Além da superfície.

67 Medo do medo que dá.


Cinco longos minutos haviam se passado. O vestiário que, antes ecoava os gemidos prazerosos da capitã das lideres de torcida, agora é dominado por um silêncio incômodo e por pequenos soluços que Rachel deixava escapar. Quinn está abaixada, apoiando seus cotovelos nos joelhos, enquanto tenta organizar sua mente com os acontecimentos dos últimos minutos. Sem dúvida, o corpo de Rachel é algo que a loira sabe apreciar. Com o passar do tempo, ela decorou cada mínimo detalhe, cada marca. Ela notava como as cicatrizes no abdômen da morena estavam ficando mais claras, desejava com todo o coração que elas sumissem de uma vez.

Quinn sabe quando as marcas que aparecem são obras suas. E ela adora ter esse direito. Era lógico que algo estava acontecendo com sua namorada. Por mais que ela quisesse negar ou mesmo não acreditar, o problema estava ali, como sempre esteve. Encarar os novos cortes traçando a cintura que ela tanto ama causa um misto estranho de sensações na loira. Raiva. Tristeza... Impotência.

– Fala alguma coisa. – Rachel sussurra. – Por favor, fala alguma coisa.

A líder levanta a cabeça, encontrando os olhos castanhos temerosos, que estão praticamente implorando por uma reação sua. Ela olha para as cicatrizes outra vez e sente o estômago gritar em agonia.

– Por que você fez isso? – Pergunta tão baixo, que Rachel precisa se aproximar para entender.

– Eu... Eu não sei. Eu...

– Por que não me contou? – Desafia, levantando.

– Porque... – Engole seco. – Eu estava... Com medo...

– Por que não me pediu ajuda? – Dá um passo em direção a morena, fazendo-a recuar.

– Você está me deixando nervosa. – Se encolhe.

– Você pretendia esconder isso até sumir? – Franze a testa.

– Quinn...

– Você iria me evitar até ter uma boa desculpa?

– Eu...

– E se isso não sair?

– PARA, QUINN! – Explode, empurrando-a.

– NÓS SOMOS NAMORADAS. MAS, QUE MERDA, RACHEL! – A loira soca a parede atrás de si, com força. – QUE PARTE DISSO VOCÊ AINDA NÃO ENTENDEU?

– ESTAVA COM MEDO.

– MEDO DE QUE?

– DE VOCÊ GRITAR COMIGO COMO ESTÁ GRITANDO AGORA. – Respira fundo. – Eu não queria te decepcionar.

– MENTINDO PRA MIM?

– Eu não menti.

– MENTIU! – Grita mais forte. Rachel estremece. – MENTIU E ESCONDEU.

– O que está acontecendo aqui? – Outra voz as interrompe.

Sue abre a porta, furiosa. Quinn apóia a cabeça no box e Rachel tenta se cobrir com os braços.

– Vocês estão pensando que aqui é algum tipo de motel? – Aponta para as roupas no chão.

– Nós não...

– Já estou sabendo, Fabray. Todas te ouviram gemendo, enquanto você curtia o momento inapropriado com sua namorada.

– Merda. – Fecha os olhos, sentindo o rosto arder. – Me perdoe, eu...

– Depois conversaremos sobre isso. Estamos a dois dias da apresentação, mas saiba que eu ainda posso mudar a capitã. – Avisa. – Vista-se, Berry. – Joga a camisa da morena para ela, encarando finalmente o corpo exposto. Sua expressão suaviza. – Vocês estavam gritando. Algum problema?

– Sim, treinadora. E eu sinto muito por gritar. – Quinn lança um olhar cansado.

– Resolvam isso em casa, por favor. – Suspira.

– Perdão. – Rachel sussurra com a voz tremula.

As duas meninas se ajeitam sob o olhar atento da treinadora. Sue entrou pronta e disposta a mostrar quem sabe gritar de verdade, mas quando viu o estado de sua melhor líder, seu sentimento de alerta despertou. A loira mais velha coloca uma mão no ombro de Quinn, apertando-o suavemente. Era preciso calma. E calma era algo que Quinn estava tendo demais...

