Além da superfície.
21 Erros certos.
Notas iniciais
Por Rachel
Meu Deus. O que foi que eu fiz? Acabei de beijar Quinn Fabray. Onde eu estava com a cabeça? Coloco a mão nos meus lábios dormentes, sentindo meu rosto arder furiosamente. Ela vai gritar comigo e me colocar pra fora. Eu só estrago tudo nessa droga de vida.
– Rachel, calma. – Seu tom é tranquilo, o que faz com que o pânico cresça dentro de mim.
– Eu... Eu... – Balbucio, me cobrindo com o lençol. – Me desculpe.
– Ei, está tudo bem. – Ela tenta colocar a mão em meu braço, mas eu afasto. – Rach...
– Eu não deveria...
– Rachel. – Me chama firme. Eu me calo, sem coragem de encará-la. – Olhe para mim. – Nego. – Por favor. – Sussurra.
– Eu não quero. – Digo baixo.
– Por quê? – Sua voz sai trêmula e eu quase levanto a cabeça para ela. – Olhe para mim. – Suplica. Eu obedeço. – Está tudo bem.
– Não. – Murmuro. – Eu... Eu... Oh, Deus, eu sinto muito. – Meus olhos começam a lagrimejar. – Você me acha idiota agora.
– Eu não acho. – Limpa uma lágrima que desceu em minha bochecha. – Você não beijou sozinha, Rach.
– Eu sinto muito. – Repito.
– Pare.
– Eu não queria ter feito isso. – Choramingo.
– Rachel, pare.
– Foi um erro.
– PARE. – Grita. Eu encolho na cama. – Nos beijamos, eu não acho você idiota. Não se desculpe por isso. Aconteceu.
– Mas, não deveria. – Sussurro. Ela solta um suspiro sonoro.
– Você se arrependeu. – Não foi uma pergunta. Por que ela parece magoada? – Apenas durma, ok? Vamos esquecer o que aconteceu.
– Você está com raiva de mim? – Pergunto temorosa.
– Não estou. – Passa as mãos nos olhos. – Você está com fome? – Eu nego. – Eu cheguei do colégio e não comi nada, você quer descer comigo?
– Posso esperar você aqui? – Soo como uma criança.
Ela sorri de lado e beija minha testa. Sinto seus lábios na minha pele e fecho os olhos. Eles são tão doces, tão diferentes do de Finn. No que diabos eu estou pensando agora? Suspiro, vendo-a sair do quarto. Enterro a cabeça no travesseiro, segurando os calafrios. Eu sei que meu corpo está gritando, mas eu não posso fazer isso. Não aqui. Não depois de ter mostrado meu abdômen cortado e revelado toda a minha fraqueza. Seria mais vergonhoso ainda. Ela me odeia outra vez, mas está com medo de dizer. Claro que sim. Afinal, ela leu uma daquelas minhas cartas idiotas. Dobro os meus joelhos, puxando-os para o meu peito. Como uma bola, eu aperto forte os olhos, tentando parar de pensar.
Por Quinn
Como eu posso ter ido do céu ao inferno em frações de segundos? É lógico que ela não estava pensando. Rachel só está carente, fraca. Ela tentou e eu me aproveitei disso. Eu que deveria ter me desculpado. Mas, ver os olhos arrependidos dela foi como enfiar uma faca em meu peito. Sinto a garganta fechar e corro para o quarto de Frannie. Eu não posso ter um ataque de pânico agora. Abro a porta, sem me importar e vejo-a sentada em sua cama, lendo. Ela levanta o olhar, preocupada e abre os braços, colocando o livro de lado. Eu me jogo em seu colo, soluçando baixo. Depois de alguns minutos, mais calma, eu me afasto. Fran limpa meu rosto com as mãos.
– Ela me beijou. – Quebro o silêncio. Minha irmã arregala os olhos, surpresa.
– Por que você está chorando?
– Porque ela se arrependeu. – Sussurro, abaixando a cabeça.
