Além da superfície.
86 Vale a pena.
Notas iniciais
— Santana, você não precisa ficar se não quiser. – Rachel resmunga, notando a irritação da amiga dentro do quarto.
— Bem, eu preciso ficar. – Senta no sofá, cruzando as pernas. – Todos estão ocupados.
— Eu estou presa aqui. Não é como se eu fosse fazer algo. – Vira os olhos.
— Um pé fora daqui e sua incrível namorada me esgana.
Quinn havia saído mais cedo, com os olhos avermelhados e o rosto um pouco inchado, o que fez ligar o instinto de alerta da latina. A loira não deu muita explicação, apenas que discutiram, mas que estava tudo bem. Ela pedira para que Santana ficasse no hospital durante o horário do jantar, que seria seu horário, já que os Berrys precisavam resolver coisas do trabalho para que pudessem ficar com a filha, e saiu.
Ao contrário do que viu em Quinn, Santana encontrou uma Rachel centrada e pensativa. O semblante cansado da morena era notável, todavia. Isso não a livrou das perguntas insistentes da líder de torcida, que ficaram sem grandes respostas, irritando ainda mais a latina preocupada.
— Não vai adiantar ficar chateada comigo, San. – Rachel suspira, encostando a cabeça no travesseiro.
— Não vai adiantar você discutir com a Quinn.
— Nem você discutir comigo por causa disso. – Diz, séria. – Eu agradeço por você estar do nosso lado, mas existem coisas que... – Morde o lábio. – São só nossas, entende?
— Claro. – Santana passa a mão no rosto. – Desculpe, Quinn saiu meio transtornada e isso me subiu uma raiva estranha, porque... – Para de falar. Rachel levanta uma sobrancelha. – Enfim, ela passou por um monte essas últimas horas e te imaginar brigando com ela, não importa pelo que tenha sido, me soa tão fodidamente injusto.
— Eu entendo você. – Rachel sussurra, depois de alguns segundos. – Mas, nós não brigamos. Confia em mim. Nós tivemos uma conversa necessária e isso mexeu com a gente. Eu amo a Quinn, San, eu a amo mais que tudo.
— Eu sei que sim. – Levanta, se aproximando da cama. – Desculpe. – Segura a mão da morena.
— Tudo bem. – Sorri de lado.
— Eu... – Olha para baixo. – Eu só... Eu queria te... entender, sabe?
— Quinn e eu...
— Não. – Interrompe. – Não sobre isso.
Santana levanta o olhar, cravando-o nos olhos compreensivos, mas cheios de culpa, de Rachel. A cantora não consegue encará-la por muito tempo, deixando escapar um suspiro longo e arrastado.
— Não quero suas desculpas. – Volta a falar. – Não quero ouvir o que você disse para seus pais, para os médicos, ou até mesmo para Quinn.
— Eu não menti. – Franze a testa. – Você acha que são desculpas? – Ri forçadamente. – Santana, era meu son...
— Seu sonho. Eu sei, Rachel. Eu sei. – Senta no espaço pequeno da cama. – Mas... – Fecha os olhos. – Estávamos ali para você. E você sabia. Não éramos Quinn, mas...
— San...
— Somos suas amigas. Não somos? – Rachel assente rapidamente. – E você havia progredido. Por que não nos pediu ajuda? Por que fugiu, Rach? Nós pedimos para esperar! Por que, merda?
— Porque você ainda ia apresentar, Santana. – Se defende. – Eu não ia atrapalhar tudo. Já bastava o meu.
A latina estala a língua, levantando e dando as costas para Rachel. O quarto fica em um silêncio desconfortável, apenas com a respiração acelerada de Santana, que parece uma bomba relógio desde que entrou ali. Todo o estresse, a preocupação, as horas mal dormidas e, principalmente, o medo, transbordando pelo seu corpo. Ela encosta a testa na parede fria, buscando controle.
— Eu não me lembro de muita coisa. – Rachel sussurra. Santana não se mexe. – Eu lembro que... – Lambe o lábio. – Eu ouvi as risadas de Lena e Karovski, eles estavam me atrapalhando. – A latina franze a testa, confusa. – Quando eu comecei a cantar, eu só conseguia ouvir as vozes deles e de mais um monte de gente. Eles me xingavam, zombavam minha voz. Eu não conseguia ouvir a banda.
— Mas, estava tudo em silêncio.
Santana vira para Rachel, que levanta uma sobrancelha. A morena abre a boca diversas vezes e fecha, sem saber o que dizer.
— Você acha que eu estou enlouquecendo, San?
— Claro que não.
