Além da superfície.
65 Lugar comum.
Por Quinn
Amor, já cheguei. Você está ocupada? Me liga quando puder. – Q (17hrs)
Rachel? Você está bem? Atende o celular, por favor. – Q (18:05hrs)
Não acredito que você dormiu essa hora, Rach! Nos falamos amanhã, então. Te amo. – Q (18:30hrs)
Rachel Berry, você pode me explicar porque seu pai acabou de me ligar perguntando onde você estava? Onde se meteu? – Q (19:15hrs)
Pelo amor de Deus, me responde. – Q (19:30hrs)
Olho para o celular, frustrada por não ter conseguido nenhuma resposta ainda. Já tinha ligado para Santana, Brittany, Kurt e até mesmo para Finn, mas ninguém sabia onde ela tinha ido. Depois de conversar com minha irmã, resolvi dar mais um tempo para minha namorada. Talvez ela tenha ido dar uma volta. Eu preciso acreditar nisso. As coisas já estavam estranhas demais desde que ela viu o ensaio de seus concorrentes para NYADA. Primeiro tentei voltar ao estudo, mas tudo que eu conseguia ver eram as formulas de química misturadas em uma folha de rascunho. Apertava os olhos, bebia água e não conseguia entender mais nada. Desisti.
Mais uma olhada no celular. Nada. Então fiz algo que não fazia há tempos, peguei meu violão atrás do guarda roupa. Rachel tinha me ajudado, praticando comigo alguns dias. Mas, eu realmente detesto praticar assim. Prefiro tocar quando me dá vontade, espontaneamente... Sozinha. Não que eu não goste de tocar com ela. Pelo contrário, eu amo, e se sua voz me acompanhar, perfeito. Só que flui mais fácil assim.
Toco algumas músicas conhecidas e deixo meus dedos brincarem pelas cordas, tranquilos. Encosto a cabeça na parede, tentando me distrair. Franzo a testa ao perceber que eu não conheço essa melodia. Eu repito, gostando de como soa. Me ajeito na cama, fazendo mais uma vez e sorrio. Pego o caderno em cima da mesa, junto com o lápis e escrevo as notas que toquei. Cantarolo baixinho o som que elas fazem e as emendo a mais uma invenção. Meu sorriso cresce ao vê-las juntas. Isso é incrível. Continuo fazendo isso e quando me dou conta, a folha já está cheia. Passo a limpo, de forma organizada e sem os borrões.
Respiro fundo e toco tudo que está escrito. Eu não acredito! Eu fiz isso! Eu compus. Depois de anos tentando, eu consegui. Russell ficaria orgulhoso de mim. Meu coração dispara com esse pensamento e eu mordo o lábio, querendo mostrá-la pra alguém. Rachel! Seguro o celular e ligo para minha namorada. Inferno. Esqueci que ela não está atendendo. Minha pequena animação se vai outra vez. Afasto as coisas, guardando o violão no lugar, antes de descer para a cozinha.
Minha mãe vira para a porta, enquanto mexe uma panela no fogão.
– Ela não apareceu ainda?
– Não. – Solto um suspiro cansando, sentando na cadeira. – Eu devo ir atrás dela? Estou ficando preocupada.
– Você já tentou falar com Leroy?
– Não quero incomodar. – Massageio minha testa. – E se algo tiver acontecido? – Sussurro, temerosa.
Minha mãe desliga o fogão, passa as mãos em um pano pendurado e me envolve. Eu descanso minha cabeça em seu peito, aceitando o carinho de bom grado.
– Se algo...
– Shhhhhhh... – Acaricia minhas costas. – Não pense nisso. Ela logo aparecerá com uma explicação, você vai ver.
Nós ficamos assim alguns minutos até ouvirmos a porta da sala se abrir. Mamãe se afasta um pouco e Frannie aparece, desconfiada. Eu arqueio as sobrancelhas. Ela parece a mesma que aprontava quando éramos crianças e tinha medo de encarar nossos pais depois. Solto um pequeno riso, enquanto ela limpa a garganta.
– Quero que conheçam alguém. – Ela diz, brincando com os dedos. – Por favor, se comportem. – Fala mais baixo. Nós nos olhamos e assentimos. – Ok... – Respira fundo, indo pra sala e voltando de mãos dadas com um rapaz. – Chris, essa é minha mãe, Judy e minha irmã, Quinn. – Nos aponta. Ele sorri bonito, estendendo a mão. – Mãe, Quinn, esse é Chris, meu namorado. – Sussurra.
Nós quase pulamos, surpresas. Sabíamos que ela estava saindo com alguém, mas não imaginávamos que ele viria aqui logo. Muito menos hoje. Frannie tinha dito que ia para o cinema e não que iria formalizar tudo. Ele é bonito, educado. Nós o cumprimentamos e eles se sentaram com a gente na mesa.
