Além da superfície.
35 Imprevisível.
Notas iniciais
Por Rachel
– Rachel Berry. – A recepcionista chama.
Aperto os dedos na cadeira, nervosa. Talvez eu tenha pensando nisso nos últimos três dias sem parar. Quinn e Leroy tentaram ao máximo me deixar confortável, mas ainda assim, meu coração disparava ao me imaginar nessa situação. Tive a oportunidade de falar com Frannie, ela me deixou a vontade e passou toda a confiança que pôde. Respiro fundo, olhando para as pessoas da sala de espera. Toda essa gente tem algum tipo de problema? Acho que exageraram. Eu não precisava estar aqui. Alguém que precisa mais do que eu poderia entrar agora.
Suspiro pesado, sentindo uma mão em minhas costas. Encaro o rosto de meu pai, implorando silenciosamente para fugirmos daqui. Ele dá um sorriso compreensivo e balança a cabeça.
– É a sua vez. – Sussurra.
Engulo seco, sabendo que eu não posso mais adiar. Meus pés quase se arrastam até a porta. Frannie abre, sorrindo e acena. Eu entro, timidamente.
– Pode sentar, Rachel. – Diz em um tom educado. Eu obedeço. – Tudo bem?
– Acho que sim. – Murmuro, sem olha-la.
– Eu já te falei antes, mas eu vou te lembrar, ok? No momento que você passou por aquela porta, se tornou minha paciente. Nada do que você falar aqui vai sair. – Eu assinto. – Até porque eu esqueço quando saio. – Rio, sem graça. – Esqueça quem sou eu. Quero que você me veja como sua psicóloga, nada mais. Pode fazer isso? – Assinto outra vez. Ela sorri de lado. – Só vou precisar da sua voz.
– Oh, sinto muito. – Sussurro. – Claro.
– Você sabe por que está aqui?
– Sim.
– Ok... – Ela pega um bloco de papel, eu franzo a testa. – Você já escreveu algum diário?
– Há algum tempo.
– Não escreve mais?
– Não. – Encolho os ombros. – Prefiro escrever outras coisas.
– Ah, é? Como o que?
– Não sei. Palavras aleatórias, textos... Músicas. – Suspiro.
– Como se sente escrevendo?
– Estranha. Aliviada.
– É um bom jeito de desabafar. – Eu balanço a cabeça, afirmando. – Sobre o que você escreve?
– Sobre... Tudo. – Faço uma careta.
– Você lembra o primeiro dia que escreveu assim? – Mordo o lábio, pensando. Ela espera.
– Lembro. – Digo, abaixando a cabeça. – Foi quando eu levei minha primeira raspadinha. – Sorrio, amarga.
– O que você escreveu?
– Escrevi as palavras que eu ouvi. Perdedora. Fracassada. – Inconscientemente, puxo a manga da minha blusa para cobrir ainda mais minha cicatriz escrita.
– O que você sentiu nesse dia?
– Medo. – Sussurro. – Eu queria... – Me interrompo, olhando para o chão.
– O que você queria? – Incentiva. Eu nego. – Se você fosse escrever hoje, o que escreveria?
– Nada. – A encaro. – Me sinto vazia. – Explico. – Como se não tivesse nada mais o que falar. Ou escrever. Ou... Cantar.
– Você se sente assim desde aquele dia?
– Eu soube que eu estava sozinha ali. – Corrijo-a. – Quando ninguém veio me ajudar e o colégio inteiro explodia de risada. Eu sempre soube.
– O que mudou de lá para cá?
– Mudou que eu tentava parecer forte. – Dou os ombros. – Me escondia atrás de sonhos idiotas. Queria ter algo para lutar. Queria a Broadway. Queria um amor, amigos, meus pais. Queria... Minha mãe. Tudo parecia ser um grande objetivo para mim.
– É compreensível, todos nós queremos isso. Bom, menos a Broadway. – Ri. – O que mudou? – Pergunta outra vez.
