Além da superfície.
68 Eu quero.
Notas iniciais
– Medicina! – Russel exclama, exaltado. – Por que diabos você vai fazer psicologia, quando você pode ser médica?
– Porque é o que eu quero. – Frannie responde, respirando fundo, enquanto brinca com o pano da mesa.
– Vai morrer de fome. – Bufa. – Eu não vou te sustentar a vida toda.
– Eu não quero ser sustentada por você. – Franze a testa.
– Não parece. – Bate na cadeira, fazendo a filha mais nova fechar os olhos. – Você e Quinn precisam estudar para serem independentes e não para ficarem agarradas com a gente o tempo inteiro.
– EU NÃO PRECISO DE VOCÊ.
– Frannie, por favor. – Judy pede, nervosa.
– Como a senhora aguenta isso, mamãe? – Pergunta, apontando para o seu pai. – Como consegue ter estomago ainda?
– Olhe o respeito, garota. – O homem bronqueia. – Você não vai querer ficar igual aos vagabundos irmãos de sua mãe.
– Russel, pare. – Sua esposa pede, magoada. – Não os metam nisso.
– São apenas um exemplo. – Toma um gole de sua cerveja já quente. – De como não se deve fazer, mas são um exemplo.
– E você é um grande exemplo. – Frannie levanta. – Nossa, você é um exemplo estupendo! – Ironiza.
– O que está tentando dizer? – Entrecerra os olhos.
– Já chega. – Quinn sussurra, finalmente. – Parem de brigar. Não éramos assim, nós conversávamos. Só... Parem um pouco. – Sua voz sai embargada.
– Eu vou para o meu quarto. – Frannie suspira. – Minha decisão já esta tomada. É do meu futuro que estamos falando, e não do seu. – Repreende o homem com um olhar, antes de beijar a mãe e sair do local.
– Eu espero que você não me decepcione desse jeito, Quinnie. – Estala a língua e vai para a sala.
A loira abaixa a cabeça, respirando pesado. Sua mãe encosta na pia, soltando um gemido baixo e conseguindo a atenção de sua filha mais nova. Quinn ergue os olhos rapidamente, se aproximando.
– O que houve?
– Nada, apenas uma dor de cabeça. – Esfrega o rosto.
– Mamãe...
– Estresse, Quinn! Estresse.
– A senhora sabe que não precisa ficar se estressando. É só...
– Só o que? Está tudo bem. Acontece. Fique de fora disso, ok?
– Mas, eu...
– Você não tem dever de casa? – Força um sorriso.
Por Quinn
– No que está pensando? – Uma voz me tira dos meus pensamentos e eu agradeço-a imensamente por isso.
– Você não vai querer saber. – Suspiro.
– Você está melhor?
– Não muito, na verdade.
Minha irmã balança a cabeça e continua fazendo sua vitamina. Eu ajudo, cortando algumas bananas. Desde que levantei, não havíamos falado uma palavra. Frannie está respeitando o meu espaço, como sempre, mas sei que ela está chateada por eu ter afastado ela daquela forma ontem. Eu a encaro, sem conseguir seu olhar de volta. Mamãe foi me acordar, dizendo que eu já tinha perdido a primeira aula. Eu não queria perder mais, mesmo com sua autorização. Mas, levantei sem pressa. A idéia de ficar em casa pareceu perfeita quando eu vi meu reflexo no espelho e dei conta do quão inchado meu rosto estava.
Algumas mensagens de Rachel, várias ligações de Santana, e algumas de Brittany tomavam contam do meu celular. Eu apenas deixei para lá, decidindo respondê-las depois, se precisasse. Espero o barulho do liquidificador parar, enquanto brinco com meus dedos. Frannie puxa um copo para mim, me servindo, e senta na minha frente. Dessa vez nossos olhos se encontram e eu dou um sorriso de lado. Ela corresponde.
– Desculpe por ter gritado. – Seguro sua mão.
– Está tudo bem. – Diz, sincera.
– Eu sei, mas... – Mordo o lábio. – Eu não deveria ter feito.
– Vem aqui. – Empurra a cadeira, abrindo os braços.
Eu faço o que ela pede e vou até ela, deixando-a me envolver. Descanso a cabeça em seu ombro, sentindo suas mãos circularem em minhas costas. Instantaneamente, meus olhos voltam a arder e o nó aperta em minha garganta. Aperto ainda mais seu corpo. Desde que eu voltei para casa, Frannie tem sido meu porto seguro. Eu não sei se eu teria aguentado passar a época do divórcio dos meus pais sozinha. Foi isso que nos uniu de uma vez, que nos deu o laço que não tínhamos antes. Ela precisava de mim e eu dela. Nos encontramos.
– Ela se cortou. – Digo com dificuldade.