– É um prazer conhecê-las, de verdade. – Ele entrelaça a mão com a da minha irmã. – Fran fala de vocês o tempo inteiro. Na verdade, é como se já nos conhecêssemos.
– A gente pode dizer o mesmo. – Judy sorri. – Que bom que finalmente nos conhecemos. Se tivessem avisado, teria preparado um jantar especial.
– Ele insistiu pra vir hoje. – Fran explica. – Eu quis marcar, mas é teimoso demais.
– Não é preciso se incomodar, Sra. Fabray.
– Primeiro, me chame Judy. – Ele assente. – Não é incomodo algum. Eu gosto de receber visitas. Ainda mais o namorado de minha filha.
– Então, quais são suas reais intenções com minha irmã? – Cruzo os braços. Frannie me manda um olhar reprovador e ele me olha um pouco assustado. – O que? Alguém tem que perguntar, certo?
– Eu... – Ele passa a mão no cabelo, nervoso. – Eu gosto muito dela e...
– Eu estou brincando. – Rio. – Não precisa fazer isso. – Aperto o ombro dele, que solta um suspiro aliviado.
– Gracinha. – Frannie zomba e eu estiro língua pra ela.
– Na verdade, ele precisa sim. – Mamãe lembra. Eu prendo uma risada, vendo o casal ficar tenso outra vez. – Mas, não agora. – Acena. – O que você faz, Chris?
– Oh, eu sou advogado. – Estufa o peito. – Me formei tem quase quatro anos e trabalho no escritório com um amigo. Nos formamos juntos e estamos crescendo bem profissionalmente.
– Isso é ótimo. – Ele balança a cabeça, concordando. – Gosta do que faz?
– Sério? – Fran ri. – Basta olhar nos olhos dele. – O rapaz cora um pouco.
– Eu, definitivamente, nasci pra isso. – Garante. – Tenho tanta certeza quanto tenho de que posso fazer sua filha a mulher mais feliz do mundo.
– Uou. – Sorrio, vendo a cara boba da minha irmã amolecer.
– Estou gostando de você. – Judy entrecerra os olhos.
– Eu acho bom isso ser verdade. – Alerto. – Se você fizer mal a Fran, você será um homem morto. – Ponho meu melhor olhar de capitã das Cheerios e ele estremece. Sempre funciona.
– Isso não vai acontecer. – Sorri. – Bem que você me disse que ela era braba. – Sussurra, nos fazendo rir.
– Quinn é um amorzinho. Ela só se faz. – Brinca. Eu viro os olhos. Escuto meu celular tocar e tiro do bolso, rapidamente. — Viu só? Uma boba apaixonada.
Solto um grunhido baixo e abro a nova mensagem.
Deixei o celular no carro, me desculpe, só lembrei agora. Eu estou bem, te juro. Não se preocupa. Só quis tomar um ar. Quando eu chegar em casa, te ligo, ok? Eu te amo. – Rachel
Por Rachel
– Onde você está, Rachel? – Ouço sua voz preocupada no outro lado da linha.
– Amor, eu te ligo quando chegar.
– Você pode me responder? – Seu tom muda, agora irritado.
– Estou na praia. – Sussurro, fechando os olhos.
– Praia? Essa hora? Rach, você está bem? Aconteceu alguma coisa? Eu estou indo aí.
– Não! Ei, ei... Eu estou bem. – Garanto. – Eu só precisava respirar um pouco. Já-já eu volto, prometo.
– Você está sozinha? – Merda. Olho para a menina de olhos azuis, brincando com o canudo da água de coco.
– Não. – Ela fica em silêncio, esperando que eu continue. – Estou com Harmony. – A cantora vira, me dando um sorriso.
– Quem é Harmony? – Viro os olhos.
– Em meia hora estarei em casa, nós conversaremos lá, ok? – Silêncio outra vez. – Amor?
– Você quem sabe. – Suspira. – Tchau, Rachel.
– Eu te amo.
– Eu também.
Franzo a testa, afastando o celular do ouvido. Desligou. Eu não deveria ter deixado o aparelho dentro do carro. Tinham várias ligações lá de casa, de Quinn e das meninas. Eu quase sorrio com a ironia de que as pessoas se preocupam por mim agora. A verdade é que depois que eu conheci o lugar onde eles ensaiam, fiquei encantada. É exatamente do jeito que eu queria que fosse o clube do coral. Aquelas pessoas amam isso, como eu amo, levam tudo a sério. Harmony me explicou várias coisas sobre eles, como se conheceram, como tiveram a ideia de montar o estúdio. Nós ficamos conversando algum tempo ali, mas eles tinham hora para fechar, então ela me convidou para uma volta na praia e eu aceitei, sem pestanejar.