Por Quinn

As lideres nos olham de cima a baixo e eu rosno para elas. Lena cruza os braços, parecendo irritada e, ao mesmo tempo, vitoriosa. Me seguro para não enfrentá-la agora, por ser tão óbvio que foi ela quem nos dedurou para Sue sobre... Bom, sobre o de antes. Sinto os passos de Rachel atrás de mim, não viro. Jogo as coisas na minha mochila e coloco-a nas costas, apressada. Vejo Santana e Brittany correrem em nossa direção.

– O que está acontecendo? – A dançarina pergunta, abraçando minha namorada, que esconde o rosto em seu pescoço. – Rach, por que você está chorando?

– Quinn? – Santana franze a testa e eu assinto. A latina chuta o balde de lixo, fazendo o som ecoar pela quadra e a morena saltar nos braços de Brittany.

– San, por favor. – A loira repreende, passando as mãos nos braços de Rachel. – Shhh... Calma.

– Merda, Berry. – Minha amiga esfrega os olhos.

– Eu sinto muito. – Sua voz sai baixa.

Solto um suspiro, puxando-a de Brittany. Ela me olha surpresa, mas logo agarra minha cintura com força. Passo um braço por cima de seus ombros, sustentando sua bolsa com a outra mão.

– Nós vamos para casa. Precisamos conversar a sós. – A morena soluça. – Não podemos criar mais confusão por aqui por hoje. Sue está furiosa, Santana.

– Tudo bem, eu falarei com ela. – Baixa a guarda. – Me desculpe, Rachel. – A pequena assente, sem olhá-la.

– Depois vocês conversam. – O casal concorda. – Vamos.

– Qualquer coisa, nos liguem. Queremos ajudá-las. – Britt pede.

Eu aceno para as duas, levando Rachel para o carro. O caminho é silencioso. Um medo pesa em meu peito e faz minha garganta arranhar. Inclino o pescoço para o lado, quando o sinal fecha. A morena encara suas mãos, temendo me olhar.

– Eu pedi para que você confiasse em mim. – Sussurro. O queixo dela treme. – Eu pedi pra ser sua amiga, te dei oportunidade para que conversássemos. Rachel, eu te segurei naquele dia. Você já estava exposta, o que mudaria contar que tinha tido uma recaída?

– Tudo. – Esconde o rosto. – Eu fui fraca, eu... Eu não consegui pedir ajuda... – Aperto o volante. – Não queria te decepcionar.

– Eu não me decepcionaria nunca com isso. – Cuspo.

– Mas, você está chateada...

– Rachel! – Escuto uma buzina atrás de mim e coloco macha, saindo da frente. – Eu estou chateada porque você não me contou.

– Eu sinto muito.

Continuamos em silencio enquanto eu dirijo. A casa dela parece cada vez mais distante. Quanto mais eu acelero, mais longe fica.

– Quando você me escondeu que Hiram não apoiava nosso namoro, eu te pedi pra que você não fizesse isso outra vez.

– Sinto muito.

– Te pedi para que confiasse em mim, para que estivesse por inteiro comigo.

– Sinto muito.

– E você prometeu, Rachel.

– Eu sin...

– PARA DE DIZER QUE SENTE MUITO. – Ela se encolhe.

– Você prometeu que não desistiria de mim. – Retruca. – Eu disse que ainda estava aprendendo a lidar com tudo isso. – Aponta para ela.

– Quando você vai perceber que eu quero te ajudar com tudo isso? – Imito-a. – Quando você vai entender que estamos em um relacionamento, que eu gosto de você? Você ainda tem medo de que eu vire contra você? Que eu faça alguma piada? Que eu te julgue na frente de todos? Que eu te jogue raspadinhas? Que...

– Eu não tenho medo disso. – Me interrompe, agoniada. – Eu tenho medo de você me deixar.

– Por que eu te deixaria? – Ela abaixa a cabeça. – Porque você escondeu e, Deus, você mentiu pra mim? Por isso?

– Quinn, você prometeu!

– VOCÊ TAMBÉM. – Estaciono o carro na frente da casa dela.

– Amor, por favor, por favor, não vamos discutir mais. Me perdoe e pronto. Não acontecerá de novo. – Eu assinto. – Você disse que não desistiria, Quinn...

– Desça, Rachel.

– Não! Desça comigo. – Ela tira o meu cinto e eu seguro seu braço. – Eu não vou sair.

– Desça, Rachel. – Repito, mais firme.