– Eu sinto muito, Quinn.
– Ela se cortou e não me disse nada, Fran. – Me afasto um pouco. – Além de não ter pedido ajuda, ela me escondeu. Pior, ela mentiu dizendo que não tinha nada pra dizer. Ela...
– Shhhh... – Tira o cabelo do meu rosto molhado. – Não chora.
– Me sinto mal. – Admito, passando a mão no peito. – Me sinto impotente, sabe? É a minha namorada! Hey, eu não consegui detê-la.
– Q, não faça isso. – Suspira. – Não se culpe. Não ponha essa responsabilidade toda em suas costas. Eu tenho certeza que Rachel não coloca.
– Ela não se importa. – Zombo.
– Se importa. – Garante. – Ela se importa tanto, que não quis te chatear com isso.
– Não me chatearia. – Levanto, com as mãos na cabeça. – Pelo amor de Deus, não me chatearia.
– Você está mal por não ter conseguido detê-la, certo? – Eu assinto. – Se ela tivesse te mostrado no dia, que tinha se cortado, você não sentiria a mesma coisa?
– Ela disse que não queria me decepcionar, Frannie, e não me não chatear. – Enxugo o rosto. – Óbvio que eu estou chateada por ela ter me escondido, mas me sinto mal por ela ter feito de novo. – Minha voz falha. – E de novo, não consegui ajudá-la. Eu nunca me decepcionaria por isso, Fran, nunca.
– Eu sei. – Me puxa de volta. – Eu sei. Ela está confusa.
– Por que as pessoas me afastam quando eu quero ajudá-las? – Soluço. – Por que, Fran?
– Do que você está falando, pequena? – Segura minha cabeça, delicada. – Não misture os assuntos. Rachel é Rachel.
– Mas, ela faz igual a todos os outros. – Choramingo feito criança. – Igual a mamãe fazia.
– Oh, Quinn. – Me alinha. – Sua namorada teve uma recaída, é muito comum de acontecer. Não leve isso pro pessoal, mesmo que ela tenha preferido esconder.
– Não consigo evitar. Não é a primeira vez que ela faz isso. – Solto, desesperada. – Eu...
– Respire. – Pede. – Eu entendo você, sei que é difícil, eu também fico assim quando me escondem algo, te juro.
– Sério?
– Sério. – Aperta minha mão. – É uma espécie de trauma, Quinn. Mas, não podemos misturar, ok? – Balanço a cabeça. – Está tudo bem, não pare de respirar. Shhh...
Eu fecho os olhos, controlando minha inspiração. Sinto o ar encher meus pulmões e o solto, demoradamente. Não quero entrar em crise agora. Quando me sinto segura outra vez, abro os olhos. Frannie me dá um sorriso triste, me sentando na cadeira e oferece a vitamina. Eu aceito, tomando um gole.
– Desculpe. – Suspiro. – Isso está me sugando.
– Não precisa ser forte o tempo inteiro. Já te falei isso. – Eu assinto, bebendo mais. – Não irei atender hoje. Você não quer ficar em casa?
– Eu quero. – Limpo minha boca. – Mas, não posso. Amanhã tem competição e Sue já está bastante braba comigo para eu me dar o luxo de faltar o ultimo treino.
– Por que ela está com raiva?
– Porque... – Fecho a boca, sentindo meu rosto arder. Frannie levanta uma sobrancelha. – Hm...
– O que?
– Eu e Rachel, nós... Nós brigamos no vestuário e... Bom, ela ouviu os gritos.
– Só isso? Você grita o tempo inteiro pelo colégio.
– Ei, eu não faço mais isso, tudo bem? – Franzo a testa. – Não sem necessidade. – Balanço a cabeça. – De qualquer forma, já está na hora. Preciso ir.
– Se cuida, ta? – Alisa minha bochecha. – Por favor.
– Eu te amo, Fran. – Inclino meu rosto para sua mão. – Obrigada por tudo.
– Eu também te amo. Não seja boba. Você é minha irmã. – Suspira. – E não minha paciente.
– Eu não quis dizer aquilo.
– Eu sei. – Sorri. – Promete se cuidar? – Dou os ombros. – Fabray...
– Claro, claro.
Me arrasto para o quarto, coloco meu uniforme e prendo meu cabelo no alto. Tento esconder minha expressão cansada atrás da maquiagem, jogo uma roupa em minha bolsa e saio para o colégio. Os corredores vazios me fazem querer ir mais devagar ainda. Ao mesmo tempo em que meu corpo implora para que eu apresse o passo e corra para encontrar Rachel o mais rápido possível, minhas pernas travam, pedindo um pouco mais de tempo. Respiro fundo e bato na porta da sala. O professor me encara, com a testa vincada.
