Além da superfície.
85 Culpa.
Notas iniciais
Algumas coisas passam num simples piscar de olhos. Você percebe que aquela gargalhada que você deu numa roda de conversas com seus amigos não foi ontem, não foi essa semana, foi há anos. Você percebe que aquela pessoa de abraço forte não está mais perto de você, que outras nem nesse mundo estão mais. Percebe que aquela dor de cabeça que você teve estudando para aquela prova da escola passou há tempos, mesmo que você ainda se lembre dela. Percebe que aquela pessoa que quebrou seu coração sem nenhuma piedade também já passou.
As coisas passam, mesmo que você só veja no momento em que quer ver. Ou no momento preciso. Ou quando te obrigam. Ontem, você estava naquela praça brincando, ou naquele cinema com aquela pessoa, ou naquela cama sorrindo daquele jeito. Hoje você está em algum lugar lendo histórias criadas, ou vendo fotos, ou lembrando-se da sua namorada que está em um quarto de hospital, sendo atendida depois de ter se cortado diversas vezes, enquanto você não estava.
Ou talvez você seja a pessoa do hospital.
Mesmo que não perceba ainda.
19 horas depois....
– Hey... – Rachel esfrega os olhos, recebendo um sorriso fraco de Frannie. – Onde está Quinn?
– Está lá fora. – Senta na beira da cama. – Seus pais estão tentando convencê-la a comer algo.
– Oh... – Abaixa a cabeça, envergonhada. – Eu...
– Como você está? – Interrompe.
– Estou com sono. – Franze a testa. – Muito sono.
– Tudo bem, isso é normal. – Segura a mão da menina e observa seu braço enfaixado. – Você passou por muita coisa, está cansada. Além do mais, essa medicação te deixará assim um pouco.
– É, isso dizem. – Suspira. – E isso espero. Dormir o tempo inteiro parece ser uma ideia confortante.
– Não diga isso, Rachel.
A morena encolhe os ombros, sentando na cama. Frannie fecha a porta do quarto e volta para o lado da garota, que acompanha seus movimentos com um olhar curioso, com traços de temor. Ela queria que Quinn estivesse ali no momento. Rachel se sente esgotada e pensar em outra conversa séria agora não era a melhor coisa. Ela estava prestes a falar, quando percebeu o brilho estranho nos olhos verdes de sua psicóloga. Rachel morde o lábio fortemente, perdendo as palavras.
– Eu não queria decepcionar ninguém. – Solta, brincando com seu lençol, sem coragem de encará-la novamente.
Frannie franze a testa, confusa.
– Você não decepcionou ninguém.
– Sim, eu fiz. – Ri debochado. – Primeiro, eu falho na audição. Depois... Isso. – Aponta para o braço. – Meus pais estão decepcionados, a Quinn está decepcionada, Britt e Santana estão decepcionadas. Até você está...
– Rachel, cale a boca. – A morena se espanta e se cala.
Frannie nunca falara assim com ela. Ela sempre pensou que a Fabray mais velha fosse a pessoa mais paciente do mundo por aturá-la. Mais paciente até que a Quinn. Ela tinha fodido tudo tão mal agora, que até a pessoa mais calma que ela conhecia estava chateada.
– Eu preciso falar com você. – Rachel engole em seco. Ela queria pedir que não, mas não sabia como. – É importante e eu realmente não posso adiar isso. – Explica, como se lesse os pensamentos da menor.
– O que houve? – Sussurra.
– Houve que... – Balança a cabeça, sorrindo de lado. – Houve que você é minha cunhada, Rach. É a pessoa que minha irmã escolheu, que ela ama. Houve que eu criei esse laço com você, um laço que nem deveria existir diante as nossas posições. – Suspira. – Sei que eu falei que, dentro não existiria relação pessoal e que, da porta do meu consultório para fora, nossa relação não seria profissional, mas chega uma hora que as coisas começam a se misturar.
– Eu não estou entendendo.
– Você é alguém importante pra mim, entende? Todos os meus pacientes são, claro. Mas, você é como se fosse da minha família. – Faz uma pausa. – Eu já estava pensando sobre isso, mas depois de ontem, eu cheguei à conclusão que nós precisamos... Mudar algumas coisas.