– Você... Você está terminando? – Sua voz some. Eu fecho os olhos. – Por favor...

– Eu só preciso ficar sozinha.

– Vamos conversar.

– Saia. – Peço. – Saia e vá conversar com seus pais. Explique-os o que aconteceu. Depois ligue para Brittany ou para Santana, chame-as para vir para cá.

– Eu não quero ninguém. – Choraminga. – Só quero ficar com você.

– Pensasse nisso antes.

– Pelo amor de Deus, Quinn! – Soluça. – Não faz isso.

– Rachel, me escuta. – Seguro seu rosto, limpando suavemente suas lágrimas. – Eu necessito ficar sozinha agora, entende? Se eu ficar aqui, iremos discutir, iremos nos machucar cada vez mais. É o que você quer? – Ela nega. – Então, me deixa ir embora. Faz o que eu te pedi, porque eu vou dar um jeito de saber se você fez ou não.

– Não desista de mim. – Suplica, segurando meus punhos.

– Não se machuque. – Sussurro, beijando suas pálpebras.

– Eu te amo. – A morena puxa minha camisa, me abraçando. – Eu sinto muito.

– Eu sei, eu sei. – Me deixo levar no contato, aproveitando seu cheiro e seu corpo. – Eu também te amo. Agora saia...

Rachel se afasta e arrisca um beijo. Eu viro o rosto, chateada. A morena suspira arrastado e faz o que eu peço. Espero-a entrar em casa e vou embora, deixando as lágrimas descerem de uma vez. Solto um grito frustrado, enquanto soco o volante. Finalmente, o fato de Rachel ter tido uma recaída me atinge. Ela se cortou de novo. Não sou o suficiente. Não consigo ajudá-la como deveria. Ela não me deixa ajudá-la como deveria.

Desço do carro, correndo e bato a porta de casa, arrancando os olhares das mulheres na sala. Ouço quando elas chamam meu nome, mas continuo em direção ao meu quarto e me deito na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro.

– Quinn?

– Vai embora, Frannie.

– O que houve?

– Eu quero ficar sozinha.

– Mas, você está chorando...

– VOCÊ SABIA, NÃO SABIA? – Levanto. Ela me olha assustada. – VOCÊ SABIA QUE RACHEL TINHA VOLTADO A SE CORTAR.

– O que? Ela... Quinn, mesmo que eu soubesse...

– VOCÊ NÃO ME DIRIA. – Zombo. – NINGUÉM ME DIRIA. TODO MUNDO MENTE PRA MIM.

– Não é mentir! Você sabe muito bem que eu não posso falar.

– FODA-SE. Foda-se você, Rachel, Russel, Puck, Finn... Que se foda todo mundo que mente ou já mentiu pra mim algum dia.

– Eu sei que você está com raiva, mas você precisa ficar calma. Se Rachel teve uma recaída...

– SAI, FRANNIE. EU NÃO PRECISO DE UMA PSICÓLOGA AGORA.

– Precisa de uma mãe. – Escuto outra voz. – Saia, Fran. Eu fico com ela.

– Mas, mamãe... – Ela se cala com o olhar sério que Judy lança. – Ok...

Frannie balança a cabeça e fecha a porta ao sair. Minha mãe abre os braços e, rapidamente, eu deito em seu peito. Ela me segura firmemente.

– Vai passar, meu amor. Sempre passa...

Fecho os olhos, querendo acreditar. Eu preciso acreditar.

Por Rachel

Eu fiz tudo o que Quinn me pediu. Falei com meus pais, mostrei o que eu tinha feito, expliquei o motivo, disse que havia escondido da minha namorada e que ela ficou chateada. Enfim, eu contei tudo. E, para variar, Leroy chorou, me abraçou, disse que gostaria de me ajudar e se lamentou por não ter percebido antes. Já Hiram permaneceu sério e reclamou por eu não ter dito nada no dia, que eu poderia muito bem ter evitado. Talvez ele tenha razão mesmo. Depois de algumas horas lá embaixo, eu subo e sigo obedecendo a loira. Ligo para Santana e peço para que ela e Brittany venham para cá.