Harmony é uma amante dos musicais. Conhece todos decorados e idolatra vários atores. Ela se parece muito com quem um dia eu já fui. Foi quando entramos no assunto de Barbra, que percebemos que teríamos que ter várias horas para conversarmos.
– Seu namorado? – Aponta para o celular.
Eu mordo o lábio, pensando se devo corrigi-la. Eu realmente estou gostando de conversar com ela, não quero assustá-la ou que mais alguém me julgue por algo. Balanço a cabeça, assentindo.
– Namorada. – Digo por fim.
– Uh, Rachel Berry sempre surpreendendo. – Sorri, sem parecer incomodada. Eu solto ar. – Então, eu soube que o New Directions chegou nas nacionais ano passado também. Vocês devem ser bons.
– Nós somos. – Falo, sincera. – Bem, não somos tão bons quanto vocês, mas...
– Tenho certeza que são ótimos. Gostaria de ver uma apresentação. – Eu aceno, sem graça. – Verdade que foram desclassificados por causa de um beijo?
– Eu... – Sinto meu rosto arder e desvio o olhar. – Sim.
– O que foi? – Ri. – O meu Deus, foi você? – Eu assinto, ainda de cabeça baixa. – Uau! Você beijou sua namorada na frente de todo o auditório em NY?
– Não. – Rio, achanado sua empolgação engraçada. – Era meu antigo namorado.
– Ah... – Harmony parece desapontada. Eu levanto uma sobrancelha. – Já ia dizer que você é a pessoa mais corajosa que conheço.
– Oh, eu não sou. – Digo, sarcástica. – Desculpe decepcioná-la.
– Eu duvido. – Abro a boca para contrariá-la, mas ela continua. – Como são os alunos do McKinley?
– Idiotas. – Sussurro. A de olhos azuis solta uma gargalhada sonora.
– Eu imaginei. – Faz uma careta. – Pensei que fosse um problema só de onde eu estudo, mas vejo que é o mal está em Lima.
– Sim. Não vejo a hora de ir para bem longe.
– Em NY, de preferência. – Completa. Eu assinto. – Posso te perguntar algo?
– Claro. – Dou os ombros.
Harmony segura meu braço e levanta um pouco a manga da minha blusa, revelando a palavra e várias outras cicatrizes. Fico tensa com seus olhos analisando meu braço. Arrisco olhar seu rosto. Sua expressão não é de nojo, surpresa ou pena. Pelo contrário, ela parece... Compreensiva.
– Foi por causa deles? – Volta a me encarar.
– Em parte, sim. – Admito, cobrindo.
– Eu sinto muito. – Suspira.
– Eu estou melhorando.
– Isso é bom. – Sorri. – Eu era viciada em calmantes. – Solta. – Não aguentava mais as piadas estúpidas dos que se dizem populares, me rebaixando, me fazendo mal. – Ela olha para as mãos. – Isso dói muito.
– Eu sei.
– Então, eu resolvi me dopar. Eles falavam, falavam, falavam e eu simplesmente não ouvia. – Sorri. – Não me atingia. Eu parecia ir para outro mundo, sabe?
– É exatamente essa a sensação de me cortar. Alivio. Eles não me atingiam tanto quanto eu.
– Sim. Mas, começou a me fazer muito mal. E... – Balança a cabeça. – Enfim, eu sabia que teria que parar uma hora. Depois que eu montei o grupo no estúdio, consegui me recuperar. – Eu sorrio por ela. – Ainda tenho algumas recaídas, mas nada como antes.
– Entendo. – Engulo seco. – Nossa. Eu nunca imaginaria isso. Digo, sua voz é perfeita e...
– E eu sou uma pessoa insegura? Sim. Pra isso, eu me esforço todos os dias o maior tempo possível para melhorar. – Ela bebe o resto da água. – Eu também não imaginaria isso de você, se não tivesse visto suas cicatrizes de relance. Ainda não te ouvi cantar, mas você é linda. Era pra estar com eles.
– O que... Eu... – Rio, constrangida. – Claro que não.
– Eu sei o que é deixar de acreditar em si mesma, por isso não vou tentar te convencer que falo a verdade. – Brinca, empurrando meu ombro. – Na próxima você canta, ok?
– Ok. – Olho para o relógio. – Oh, Deus, eu preciso ir.
– Já está tarde assim?
– Demais. – Levanto. – Foi muito bom conversar com você.
– Digo o mesmo, Rachel. – Sorri, simpática. – Nos vemos outro dia, então?
– Claro. – Nos abraçamos. – Você precisa de carona?
– Não, eu moro aqui perto. Boa noite.
– Boa noite, Harmony.