– Não faça isso. – Pede, com a voz baixa. – Por favor, não faça.
– Rach...
– Eu prometo, Fran. – Volta a encará-la, com as lágrimas já escapando. – Eu prometo não tentar fazer mais nenhuma merda, mas, por favor, não desiste assim de mim.
– Hey, eu não estou desistindo de ninguém. – Limpa o rosto da morena. – Pare de chorar.
– Eu só estrago tudo. – Soluça.
Frannie fecha os olhos e puxa o corpo frágil de Rachel para seu colo, abraçando-a. A Fabray descansa o queixo no topo da cabeça da morena, deixando-a chorar tudo o que precisava. Rachel está instável e ela sabe disso. Ela já esperava essa reação, mas não significa que isso ajudava ou deixava as coisas mais fáceis. Quando Frannie sente os soluços ficarem mais fracos, ela se afasta, passando os dedos pelo rosto molhado de Rachel.
– Você vê, Rach? – A morena abre os olhos. – Eu sou sua cunhada. Sou sua amiga. Eu vou continuar aqui, eu vou te ouvir e tentar te ajudar no que for preciso. Mas, eu farei isso como Brittany ou Santana.
– E o que muda? – Funga.
– Muda que agora você terá que procurar um novo profissional. – O corpo de Rachel tenciona. – Eu já tenho quem te indicar.
– Mas, eu não preciso.
– Sério, Rachel? Depois de tudo o que aconteceu?
– Você estará aqui, não estará?
– Sim. Só que não é a mesma coisa. Você precisa de alguém imparcial, que não tenha nenhuma ligação com você, que te ajude do que jeito que você precisa ser ajudada.
– Você me ajuda.
– Eu fico feliz em saber disso. – Sorri. – Você pode entender o meu lado? Essas coisas me afetam. Sempre me afetaram, na verdade. Mas, ontem eu percebi que não dava mais.
– Eu sinto muito. – Choraminga. – Eu não pensei nisso.
– E poder te dar bronca nas discussões bobas com a Quinn. – Rachel ri.
– Como ela está? – Sussurra.
–
Quinn fecha os olhos e inclina a cabeça, alisando sua nuca, enquanto respira o mais fundo que pode. Sua irmã está no quarto há mais de uma hora e a curiosidade e preocupações estão pulsando loucamente dentro dela.
– Quinn? – Ela escuta a voz de Santana.
– Hmm? – Continua na mesma posição.
– Você está bem?
– O que você acha? – Pergunta, mas não existe irritação em sua voz.
– Você parecia prestes a ter uma crise. – Quinn vira os olhos.
– Eu não posso me dar o luxo de ter várias crises no mesmo dia. Não quando minha namorada está precisando de mim. – Abraça seu próprio corpo.
– Ok. – Santana suspira. – Eu não brigar com você, nem te contradizer. – Levanta um copo. – Pega.
– San, eu não...
– Você não comeu quase nada. Se você quer ficar forte para sua namorada, ao menos bebe o suco e tenta se segurar. – Seu tom sério faz a loira obedecê-la. – Ouça... Vocês não estão sozinhas. Não precisa carregar tudo is...
– Por favor. – Fecha os olhos, bebendo o liquido frio. – Eu não quero conversar.
– Eu vou te segurar. – Garante, colocando as mãos nos ombros da loira. – Não importa o que aconteça, eu vou te segurar.
–
Flash Back
– Finn... – Quinn sussurra, olhando o sangue pingar no chão do banheiro. – FINN. – Grita alto, assustando a menor.
– O que você... – Rachel fecha olhos e se apóia na pia. Quinn percebe seu desequilíbrio e segura a cintura da namorada.
– Meu amor, me escuta. – A abraça. – Abre os olhos, ok? Fica aqui comigo.
A loira engole seco, sentindo o estomago dar algumas voltas. Ela tenta colocar a namorada nos braços, mas é traída pelos joelhos trêmulos. Respirando mais fundo, Quinn grita mais forte pelo rapaz, desejando com toda a sua alma que ele não tivesse ido embora. Ela solta um suspiro de alívio ao ouvir os passos rápidos se aproximarem. Finn aparece na porta do banheiro, sem fôlego, colocando as mãos nos joelhos, por causa da corrida repentina.
