Por Quinn

Desde que Beth nasceu, quase todos os dias ela me invade a cabeça e eu fico tentando imaginar como ela está ou o que está fazendo. Se ela já teve o primeiro dente, se já falou a primeira palavra ou já sofreu a primeira queda. Se ela já teve o primeiro corte de cabelo, se já aconteceu a primeira noite em que dormiu inteira sem acordar e se já deu os primeiros passos. Cada primeira vez que eu penso que perdi, é uma dor a mais que eu coleciono quando se trata de Beth. Mas, tudo era como uma lacuna, sua voz, seu cheiro, seu rosto. Até ontem. Vê-la ali, na minha frente, falando comigo, é algo totalmente surreal. Sim, é isso, Beth é real. A criança que eu fico imaginando existe. E como todas as outras, ela já teve suas várias primeiras vezes.

Eu viro na cama, buscando Rachel, mas não a encontro. Chamo seu nome, sem resposta. A luz do banheiro está desligada, então eu levanto, coloco o chinelo e desço pela casa enorme e ao mesmo tempo aconchegante. Sorrio ao entrar na cozinha e encontrá-la de costas, preparando algo no fogão, com seu roupão branco. Abraço-a por trás, assustando-a, mas a morena logo relaxa, apoiando as costas em meu peito.

– Bom dia...

– Bom dia, meu amor. – Beijo seu pescoço. – Acordei e você não estava na cama.

– Eu sei, eu sinto muito. – Vira para mim, fazendo um pequeno bico. – É que nós não comemos nada desde que chegamos. Imaginei que você fosse acordar com fome e quis te fazer uma surpresa.

– Estou com fome mesmo. – Admito.

– Eu te conheço, Quinn Fabray. – Arqueia as sobrancelhas. – Só não pensei que fosse acordar tão cedo. O quarto é muito claro?

– Não, é perfeito. Eu que... – Limpo a garganta. – Estava com o sono leve. – Ela me encara, como se estivesse me analisando. – O que é isso? Waffles? Sério? – Me afasto.

– Eu tentei, certo? Não sei se está bom quanto os de Frannie ou os de papai, mas...

– Já está dando desculpas?

– Não! Só estou te preparando...

– Está com uma cara muito boa. E o cheiro está delicioso. – Digo, sincera.

– Bem, mas eu não acabei ainda. Falta o principal.

– O que é?

– Por que você não volta para cama e me espera cinco minutos? – Entrecerro os olhos. – Pra eu poder te dá um “bom dia” melhor?

– Você está me mimando?

– Talvez?

– Rach...

– Por favor, Q, é só um café da manhã. – Morde o lábio. Eu sorrio, assentindo.

– Tudo bem. – Ela vibra. – Não demora, ta?

– Cinco minutos!

Volto para o quarto e me sento na cama, brincando com uma pétala vermelha deixada por Rachel no dia anterior. O quarto estava tão bonito e tudo o que eu fiz foi soluçar em seus braços a madrugada inteira. Sinto meu rosto pesado, tanto que nem tenho coragem de me encarar no espelho. Vejo as mensagens de Santana e Brittany e as respondo, tranquilizando-as. Frannie mandou uma perguntando se tudo tinha dado certo no baile e eu fiquei em dúvida se respondia ou não, mas acabo optando por responder que sim, que tudo tinha corrido bem. Se eu falasse algo mais, ela bateria aqui.

A porta abre e Rachel entra com uma bandeja nas mãos. Meus olhos crescem quando vejo o prato de waffles com morangos, chantilly e calda de chocolate. Ela sorri, vendo minha expressão.

– Isso é o meu café da manhã?

– É o nosso. – Posiciona a bandeja na cama, com cuidado. – Judy me mataria se visse?

– Com certeza. – Rio. – Ela não precisa saber disso.

– Ótimo. Eu não pretendia contar. – Me entrega os talhares. – Prova.

– Vamos lá...

Coloco um pedaço na boca, sob seu olhar atento e ansioso. Como eu previ: delicioso.

– Hmmm...

– Então?

– É a coisa mais gostosa que já comi na vida, amor. Parabéns! – Ela joga um travesseiro em mim. – Sério, melhor que a torta do Breadstix.

– Ai, Quinn, como você é exagerada.

– Eu não estou exagerando! – Coloco outro pedaço na boca. – E se você não comer, eu vou comer tudo!

– Espera. – Ela segura meu punho. – Está melado aqui... – Passa a ponta do dedo na minha boca.