– Licença. – Sussurro. – Desculpe o atraso, eu tive alguns problemas. Posso?
– Fique a vontade.
Eu sorrio falso, agradecendo-o. Meus olhos correm pela sala. Ela não está aqui. Suspiro por alívio e frustração. Coloco minhas coisas na cadeira atrás da latina.
– Não me olhe assim. – Reclamo baixo.
– Como você se sente?
– Estranha. – Me encolho. – Não quero falar sobre isso.
– Ok, quando quiser...
– Obrigada, San.
Minha amiga vira de volta para frente, fazendo suas anotações. Fixo o olhar no homem barbudo que gesticula exageradamente, mas não consigo ouvir o que ele diz. Meu pensamento voa para longe. Depois do que se parece uma eternidade, as aulas do primeiro tempo acabam e o toque soa para o almoço. Brittany e Santana me acompanham, como sempre. Outra vez, meus olhos fazem a busca. Meu coração acelera quando eu encontro quem procuro no canto da cantina, escrevendo em seu caderno.
– Não vai falar com ela? – A dançarina pergunta, pegando uma bandeja. Eu quero, mas nego. – Glee é logo depois do almoço.
– Infelizmente. – Me sirvo.
– Posso falar com você, Fabray? – Me assusto.
– Agora, treinadora?
– Sim! Almoce comigo. – Acena para uma mesa.
– Ok.
Merda! Olho para Rachel novamente e descubro seus olhos em mim. Paraliso. Minha namorada sorri só com os lábios. Ela parece... Triste. Desvio o olhar, sentando com Sue. Alguns alunos nos encaram, desconfiados.
– Problemas? – Assinto. – Você sabe que o que aconteceu ontem foi inadmissível, não sabe?
– Eu sinto muito, treinadora. Não voltará a acontecer.
– Eu espero. – Se aproxima, como se me contasse um segredo. – Eu não sou estúpida, Q. Eu sei que não é a primeira vez e que nem será a última que algo assim acontece lá dentro. – Engulo seco. – Já fui jovem, sei como as coisas funcionam. Mas, tente não chamar atenção. Finja que sabe que é contra as regras, ao menos.
– Eu realmente sinto muito. – Solto o garfo e esfrego minha testa.
– Não vou me meter. – Descruza os braços. – Eu espero que seus problemas também não se metam e não atrapalhem na competição. Preciso de sua cabeça inteiramente concentrada tanto hoje como amanhã.
– Darei o meu máximo.
– Eu não esperava menos. – Sorri, levantando. – Que vocês se resolvam logo.
– Até mais tarde.
Por Rachel
Seguro minha vontade de levantar e implorar para Sue que não meta a Quinn em problemas por minha culpa, mas a treinadora logo se levanta, com uma expressão tranquila. San e Brittany se juntam a loira, que lança olhares rápidos para mim um segundo ou outro. Quando o sinal toca, espero que todos saiam. Karofsky está por aqui e não me sinto segura em andar sozinha, por mais que a três lideres estejam perto. Para minha sorte, o garoto simplesmente ignora minha existência e sai rodando uma bola de futebol americano na mão.
Entro na sala do coral, sem saber o que devo fazer. Olho para baixo e sento na minha cadeira, ao lado da minha namorada.
– Oi... – Sussurro.
Minha mão vai direto para sua, em cima de seu joelho. Ela não recua, mas não vira para entrelaçá-las. Um frio corre pela minha coluna e me faz estremecer. Timidamente, puxo minha mão de volta. Quinn olha para mim.
– Desculpe. – Tento levantar, mas a loira segura meu punho.
– Não precisa sair.
– Eu pensei que... – Me interrompo. – Nada. Q, eu...
– Boa tarde, pessoal! – Professor Schue entra na sala, desviando a atenção da loira. Me encolho. – Sei que estamos focados nas nacionais, mas... – Puxa uma cadeira, sentando ao contrário. – Bateria, por favor! – Finn bate nos pratos. – Temos um evento antes.
– Professor, não acho que seja bom perdemos tempo com eventos desnecessários. – Kurt resmunga.
– Mas, é um evento importante. – Sorri. – Um que eu sei que todos amam... O baile!
E de um momento para outro, a sala pareceu explodir em uma animação fora do comum. Alguns levantaram, falando alto. Outros já planejavam suas roupas, se preocupavam com os seus pares. Kurt, que antes desaprovava a idéia, agora abraça o namorado, emocionado. Continuo na mesma posição.
– Como conseguimos esquecer isso? – Santana pergunta, indignada.
– Vestibular, Nacionais... – Sam enumera.
– Sem falar na competição de amanhã. – Britt conclui.
– Eu sabia que vocês ficariam felizes. – O professor ri. – Precisamos surpreender esse ano, afinal será o ultimo para a maioria daqui.