O garoto levanta a cabeça e seus olhos crescem, quando Quinn vira o corpo, segurando Rachel contra o seu. A visão da morena quase adormecida, com uma toalha encharcada enrolada em seu braço, faz Finn dar um passo para trás.
– Merda. – Murmura. – Merda, merda.
– Finn. – Quinn choraminga. – Não surta. Eu preciso de você. – Suas lágrimas caem rapidamente, enquanto ela tenta controlar a voz. – Me ajude.
Finn balança a cabeça, voltando a realidade. Ele tira Rachel dos braços de Quinn, colocando-a nos seus, em posição de noiva. Sua camisa branca ganhando o tom avermelhado por causa da toalha presa entre o braço da morena e seu peito.
– Cuidado. – Quinn pede, o seguindo.
– Ela está perdendo muito sangue. – Murmura, descendo as escadas rapidamente. – Rachel? Rachel, você está me ouvindo?
– Hmm...
– Quinn, abra a porta traseira. – Pede. – Entre e eu vou colocá-la em seu colo, ok?
A loira assente, obedecendo. Seu corpo inteiro tremendo. Quinn morde o lábio ainda mais forte, tentando impedir os soluços. Seu ex namorado posiciona Rachel em suas pernas e ela rapidamente abraça a morena enfraquecida. Rachel fecha os olhos, fazendo o pânico ficar visível nas expressões de Quinn.
– Ei, vai ficar tudo bem. – O rapaz diz, suavemente. – Eu preciso de você. – Repete as palavras dela. – E ela precisa de nós. Vamos fazer isso.
– Sim. – Sussurra. Finn liga o carro. – Amor... – Beija a cabeça de Rachel. – Não dorme.
– Quinn? – A voz da morena sai quase inaudível.
– Eu estou aqui com você. – Segura a mão do braço sem o corte. – Brinque com meus dedos. Você adora fazer isso.
Os movimentos de Rachel são fracos, mas suficientes para Quinn conseguir respirar. Ela não poderia ter viajado. Se ela tivesse ficado com Rachel durante o dia, nada disso teria acontecido. A culpa invade seu peito outra vez. Seus pensamentos são interrompidos por Finn.
– Você precisa ligar para alguém. – Avisa. – Meu celular não para de tocar. Atenda Santana. Ligue para sua mãe ou para os pais dela.
– Eu não consigo. – Sussurra.
– Quinn! Por favor. – Corta um carro na sua frente, acelerando. – Atenda. – Estende o celular para a menina. – Peça para ela ir para o hospital e avisar aos pais de Rachel. Nós precisaremos deles lá.
Com a mão trêmula, Quinn obedece ao rapaz novamente e atende sua amiga. Santana não precisa de muitas palavras para entender o que estava acontecendo, o que facilita o trabalho da loira. Bastou Quinn falar o nome do hospital e ela garantiu que estaria lá o mais rápido possível. Fabray agradece mentalmente, sentindo alívio em alguns segundos, antes de perceber que os movimentos de Rachel na sua mão estavam ficando cada vez mais lentos.
Finn solta uma série de palavrões, atravessando os carros e buzinando repetidas vezes. Quinn observa um homem reclamar na moto ao lado. Ao sentir os olhos da namorada, a loira volta a encará-la.
– O que? – Sussurra com dificuldade. – Por que está sorrindo pra mim? – Pergunta, arqueando os lábios inconscientemente.
– Você... É tão linda... – A voz de Rachel sai rouca.
– Você que é linda, Rach. – Puxa o ar, tirando o cabelo do rosto da morena com a mão livre.
– Não...
– Shhhh... – Quinn passa o polegar na bochecha de Rachel, enxugando uma lágrima e morde o lábio com força. – Você é linda. Você é linda. – Rachel fecha os olhos. – Você é linda, meu amor. Você é a pessoa mais linda que existe nesse mundo, por favor, acredite em mim. Eu não minto pra você. – A mão de Rachel para. – Rach, continua. Rachel. – Quinn olha para frente. – FINN...