— Eu ouvi. Era nítido. Eles estavam rindo e falando sobre mim. – Afirma. – E depois disso... – Coça a nuca, forçando o pensamento. – É tudo um borrão.
— Você lembra como chegou em casa?
— Não.
— Deus. – Põe as mãos no rosto. – Eu deveria ter tomado a chave do seu carro.
— Pare. – Desencosta da cama. – Santana, se você está tentando se culpar de algo, só... Pare.
— Você dirigiu em transe, Rachel.
— E foi uma irresponsabilidade minha e um perigo para mim e para os outros. – Acrescenta. – Mas, já foi. Aconteceu. Não há absolutamente mais nada que possamos fazer.
— Eu poderia ter evitado.
— EU PODERIA. – Santana se assusta com a mudança de tom. – Eu estou cansada de todos quererem carregar tudo nas costas. Eu sou tão dependente de vocês, que eu acabei colocando esse fardo, sem perceber. – Antes que a latina pudesse responder, ela continua. – Foi exatamente por isso que eu discuti com Quinn. – Ri, sem humor. – Toda essa merda é minha culpa. Se eu errei, não foi porque a Quinn não estava comigo. Se eu sai, não foi porque vocês não conseguiram me impedir. Se eu fiz o que fiz, foi porque, naquele momento, eu estava fora de mim. Então, foi tudo minha culpa. Parem de ficar pensando em possibilidades, em como poderiam ter evitado. Aconteceu.
— Queríamos te ajudar...
— Vocês me ajudam. – Sorri, limpando uma lágrima. – Vocês me ajudam muito, San. E eu amo vocês. – Suspira. – Eu preciso me ajudar, eu preciso me amar. – Soluça baixo. – Eu não posso depender de vocês para levantarem meu ânimo, minha auto estima, para me acalmarem sempre. Eu não posso viver com um chip de alerta que avisem a vocês quando eu fique em perigo.
— Eu sei. – Abraça a pequena. – Você estava indo bem, Rach. Não regrida, por favor.
— Eu preciso de um tempo pra respirar. – Pede. – Eu não me sinto bem.
— Você tem esse direito. Não importa quanto tempo você precise. – Segura o rosto da morena. – Nós nunca deixaremos você sozinha, nunca deixaremos você voltar àquilo.
— Não espero o contrário. – Sorri. – De verdade, eu não estou pedindo pra vocês se afastarem, nem desistirem de mim. Eu só preciso me entender. O que aconteceu foi sério. Eu perdi um sonho, eu vim para o hospital, Quinn perdeu a inscrição dela... Você me entende? Não posso simplesmente ignorar tudo e forçar um sorriso, fingir vontade.
— Eu entendo, Rach. – Beija a testa da menor. – É um momento difícil. Tome seu tempo. Depois viraremos New York de cabeça pra baixo.
—
Quinn dá um sorriso torto, observando todos os traços que havia feito nas últimas duas horas. Sua começa a doer, mas a loira não se importa. Ela precisa expor seus sentimentos. Ela precisa transbordar. E toda inspiração, agonia e felicidade de Quinn se resumem em um nome: Rachel. Desde que saíra do hospital, as palavras da morena rodam em sua cabeça incansavelmente.
É difícil. A Fabray chegou nessa conclusão, assim como sua namorada. É difícil. É complicado o relacionamento delas. Não por terem passados dolorosos entrelaçados, mas por terem fantasmas adormecidos no presente, por andarem em campo minado. Um passo em falso, sem querer, uma explosão sentimental. Toda superfície a mostra, exposta.
Flash Back
Por Quinn
— E o que você vai fazer agora? – Rachel me pergunta, quebrando o silêncio.
Eu mordo o lábio trêmulo e entrelaço minhas mãos, tentando me conter ao máximo. Eu estou perdida, sei disso. Ela também sabe. Verbalizar isso não irá melhorar as coisas, só torna tudo mais assustador. Não tive tempo para parar e pensar em mim. Eu joguei para alto, sem pensar duas vezes. Eu ouvi meu coração, a voz que gritava mais alto. O que eu poderia fazer?
— Eu não sei. – Admito, deixando as lágrimas escorrerem. Ela assente, buscando meu olhar.
— Olhe para mim, Quinn.
Seu tom me faz obedecer sem precisar que ela peça outra vez. E lá estão eles. Os olhos castanhos que eu sou absurdamente apaixonada. Os olhos que conversam comigo sem esforço, que me acalmam, mas que, paradoxalmente, me levam a minha maior loucura. Os olhos que sugam meus maiores segredos e todas as minhas verdades.