– Oh, minha linda. – Ela segura minhas mãos, sorrindo triste. – Você sabe que Rachel está em uma montanha russa emocional. Se ela te beijou, foi porque se sentiu segura para fazer.
– Mas, quando percebeu a merda que estava fazendo, pulou longe. – Digo, magoada. – Disse que foi um erro.
– Eu sei que deve ser ruim para você ouvir isso, mas lembre que ela não sabe sobre seus sentimentos. Ela não brincou contigo.
– Ela não me beijaria se soubesse. – Murmuro.
– Ou ela te beijaria mais. – Dá os ombros. – Você não vai saber agora.
– Foi tão lindo e inesperado. – Sorrio fraco. Ela repete meu gesto. – Então, ela começou a se desculpar várias vezes.
– Ela estava com medo de sua reação. Na cabeça dela, não existe ninguém pior do que ela. Por que você ficaria com alguém como Rachel? É nisso que ela pensa. – Eu mordo o lábio, pensando. – Você está melhor? – Assinto, encarando-a. – Volte lá e mostre-a que ela não precisa se preocupar. Não a deixe sozinha, Quinn. – Repreende.
– Eu precisava... Precisava... Sair. – Gaguejo, me sentindo culpada. Frannie balança a cabeça.
– Tudo bem. Agora volte, antes que ela tenha tempo de pensar demais.
Eu assinto, correndo. Pego um pequeno pedaço de pão na cozinha, para enganar o estomago e volto para o meu quarto. Vejo a morena encolhida no canto da cama, tremendo levemente e sinto meu coração afundar em mim. Merda. Termino de comer, subindo na cama e abraçando-a. Ela olha para mim, assustada, mas logo deita a cabeça em meu peito e solta um suspiro aliviado. Eu sorrio fraco, passando as mãos em seu cabelo.
– Você não está com raiva? – Sussurra.
– Claro que não. – Respondo certa.
– Eu sou um lixo, Quinn. Sou suja... Isso foi totalmente errado.
– Rachel, pare de falar isso, por favor. – Levanto seu queixo. – Você é linda, uma pessoa incrível. – Ela franze a testa. – Eu sei que você não...
– Você estava chorando? – Me interrompe. Eu abro a boca, surpresa.
– Não. – Balanço a cabeça. Ela arqueia uma sobrancelha.
– Estava. – Coloca a mão em meu rosto. – Seu nariz fica vermelho quando você chora. – Sorri de lado.
– Você é muito observadora. – Murmuro, virando os olhos. Ela coloca o queixo apoiado em mim, esperando. Suspiro. – Bobeira, Rach. Sério.
– Foi por minha culpa, né? – Pergunta, apreensiva.
– Não, foi por minha culpa. – Aliso sua bochecha. – Você estava frágil e eu me aproveitei disso.
– Mas, fui eu quem... Eu que...
– Foi você que me beijou. – Ajudo-a. Até para admitir o beijo é difícil? Ela assente. – E eu deixei acontecer. Mesmo sabendo que você poderia se arrepender.
– Eu não...
– Se você pedir desculpas, ou falar que foi um erro outra vez, eu vou ficar realmente chateada. – Falo séria. Rachel deita de novo, evitando meus olhos. Apoio minha cabeça na sua. – Sabe, ninguém nunca reclamou do meu beijo. – Tento brincar. Ela dá uma pequena risada.
– Você beija bem. – Sussurra. Sinto meu rosto arder, mas rio quando vejo o seu completamente vermelho.
– Você também, Berry. – Aumento sua vermelhidão. Ela segura minha camisa, tentando cobrir-se. Seguro suas mãos. – Durma um pouco, já está ficando tarde.
– Boa noite, Q. – Diz, sonolenta. Eu deixo um beijo no topo de sua cabeça, apertando-a.
– Boa noite, pequena.