Tomo um banho demorado, me sentindo exausta, fisicamente e psicologicamente falando. Tudo isso me tirou totalmente a energia. Pego o celular, desejando uma mensagem de Quinn, mas só encontro uma de Harmony, perguntando se eu poderia encontrá-la amanhã. Eu não respondo. Ela iria querer conversar e eu não estou com vontade. Vejo a música de Quinn perto do meu violão e seguro os dois, suspirando. Hoje tinha tudo para ser um bom dia.

Mais uma vez, dedilho as notas que ela escreveu, vendo algumas palavras se juntarem em minha mente. Faço pequenas observações no seu papel. Entro em meu mundo. Meu e dela. Consigo sentir seu cheiro, seu toque, seu gosto. Eu sei que ela não me deixaria por eu ter me cortado, mas minha vontade de estar a sua altura me cegou de medo. Aliás, eu estava cega de medo de toda e qualquer coisa nesse dia.

Santana e Brittany chegam e, novamente, eu conto o que houve. A latina se exalta, mas logo se contem com os alertas da namorada.

– Acho que estou tendo um déjà vu. – Nós franzimos a testa. – Você e Quinn brigando, eu e Brittany tentando te colocar juízo.

– Santana!

– E Britt me bronqueando, como sempre. – Vira os olhos, nos fazendo rir. – Espero que não vire rotina isso de vocês brigarem.

– Eu não sei se... – Mordo o lábio. – Não sei se ela ainda... Se ainda vai me querer.

– Eu vou te dizer uma coisa, Rachel...

– San, cuidado. – A dançarina pede.

– Deixa, Britt, eu quero que ela fale. – Encaro a latina.

– Quinn odeia se sentir de fora. Quando as confusões estavam acontecendo na casa dela enquanto ela estava morando comigo, por mais que fingisse não se importar, ela queria saber noticia todos os dias.

– Às vezes nós pegávamos ela na frente de casa, escondida no carro. – Brittany suspira.

– Sim. – Santana assente. – Ela se preocupava com a mãe e com Frannie. Foi uma época difícil, juntando tudo o que aconteceu.

– Quando Judy decidiu se separar de Russel, ela procurou Quinn. – A loira continua. – De inicio, ela não aceitou voltar. Beth já tinha nascido, ela não queria dar o braço a torcer.

– Então Judy precisou se esforçar para conseguir sua confiança. Frannie igual. E como você pode ver, elas conseguiram. – Eu balanço a cabeça, sem entender.

– Ela voltou para casa e os processos do divórcio começaram. – Britt suspira. – Russel não cedeu tão fácil e Judy ainda o amava, apesar de tudo.

– Foi uma série de complicações. Quinn sabia que era doloroso para a mãe, mas Judy simplesmente queria deixar suas filhas de fora, se fazer de forte.

– E tudo o que a Quinn queria era ajudá-la. – A dançarina conclui.

Eu assinto, respirando pesado e engolindo as lágrimas pela décima vez no dia. Santana põe uma mão em meu joelho.

– Nós sabemos o quanto é difícil para você. E você precisa enxergar o quanto é difícil, não só para Quinn, mas para todos nós que nos preocupamos.

– Você não fica com vontade de ter estado lá pra ela nessa época?

– Todos os dias, Britt. – Tento limpar meu rosto. – Eu gostaria de ter ajudado ela, abraçado, cuidado...

– Ok, ok... – San me interrompe e eu viro os olhos. – É assim que ela se sente quando você precisa de ajuda e se fecha.

– O que eu faço? – Pergunto, deixando escapar um soluço.

– Sinceramente? Espera. Eu não faço ideia de como está a cabeça dela agora. Deixe-a vir até você.

– Estou com medo. – Sussurro.

– Dará tudo certo, Rach. – Britt me abraça. – Sempre dá...

As meninas ficam mais um pouco comigo e vão embora quando eu garanto que não farei nenhuma besteira. Fico pensando em tudo que elas falaram sobre Judy e Russel. O passado de Quinn é algo que inferniza seus dias. Eu preciso fazer alguma coisa. Só não sei o que...

Volto para o papel que eu tinha escondido segundos antes de Santana chegar com Britt.

“Minhas palavras estão presas em arame farpado

Minhas ações falam o que não posso dizer

Pois estou a um passo de te afastar...”

Notas finais
Ok... Confiem em mim, certo? Não surtem! Assim que der, eu atualizo. Espero que gostem e comentem e... É isso. Boa noite. http://ask.fm/FlorDeLins_ Até o próximo. ;**