Além da superfície.
16 Primeiro amor.
Notas iniciais
Por Quinn
Tudo parecia acontecer em câmera lenta. É possível ver os movimentos da respiração forte de Rachel. Mas, ninguém estava prestando atenção nisso. Todos esperavam a resposta positiva da morena, o beijo e então, finalmente, o casal Glee estaria de volta, comando o grupo. Bem, todos, menos nós três. Santana encara Finn, como se tentasse fuzilá-lo, enquanto Britt desvia o olhar da morena para mim, de mim para ela. Quando Rachel abre a boca para tentar falar e não acha as palavras, eu fecho os olhos com força, sentindo meu estomago embrulhar. Levanto para sair, mas uma mão me puxa de volta na cadeira.
– Fique aqui. – Santana manda. Eu franzo a testa.
– Eu não quero ver isso. – Sussurro só para ela.
– Você é amiga dela, lembra? – Devolve no mesmo tom. – Fique.
Eu obedeço, engolindo seco.
– Rachel... – Finn tenta de novo. Ele está de joelhos agora, encostando sua cabeça na dela. Eu respiro pesado, olhando para longe.
– Finn, eu... Eu... – Balbucia. – Eu te pedi um tempo. – Fala baixinho.
– Eu sei, mas nós já passamos tanto tempo separados, linda. – Ele beija sua testa. – Pra quê adiarmos mais? – Sorri.
Dessa vez seus lábios vão para os lábios dela. Ela corresponde. O outro lado do Glee aplaude o casal. Por que eles fazem isso agora? Até ontem eles apenas ignoravam a presença de Rachel. Meu olhos começam a arder. Eu levo uma mão para o rosto, afastando uma lágrima teimosa.
– Eu não posso, Finn. – A morena se afasta, deixando o garoto alto surpreso. – Eu disse que precisava pensar.
– Mas...
– Ela já disse que não quer, Finnútil. – Santana cospe. – Sente sua bunda na cadeira e conforme-se.
– Por que você não vai atrás do time de futebol americano e me deixa em paz, Santana? – Ele vira irritado.
Vejo Britt encolher os ombros em seu lugar. A latina também percebe isso.
– Só estou te ajudando a parar com o papel de estúpido que está fazendo.
– Rachel, pare de querer ser estrela, aceita logo Finn, porque outro você não consegue. – Mercedes vira os olhos.
– Claro, porque você tem todos os homens aos seus pés, por isso eles não vão para Rachel. – Ironizo.
– Falou a nova protetora dos perdedores. – Ela levanta.
– Você esqueceu que você é uma perdedora? – Levanto junto.
– Parem. – Rachel sussurra, olhando para baixo.
– Oh, elas se defendem. – Mercedes bate palma. O sangue está fervendo em minha cabeça. – Sobre o que vocês conversam? Sobre Finn? Sobre Puck? Não, não! Por que vocês não falam sobre moda? Explica para ela que nesses dias quentes, ela pode colocar roupas mais leves, ao invés desses moletons longos.
– Cale a boca. – Murmuro. Ela está entrando em um caminho perigoso.
– Meninas, não briguem. – Professor Schue levanta. – Certo, Finn, vá para o seu lugar.
– Rachel, o que foi isso? – Ouço o menino perguntar, segurando a mão da morena. Droga! O corpo dela fica tenso.
– Nada. Acidente na cozinha. – Ela puxa a mão, escondendo-a. Sua respiração está cada vez mais complicada.
– Uh, ela deve cozinhar tão bem quanto canta. – Uma risada sarcástica soa.
– VÁ A MERDA, MERCEDES. – Perco a paciência, avançando na cantora.
– Quinn, pare. – O professor tenta me puxar.
– VOCÊ ACHA QUE ESTÁ AJUDANDO, MAS ELA QUE ESTÁ TE AFUNDANDO, FABRAY.
– EU MANDEI VOCÊ CALAR A BOCA. – Dessa vez eu consigo alcança-la.
Com um punho certeiro, minha mão vai para seu olho esquerdo. Eu ouço os gritos pedindo para que parássemos. Mercedes puxa o meu cabelo com força.
– SANTANA, FAÇA ALGUMA COISA. – Escuto Tina pedir.
– Eu confio em Q. – A latina tem a voz calma.
Eu sorrio, acertando outro soco no estomago da morena. Então, depois do que pareceram horas, sinto uma um braço musculoso rodear minha cintura. Mike e Finn tentam segurar Mercedes longe de mim.
