Além da superfície.
61 Fé cega e pé atrás.
Notas iniciais
Quinn foi literalmente raptada ao chegar ao colégio. Ultima semana de treino das Cheerios. Ela havia avisado a Rachel que isso poderia acontecer. Sue sempre tem ideias geniais nos últimos dias e resolve encaixar na coreografia de ultima hora. Não que isso fosse má ideia, porque os jurados amam essas mudanças, mas é desgastante aprender passos tão complexos de repente, até mesmo para a capitã da equipe. Quinn seguiu a treinadora, não sem antes escutar todas as recomendações de cuidado e, principalmente, alertas para ela manter distância da menina ruiva que tem tirado a paciência de sua namorada.
A loira sorriu orgulhosa, ouvindo tudo e deixou um grande beijo em Rachel, sem se importar com os olhares no corredor. Sue puxou seu braço, irritada e as duas saíram em direção à sala da treinadora. Os olhares no corredor... Rachel notou isso. Óbvio que ela notaria. Se tem alguém que conhece bem todos esses olhares, é ela. E hoje eles estão excepcionalmente diferentes e perfurantes. David havia voltado. Esse é o tema que se escuta desde a calçada do colégio. Mas, as meninas ainda não tinham encontrado com ele. E o que isso tem a ver com elas, Rachel preferiu não descobrir agora.
A morena apressa o passo e tranca a porta do auditório atrás de si, respirando fundo. Glee acaba de voltar de uma vitória, por eles não podem dar um descanso? Rachel abre os olhos quando ouve um pequeno barulho e salta de susto, mas suspira aliviada ao ver uma latina sentada perto do piano, com as costas escoradas no banco. A pequena se aproxima devagar e descobre a culpa do barulho: Santana está brincando com uma caixa de cigarro, passando-a de uma mão para outra, sem olhá-la, às vezes derrubando-a no chão.
Por Rachel
Limpo a garganta, timidamente e Santana inclina a cabeça para o lado, parando sua brincadeira por alguns segundos. Logo ela começa a repetir o gesto, como se ainda estivesse sozinha. Sinto um calafrio subir pela minha coluna. Sento na sua frente, tentando arrumar alguma palavra, mas não me vem nada. Será melhor que eu chame Quinn ou Brittany? Onde está Brittany? Eu abro a boca para perguntar.
– Eu não fumei. – Ela me interrompe.
Olho para a caixa em suas mãos e começo a ficar agoniada com seus movimentos, então a tomo, atrapalhando-a. Está fechada. Santana levanta os olhos e me encara pela primeira vez.
– Eu falei. – Dá os ombros.
– Eu acreditei. – Digo sincera. – O que aconteceu, San?
– Brittany está em dúvida quanto a universidade.
– Mas, por quê? Ela te ama e ama a dança, por que ela teria dúvida? – Pergunto incrédula.
– Porque ela nunca teve a chance de ver todas as possibilidades. Ela está se sentindo mais confiante agora. – Suspira. – Eu a privei disso.
– Você só pensou no melhor pra ela.
– No caminho mais fácil... Para nós. – Completa. – Talvez eu seja mesmo a egoísta que todos dizem que eu sou.
Flash Back — Santana
– Ele me mostrou algumas mais fáceis, só isso, San. – Eu coloquei as mãos no rosto, sem acreditar. – Não precisa ficar assim.
– Você estava incomodada com NY?
– Lógico que não, Santana. Eu...
– Desconfortável? Alguma coisa estava te deixando mal? Por favor, eu preciso saber.
– Eu só estava me sentindo pressionada a passar lá, ok? Você e seus mil planos, se preocupando com meus estudos e pedindo ajuda até para Artie. Eu estava assustada!
– Eu sou sua namorada, Brittany! Óbvio que eu me preocupo por você. Óbvio que eu quero que moremos perto. Eu quero... Casar com você, Britt. Não somos mais crianças.
– Santana, você está indo muito longe. – Sussurrou. Eu senti meu coração apertar.
– Estou, não é? – Ri fraco. – Eu estou.
– San... – Ela passou um braço na minha cintura, me puxando para perto. – Eu só preciso de um pouco mais de calma, ok? – Encostou a testa na minha. – Eu te amo.