Faço carinho em seu braço, esperando-a dormir. Quando ela o faz, fico observando seus traços serenos, tão ternos e tão confusos. Por que eu te fiz tanto mal? Puxo-a mais para perto, sentindo o cheiro de seu cabelo. Sua mão segura o meu ombro, enquanto sua cabeça se alinha em meu peito, confortavelmente. Eu pararia o mundo para segurá-la assim pra sempre.
O despertador toca e eu resmungo, virando para desliga-lo. A morena passa as mãos de jeito suave nos olhos. Eu dou um sorriso quando seu olhar encontra o meu. Ela retribui. Nos levantamos e reversamos o banheiro, nos preparando para a aula. Eu tive que emprestá-la outra roupa, depois de tanta relutância de sua parte. Chegamos à cozinha, Frannie está preparando algo.
– Bom dia, meninas. – Sorri grande. Eu a abraço.
– Bom dia. – Respondemos em uníssono.
– O que você quer comer, Rach? – Pergunta simpática.
– Eu... Não precisa... – Eu franzo a testa. Como um espelho, minha irmã faz o mesmo. Rachel ri. – Uma fruta seria bom. – Fran assente, tirando uma maçã da geladeira e entregando-a. – Obrigada.
– Quando você vem treinar comigo?
– Não sei. – Encolhe os ombros, tímida. – Quando você puder...
– Ótimo, eu mando o recado por Quinn. – Eu sorrio para minha irmã. – Já estou indo. Boa aula para vocês.
– Bom trabalho, Fran. – Nos despedimos.
– Deve ser bom ter uma irmã.
– É perfeito. – Assinto. – Eu não sei o que eu faria sem ela.
– Já inventaram uma vez, que eu não deixei meus pais adotarem outra criança. Por isso me chamam tanto de egoísta. – Sorri amarga. – Mas, eu queria muito ter um irmão ou irmã. Eles que não quiseram.
– Eu sinto muito. – Eu soube dessa história. E acreditava. O comportamento dela no Glee, querendo todos os solos, só nos comprovava o egoísmo falado. Erradamente. – Talvez tenha sido melhor assim, digo...
– Não seria bom eles adotarem outra.
– Eu não quis dizer isso.
– Tudo bem. É verdade. Eles não dão conta nem de mim. – Ri irônica.
– Eles sempre foram assim, Rach? Eu me lembro de você falando tão bem deles.
– Nós tínhamos os nossos momentos, sabe? Costumávamos cantar, tocar, conversar. Mas, tudo isso foi indo embora aos poucos. Até que um dia eu acordei em uma casa de estranhos. – Suspira.
– Não entendo porque isso aconteceu.
– Nem eu. – Ela faz uma careta.- Cheguei a pensar que fosse por causa de Shelby. – Eu levanto uma sobrancelha, tomando um gole do meu suco. – Pensei que eles tivessem com ciúmes ou algo. Só que era ilógico, certo? Shelby nunca quis saber de mim.
– Você deveria perguntar. – Ela nega com a cabeça. – Bem, nessas horas uma irmã seria ideal. – Sorrio fraco. Ela assente.
– Beth. – Sussurra. Eu congelo, encarando a mesa. – Tecnicamente, ela é minha irmã. – Eu não respondo. A minha voz sumiu. – Desculpe. Foi um comentário infeliz.
– Termine de comer. – Limpo a garganta, sem olhá-la. – Eu vou buscar a chave do carro.
– Quinn... – Segura meu punho.
– Está tudo bem. – Tento sorrir. – Já volto.
–x-
O caminho para o colégio foi silencioso. Quando chegaram lá, caminharam nos corredores, afastando quem estivesse por perto. Brittany sorri para Tina que, timidamente, se aproxima de Rachel e começa a puxar assunto. As três seguiram juntas para a aula, enquanto Santana empurrava a loira para dentro do auditório. A latina a conhecia como ninguém. Lógico que ela percebeu que havia algo diferente na amiga. Quinn sentou no banco, já sabendo que teria que contar tudo. Não precisava de perguntas. Ela falou desde o acontecido no banheiro, até o beijo na noite passada. Santana pulou no palco, batendo palmas, mas logo se acalmou ao ouvir o restante. Vendo o sorriso triste de Quinn, a latina abre os braços, chamando-a para um abraço.