– ESTOU ESTACIONANDO. – Avisa.
O carro para abruptamente. O garoto alto desce e abre a porta traseira com cuidado, aninhando a menina desacordada contra seu corpo. Quinn para lutar contra e explode em lágrimas nervosas. Agora, mais do que culpa ou preocupação, Quinn sente medo. Ela não se lembra a ultima vez que ela tenha ficado tão apavorada. Talvez no dia em que adotaram Beth. Quinn sente medo de tudo o que pode acontecer. Sua garganta fecha e ela cambaleia para dentro do hospital, forçando suas pernas a seguirem Finn.
Por sorte, Rachel foi levada rapidamente pelos médicos que estavam em plantão. Quinn tentou segui-los também, mas foi impedida pelos braços de Finn.
– Eu quero... – Fecha os olhos, frustrada. – Eu quero entrar.
– Você não pode entrar. – Toma uma distancia considerável da loira, sabendo da sua dificuldade para respirar.
– Eu... – Leva a mão à boca, sentindo o estômago embrulhar.
– Você precisa de ajuda? Quer ir ao banheiro? – Põe a mão nas costas de Quinn, que nega, bruscamente.
– Cheiro forte...
– Vem mais pra cá. – Guia para as cadeiras no fundo da sala. – Senta, eu vou buscar um copo d’água.
Quinn senta, puxando as pernas contra o corpo e enterrando a cabeça em seus joelhos. Seus soluços abafados fazendo eco na sala silenciosa, mas ela não se importa. A loira sente o celular vibrando em seu bolso e levanta a cabeça para ver quem era. Seu coração acelera dolorosamente enquanto ela atende.
– Frannie... – Sussurra.
– Quinn! Santana me ligou. Eu estou indo aí, ok? Chris está me levando.
– Eu deveria... – Soluça. – Deveria ter te escutado... – Soluça. – Mais cedo...
– Quinnie, presta atenção...
– Eu demorei muito, Fran, ela... – Tenta puxar o ar.
– Quinn, me escuta. – Corta. – Você chegou a tempo, certo? Está tudo bem, ela ficará bem. – Garante. – Meu amor, olha pra frente. – Pede. – Olha pra frente e me diz o nome de cinco coisas que você vê aí.
– Não... – A loira aperta os olhos, com a visão embaçada.
– Se concentra e me diz. Estou esperando, não tenha pressa.
Quinn passa a mão nos olhos e tenta fixar o olhar na sala. Ela suspira devagar.
– Revista. – Respira.
– Muito bom. Continue. Preciso de mais quatro.
– Ca... – Inspira. – Cadeiras.
– Ótimo, Quinn. Mais três.
– Sapatos. Bolsa. – Fala de vez.
– Ok, pequena, só mais um.
– Copo. – Expira, percebendo Finn parado na sua frente. Ela dá um pequeno sorriso.
– Não perca o controle. Continue respirando. Logo eu estarei ai.
– Obrigada, Frannie. – Suspira, sentindo o ar novamente.
Quinn desliga o celular e aceita o copo d’água oferecido. Finn senta-se ao lado dela, exausto. A loira estende a mão e ele rapidamente entrelaça, dando um sorriso de lado.
– Obrigada, Finn.
Fim do Flash Back.
–
Santana observa a amiga engolir o último pedaço do sanduíche que os Berrys haviam comprado para que ela se alimentasse. Quinn faz uma careta, tomando o resto do suco e vira os olhos ao perceber o sorriso satisfeito no rosto na latina.
– Quinn... – Leroy se aproxima. – Que bom que você comeu. – Aperta o ombro da loira. – Hm... Tem duas garotas atrás de você. – Aponta.
A Fabray franze a testa e logo reconhece as duas, acenando. As meninas se aproximam timidamente, agradecendo a Leroy, que vai em direção a máquina de café. É o quinto que ele toma essa tarde. Ou o sexto.
– Harmony. Lexy. – Quinn cumprimenta, educada. As duas sorriem fraco.
