Além da superfície.
34 Calmaria.
Notas iniciais
Por Rachel
Quinn abre a porta do boxe, devagar, olhando para os lados. A loira solta um riso fraco e me conduz para fora. Quantas vezes eu fiz isso? Quantas vezes eu esperei o banheiro esvaziar para poder, finalmente, sair dali? Hoje eu não entrei para me cortar, embora eu sentisse uma enorme vontade de fazer isso. Mas, eu sai igualmente, ou mais, aliviada. O efeito que Quinn tem em mim é maior do que eu imaginei. Lavo meu rosto, limpando os rastros de lágrimas e suor, enquanto ela encara o meu reflexo no espelho.
– Eu devo estar uma bagunça. – Rio, envergonhada.
– Um pouco. – Concorda. Eu empurro seu ombro, fazendo-a rir. – Continua bonita, no entanto.
– Claro. – Viro os olhos, me enxugando. Ela segura minha mão.
– Deixa eu te ajudar. – Pega o papel e passa delicadamente em cada canto do meu rosto. Eu suspiro, sentindo sua respiração muito perto. – Pronto. – Sorri.
– Hmmm... – Balanço a cabeça. – Eu sou realmente uma bagunça, Quinn. – Sussurro. – Você deveria ter medo de mim.
– Eu não tenho medo de você. – Encosta nossas testas.
– Deveria. – Repito, fechando os olhos.
– Olha, eu realmente não sei o que diabos tem no clima dos banheiros desse colégio, embora eu goste muito, confesso, mas não é uma boa hora para isso, ok? – Santana nos assusta. Quinn ri e eu escondo meu rosto em seu peito.
– Não estávamos fazendo nada. – A loira soa pouco convincente. Eu mordo o lábio, negando. – Onde... Cadê Brittany?
– Está na sala, esperando Berry. – Eu me afasto, surpresa. – Pois é, já começou a aula.
– O que você está fazendo aqui fora? – Pergunto, desconfiada.
– Mantendo todos os curiosos longe daqui, Rach. Ou você queria que eles flagrassem vocês assim? – Levanta uma sobrancelha. Eu abro a boca, sentindo meu rosto arder forte. – Uh, eu sabia. – Sorri, orgulhosa.
– Cala a boca, Lopez. – Quinn avisa. – Você quer entrar agora?
– Na verdade... Não. – Suspiro. – Todos vão ficar me olhando e o professor ficará com raiva, fará perguntas.
– Chame Britt, vamos para o auditório. – Pede para Santana, que assente, puxando o celular. Olho-a confusa. – Não esquecemos o que aconteceu antes de tudo, esquecemos? – Sussurra.
– Não. – Murmuro, sentindo o peso voltar. A loira segura minha mão, no meio do corredor. – Quinn...
– Estão todos em sala. – Dá os ombros, empurrando a porta do auditório.
Sento no chão, perto do piano. Quinn deita, colocando a cabeça no meu colo. Eu sorrio, separando uma mexa de seu cabelo para mexer. Ela fecha os olhos, esperando. Santana chega, poucos minutos depois, com Brittany, que me olha preocupada, mas logo sorri. Respiro fundo, contando sobre o meu final de semana turbulento.
– No domingo, Leroy passou o dia inteiro comigo. – Sorrio, fraco. – Nós conversamos bastante, sobre muitas coisas. Eu realmente sentia falta dele. – Franzo a testa. – Foi como se ele tivesse viajado por vários anos e voltado, cheio de saudades.
– Isso é muito bom. – Quinn incentiva. – Ele te ama.
– Eu sei. – Suspiro. – Mas, Hiram... Ele... – Me interrompo, pensando. As três meninas esperam, pacientemente. – Parecia transtornado.
– Como assim?
– Não sei explicar, San. Ele estava furioso, jogou a culpa toda em cima de mim e queria fingir que nada aconteceu.
– Você sabe que a culpa não é sua, não sabe? – Quinn pergunta, me observando.
– Não é só minha. – Corrijo. – Eu tenho culpa também, mas não toda. – Ela assente. – O fato é que, ontem à noite, ele fez algumas malas e saiu.
– Sem dizer nada? – Brittany franze a testa.
– Eu ouvi alguns gritos de Leroy. – Encolho os ombros. – Ele disse que precisava de um tempo longe. – Faço uma careta. – Se é possível ele se distanciar mais.
