em direção à entrada, um homem alto e robusto se aproximou de mim, o semblante sério, mas algo em sua expressão mudou assim que ele me viu de perto. Seus olhos se arregalaram, como se estivesse vendo um fantasma.

— Eva...? — ele murmurou, chocado.

Ri suavemente, balançando a cabeça.

— Não, não sou Eva. Meu nome é Renesmee Cullen.

O homem piscou algumas vezes, como se estivesse tentando se recompor.

— Desculpe, é que... — ele passou a mão pela cabeça, visivelmente desconcertado. — Você parece muito com ela. Eu sou Sam Uley.

— Prazer, Sam — respondi, estendendo a mão. Ele a apertou de maneira firme, mas ainda um pouco atordoado. — Jacob Black está me esperando?

— Sim... — ele assentiu, parecendo se recuperar do choque inicial. — Vou te levar até ele.

Segui Sam pelos corredores do haras. Tudo era muito organizado e impecável, como um verdadeiro império. Quando chegamos a uma sala, ele parou e indicou a porta com a mão.

— Ele está aqui. Quer dizer... Jeremy Black está aqui. Jacob pediu que ele te recebesse primeiro.

Assenti e entrei na sala, meu coração batendo um pouco mais rápido. Mas, em vez do homem que eu imaginava encontrar, havia um jovem sentado atrás de uma mesa.

— Você deve ser Renesmee — disse o rapaz, levantando-se com um sorriso simpático. — Eu sou Jeremy Black. Prazer em conhecê-la.

Jeremy se levantou e estendeu a mão, seu sorriso fácil e amigável.

— Então, você é a famosa Renesmee Cullen — disse ele, com um toque de humor na voz. — Claire falou muito sobre você.

Fiquei surpresa ao ouvir o nome de Claire sair da boca dele, e por um momento hesitei antes de apertar sua mão. Ele era filho de Jacob Black, afinal. E aquilo me atingiu de uma maneira inesperada, como se algo dentro de mim se remexesse, desconfortável.

— Claire te indicou — continuou Jeremy, voltando a se sentar. — Mas, apesar do currículo impressionante, você não tem muita experiência prática.

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e Claire entrou apressada, o sorriso radiante no rosto ao me ver.

— Experiência? — ela disse, balançando a cabeça. — Nessie não precisa de experiência. Ela vai se sair perfeitamente bem aqui.

Levantei-me imediatamente, sorrindo ao vê-la, e nos abraçamos.

— Claire, que bom te ver! — disse, feliz por finalmente reencontrá-la.

— Oi, Nessie. Eu sabia que ia gostar daqui — respondeu ela, voltando-se para Jeremy, que observava a interação entre nós com uma expressão ligeiramente frustrada.

— Ainda sou o administrador do haras, Claire — ele disse, com uma voz um pouco mais fria agora.

Claire riu, balançando a cabeça.

— E eu sou dona de 50% disso aqui, irmãozinho. E se eu digo que ela está contratada, então ela está contratada.

Havia uma tensão palpável no ar, e de repente me senti desconfortável, percebendo o embate sutil entre os dois. Jeremy claramente não estava feliz com a interferência da irmã, e aquilo ficou ainda mais evidente quando ele cruzou os braços e lançou um olhar para mim.

— Bom... parece que já está decidido então, não é? — disse ele, com um suspiro de frustração.

Claire não se deu ao trabalho de responder. Ela me puxou pela mão e me conduziu para fora da sala.

— Vem comigo, Nessie. Vamos dar uma volta.

Antes de sair, olhei para Jeremy, sentindo o peso da situação. Ele claramente não gostava do rumo que as coisas estavam tomando, e me perguntei o quanto disso tinha a ver com sua mãe, como Claire mencionara. Algo naquela dinâmica familiar parecia muito complicado.

Enquanto caminhávamos pelo haras, Claire começou a me explicar as funções do lugar, mas seu tom era descontraído, quase como se estivéssemos em uma simples conversa entre amigas.

— Jeremy é um baba-ovo da mãe — disse ela, revirando os olhos. — Ele faz tudo o que ela quer, sem questionar. Por isso ele fica tão irritado quando eu tomo decisões por conta própria.

O haras era enorme. As pastagens se estendiam por grandes campos abertos, onde cavalos corriam livres, seus cascos batendo ritmicamente contra o chão. As cercas de madeira eram impecáveis, e cada detalhe do lugar parecia cuidadosamente planejado e mantido.

— Isso aqui é lindo, Claire — comentei, olhando em volta, apesar de ter uma lembrança de Eva , fiquei impressionada com o tamanho do lugar.

Ela sorriu, orgulhosa.

— Eu sei. O haras está na nossa família há gerações. Jacob — meu pai — sempre cuidou bem disso aqui. E agora é nossa responsabilidade continuar o legado.

Paramos perto de uma cerca, onde vários cavalos galopavam livremente, suas crinas balançando ao vento. A sensação de liberdade que emanava deles era quase palpável, e me senti momentaneamente hipnotizada pela cena.

— São lindos — murmurei, com um sorriso leve.

Claire concordou com a cabeça, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um dos empregados do haras a chamou.

— Já volto, Nessie. Preciso resolver uma coisa — disse ela, lançando um olhar na direção do homem que a chamara. — Pode dar uma olhada por aqui, se quiser.

Assenti, e ela se afastou, caminhando rapidamente até onde o funcionário a esperava. Fiquei sozinha, observando os cavalos por alguns minutos, até que meus olhos se fixaram em um cavalo um pouco mais afastado dos demais, parado perto de outra cerca, como se estivesse isolado.

Havia algo nele que me chamou a atenção imediatamente. Ele era maior e mais imponente que os outros, com uma presença forte e silenciosa. Sem pensar muito, pulei a cerca e caminhei em sua direção, meus pés movendo-se quase por instinto.

Quando me aproximei, o cavalo levantou a cabeça e me olhou diretamente nos olhos. Meu coração acelerou, e um sorriso se espalhou pelo meu rosto. Eu o reconhecia.

— Oi, meu melhor amigo — sussurrei, tocando suavemente seu focinho. — Sentiu minha falta?

O cavalo bufou levemente, como se estivesse respondendo à minha pergunta. Por um momento, foi como se o tempo tivesse parado. Ali, diante daquele animal magnífico, senti uma conexão profunda, quase familiar. Era o cavalo de Eva, e por um segundo, senti como se Eva estivesse ali, olhando através de mim, tentando me comunicar algo.