— Eu estava com medo. – Sussurro.
— Você já estava lá, Quinn. – Diz, desesperada. – Era só ter ido na reunião e pronto. Você voltaria e...
— E te encontraria onde? – Interrompo, agoniada. Ela não responde. – Eu não deveria nem ter ido. Precisava vol...
— Espera. – Franze a testa. – Você perdeu a porra da sua vaga na universidade e continua falando como... Como se não tivesse se arrependido? Quinn! Eu preciso que você acorde.
— Eu estou acordada. – Bato na cama. – Por que está agindo assim? Pare de me tratar desse jeito.
— Eu quero que você pense em você. – Aponta. – Merda, Quinn! Não bastava eu ter perdido, eu precisava fazer você perder também.
— Não foi sua culpa.
— VOCÊ VOLTOU POR MIM.
— FOI MINHA ESCOLHA. – Respiro fundo. – Se você não quer que eu me culpe, então faça o favor de não se culpar também e cada uma assume seus erros.
Fim Do Flash Back
Quinn conheceu além dos maiores detalhes do corpo de Rachel. Rachel conheceu além dos pontos de prazer de Quinn. Elas se conheceram por inteiro, por dentro, seus pontos mais fracos, seus medos. Elas sabem que ainda irão se conhecer mais, se estiverem dispostas. Quinn sorri de novo, tendo sua resposta em mente, repetindo-a sem parar até tirar o lápis da enorme cartolina pela última vez.
— Filha? – A loira responde com um barulho nasal, sem desviar os olhos. – Você chegou correndo e se trancou. Estou preocu... – Judy se interrompe. – Caramba! – Põe a mão na boca. – É a...
— Minha futura estrela da Broadway. – Diz, confiante. – A mais talentosa e a mais linda que o mundo irá ver.
— Isso é... Wow... – Ri. – Eu não sabia que você desenhava tão bem. Se eu soubesse, eu teria te matriculado naquele curso que você queria. – Suspira. – Eu sinto muito. Seu pai...
— O que o Russell fez ou deixou de fazer, não importa agora, mãe. Nada me importa agora. – Levanta. – Eu quero meu futuro. Eu quero um futuro com essa mulher ao meu lado. Eu a amo.
— Ok, eu não sei o que aconteceu, mas isso foi forte. – Segura a mão da filha. – Lute pelo futuro que você deseja.
Quinn abraça Judy o mais forte que pode, sentindo toda confiança que precisa. Depois de tomar um banho rápido e jogar algumas roupas dentro da mochila, a loira janta com família e se despede, em disparada para o hospital que deixara mais cedo.
Por Quinn
Flash Back
— Vá para casa. – Rachel sussurra. – Você precisa descansar, pensar um pouco... Longe de mim.
— Rachel, eu não preciso pensar em na...
— Apenas faça o que eu estou pedindo, Quinn. – Sinto meu coração apertar. – Eu quero que você pense se... – Ri, sem graça. – Isso tudo vale a pena.
— Você está terminando comigo ou algo do tipo? – Me aproximo. – Porque se você estiver, eu ju...
— Óbvio que não, meu amor. – Eu suspiro aliviada. – Só preciso que você descanse. Ok?
— Ok. – Sussurro. – Promete que estamos bem?
— Eu prometo.
Fim do Flash Back
Eu bato na porta do quarto, nervosa. Santana franze a testa ao me ver. Não deixo que ela fale algo, apenas abraço-a, agradecendo-a por ter ficado com Rachel como eu havia pedido. Assim que a latina sai do quarto, eu entro, devagar, sem ser percebida. O barulho da cartolina, no entanto, chama a atenção da minha namorada pra mim.
— O que...
— Shhh... – Peço.
Rachel se cala, me observando atentamente. Eu puxo o pequeno sofá mais paro o lado, deixando a parede lisa com mais espaço. Tiro da bolsa o pote de fita adesiva e corto com os dentes pequenos pedaços. Posiciono todos atrás da primeira cartolina, antes de pregar alinhadamente no local vazio. Me viro devagar, analisando a expressão surpresa no rosto da minha namorada. Seus olhos ficam cristalizados.