– Que vontade de mata-lo. – Ouço Santana resmungar entredentes, levantando.
– San... – Britt repreende. – Como ficou o clima lá, Rach?
– Estranho, claro. – Encosto a cabeça na parede. – Mas, Leroy está tentando ficar perto de mim. – Sorrio, triste.
– Está feliz por isso? – Quinn pergunta, baixinho, alisando minha mão.
– Sim. – Sussurro. A loira sorri, me abraçando. – Obrigada. – Ela se afasta, confusa. – Fiquei com suas palavras na cabeça o tempo inteiro. Foi o que me deu força.
Quinn sorri maior, um pouco sem jeito e levanta. Eu olho para sua boca, respirando já com dificuldade. Ela se aproxima, me beijando com intensidade. Seguro sua cabeça, ajudando-a. Estava quase me perdendo outra vez, quando lembro que não estamos sós. Afasto, envergonhada. Quinn volta para o meu colo, brincando com as mãos. O silêncio domina o lugar até eu ouvir Santana prendendo o riso. Não aguento mais, olho para a latina e solto uma risada sonora, sendo acompanhada pelas três.
– Sinto muito, eu não aguentei. – Quinn esconde o rosto na minha camisa.
– Ah, que bonitinhas. – Brittany bate palmas.
– É porque você não viu o banheiro. – Santana arqueia a sobrancelha, me encarando. Eu desvio o olhar para Quinn, que ainda está se escondendo. – Isso é incrível. – A latina gargalha.
– Cala a boca, Santana. – Falamos ao mesmo tempo.
– Tudo bem, tudo bem. – Vira os olhos. – Eu só não entendo uma coisa, como esse povo ficou sabendo de seu pai? Eu achei que alguém tivesse inventando.
– Moramos em Lima, San. – Quinn vira de volta. – Todo mundo sabe o que acontece.
– Inferno de cidade. – Bufa. – Não vejo a hora de irmos embora para NY logo. – Eu estremeço.
Brittany levanta, abraçando Santana e a conduzindo em passos loucos de dança. Quinn ri ao ver as amigas se movimentarem em uma música imaginária. Eu não sabia que elas tinham tantos planos para morar em New York. Pensei que eu fosse a única. Apesar de saber que Brittany iria querer algo relacionado à dança e Santana a música. É estranho e, ao mesmo tempo, reconfortante, ver que pessoas tão diferentes de mim, sonhavam iguais, o tempo inteiro. Suspiro, por não sentir mais a mesma coisa, por ser tão distante da minha realidade. Logo, as duas puxam outro assunto e nós ficamos conversando durante o primeiro horário.
Sinto falta da voz de Quinn, que havia adormecido após a apresentação particular das meninas. Olho para ela e percebo seu olhar distante. Traço a linha da sua mandíbula, fazendo seus lábios se curvarem um pouco para cima e seus olhos prenderem os meus.
– Está tudo bem? – Sussurro. – Você está longe.
– Tudo bem. – Garante. – Não se preocupe. – O sinal toca assim que ela termina de falar. Ela arqueia as sobrancelhas. – Vamos?
– Vamos. – Viro os olhos. – Tudo bem mesmo? – Pergunto, incerta. Ela sorri, assentindo e me abraça forte.
– Te encontro em Glee?
As meninas me acompanham até a sala, tendo certeza que ninguém vai fazer algo comigo. Quando elas saem, espero os olhares, os sussurros, mas nada acontece. Eles parecem com medo de me encarar. Suspiro, aliviada. Talvez seja melhor assim. Eu acho.
Por Quinn
Corro a última volta na quadra, cansada. Sue reclama do meu desempenho no treino de hoje e eu dou a desculpa de que estou com dor de cabeça. O que não é totalmente mentira. Minha cabeça está a mil. Esses últimos dias vem sido um turbilhão de emoções difíceis de explicar. Sento na arquibancada, limpando meu rosto suado e tomando um pouco de água. Santana senta ao meu lado, pegando minha garrafa.
– Desembucha. – Manda. Eu viro os olhos.
– Como você é delicada, Santana. – Ironizo. Ela bufa.
– Oh, querida, Quinnie, me perdoe. – Faz uma voz doce. – Você poderia, por gentileza, me dizer por que está assim?