– ME SOLTA, PUCKERMAN. – Grito.
– É muito sexy ver vocês duas rolando ai, mas se vocês continuarem serão expulsas, Quinn. – Ele avisa.
– Quinn Fabray e Mercedes Jones, na minha sala, AGORA. – O direto Figgins fala, furioso.
Merda! Passo a mão na minha boca, percebendo um corte. Olho para Rachel, que ainda está na mesma posição que Finn deixou. Santana pega o meu olhar e acena, me tranquilizando um pouco. O homem grita outra vez, nos chamando. Eu suspiro, fazendo o que ele pede.
Por Rachel
Outro você não consegue. Protetora de perdedores. Rachel, o que foi isso? Ela está te afundando. Minha cabeça gira e gira. Meu corpo está tremendo incontrolavelmente. Eu posso sentir o olhar de todos em mim. Eu acho que eu vou desmaiar. Empurro meus pés para baixo, me obrigando a levantar e ando em linha reta até sair da sala. Não sei o que estou fazendo, não sei como estou andando, não sei para onde estou indo.
Antes que eu tenha ideia de algo, me vejo sentada no chão do banheiro. Sou consciente da porta se abrindo, revelando Santana, que corre e joga seus braços em volta de mim. Eu caio em seu peito, deixando meu corpo tremer com o dela, junto com meus soluços sonoros. Escuto alguém gritando na porta, mandando saírem de perto. Reconheço a voz de Brittany, provavelmente impedindo que entrem aqui. Aperto a perna de Santana, controlando minha vontade de cortar a minha pele. Eu sei que vai marca-la, porque estou fazendo força, mas a latina continua me segurando firme.
Depois de muito tempo, minhas lágrimas param. Vejo a porta do banheiro abrir e Quinn entrar apressada. A loira senta ao meu lado, alisando meu braço. Eu afasto um pouco de Santana, para sentar normal. Respiro fundo, com os soluços ainda escapando.
– Melhor? – A latina pergunta suave. Eu balanço a cabeça.
– Você não deveria ter brigado. – Reclamo com Quinn, minha voz sai rouca e falha.
– Ela precisa aprender a ficar quieta, Rachel. – A loira suspira.- Ela teve o que mereceu.
– Boa, Fabray. – Santana bate uma mão na dela. Viro os olhos.
– O que aconteceu na diretoria?
– Ficarei em casa por três dias. – Sussurra.
– Deus, Quinn! Eu sinto muito. Eu...
– Pare. Você não teve culpa. Ela me irritou.
– Por minha culpa.
– Rachel, Mercedes está falando besteiras o tempo inteiro. – Santana defende. Eu assinto, derrotada.
– Onde está Britt?
– Na porta. – A latina ri. – Aposto que tem um monte de gente querendo saber o que está acontecendo aqui.
– Tem mesmo. – Quinn bufa. – Rach, você quer ir pra casa?
– Não. – Sussurro. – Não quero ficar só. – Minha voz é tão pequena, que se elas não estivessem perto, não escutariam.
– San, você pode tirar todo mundo lá da frente? – Santana levanta e sai do banheiro, gritando. – Quer ir comigo, então? Eu vou ter ir pra casa de todo o jeito. – Sorri.
– Não quero incomodar. – Murmuro.
– Não incomoda, Rach. – A loira segura minha mão, me puxando.
O corredor está calmo, mas eu posso ouvir algumas pessoas sussurrando, o que faz as lágrimas queimarem meus olhos de novo. Baixo a cabeça, seguindo Quinn.
– Rachel, eu levarei o seu carro para lá quando terminar a aula, ok? – Santana fala atrás de mim. Eu entrego as chaves a ela.
– Hey, você está bem? – Britt me abraça de repente. Não respondo, não quero mentir. – Vai ficar tudo bem. – Eu suspiro.
Entro no carro, sentindo o peso no meu corpo. Não consigo me controlar. Puxo minhas pernas para o banco e abraço-as, afundando meu rosto nelas. Não quero desconcentrar Quinn na direção, tento engolir meus soluços, mas é impossível. A loira estaciona, abre a porta e me tira de dentro. Ela me guia em sua casa. Escondo a cabeça em seus braços, com vergonha.
– Não tem ninguém em casa. – Quinn sussurra, como se lesse meus pensamentos. – Venha, deite aqui.
Ela conduz meu corpo numa facilidade incrível. Deito por cima dela, tremendo. A loira começa a cantarolar, baixinho. Sua voz é doce, como os movimentos de suas mãos em minhas costas. Solto um suspiro cansado, sentindo meus olhos fecharem.