– Oi, Quinn. – Harmony inclina a cabeça. – Tudo bem, Santana?
– Na medida do possível, sim... – Dá os ombros. – Eu vou deixar vocês conversarem. – Avisa, indo atrás da namorada.
Quinn faz um gesto para que as duas sentem à mesa com elas.
– Então... Como vocês souberam?
– Não é como se Lima inteira já não tivesse sabendo sobre isso. – Quinn suspira, passando a mão nos rostos. – Tem várias versões, porém. Há quem diga que ela saiu do auditório correndo, você foi atrás e ela se acidentou na rua. Há quem diga que ela correu e se jogou na frente de uma moto. Há quem diga que ela teve uma recaída. – A loira fecha os olhos. – Essa é a versão que estamos supondo que aconteceu. E, se estamos aqui, é porque foi mais sério que das outras vezes.
– Sim. – Quinn estremece com as lembranças da noite anterior. – Foi bem mais sério.
– Ok. – Harmony olha para Lexy, que parece estar perdida, com os olhos fixos em um ponto do balcão da cantina. – Ela... Ela tentou se matar?
– Eu não sei. – Suspira. – Eu realmente não sei se ela estava com essa intenção, nós não conversamos sobre isso ainda, mas... Foi mais fundo. E mais sério. Talvez, se eu não tivesse chegado lá antes, com intenção ou não, ela poderia ter... Ela...
– Tudo bem, Quinn. Eu entendi. – Estende a mão, apertando a da loira. – Como ela está?
– Está bem. Está consciente. – Morde o lábio. – O médico disse que ela perdeu bastante sangue e precisa ficar em repouso. Apesar de ter sido fundo, o corte não atingiu nada mais sério. Ela precisou levar alguns pontos. – Engole seco, lembrando da cicatriz. – Mas, está bem.
– Ótimo. – Aperta sua mão. – Você esteve com ela?
– Sim, ela estava muito sonolenta, mas já nos vimos. – Abaixa a cabeça. – Amanhã ela irá falar com uma psiquiatra. Talvez seja preciso o uso de medicamentos, por enquanto. Essa audição era muito importante para ela. Não sabemos como será daqui pra frente.
– Ela não está sozinha e tem ajuda, isso é importante. Já tira um peso enorme.
– Eu sei, eu só...
Quinn levanta o olhar para Lexy, que pela primeira vez desde que sentou ali, retribui, como se soubesse exatamente o que a loira está pensando.
– Como foi sua apresentação? – A pergunta sai mecânica.
– Foi muito boa. – Harmony sorri. – Lexy me acompanhou. Acho que eu fui bem.
– Fico feliz por você – Diz sincera.
Se eu fosse essa pessoa, eu não teria deixado isso acontecer, em primeiro lugar. O que adianta chegar sempre depois? Quinn relembra as palavras de Lexy no dia anterior ao das audições. A garota de cabelo curto abre a boca, mas a voz de Harmony sai primeiro:
– Não foi sua culpa. – Consegue o olhar da Fabray outra vez. – Rachel não fez isso porque você não estava lá. Se você tivesse, ela teria dado um jeito. E ela não foi mal por sua culpa.
– Se eu...
– Não continue com isso. Apenas esqueça todos os “e se’s...”. – Repreende. – Não vale a pena se martirizar com isso, acredite em mim. Só vai te afastar dela.
Lexy balança a cabeça, olhando para o chão.
– Mostre a sua garota que você está com ela. – Sussurra. – Mostre que você a ama, independente de tudo. Eu sei o que é sentir culpa e te garanto que isso não sai tão cedo. Mas, não deixa que isso te derrube. Não deixe a culpa ser mais forte que você, ou que o relacionamento de vocês. – Lexy se levanta. – Eu espero que ela fique bem.
Quinn e Harmony abrem a boca, surpresas pela atitude da outra.
– Eu sinto muito, ela...
– Eu entendo. – A loira nota a preocupação de Harmony. – Vá atrás dela.
– Mas, e Rach...
– Eu direi a ela que vocês vieram. – Garante. – Ela está ocupada agora, de todo jeito.