– Não adianta querer amigos, se todos me desprezam. – Digo, seca. – Não adianta querer um amor, se ninguém me olha, nem mesmo com carinho. – Baixo os olhos. – Não adianta brigar por solos para impressionar meus pais se eles não notam sequer minha presença. Nem querer uma mãe que... – Enxugo uma lágrima teimosa. – Eu pensei que todos tinham me virados as costas, mas... Eles nunca estiveram comigo.
– Por que não falou como se sentia?
– Eu falei. Eu cantei. Eu berrei. Eu... – Respiro fundo. – Cansei. Eu só queria... Sumir.
– Você consegue descrever o momento em que chegou no seu limite?
– O primeiro dia depois das nacionais. – Suspiro. – Todos estavam furiosos, eu havia recebido apelidos novos, cinco raspadinhas, ninguém me olhava direito. Eu fui atrás de Finn, eu queria um abraço, queria... – Engulo um soluço. – Mas, ele me afastou. Disse que se alguém nos visse juntos a vida dele seria um inferno. Então, jogou uma raspadinha em mim, na frente de todos.
– Ninguém estava contra ele?
– Claro que não. A culpa foi minha, somente minha.
– Você ainda acha isso? – Eu não respondo. – O que fez depois que ele falou essas coisas?
– Fui para o banheiro e me cortei. – Solto, normalmente.
– Por que você fez isso, Rachel? Já tinha feito antes, visto em algum lugar?
– Me parecia o certo. E era. – Ela levanta uma sobrancelha. – Toda humilhação, toda dor, tudo corria junta com o sangue. O oxigênio voltou para os meus pulmões.
– Como você fez isso?
– Com uma tesoura. – Inclino a cabeça. – Quando cheguei em casa, busquei uma lamina e vi que o efeito era melhor.
– Fez duas vezes no mesmo dia?
– Sim. – Encaro meus braços cobertos. – Todos os dias, não menos que isso. Então, qualquer um podia falar, ignorar... Eu estava anestesiada.
– Alguma vez quis ir mais longe que o corte?
– Várias. – Respondo, sem pensar. Fecho os olhos com força. – Só... Quis.
– Você continua fazendo? – Silêncio. – Rachel, eu preciso que você seja sincera comigo. – Abro os olhos, encarando-a.
– Não. – Sussurro. Ela assente, parecendo aliviada.
– Vamos falar disso depois, ok? – Eu concordo. – Fomos muito rápido? Está tudo bem?
– Sim. – Nós rimos. – Estou bem. Está... Sendo mais fácil do que eu pensei.
– Que bom, Rachel. – Sorri sincera. – Quero que você me fale sobre sua relação com seus pais, pode ser?
– Meus pais costumavam serem os melhores. – Falo, nostálgica. – Nós víamos muitos filmes, decorávamos musicais. Hiram me ensinou a tocar piano. Leroy sempre me incentivou a cantar. Quando eu comecei a levar a sério, eles me apoiaram. Sorriam e me elogiavam a cada conquista. Diziam que estavam orgulhosos de mim. – Pauso. – Não sei quando mudou. – Franzo a testa. – Só consigo lembrar que eu chegava em casa querendo mostrar coisas novas e eles pediam para eu esperar, ou não estavam. Um dia eu simplesmente parei de tentar. Eu tinha perdido a atenção deles.
– Isso aconteceu antes das nacionais?
– Sim, bem antes. – Suspiro. – Tanto que eu foquei, dei meu máximo, me joguei no Glee clube. Era a minha forma de proteção, minha única chance. Talvez se eu chegasse em casa falando que tinha ganho, eles voltariam a me olhar. Mas... Eu fiz a besteira de beijar o Finn e coloquei tudo a perder. De novo.
– Você acha que te prejudicou essa forma que você levava o coral?
– Lógico. – Viro os olhos. – Mas, não me importava. – Encolho os ombros. – Eles sempre me chamavam de egoísta, por que me entenderiam? Além do mais...
– Além do mais...
– Eu... – Engulo seco. – Já tinha perdido outra pessoa importante e... – Balanço a cabeça. – A única que ainda se importava comigo era o Finn, então...