Por Quinn
Continuo segurando-a em meus braços, enquanto ela dorme. Ligo a televisão, no som baixo e passo os canais, tentando me distrair. Tenho certeza que Frannie já chegou. Por mais que eu queira descer para falar com ela antes, Rachel parece tão confortável no meu colo. Eu não conseguiria acordá-la. Além do mais, a sensação de tê-la tão perto é fantástica. Depois de meia hora de filme, a morena começa a se mexer, enterrando a cabeça ainda mais em peito. Eu sorrio com o seu movimento.
– Hmmm... – Ela resmunga contra mim, fazendo meu coração bater mais rápido.
Seus olhos se abrem, lentamente. Ela foi e voltou no seu sono por mais alguns minutos. Finalmente, Rachel aperta os olhos com força, como se recuperasse a consciência e salta do meu peito, com o rosto vermelho forte.
– Desculpe. – Sussurra, aumentando o meu sorriso. Ela parece envergonha e confusa.
– Não tem problema. – Seguro sua mão, acalmando-a.
– Quanto tempo eu dormi? – Sua voz é grossa por causa do sono e do choro intenso.
– Não muito. – Respondo. – Como está se sentindo?
– Constrangida. – Confessa. Eu rio. – Estou chorando muito na sua frente.
– Estamos quites, então. – Lembro. Ela sorri de lado, assentindo. – Bom, amigas fazem isso, certo?
– Eu não sei. – Sussurra. – Eu acho que sim. – Dá os ombros. – Posso te fazer uma pergunta? Digo, como amigas...
– Claro, Rachel. – Meu coração se enche de felicidade.
– Você acha que... Que... – Limpa a garganta. – Eu devo aceitar o pedido? De Finn? – E lá se vai o meu sorriso. Solto um suspiro pesado. O que eu digo? – Você...
– Você ama o Finn? – Pergunto com medo.
– Eu... Não sei. – Deus, ela não sabe. Ela não sabe. – Eu já o amei. O que eu sinto hoje parece... diferente.
– Isso é normal, Rach. Vocês terminaram, ele te machucou. Posso ser sincera? – Ela assente. – Eu acho que ele gosta de você, mas não tão quanto ele gosta da popularidade. Você acredita que ele teria pedido se não fosse por nós?
– Eu duvido muito. – Murmura. – Mas, ele é meu primeiro amor, Q.
– Primeiro amor é muito importante. – Eu concordo. – Mas, é só o primeiro amor. Não quer dizer que ele será o melhor amor, ou mesmo único. Aliás, esse termo, “primeiro amor” só faz uma referencia aos primeiros namorados. Acho que amor seja algo mais forte. Claro que existem exceções. Mas, não acho que seja seu caso, pelo o que você acabou de dizer.
– Ele foi o seu “primeiro amor” também?
– Não. – Sorrio. – Na verdade, eu gostei muito de Puck.
– Sério? – Ela parece surpresa. Eu sorrio, assentindo. – Mas...
– Eu sei, eu sei. Pense comigo, Rach. Puck não é um cara para relacionamentos sérios. Me apaixonar por ele era um erro. Foi um erro.
– Eu sempre achei que ele gostasse de você.
– Talvez. – Balanço a cabeça. – Só que ele gosta mais de ficar solteiro e pegar todas. – Rio.
– Como Finn gosta mais de ser popular do que de mim. – Conclui.
– É isso. – Aperto sua mão. – E como aconteceu comigo, um dia você acordará sem nem se lembrar dele.
Ela ia falar algo, quando alguém bateu na porta e abriu, lentamente. Minha irmã entra no meu quarto, sorrindo grande.
– Desculpem, eu não resisti. – Fran diz. – Hey, Rachel, tudo bem? – A morena abre a boca, incrédula. Acho que elas duas só se viram duas ou três vezes pessoalmente.
– Oi, Frannie. Tudo bem e com você? – Sua voz é tímida. E é lógico que minha irmã percebeu seu rosto inchado.
– Tudo ótimo. – Eu sorrio para ela, agradecendo-a por trata-la normalmente. – Vocês não sabem o que eu comprei. – Fala, sentando na cama.
– Se você não nos falar, nós ficaremos sem saber, Fran. – Brinco, puxando Rachel mais pra perto de mim. A morena encosta suas costas contra meu corpo.
– Comprei meu saco de pancadas, finalmente. – Comemora. Eu bato a mão na dela, vibrando junto. Rach nos olha, confusa.