– Eu também te amo, B. – Fechei os olhos. – Só espero que isso seja o suficiente para nós duas.
Fim do Flash Back – Santana
A latina apoia o cotovelo nas pernas e esconde o rosto com o cabelo, mas eu sei que ela está fragilizada. Eu senti isso enquanto ela me contava sua conversa na noite anterior com sua namorada.
– Você não é egoísta. – Garanto. Ela solta um riso irônico. – Eu te conheço, Lopez. Agora eu te conheço. E sei que de egoísta você não tem nada.
– Não importa. – Esfrega o rosto. – Não quero falar disso, por favor. – Eu suspiro, assentindo. – Seu pai voltou?
– Oh, sim. – Deito em seu colo. – Dá pra acreditar? – Resmungo.
– Dá, ele é seu pai, afinal. – Eu viro os olhos.
– Não é como se tudo voltasse ao normal só porque ele resolveu voltar a morar com a gente, entende? – Santana balança a cabeça, puxando alguns fios de meu cabelo. – Eu gostaria que as coisas fossem mais fáceis.
– Eu que o diga. – Diz baixo. – Dê um tempo a ele, Rachel. Ele pode mostrar que realmente quer a mudar.
– Eu prefiro não confiar demais. – Mordo o lábio. – É a minha lei.
– Talvez seja melhor. – Eu concordo. – Pessoas podem ser surpreendentes, Rach.
– Está dizendo isso pra mim? – Levanto uma sobrancelha.
– Eu sei. – Nós rimos. – Só não queria que você perdesse a fé em seu pai. É muito triste quando essas coisas acontecem.
– Como com Quinn. – Sussurro.
– Sim, como com Quinn. – Faz uma pausa. – Mas, Russel nunca mereceu aquela família. Elas sempre foram demais para ele. Seu pai te ama. Ele tem um jeito errado e estranho de demonstrar isso, mas ele te ama.
– Pode ser que sim.
Nós ficamos em silêncio. Ficar em silêncio com Santana é algo que eu, particularmente, admiro. Ela não gosta de falar e eu não sou a melhor pessoa pra se contar nessas horas, então nós simplesmente nos entendemos assim.
– Ganhamos as regionais. – Digo com um sorriso fraco, lembrando-me de ontem.
– Sim, eu estava lá. – Zomba.
– Oh, meu Deus! Santana. – Levanto. – Nós ganhamos as regionais. – Ela franze a testa. – Isso é ótimo! Agora nós temos que ensaiar ainda mais pesado para que possamos entrar em NYADA.
– Esse é o plano. – Pisca um olho.
– Eles já deveriam ter mandado a carta nos aprovando na primeira etapa, certo? Você não acha que estão demorando muito? – Começo a ficar nervosa.
– Está cedo ainda, Rachel. – Vira os olhos. – Não se preocupe. Lima não fica exatamente ao lado de NY.
– Você está certa. – Respiro fundo.
– Estou sempre certa. – Fica em pé. – Vamos para a aula. Já perdemos o primeiro tempo, se perdemos mais um, Quinn nos enterra vivas.
– Sempre certa. – Repito.
Por Quinn
Abro a boca, vendo todos os desenhos feitos por Sue, digerindo tudo.
– Eu concordo, ficaria incrível. – Digo. Sue sorri, cruzando os braços. – Mas, treinadora, eu não acho que iremos conseguir fazer isso em...
– Claro que conseguirão, Fabray. Eu treino vocês, vocês podem tudo. – Levanta da cadeira e se senta na mesa, na minha frente. – Só precisamos de um pouco mais de treino.
– Precisamos de muito mais treino. – Corrijo-a. – A maioria de nós está no ultimo ano, treinadora. Não podemos ficar nos prendendo a isso. Temos muito que estudar e...
– São só alguns dias, Q. – Me interrompe outra vez e eu preciso respirar fundo. – Além do mais, isso ajudará com as universidades.
– Se ganharmos...
– E você tem alguma dúvida quanto a isso? Olhe esses saltos. – Aponta para o papel de manobras de novo. – Ganharemos com folga.
– São complicados...