Eu vou para o meu carro e respiro fundo, sabendo que terei que enfrentar três feras. Mas, eu estou bem. É isso que importa, certo? Me sinto melhor. Dirijo mais rápido para chegar logo. Quando dobro na minha rua, vejo o carro de Quinn estacionado na frente da minha casa e meu coração acelera. Lógico que ela viria para cá.
Eu ponho o meu na garagem e abro a porta, desconfiada. Leroy cruza os braços e Hiram aparece por trás, com uma expressão furiosa. Olho para os lados procurando minha namorada, mas não a encontro. Os dois me avisam que ela subiu para que pudessem dar os sermões que devem. E eles dão. Passo alguns longos minutos ouvindo meus pais reclamarem da minha demora, me encherem de perguntas e tentando convencê-los de que eu estou bem. Depois que eles parecem acreditar, me liberam e eu corro em disparada para meu quarto.
Vejo a loira deitada na minha cama, olhando para uma folha de caderno. Eu me aproximo, chamando sua atenção. Seguro a folha, vendo as notas organizadas e franzo a testa, sem reconhecer a música.
– Fui eu que fiz. – Responde a minha pergunta silenciosa. Eu arregalo os olhos, me sentando.
– Desde quando você compõe? – Tento acompanha-la mentalmente, cantarolando.
– Desde hoje, eu acho. – Dá os ombros.
– Isso é incrível, Q. – Sorrio, beijando sua boca rapidamente, antes de voltar para o papel. – Você estava tocando?
– Unhum. – A encaro. Ela deveria estar feliz por isso... – O que você estava fazendo?
– Eu voltei no estúdio que fui com Kurt.
– Por que?
– Porque eu queria enfrentar outra vez. Eu sai da lá como uma criança assustada.
– Por que não me avisou?
– Porque eu decidi ir de repente. – Ela assente. – E foi ótimo. Eles são ótimos. Você precisa ir comigo um dia.
– Harmony é a menina da voz bonita?
– Bonita? A voz dela é perfeita. Eu nunca vi nada igual.
– Hm... – Quinn dobra o papel. – E o que estavam fazendo na praia?
– Fomos dar uma volta. Nós temos muitos assuntos em comum. Você não vai acreditar! Perdemos a hora conversando e... – Me interrompo. – O que foi?
– Nada. – Balança a cabeça, séria. – Continua.
– Não. Você está chateada comigo? Foi porque eu não te atendi? Eu deixei o celular no carro...
– Como você perdeu ontem e não atendeu o Kurt?
– O que? Não! Claro que não. – Seguro seu rosto. – Eu não estava evitando você, Quinn. Eu juro que esqueci o celular dentro do carro.
– Já sei, porque estava distraída demais.
– Você está com ciúme? É isso? – Rio, incrédula. – Amor...
– Você sumiu, Rachel! – Levanta, se afastando. – Eu fiquei preocupada por você. Se Frannie não tivesse me segurado, eu teria ido atrás...
– Não precisava se preocupar...
– Agora? – Ri. – Sério que eu não preciso me preocupar? – Eu fico em silêncio. – Você entra em crise em um dia e no outro finge que nada aconteceu, sai, passeia, faz novos amigos... Ou melhor, nova amiga. Não avisa.
– Eu errei, ok? – Passo a mão na testa. – Eu sinto muito. Eu não queria preocupar ninguém. Só tinha esquecido como era estar em um lugar onde ninguém me julga ou sabe quem eu sou. Aliás, eu nunca estive em um lugar assim. Lá as pessoas me entendem.
Quinn se senta na cadeira, apoiando os cotovelos na minha mesa e fecha os olhos. Eu posso ver que ela está tentando se controlar. Eu abraço-a por trás, fazendo com que ela encoste em mim. A loira deita a cabeça no meu peito.
– Perdão. – Sussurra. – Eu só estava preocupada. Aí você diz que estava com uma menina e... – Suspira. – Fiquei com raiva. Me desculpe.
– Tudo bem. – Me afasto para olhá-la. – Você me perdoa por eu não ter te ligado?
Ela assente, prendendo nossos lábios. Eu me deixo levar, sentindo Quinn comandar o beijo. Ela segura meu cabelo com força, me trazendo para perto. Eu me sento em seu colo, sem quebrarmos o contato. Seu toque está diferente e eu percebo isso.
– Meu amor... – Encosto nossas testas.
– Você é minha, me ouviu? Só minha. – Sua voz sai grave.
– Eu sei, você sabe, meus pais sabem, todo mundo sabe.
– Harmony sabe? – Eu solto uma gargalhada e ela me aperta mais forte.
– Sabe, Q. – Viro os olhos. – Todo mundo sabe que Rachel Berry pertence a Quinn Fabray...
Fale com o autor