– Eu e Frannie fazíamos boxe. – Explico.
– Mas, Q parou por causa dos treinos da Cheerios e seus horários não batiam com os meus, por causa do meu trabalho.
– Você continua, então?
– Com certeza. Você faz algum esporte, Rachel?
– Não levo jeito. – Murmura.
– Mas, já tentou? – Eu levanto uma sobrancelha, sem entender onde ela queria chegar.
– Eu realmente não levo jeito. – A morena ri sem graça.
– Quinn, o que você acha de colocarmos o saco na garagem agora e testarmos Rachel? – O olhar da minha irmã explica tudo.
– Soa perfeito, Fran. – Eu viro pra Rachel. – Você vai amar.
– Gente, eu sinto muito, mas...
– Mas, você vai ter que nos ajudar, claro. – Fran interrompe, saindo do quarto. – Ou você pensa que vai ficar com o mais fácil? – Grita, descendo as escadas. – Estou esperando vocês.
Eu rio, olhando para porta. Encaro Rachel, que está encolhida na cama. Eu passo o braço em volta dela, apertando-a.
– Quinn, não é uma boa ideia. – Sussurra.
– Você pode relaxar? – Rio. – Não vamos deixar você se machucar. Aposto que você vai se sentir bem.
– Você nunca disse que fazia boxe.
– Não tive essa oportunidade. – Suspiro. – Nós entramos para nos distrair, nos relaxava. Outro dia conversaremos sobre isso, ok? – Ela assente, desconfiada. – Vamos?
Ela respira fundo e me dá a mão. Eu sorrio, levando-a para a garagem. Fran já estava tirando as coisas da caixa. Ela pede para Rachel montar algumas peças, enquanto se aproxima de mim.
– Já soube o que houve no colégio. – Sussurra. Eu estremeço. – Teve a ver com ela, certo?
– Mercedes a irritou. – Cuspo, com raiva.
– Eu imaginei. Ela não parece bem.
– Não está. – Suspiro.
– Vamos ajuda-la, então. – Minha irmã sorri. Eu devolvo o sorriso.
– Obrigada. – Ela beija minha testa e volta para a morena.
Quando terminamos de montar, Frannie pega as luvas e veste. Rachel ouve atentamente as dicas que minha irmã dá, explicando-a como fazer para não se machucar e bater certo no saco. Sorrio, vendo-a demonstrar. Uma onda de nostalgia passa por mim. Eu gostava de treinar com ela. Então, Fran tira as luvas e coloca em Rachel.
– Não fique nervosa. – Ri, brincando com a morena. – Preparada?
– Não. – Sussurra. Nós gargalhamos.
– Portanto que você não nos acerte, tudo certo. – Rachel vira os olhos, rindo. – Pode bater. — A pequena respira fundo e tenta seu primeiro golpe, que é desequilibrado. – Firme bem os pés, Rachel. – O segundo golpe é bem melhor. A morena dá um leve sorriso. – Ok, tente não empurrar tanto.
Ela assente, parando. Rachel olha para o saco, como se estivesse pensando. Nós esperamos por ela. Depois de alguns minutos, ela solta um suspiro e o acerta com força. Fran olha para mim, sorrindo grande.
– Ótimo. – Elogia. – Se solte.
Frannie termina de dizer isso e Rachel começa a bater repetidas vezes. Ela começa com pequenos suspiros, que logo se transformam em gritos furiosos. Eu mordo os lábios, assistindo-a. Eu sei o que é isso. Quantas vezes eu descontei minha raiva assim? Minha irmã coloca uma mão no meu ombro. Trocamos um olhar significativo. A morena passa cinco minutos socando sem parar. De repente, ela para, com a respiração pesada. Meu corpo fica tenso, pronto para ir segurá-la, mas Fran me impede. Franzo a testa para ela, que pede pra que espere. Rachel vira para nós, cansada. Eu vejo seus lábios se curvando para cima. Meu coração bate forte.
– Isso foi... Demais. – Gargalha. Eu solto o ar, rindo junto.
– Eu sabia que você ia gostar. – Fran me solta e eu vou para a morena, girando-a em um abraço. Sua risada ecoa pela garagem.
– Você pode me ensinar mais coisas? – Pergunta para minha irmã.
– Só se Quinn se juntar a nós. — A pequena olha para mim, com os olhos brilhando, esperando minha resposta.
– Prepare-se para comer poeira, Berry. – Aviso.
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