– Obrigada, Quinn. – Levanta, abraçando-a. – Por favor, não me deixe sem notícias.
– Eu não deixarei. – Sorri. – Obrigada por vim!
– Nesse dia eu percebi que ela merece alguém que se levante por ela. Alguém que não tenha medo ou vergonha de amá-la. Alguém que vai cuidar dela, que vai protegê-la como ela merece... Eu não sou essa pessoa, eu nunca fui. – Quinn volta a lembrar.
–
– Desculpa interromper. – Quinn coloca a cabeça dentro do quarto, envergonhada. – Eu posso entrar?
– Claro, Quinnie. – Frannie vira os olhos, sorrindo. – Senta aqui. Eu precisarei sair daqui a pouco.
Quinn caminha timidamente para o lado de Rachel, deixando um beijo longo em sua testa. A morena quer olhar em seus olhos, mas ela apenas desvia. Mesmo que não consiga vê-los direito, é óbvio para Rachel o quão cansado eles estão. Isso aperta seu coração em culpa.
– O que vocês estavam falando? – A loira mais nova senta na cama, puxando a namorada para seus braços.
– Estávamos falando sobre as oportunidades que a vida nos oferece, quando menos percebemos. – Frannie senta na poltrona, deixando o casal mais a vontade. – Lembra daquela bolsa que me ofereceram no terceiro período?
– Sim. – Quinn faz uma careta. – Ela falava sobre isso todos os minutos do dia. – Conta.
– O que aconteceu? – Rachel pergunta, traçando os dedos pela pele clara de Quinn.
– Russel aconteceu. – A voz de sua namorada sai carregada de raiva.
– É, como sempre. – Frannie estala a língua. – Meu pai nunca aceitou eu ter escolhido outro curso ao invés de medicina e ele fazia tudo o que podia para tentar estragar ou fazer com que eu me arrependesse da minha escolha.
– Eles tiveram uma briga feia no dia anterior. – Recorda.
– Eu acordei exausta e pessimista no outro dia. – Rachel suspira, ouvindo-as. – Eu fui realmente muito ruim no teste.
– Isso é horrível. – A morena diz. – Eu ainda não acredito que esse homem tenha uma ligação com vocês.
– Ele não tem. – As duas dizem ao mesmo tempo.
– Não importa sangue, genes, passado, o que for... – Frannie continua. – Ele nunca terá uma ligação com a gente. Mas, nós entendemos o que você quis dizer e eu concordo. Eu fiquei bastante mal com isso.
– Eu lembro que nós planejávamos juntar dinheiro para sairmos de casa. Por mais que não fossemos tão próxima na época, queríamos tanto sair daquele inferno.
– Verdade. E o dinheiro ia nos ajudar. – Morde a boca. – O fato é que, eu recebi uma proposta muito melhor depois.
– Eles brigaram outra vez. – Quinn suspira.
– E eu consegui passar. – Levanta as sobrancelhas. – Porque eu confiava em mim e isso bastava. Eu sei que você está triste porque perdeu esse teste, mas não é fim de tudo. Vo...
– Eu agradeço o que vocês estão tentando fazer. – Rachel interrompe. – Mas, eu não quero ter esperança agora. Eu não consigo ser otimista... Agora.
– Rach...
– Não, Quinn. – Se afasta um pouco. – Era meu sonho.
– Você poderá tentar outra vez.
– Ano que vem? Para eu chegar lá e travar de novo? Esquecer a letra que eu sei de trás para frente?
– Não vai acon...
– Eu vou ficar nessa cidade estúpida e você vai... – Rachel franze a testa. – Quinn... Você fez a sua inscrição?
A loira prende a respiração, mandando um olhar desesperado para Frannie. A psicóloga percebe que as duas precisam conversar a sós e se despede rapidamente, deixando o quarto em um silêncio desconfortável. Rachel continua encarando Quinn, que mantém os olhos presos na parede.
– Sua inscrição, Quinn...
– Rachel, eu não estou me importando muito com isso agora...
– Bem, eu estou. – Cruza os braços.
– Cuidado com isso. – Pede, arrumando o soro.
– Por que você voltou mais cedo?
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