— Ok, isso aqui é o Times Square... – Aponto, mordendo o lábio. – Bem, suponha que sim. – Rachel me olha e eu sinto meu corpo estremecer. Limpo a garganta. – Essas pessoas andando são os inúmeros habitantes e turistas. – Continuo. – Aqui... É onde eu irei trabalhar um dia. – Ponho o dedo em cima de um prêmio. – Eu quero meu escritório com desenhos animados nas paredes e prêmios. Sim, eu quero prêmios. Eu sempre gostei de prêmios, não vou deixar de gostar agora. – Explico. – Quero ter um nome, ser conhecida pelo meu trabalho... De uma forma positiva, claro. – Me afasto mais. – Aqui... Essa de gorro branco e casaco colorido... É você. – Rachel solta um suspiro. – É você, porque você é o amor da minha vida, e eu quero que você esteja comigo ali. – Rio baixo. – E eu quero fotos suas na minha mesa do escritório.
Rachel se ajusta na cama, ficando mais próxima. Vejo o fio do soro esticar e a impeço de se mexer mais. Minha namorada resmunga.
— Fique aqui. Eu ainda não acabei.
Repito o que fiz anteriormente com o outro cartaz, posicionando-o mais em cima.
— Deus do céu. – Ouço sua voz trêmula.
— Essa é minha futura esposa. – Franzo a testa. – Se ela me aceitar um dia, claro. – Rachel põe a mão na boca. – Ela fará muito sucesso, porque ela é extremamente talentosa. O mundo vai parar para ouvir essa voz. — Aponto para o desenho, onde Rachel está de olhos fechados, segurando o microfone, em cima de um palco. – Ela vai lutar, assim como eu vou, como qualquer pessoa luta pelos seus sonhos. Se vai ser fácil ou não, eu não posso garantir... O que eu posso garantir é que, no meio de toda essa gente... – Gesticulo, mostrando a platéia cheia. – Eu estarei ali, na primeira fileira, te assistindo pela centésima vez, me orgulhando como se fosse a primeira, assim como eu faço toda vez que te escuto cantar. – Rachel solta um soluço audível. – Eu estarei ali, porque eu quero estar ali. Porque esse sonho virou meu também. A Broadway é meu sonho também!
Eu me sento na cama, puxando seu corpo frágil para os meus braços. Rachel se encolhe, me puxando para perto, enquanto deixa suas lágrimas fluírem livremente. Fecho os olhos, embalando-a com carinho, querendo protegê-la do mundo e de todo mau que existe lá fora.
— Não me deixe, Rach. – Sussurro. – Nunca me deixe. Eu tive tanto medo de te perder...
— Eu si... Sinto mui... to... – Soluça. – Me...
— Eu te amo. – Interrompo. – Não preciso parar pra pensar, eu te amo. – Beijo sua testa. – Eu sei que está tudo uma loucura, mas nunca duvide disso. Eu sei bem o que eu quero. E eu vou lutar por isso. Você está inclusa nesses planos. – Ela dá um sorriso genuíno.
— Você... – Tenta controlar a respiração. – Você não... Precisa lutar por mim... – Suspira. – Você já me tem.
— Podemos lutar juntas, então? – Traço seu rosto, limpando suas lágrimas. – Podemos nos ajudar?
— Eu te amo. – Me abraça mais forte.
— Isso foi um sim? – Ela ri contra minha camisa.
— Sim...
Eu junto nossos lábios delicadamente. Nós nos beijamos assim por um tempo, sem aprofundarmos, apenas nos sentindo. Eu deito, nos posicionando de um jeito mais confortável na pequena cama do hospital. Rachel encosta a cabeça no meu peito. Eu mexo no seu cabelo, sentindo o cheiro forte de shampoo.
— Ficou lindo, Quinn. – Fala, olhando para os desenhos. – Você desenha tão bem.
— Minha modelo ajuda. – Brinco. Ela sorri.
— Obrigada por não sair do meu lado.
— Eu nunca faria isso. – Ela solta um bocejo tímido. – Dorme, meu amor. Descansa um pouco.
— Você vai dormir comigo?
— Se você qui...
— Quero. – Fecha os olhos e abre novamente. – Quero conversar com você... – Fecha os olhos. – Mas, eu não consigo... – Boceja novamente. Eu sorrio fraco, sabendo que ela ainda está sob efeito dos medicamentos.
— Dorme. – Beijo sua cabeça.
—
Não demorou muito para Rachel cair em um sono pesado. A enfermeira, que havia entrado para trocar o soro, me ajudou a me arrumar, já que eu tinha deitado sem grandes planos. Meu celular vibra na mesa do lado. Mensagem.
Quinn, eu gostaria de notícias da Rachel. Está tudo bem? Eu quero muito falar com ela. Sei onde Carmen Tibideaux estará nos próximos dias. Se ela quiser, eu posso levava-la até lá. Por favor, me mantenha informada. – Tina.
Eu sorrio, sabendo que não estamos sozinhas.
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