Eu fecho os olhos. Minha namorada começa um beijo lento e carinhoso. Eu poderia acelerá-lo. Poderia mudar nossas posições e realizar os fetiches que me surgiram com esses ingredientes e Rachel nua na cama. Mas, continuo em seu ritmo, cansada demais para qualquer coisa. Com um beijo no meu queixo, ela se afasta e nós voltamos a comer, em uma conversa descontraída sobre seus tios.

– Você está bem? – Pergunta finalmente.

– Sim, estou bem. – Ponho o ultimo pedaço na boca.

– Tem certeza?

– Claro. – Ela inclina a cabeça. – Eu só... Hm... Não.

– Quinn...

– Você deveria ter feito mais. Sobrou algo lá embaixo?

– Não. – A morena afasta a bandeja, colocando-a fora da cama. – Você sabe que fingir que nada aconteceu não muda o fato de que realmente aconteceu, não sabe?

– Sei... – Suspiro.

– Eu não estou te obrigando a falar sobre isso. Eu só não quero que você vista a máscara do primeiro ano outra vez.

– É assim que eu me sinto. – Sussurro.

– Como?

– Como no primeiro ano. – Encosto a cabeça na parede. – Como se... Tivesse perdido ela de novo. – Desvio os olhos. – Obrigada.

– Por...?

– Por não fugir de mim. Eu lembro que você disse que foi mais difícil me perdoar porque eu tinha dado Beth a sua mãe.

– Hey, não! – Segura meu rosto. – Isso foi na época que eu estava cega de mágoa e foi um pensamento extremamente idiota e egoísta. – Entrelaça nossas mãos. – Eu não fugiria de você sabendo o quanto isso é difícil...

– É difícil para você também.

– Sim, é, mas eu já passei por isso uma vez, posso passar outra...

– Eu também posso.

– Quinn, para. – Me encara, séria. – Não faça isso. Não compare. São casos totalmente diferentes. – Ela limpa uma lágrima que eu nem senti descer. – Me deixa cuidar de você. Deixa eu te segurar e mostrar que você não está sozinha nessa bagunça.

– Fica aqui, Rach. – A pequena me envolve de imediato. – Fica comigo, por favor. Me ajuda...

– Estou aqui. – Me alinha em seu corpo. – Estou aqui, meu amor.

Eu não queria mais chorar, mas não conseguia segurar. Tudo me dói, minha cabeça roda, meus pensamentos não param e, quando param, se resumem na pequena loira de vestido azul na noite passada. Fecho olhos, tentando regular minha respiração. Rachel cantarola em meu ouvido, enquanto suas mãos correm nas minhas costas, me confortando.

– A primeira vez... – Respiro fundo. Ela aperta meu ombro, me incentivando a falar. – A primeira vez que tive um ataque de pânico foi quando vi Russel na garagem com outra mulher.

– Na garagem de vocês?

– Sim. – Rio, irônica. – Ele me viu e... Ele me agrediu. – Rachel fica tensa. – Digo, não fisicamente. Ele nunca me bateu, nem nada, mas... As palavras dele sempre me machucaram muito.

– O que aconteceu?

– Ele me ameaçou, depois jurou que não era nada demais, que mamãe não precisava saber. – Balanço a cabeça. – Eu fui para o quarto, comecei a... Me comparar a ele. E, puta que pariu, nós tínhamos tanto em comum. – Cuspo, com raiva. – O ar começou a me faltar e eu pensei que eu fosse morrer. Eu sempre penso que vou morrer.

– Não diz isso. Alguém te viu?

– Eu desmaiei. – Lembro. – Bati a cabeça na parede e minha irmã ouviu e correu. Quando abri os olhos, estavam os três me encarando. Judy me levantou, perguntando o que havia acontecido. Eu menti.

– Eu sinto muito. – Assinto, apertando-a.

– Então, começou a acontecer mais vezes. Cada discussão, cada vez que eu ficava estressada, ou nervosa... Em casa, nos treinos... Eu sempre perdia o controle. – Explico. – Quando eu fazia exercício demais e cansava, já achava que estava ficando sem ar. Era horrível. Meu rendimento nas Cheerios caiu muito. Sue falou com minha mãe.

– Isso foi antes de você entrar no coral, certo?

– Foi. Eu entrei pouco tempo depois. Minha irmã já estava cursando psicologia, nós conversamos, ela estudou sobre e descobrimos. Eu quase fui para terapia, mas não foi preciso. De um jeito ou de outro, Glee me acalmou. E as meninas já sabiam como lidar com isso.