– Não vamos tocar nesse assunto, por favor. – Tina puxa a camisa do namorado e se esconde.
– Perdão! Sem tristeza. É do baile que estamos falando. A festa que todos nós esperamos o ano inteiro.
Na verdade, nem todos. Particularmente, eu odeio o baile. Sempre acontece algo inesperado, as pessoas me olham feio, inventam nomes para os meus vestidos, ninguém quer ir comigo e eu fico a festa inteira sentada em uma mesa afastada, vendo os casais e amigos se divertirem. Vendo os meninos desejarem as meninas e meninas desejarem a coroa. Como Quinn. Arrisco um olhar para o lado e descubro a loira mordendo o lábio, com os olhos cristalinos. Eu quero abraçá-la.
– Reservem meu dueto com Fabray. – A latina fala, fazendo um sorriso genuíno nascer nos lábios de minha namorada. Eu sorrio junto. – Sempre somos a atração principal mesmo.
– Santana. – Will vira os olhos, rindo. – Pode ter certeza, vocês já têm lugar marcado.
A conversa continuou acontecendo. Eu não entendia muito bem sobre o que falavam, então desisti de tentar. Puxo as mangas de meu suéter, ouvindo as vozes disputarem por atenção, soltando risadas sonoras às vezes. Fecho os olhos, começando a me sentir mal. Ter Quinn ao meu lado e senti-la distante de mim me destrói por dentro, principalmente sabendo que a culpa é minha.
– Alguém quer cantar algo mais? – O professor me traz de volta. Alguém cantou? Vejo Artie e Finn sentarem. – Rachel?
– Hm... – Levanto a cabeça. – Não... Hoje não.
– Está tudo bem? – Pergunta, preocupado. Tento um sorriso.
– Sim. Tudo bem. – Digo, no automático.
Professor Schue assente e nos libera. Fico sentada, observando meus colegas saírem, ainda discutindo sobre o baile. Eu sei que esse assunto será exclusivo até o dia do evento.
– Você vai se candidatar, Quinn? – Escuto Brittany perguntar.
– Eu não sei. – Dá os ombros.
– Nós vamos. – Santana anuncia. A dançarina solta um gritinho e abraça a namorada. – Já digo que será uma concorrência dura.
– Uh, não tenho chances. – Ironiza, rindo.
– E você, Rach? Vamos participar todas nós!
– Eu não levo muito jeito pra isso, Britt. – Sorrio, sem graça. – Mas, Quinn é linda... Não contaria vitória antes do tempo, se eu fosse vocês.
– Você me deixaria concorrer sendo par de qualquer outra pessoa? – Franze a testa.
– Cla... Claro.
– Hmm... – Assente. Santana me manda um olhar reprovador. – Até mesmo com Sam? Ou Lena?
– Não! – Ela arqueia a sobrancelha. – Digo, eu não gostaria, mas...
– Entendi. – Ri baixo. – Eu não penso em me candidatar esse ano, de qualquer jeito. – Levanta. – Vamos, precisamos ir para a quadra.
– Você veio de carro? – San me pergunta.
– Não. – Sussurro. – Eu pego o ônibus, não tem problema.
– Não quer nos esperar? – Olho para Quinn, mas ela não devolve o olhar.
– Não, Britt. Sue precisará de vocês até tarde. Melhor não arriscarmos.
– Ok! Nos vemos amanhã. – A dançarina me abraça. – Você vai nos assistir, certo?
– Eu não perderia. – Ela sorri e sai, puxando a mão da latina. – Posso falar com você?
– Eu tenho treino agora, não posso me atrasar. – A loira coloca a mochila nas costas.
– Depois do treino... – Limpo a garganta. – Você pode passar lá em casa, ou eu posso...
– Sue disse que eu preciso ficar concentrada 100% na competição de amanhã.
– Oh, eu... – Pisco os olhos rapidamente, evitando chorar. – Ela brigou com você?
– Apenas alertou. – Suspira. – Já vou.
– Não me deixa. – Minha voz sai trêmula. – Eu sinto muito por tudo. Não farei de novo, não te esconderei. Só me sentia fraca por ter recaído. Você...
– Não quero conversar agora, Rachel. – Diz, firme. Eu recuo, fechando a boca. – Depois do campeonato, ok?
– Ok.
Ela anda até a porta, mas para. Prendo meus braços no corpo, sentindo a dormência subir por eles.
– Você vai mesmo nos assistir? – Vira de volta.
– Se você quiser...
– Eu quero. – Sorrio, limpando uma lágrima. – Até amanhã.
– Eu te amo. – Sussurro, abraçando-a por impulso.
Quinn esconde a cabeça em meu pescoço, fazendo minha pele arrepiar com sua respiração quente.
– Eu também te amo.
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