– Idiota. – Rio, empurrando-a. – Estou com medo.
– Medo de que?
– Hoje... – Franzo a testa, olhando para os lados. A latina senta mais perto. – Hoje...
– Hoje o que, Quinn? – Pressiona. – Vocês fizeram sexo no banheiro?
– SANTANA. – Bronqueio. – Fale baixo. – Fecho os olhos, suspirando. – Nós não... Não... – A latina gargalha. – O que?
– Eu esqueci que você não tem experiência pra falar desse assunto, Quinn. – Cruzo os braços, chateada. – Mas, eu já entendi o que aconteceu, ok? Vocês tiveram um momento quente.
– Sim. – Sussurro.
– E do que você tem medo? Rachel está bem, não enlouqueceu, não fugiu.
– Não fugiu porque eu pedi não fizesse. – Lembro.
– Nossa! Isso muda tudo. Lógico que Rachel te obedeceria, mesmo se não quisesse. – Diz, sarcástica. – Ela não fez porque ela não quis fazer. Pare de procurar problemas.
– O problema não é esse, Santana. – Solto o ar. – Rachel estava mal, estava em crise. – A latina inclina a cabeça para o lado, esperando eu concluir. – Eu tenho medo que ela tenha feito isso para... Esquecer. – Gesticulo. – Que eu seja só... Uma distração.
– Ela estava bem quando te beijou no auditório. – Morde o lábio. – Não vamos pensar nisso como algo negativo, ok? Se ela fez, não fará outra vez, porque você não deixará. – Eu assinto. – Rachel gosta de você, isso é muito claro. E o mais importante, ela está confiando cada vez mais em você. Pense nisso e esqueça o resto.
– Tudo bem. – Suspiro, encostando minhas costas.
– E então? – Levanta uma sobrancelha, maliciosa. – Como foi?
– Foi louco. – Admito, rindo. – Eu precisei de muito, mas muito mesmo, para me segurar.
– É, eu não duvido do seu autocontrole. – Ri.
– Eu quero que nossa primeira vez seja especial. – Mordo o lábio, envergonhada. – Quero que ela se sinta segura e tenha certeza do que eu sinto por ela.
– Você está certa. – Eu abro a boca, incrédula. – O que é? Eu também tenho sentimentos, ok? – Se finge de ofendida. Brittany chega, sentando no colo dela. – Diz para Quinn que eu sou romântica.
– Ela é romântica. – A dançarina garante. – E sexy.
– Diz mais...
– Não precisa dizer mais. – Interrompo. – Eu já acreditei.
Nós rimos e brincamos mais um pouco, antes de irmos tomar banho. Trocamos os uniformes por roupas leves e fomos para a sala do coral. Todos já estão aqui, inclusive Rachel. A morena está sentada no canto afastado, mas dessa vez, Tina e Mike estão com ela, conversando. Sorrio, me aproximando. O casal devolve o sorriso, deixando que eu fique ao lado de Rachel. Santana e Brittany sentam nas cadeiras detrás das nossas. A latina acena para o lado e eu olho para onde ela indicou. Mercedes.
– Bom, gente. – Professor Schue aparece. – Muito feliz com a vitória. – Vibra, enquanto os meninos assobiam. – Mas, agora precisamos nos concentrar para as regionais e, como vocês sabem, é um pouco mais difícil.
– Nós conseguiremos. – Puck avisa.
– Eu acredito que sim! – O professor sorri. – Perdemos muito tempo nesse inicio de ano, tivemos vários problemas, muitas brigas. Eu peço para que não se repita nessa fase. Nós somos um grupo, precisamos de união. Daremos todo o apoio que Rachel precisar, certo? – Eles concordam, enquanto a morena se encolhe na cadeira. Eu seguro sua mão, sabendo que ela está odiando a atenção nela. – Ótimo. Se eu notar algum tipo de brincadeira de mau gosto, seja com quem for, não terei outra opção se não o pedido de afastamento do grupo.
– Por que estão olhando para mim? – Mercedes reclama. – Eu não fui a única. De repente, me tornei a vilã. Vocês esqueceram quem foi a autora dos desenhos do banheiro? E a mandante das raspadinhas? Por que só eu levo a culpa? – Sinto meu estomago embrulhar e tento soltar a mão da morena, que segura firme, impedindo.