– Eu sempre te imaginei tendo a vida perfeita. – Suspira, tirando o cabelo do meu rosto. – Quando te via pelos corredores, eu te admirava, porque todo mundo te respeitava. Depois começou sua implicância comigo. Você sempre demonstrou força, e eu queria ser como você. – Eu rio baixo, negando. – Quando você entrou no coral eu te vi mais sensível. Achei que era por causa da gravidez, mas... No fundo, eu sempre soube que você escondia algo. Enquanto eu me chateava com seus gritos e apelidos, você desmoronava por dentro. Isso me deixa transtornada.

– Você e eu tínhamos mais em comum do que pensávamos. – Ela franze a testa. – Eu me chateava por você levantar a cabeça e empinar o nariz, demonstrando não se importar com o que eu falava, enquanto você juntava tudo para explodir um dia. Sim, isso também me deixa transtornada.

– É louco, não é? – Assinto. – Agora eu tenho você. E você tem a mim.

– Sempre, pequena. – Beijo seus lábios. – Sempre.

Por Rachel

Demoramos um pouco para almoçarmos. Ficamos namorando na cama, conversando besteiras ou apenas em silêncio, quando Quinn parecia se trancar dentro dos próprios pensamentos. A loira sugeriu chamarmos Santana e Brittany para assistirmos um filme e elas chegaram meia hora depois. Eu sabia que elas estavam preocupadas pela minha namorada, até mesmo por mim, mas o casal tratou de quebrar qualquer clima estranho, conseguindo fazer Quinn relaxar um pouco. O filme nem era tão engraçado, mas os comentários que sugiram supriram a falta de graça muito bem, arrancando risadas sinceras de nós quatro.

Eu levanto, arrumando o DVD, enquanto a latina deixa a panela de pipoca na cozinha. Quinn está deitada no colo de Brittany, que relata os fatos que viram e descobriram sobre a festa de ontem.

– Eu não acredito que perdi isso! – A loira mais baixa bate no sofá.

– Q, você não perdeu nada. – Santana entra, fazendo careta. – Foi estranho.

– Mercedes e Sam formam um casal estranho. – Rio, abraçando a latina. – Eles são totalmente diferentes um do outro.

– Verdade. Quinn combinava com ele. Era como Barbie e Ken. – A dançarina diz, inocente.

– Britt, não foi um bom comentário. – Minha namorada sussurra.

– Oh, desculpa, Rachel. Eu não quis...

– Tudo bem, Britt. – Dou os ombros. – Eu não acho que eles combinavam. Sam é... Idiota. Às vezes ele parece uma criança ainda.

– Mercedes irá se irritar muito. – Santana brinca.

– Portanto que eles parem de nos irritar, ótimo.

Jantamos todas juntas. Pedimos uma pizza e jogamos mais conversa fora. Falaram que Finn e Sugar ficaram outra vez, que Tina chorou metade do baile, enquanto abraçava todo mundo. Puck se divertiu, vendo os alunos se alegrarem demais, graças ao seu batismo glorioso no ponche. Ao terminarmos, as meninas nos ajudaram a ajeitar tudo e foram embora, nos pedindo para avisar caso precisássemos. Santana perguntou se não queríamos que elas ficassem, mas nós queríamos aproveitar o tempo a sós.

Deitamos na cama enorme, depois de um banho quente, literalmente falando. Ficamos abraçadas. A força que Quinn aparentava minutos atrás indo embora em meus braços. Sinto seu corpo tremer um pouco.

– Eu a escutei chorando. – Prende os olhos em mim. – Fui atrás dela como... Como se tivesse um imã me guiando. Ela queria... – Respira fundo. – Ela queria a... Estava procurando...

– Shelby.

– A mãe dela. – Solta de vez. – Eu disse que ela era uma princesa, porque ela estava com a roupinha de Elsa e... – Sorri. – Estava linda. Ela riu, Rach. Ela riu e meu coração pareceu que ia sair pela boca. – Eu sorrio triste. – Eu disse que gostava de verde e ela disse que também gostava, que os olhos dela eram verdes, como os meus. – Traga saliva. – Nós fomos procurar por... A mãe dela, mas eu não queria. Eu queria ficar e conversar mais, brincar. Queria te apresentá-la, mas quando ela disse o nome dela, eu... Congelei. Então, Shelby virou... – Soluça baixo. – Eu estava com minha filha, Rachel. – Diz, firme. – Na minha frente, segurei na mão dela e eu não sabia. Eu não...

– Calma. – Eu a aperto. – Shhhh...

– Eu esperei tanto encontrá-la. Tanto.

– Eu sei, amor.

– Minha filha. – Sussurra. – Ela está tão grande... – Meus olhos se enchem de lágrimas. – Eu gostaria de ter estado lá para ela. Eu a abandonei.

– Não fez. Você não a abandonou. – Tento limpar seu rosto. – Você só proporcionou uma vida melhor para ela. Ela está bem, está...