– Não fique assim. Eu achei que ela iria correr, gritar, chorar, fugir. – Passa a mão no cabelo loiro, carinhosamente. – De todas as reações possíveis, essa foi a melhor.
– Se arrepender? – Bufa.
– Não, Q. Não surtar. – Elas se encaram. – Já imaginou que poderia ter sido bem pior? – A loira engole seco, assentindo. – Mas, não. Ela apenas ficou preocupada com a sua reação.
– E eu sai igual a um bebê, chorando. – Quinn esconde o rosto nas mãos, com vergonha. Santana gargalha. – Pare de rir.
– Encare isso com um lado bom. Um ponto positivo para você. – A latina cutuca a amiga com o cotovelo. – Foi bom?
– Foi demais. – Sorri boba. – Ela subiu em cima de mim, San. Foi quente e surreal.
– Uau, quem diria? Berry surpreendendo...
– Ela gostou. – Diz, corando. Santana arqueia as sobrancelhas.
– Ela falou?
– Falou. – Morde o lábio, rindo.
– Puta merda, Quinn. E você está assim? Por favor! Reaja. Vai conquistar sua garota. – Bate a palma no chão.
– Eu vou reagir. Mas, você tem que reagir comigo. Até quando você e Brittany vão ficar nessa situação?
– Não sei. – Sussurra. – É diferente.
– É diferente, mas precisamos lutar por elas. – A loira estende a mão, para levantar Santana. – Trato feito?
– Trato feito.
Por Rachel
Prestar atenção nas aulas não tem sido o meu forte ultimamente. Minha cabeça não parou de pensar no que aconteceu ontem. Encosto na parede, encarando um ponto fixo no quadro e suspiro fraco, brincando com a manga da blusa de Quinn.
– Rachel? – Ouço alguém chamar. – Rachel... – Eu viro na direção da voz, vendo todos saírem da sala. – Ei, você está bem? – Tina sorri.
– Oh, sim. – Me ajeito. – Eu só... Me perdi um pouco. – Rimos.
– Você parecia estar bem longe. – Comenta, enquanto saímos da sala. Eu mordo minha boca.
– Na verdade, eu estava bem perto. – Sussurro, quando Quinn entra no nosso campo de visão, sorrindo grande.
Nos juntamos a ela e fomos para o ensaio do Glee. Tudo ocorreu normalmente. Mercedes de volta, soltando suas piadinhas e seu ego escorrendo pela língua. Várias ideias legais, no entanto, foram discutidas. Brittany e Mike estão empolgados com a coreografia. Quando eles terminaram de dançar, todos aplaudiram. A dançarina caminha para o lado do namorado, dá um beijo rápido nele e senta. Vi Santana suspirar sonoro. Então, Quinn segura a mão da latina e as duas levantam.
– Professor, nós queremos cantar algo. – Anuncia a loira.
– Fiquem a vontade, meninas. – Prof Schue sorri.
– Na verdade, queremos dizer algo. Mas, descobrimos que cantando é o melhor jeito. – Santana explica, encarando Brittany.
O olhar de Quinn prende o meu, me fazendo estremecer. Brad começa a tocar o piano. Reconheço a música nas primeiras notas. Just The Way You Are de Billy Joel. Santana faz a introdução, sorrindo doce para a menina sentada na sua frente. Britt retribui o sorriso, com os olhos brilhando. Logo Quinn se junta a latina, ainda me encarando. Eu engulo seco, sentindo meu coração bater forte. Ela está cantando para mim. Tenho certeza que estão olhando para nós, confusos, mas eu não consigo desviar a atenção da loira. Eu te quero do jeito que você é.
As palmas soam no término da música. Eu levanto, balançando a cabeça e abraço-a, como se minha vida dependesse disso.
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