– De quem estamos falando? – Olho para a loira, pensando se eu devo ou não falar nisso. Ela é ainda é irmã de Quinn.
– De Shelby. – Sussurro.
– Sua mãe. — Eu assinto. — Como foi esse encontro de vocês?
– Nos encontramos, nos falamos, cantamos juntas, levei um fora e... – Mordo o lábio.
– Pode continuar. – Me encara, séria. Ela preferiu uma menina loira, de olhos verdes, bonita. Como você. Minhas mãos começam a tremer.
– Não consigo. – Murmuro. – Eu sinto muito, eu... Eu não quero falar disso, Fran. – Fecho os olhos. – Frannie.
– Rachel, você me chama do jeito que preferir. – Levanta de sua cadeira e senta ao meu lado. – Não vou te forçar a falar o que não queira. Estou te perguntando porque eu preciso te entender bem, ok? Esqueça quem eu sou lá fora.
– Não consigo. – Repito. – Hoje não. – Ela sorri de lado.
– Não tem problema. – Segura minha mão. – Você quer parar por hoje? Respirar?
– Por favor. – Peço, agoniada.
– Calma. – A loira pega um copo com água para mim. – Tome. Não fique nervosa, está tudo bem.
– Sinto muito. Eu... – Esfrego os olhos. – Esse assunto me sufoca.
– Falaremos quando você estiver pronta. – Eu assinto, envergonhada. – Você foi muito bem. Na verdade, melhor do que eu esperava.
– Isso é bom... Eu acho. – Sorrio.
– Espero que você continue vindo.
– Eu virei. – Garanto.
Por Quinn
Ando de um lado para outro sob o olhar atento de minha mãe. Já faz mais de três horas da consulta de Rachel e ela não atende minhas chamadas, nem aparece. Santana e Brittany também não a encontram. O nervosismo começa a bater forte. Será que ela não gostou? Sento no sofá, esfregando o rosto. Talvez não tenha sido uma boa ideia. A porta da sala se abre, me fazendo saltar. Frannie me olha, assustada.
– E então? Ela foi? Pelo amor de Deus, me diga que está tudo bem.
– Quinn, acalme-se. – Pede, me empurrando para dentro de casa.
– FALA, FRANNIE.
– Ela foi e está tudo bem. – Avisa. – Você está me assustando.
– E por que ela não me atende? – Choramingo.
– Não sei, Q. Deve estar ocupada. – Tenta me acalmar. – Pare um pouco.
– Eu vou na casa dela.
– Não vai. – Me senta. – Fique ai e espere ela te ligar. Deus, Quinn, você ainda está de uniforme. Vai tomar um banho.
– Estou preocupada, ok?
– Está fazendo tempestade em copo d’agua. – Minha mãe senta ao meu lado. – Rachel está com Leroy agora, Quinn.
– Eu sei. – Suspiro. – Sinto muito. Eu vou tomar um banho mesmo.
Elas assentem, deixando que eu suba. Está tudo bem, Quinn. Apenas respire. Tomo um banho demorado, tentando tirar o nervosismo de mim. Enquanto enxugo o cabelo, vejo meu celular vibrar em cima da minha cama. Eu corro para ele e meu coração se aquece ao ver o nome da morena na tela.
– Hey... – Atendo rápido.
– Hey, Q. – Diz calma. – Leroy vai precisar sair hoje. Ele meio que me explicou os motivos e... Será que você poderia vim?
– Claro! Eu já estou indo.
– Não precisa correr. – Ri baixo. – Ele só irá mais tarde.
– Oh, certo. Bom, até daqui a pouco, então.
Me apresso, colocando uma roupa e jogando outras na bolsa. Como alguma coisa, me despeço de mamãe e Frannie voando e saio. Chego à casa da morena. Leroy está saindo. Bem a tempo. Suspiro, estacionando. O homem me abraça, agradecendo por ficar com Rachel. Sorrio sincera. É bom saber que ele está mesmo preocupado com a filha. A pequena sorri da porta e eu quase perco a noção do tempo, querendo me jogar nos seus braços. Assim que escuto a partida do carro de Leroy, vou a sua direção. Ela fecha a porta, mordendo os lábios. Balanço a cabeça, puxando-a para mim.