– ESTAVA PERDIDA EM UMA FESTA. QUASE DE MADRUGADA. – Grita. – ESTAVA CHORANDO EM UMA SALA, PROCURANDO PELA DROGA DA MÃE DELA. ADIVINHA? A MÃE DELA SOU EU.

– Quinn...

– SOU EU. RACHEL, SHELBY NÃO É A MÃE DELA.

– Se acalme.

– IRRESPONSÁVEL. – Levanta da cama. – EU DEVERIA IR ATRÁS DELA E TOMÁ-LA DE VOLTA. SHELBY NÃO NASCEU PARA SER MÃE E EU JÁ DEVERIA SABER DISSO.

Eu fecho os olhos, me encolhendo na cama. Eu queria concordar, queria dizer que eu também estava irritada, que discuti com ela por causa disso, mas é doloroso demais admitir. É vergonhoso demais. Como dizer para Quinn que eu também acho que a mulher que adotou sua filha não pode não ser uma boa mãe? Eu seria egoísta assim?

Flash Back

Estava esperando por Quinn, vendo Sam sussurrar algo no ouvido de Mercedes e rir. Era a cena mais estranha e inusitada da vida, mas ele não estava atrás da minha namorada e isso era o que importava. Então, alguém esbarrou em mim, quase me fazendo derrubar a jarra de suco em cima da mesa. Olhei para trás e a irritação se transformou em surpresa.

– O que você está fazendo aqui?

– Não estou com tempo para conversa agora, Berry.

– Rachel. – A encarei. – Meu nome é Rachel.

– Dá para sair da minha frente, Rachel? – Tentou me empurrar. – Estou realmente ocupada.

– Você sempre está ocupada.

– Olha! Eu sei que você vai querer discutir a relação, como sempre, mas eu preciso achar a minha filha agora.

– Como assim achar a sua filha?

– A minha filha! – Passou a mão no rosto. – Fui ao banheiro e quando voltei, Beth não estava comigo.

– O que? Você... Deus, você é uma irresponsável! Você trouxe uma criança para cá?

– Eu tive que trazê-la! – Começou a andar, eu fui atrás.

– Como você não percebe que a menina não estava junto? Ela é uma criança, Shelby! Ela não sabe se virar sozinha. Você tem o que na cabeça? Além de trazê-la, você...

– RACHEL! – Gritou. – NÃO É MOMENTO!

Fim do Flash Back

Quinn senta no chão e encosta na parede, abraçando suas pernas no peito, com a cabeça entre elas. Eu não me movo. Sei que ela está irritada e que tem motivos para estar assim, mas se eu forçá-la, ela só vai explodir mais e nós nos magoaremos. Então, ficamos em silêncio. Cada uma em sua bolha, em nossos próprios pensamentos. Meus braços começam a arder. Eu passo os dedos sob os cortes, devagar, tentando aliviar a sensação estranha.

Levanto, pensando em ligar para Santana. Talvez ela tenha razão em se preocupar por estarmos sozinha. Quando ponho a mão no trinco da porta, sinto a sua em minha perna. Olho para baixo.

– Perdão. – Sua voz sai rouca. – Eu não quis dizer isso.

– Quis. – Sento ao seu lado. – Você quis e eu não tiro sua razão. – Suspiro. – Talvez Shelby não estivesse em um bom dia. Ela pode ter uma boa explicação para isso. Você viu como elas se trataram quando se encontraram. – Tento defendê-la. – Se amam. Tenho certeza de que ela cuida bem de Beth.

– Você acha? – Pergunta. Tão frágil.

– Amor. – Deito a cabeça em seu ombro. – É complicado para mim ter que falar sobre Shelby sem tomar minhas próprias dores. Você sabe que eu tenho inúmeros de problemas com ela. Mas... O jeito que ela olhou para Beth... Ela a ama. – Minha garganta arde. – Ela estava realmente preocupada. Foi um deslize.

– Nós vamos... Vamos conseguir superar isso, Rach?

– Eu não sei. – A encaro. Ela junta nossas testas. – Estávamos nos perdoando, lembra? Você me disse naquela dia na quadra. — Ela balança a cabeça, concordando. — Mas, estaremos juntas.

– Eu sou apaixonada por você, Berry. – Sussurra, como se fosse a primeira vez que estivesse me dizendo.

– Eu também sou apaixonada por você, Fabray. – Ela sorri. – Eu te amo.

Notas finais
Hey, vocês... Feliz Natal para todo mundo. Aproveitem bem o momento, com quem for. Isso é... importante, ok? Espero que gostem do capítulo. ask.fm/FlorDeLins_ ;**