– Quinn, você engravidou. – Eu fico tensa com o assunto repentino. – Engordou vários quilos. Você foi expulsa de casa. E eu não te queria de volta. – Engulo seco. – Mas, você me mostrou que valia a pena te ter na equipe. Você é um exemplo de superação. Isso aqui... – Joga o bloco de papel longe. – Não é absolutamente nada pra você.
Eu assinto, sem saber o que dizer. Claro que Sue usou a minha história como motivação, mas isso realmente não funcionou bem. Eu já estou acostumada com as pessoas me tratando como exemplo de força ou de superação e exigindo mais de mim. Eu mesma faço, diversas vezes. Segundo Frannie, isso desencadeou meus ataques frequentes de pânico. Seguro o braço da cadeira firmemente.
– Preciso de uma resposta, capitã.
– Mudará em algo?
– Se for negativa, não. – Eu suspiro. – Vamos lá, Quinn! Podemos fazer.
– Tudo bem.
– Ótimo. – Me abraça. – Conversaremos mais sobre isso mais tarde. Você está liberada. Fique com isso.
Sue me entrega o papel com todos os saltos desenhados. Eu saio da sala me arrastando, cansada só em pensar em todo o trabalho que teremos com isso. Peço desculpa ao professor de química e me dirijo para o final da sala, sentando-me ao lado de Rachel. Minha namorada me olha, curiosa e entrelaça nossas mãos. Solto um suspiro longo e fixo minha atenção no bloco que a treinadora me deu. Sempre mudamos a coreografia antes, mas isso... Isso é muito. Nunca tivemos saltos tão complicados.
Nossas adversárias são impressionantes, eu devo admitir. Poderemos estragar tudo ao invés de nos salvarmos. É arriscado demais. Mas, Sue nunca vai entender.
– O que é isso? – Rachel sussurra.
– Nossa nova coreografia. – Respondo, conseguindo o olhar de Santana. Eu entrego o papel para ela. – O que acha?
– PUTA MERDA.
– Precisa de alguma coisa, Lopez? – O professor nos interrompe.
– Não. Só... – Balança a cabeça. – Desculpe. – O homem faz uma careta e volta para o quadro. – Q, isso é loucura.
– Eu sei. Eu sei.
– Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
– É muito difícil, Rach. – Explico. – Está além dos nossos limites.
– Não aceitem.
– Não temos opção. Eu tentei convencer Sue, mas ela já bateu o martelo. – Resmungo, vencida. – Não quero me estressar com isso agora.
– Estava com saudade de você. – Minha namorada diz baixinho, fazendo Santana virar os olhos e voltar pra frente. Eu sorrio.
– Foram só algumas horas, Rach. – Brinco.
– Mesmo assim. – Faz bico.
– Pare com isso. – Ela levanta as sobrancelhas. Escuto alguns sussurros e olho para o lado, flagrando olhares em nós. – O que querem? – Cuspo. As meninas soltam uma risadinha e viram.
– Estou aguentando isso desde que botei os pés aqui hoje. – Suspira.
– O que houve?
– Não sei. – Encolhe os ombros. – Parece que foi combinado Hiram dizer aquilo mais cedo e agora acontecer isso.
– Hey, calma. Não deve ser nada demais. Eu resolvo isso, ok? – Abraço-a.
O professor nos bronqueia outra vez e nós nos calamos, tentando prestar atenção na aula. Sem muito sucesso, pelo menos pra mim. Rachel estava fazendo todas as anotações, concentrada. Olho para ela, com um sorriso bobo. A morena põe a tampa da caneta entre os dentes, franzindo um pouco a testa para a explicação. Quando ela nota que eu estou a encarando, seu rosto leva um tom avermelhado, que ela tenta esconder atrás do cabelo.
Balanço a cabeça, deixando-a estudar. Dessa vez meus olhos caem na dançarina com o corpo encostado na parede. Brittany gira um lápis na mesa. Sua atenção está na namorada afastada dela. Eu tenho certeza que Santana sabe que Britt está olhando para ela, porque a latina está imóvel na cadeira, como se a qualquer minuto, ela pudesse perder a pose e cair nos olhos azuis da menina quieta do outro lado da sala.