– Nós já nos desculpamos, Mercedes. – Santana cospe, irritada. – Ao contrário de você, que sempre se fez de amiga e não percebeu que tinha algo de errado acontecendo.
– Lógico que eu percebi. – Aponta. – Mas, ela é tão idiota que, ao invés de conversar comigo, ela preferiu vocês, como sempre. – Franzo a testa. Eu senti uma ponta de ciúmes em seu tom? Troco um olhar com Tina.
– Não foi ela quem preferiu. Nós quem fomos até ela. – Brittany diz, calma.
– Sim, as super heroínas. – Ironiza.
– Parem! – Professor Schue reclama. – É disso que eu estou falando. Discussões bobas. Eu não quero saber quem foi até quem. O importante é que elas estão bem. Esse assunto já está encerrado. A única pessoa que tem o direito de se pronunciar é Rachel. – Ele olha para a morena. – Você tem algo para dizer, Rachel?
– Não. – Sussurra. – Eu quero que parem o assunto. – Pede.
– Então é o que iremos fazer. – Decreta o professor. – E para acabar de vez com isso, quero Santana e Mercedes aqui na frente.
– O QUE? – As duas gritam.
– Vamos. – Manda. – Ou querem ficar de fora de outra disputa? – Santana balança a cabeça, levantando. Mercedes faz o mesmo. – Escolham uma música e façam um dueto.
As meninas bufam, virando para escolherem. Rachel aperta minha mão, fazendo com que eu vire para ela. Junto nossos bancos, ficando mais perto.
– Isso vai demorar. – Sussurra. Eu rio, assentindo.
– Santana nunca vai aceitar uma música escolhida por Mercedes. – Digo.
– Nem Mercedes por ela. – Rachel completa. – E a culpa é...
– Shhh... – A silencio. – Não comece. – Peço. Ela assente. – Falando nisso... Rachel, eu preciso te falar algo. – Ela me encara. – Sobre a psicóloga...
– Meu pai já está procurando.
– Não. – Me apresso. – Digo, isso é bom, mas... Eu queria te sugerir alguém.
– Claro. – Franze a testa. – Pode sugerir.
– Antes que você responda, eu quero que pense bem. Você pode até conversar com ela antes, para ter certeza. – A morena me olha, confusa. – Frannie.
– O que? – Ri, incrédula. – Lógico que não, Q.
– Eu te pedi para pensar antes. – Suspiro. – Ela disse que adoraria te atender. Isso não misturaria as coisas. Frannie é uma profissional, sabe separar. Se você tem medo por mim, fique tranquila. Nada chegará aos meus ouvidos, pode ter certeza.
– Não tenho medo. Tenho vergonha. – Se encolhe.
– Isso é comum. – Aliso sua mão. – Apenas... Pense, ok?
– Ok... – Sussurra, sorrindo de lado.
– Nós cantaremos, mas eu quero que Brittany venha para cá, dançar. – Santana anuncia.
– E eu quero que Sugar venha. – Mercedes continua.
Vejo a latina mordendo o lábio com força, impedindo uma piada. Rachel balança a cabeça, percebendo também. Professor Schue deixa com que as outras duas meninas levantem para ajuda-las.
– Decidimos cantar Adele. – Santana avisa. – Mas, ela queria uma e eu outra.
– Então, faremos um mashup.
– Ótima ideia. – O professor vibra. – É assim que nós funcionamos, meninas.
As batidas começam e Mercedes faz a introdução com Rumour Has It. Rachel deita a cabeça no meu ombro, enquanto brinca com os dedos da minha mão. Santana entra com Someone Like You. Abro a boca, surpresa para a combinação que elas fizeram. Está incrível. Sem dúvidas, as duas possuem grandes vozes. Os outros integrantes gritam, empolgados, quando as duas vozes se misturam. O professor assiste, vidrado. Apoio a minha cabeça na de Rachel, vendo o resto da performance. Assim que elas acabam, os aplausos soam. Mercedes sorri, orgulhosa e Santana levanta as sobrancelhas, tentando parecer indiferente. Mas, ela logo dá o braço a torcer e aperta a mão da outra, aumentando mais os aplausos.
A pequena suspira, aliviada, ao meu lado e levanta um pouco. Eu a encaro, curiosa.
– Eu vou. – Sussurra. – Eu vou para Frannie.
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