Rachel ri, se aproximando. Eu acabo com a distância, beijando-a. Dane-se. Nós já fizemos isso tantas vezes, que eu já perdi todo o meu medo de tentar. Eu quero e preciso desse contato. Sua língua brinca com a minha, travessa. Seguro sua nuca, mantendo-a perto. Quando o folego acaba, encostamos nossas testas, respirando fundo.
– Estava preocupada com você. – Admito. Ela sorri.
– Desculpe. – Se afasta. – Eu saí com Leroy depois da consulta. – Suspira. – Estava precisando tomar um ar.
– Por quê? Aconteceu alguma coisa? – Rachel segura minha mão, me guiando até seu quarto. Coloco minha bolsa em cima de sua mesa.
– Nada demais. Só uma de minhas crises idiotas. – Vira os olhos, deitando.
– Rachel. – Repreendo.
– Estou brincando, Quinn. – Bufa. – Está tudo bem, vê? – Se aponta.
– Estou vendo. – Levanto uma sobrancelha, maliciosa. – Tudo ótimo, por sinal.
– Idiota. – Joga um travesseiro em mim. – Vamos ver um filme?
– Depende. – Deito ao seu lado. – Algum musical chato?
– Não são chatos. – Faz um leve beicinho.
– Você já sabe todas as falas de todos os musicais possíveis, Rachel. – Provoco. – Não gosto de coisas previsíveis. Se for pra me surpreender, que surpreenda você também.
– Uh, Fabray. Sugira você, então.
– Hmmmm... – Viro por cima dela. Ela me olha, assustada. – Não consigo pensar em nenhum agora, sinto muito.
– Por que não? – Pergunta, com dificuldade, encarando minha boca. Eu sorrio.
– Porque tem uma menina linda perto de mim. – Errado. Ela me empurra, levantando. Eu bufo. – Funny Girl não vale. – Aviso.
A morena ri, ligando o dvd. Ela coloca o filme e deita novamente. Franzo a testa ao ver o nome. O que diabos é isso? Prendo os lábios para não soltar uma gargalhada quando os homens aparecem armados e atirando para todos os lados. Rachel se encolhe, escondendo um sorriso.
– Isso foi para me surpreender? – Arqueio as sobrancelhas. Ela ri.
– Você é muito chata. – Zomba. – Quer mandar em meus filmes...
– Céus! Onde você arrumou isso? – Aponto para a tv, onde parece estar acontecendo uma guerra. – Nada contra esse gênero, mas... Isso está muito mal feito.
– Chata. – Repete, virando os olhos. – Chata, chata, chata.
– Ah, eu sou chata ago...
Rachel me interrompe, pressionando a boca contra a minha. Suspiro, beijando-a outra vez. Ela aprofunda o beijo, se alinhando em mim. Seguro sua cintura, sentindo seu carinho em meu cabelo. O barulho dos tiros e gritos do filme foram abafados instantaneamente. Como sempre, só existimos nós duas nesses minutos. Ela deixa pequenas mordidas, parando.
– É assim que você quer ser surpreendida? – Pergunta rouca, me fazendo estremecer. Traço a linha de seu rosto, admirando-a.
– Sim. – Sorrio. – Pode me surpreender sempre que quiser.
– Agora eu posso...
– Vai, Rachel. – Rio. – Coloca logo seu musical.
Ela salta, depois de me dá um selinho e tira o filme horroroso que tinha colocado. Assim que coloca o outro, ela se abraça em mim, deitando a cabeça em peito. Eu sorrio, brincando com seu cabelo. O filme tem uma história bonita, devo confessar. Mas, nada é mais emocionante do que sentir o coração da morena bater forte nas partes das músicas. Rachel cantarolou todas elas, baixinho.
– Santana irá para NY esse final de semana, com Brittany. – Digo, quando os créditos sobem. A pequena fica tensa em meus braços. – O que você acha de irmos juntas?
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