Quando o sinal soa, Brittany é rápida. A dançarina corre até Santana e segura seu punho. Todos os outros saem correndo da sala, como se tivessem se livrando de um incêndio. Vejo a latina derreter e abraçar a namorada. Ela esconde o rosto na curva do pescoço da loira.
– Que amorzinhas. – Rachel cantarola.
– Por que vocês não esperam um lugar mais reservado pra isso? – Ouvimos alguém sumir atrás de nós. Santana vira.
– O que foi isso? – Pergunta, irritada.
– É o que nós iremos saber. – Seguro a mão de Rachel, puxando-a para o corredor. Todos nos olham. – Ok, podem desembuchar.
– Ora, ora... – Eu fecho os olhos. – Se não é o mais novo casal do momento.
– Karofsky. – Sussurro. – Vejo que está melhor. – Viro.
– Estou perfeito. – Estufa o peito.
– O que você fez? – Rachel pede em volume baixo.
– Não fiz nada, hobbit. Por que eu teria feito algo? – Coloca a mão no peito. – Oh, sim! Por que você me acusou de algo, quando na verdade, você era pra ser o alvo? Eu só esclareci as coisas.
– Imbecil, Rachel não te acusou de nada. – Aponto.
– Montaram todo um circo pra tentarem passar despercebidas. Não funcionou, sinto muito.
– Eu não tenho medo. – Minha namorada diz firme. – Eu pensei que você também não teria, mas vejo que me enganei. Você é mais covarde do que eu imaginava, David.
– Falando em covardia, ManHands? – Se aproxima. Eu me coloco na frente dela. – Eu já disse: Do inferno, eu não posso sair.
– Você é louco. – Santana se posiciona ao meu lado, protetoramente.
– Uau, vocês surgem de repente. Será contagioso? – Ironiza.
– Testa, Karofsky. – A latina o encara. – Testa.
– Melhor não.
– Pensei que você fosse aproveitar o inferno. – Levanto uma sobrancelha. Ele bufa.
– Quero que lembrem, senhoritas: Quem é rei, nunca perde a majestade. Eu mando nessa porra de colégio. – Soca um armário. Rachel pula atrás de mim.
– Você quer mesmo que eu te lembre quem manda em quem? – Seguro a gola de sua camisa. – Você acha que eu vou ter algum tipo de pena de você?
– Quinn, para. – Minha namorada choraminga.
– Porque eu não tenho pena. Você é mesmo um fraco.
– Quinn!
– Mas, você não é fraco pelo que passou. Não! – Rio, balançando a cabeça e o imprensando no armário. – Você é fraco por voltar exatamente igual, depois de tudo. Você é fraco por não aprender com seus próprios erros. CRESÇA, KAROSKY.
– Quem é você pra me dizer qualquer coisa? – Ele segura meus punhos.
– Me solta. – Digo, com os dentes trincados. – Me solta, está me machucando.
– Você sempre foi uma filhinha do papai. Achando que ia me comover com história triste. – Aperta as mãos. – Eu também não tenho pena!
– Cale a boca. – Mando.
– Se não o que?
– Se não eu te quebro aqui mesmo, seu babaca. – Ouço a voz de Puckerman se aproximando. – Faça o que ela está mandando.
David olha para o moicano, furioso, me encara outra vez e me solta. Ele vai embora, mas antes dá outro soco no armário, nos assustando. Santana grita para as pessoas irem embora e todos saem.
– Obrigada. – Sussurro para meu ex namorado.
– Não se troque com ele. – Pede.
– Sim, eu sinto muito. Não voltará a acontecer.
Ele assente, beijando minha cabeça e faz o caminho que o outro rapaz fez. Santana abraça Brittany pela cintura e Rachel faz o mesmo comigo. Eu deixo que a morena me abrace, relaxando.
– Você está bem? – Ela vira meus punhos. – Ele te machucou.
– Não foi nada. – Olho as marcas vermelhas. – Está tudo bem.
– Tem certeza?
– Tenho. – Coloco a cabeça dela em meu peito. – Eu disse que teríamos que ter um pé atrás com ele, não disse?
– Disse. – Suspira. – Ele não mudou.
– Ele não quis mudar...
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