Além da superfície.
22 Buscando respostas.
Notas iniciais
Por Rachel
Eu tenho consciência dos olhares de todos em nós, mas eu simplesmente não quero soltá-la. Depois do que aconteceu ontem, eu estava esperando que ela me chutasse para longe e, ao invés disso, ela canta uma música para mim, dizendo que gosta de mim do jeito que eu sou. A verdade que eu vi nos olhos de Santana enquanto ela cantava para Brittany, eu também vi nos olhos de Quinn. É incrivelmente difícil eu acreditar nas pessoas e eu senti uma confiança imensa com uma música. Certo, não foi só música.
Ao mesmo tempo, sinto um medo terrível. Eu não posso fazer isso. As pessoas são acostumadas a me deixarem. É como uma lei da natureza, elas apenas não aguentam muito tempo. Os braços da loira relaxam na minha cintura e sua respiração em meu pescoço me tira do transe. Me afasto timidamente, evitando todo mundo. Ela segura minha mão e nós sentamos juntas, com Santana.
– Ok, isso foi estranho. – Kurt sussurra de forma audível. Eu encolho na cadeira.
– Agora são dois casais? – Mercedes ironiza. Vejo Brittany baixar a cabeça, mordendo o lábio, enquanto Santana continua com seu olhar de lider de torcida no rosto. Quinn fica tensa.
– São apenas amigas, Mercedes. – Artie bronqueia. – Pare de ver maldade em tudo.
Eu franzo a testa, tentando não rir. Claro que Quinn cantou de forma amigável, mas Santana estava longe disso. A latina cruza o olhar com o meu e levanta a sobrancelha, de forma maliciosa. Não aguento, solto um riso fraco, chamando a atenção de todos.
– Amigas... – A cantora bufa.
– Não comecem, pessoal. – Professor Schue interrompe a tempo. Eu estava ficando desconfortável com essa conversa e, pelo visto, Quinn também. Ela não se moveu um centímetro para nos defender. – Ótima apresentação, meninas. Estou me surpreendendo com esses duetos, cada vez melhores.
A reunião continuou por mais alguns minutos. Discutimos os vocais da música principal. Mas, como sempre, houve confusão na divisão. O toque soa, finalizando Glee. Todos saíram apressados da sala.
– Obrigada. – Sussurro, arrumando minha bolsa nas costas. – Pela música. – Explico. – Eu gostei muito.
– Fico feliz que você tenha gostado. – Quinn sorri. – Significa que você entendeu o que eu quis dizer.
– Sim, eu entendi.
– O mais importante... Acreditou? – Eu suspiro, encarando-a. – Eu sei que...
– Acreditei. – Seus olhos arregalam, surpresos.
– Sério?
– Não deveria? – Tento descontrair.
– Claro que deveria. Deve. É tudo verdade. Eu... – Sua voz é apressada. Arqueio as sobrancelhas, vendo-a parar para respirar fundo. – Eu tenho prática. Agora. E... Eu não posso... demorar.
– Está certo. – Falo desconfiada. – Você está bem?
– Estou. – Assente de maneira exagerada. – Só... Você acredita em mim. – Sorri grande.
– Você está estranha. – Rio. Ela balança a cabeça e me abraça. Eu retribuo, descansado em seu colo outra vez. – Pensei que você estivesse preocupada com as Cheerios.
– Danem-se as Cheerios. – Resmunga, me apertando.
– Q, não quero você em problemas por minha culpa de novo. – Afasto-a. Ela faz um pequeno bico e eu engulo seco, sentindo minha respiração falhar. O que diabos é isso?
– FABRAY. – Uma voz nos assusta. – Sue disse que se você não chegar em dois minutos, ela vai te tirar do cargo de capitã.
– Aí você vai poder assumi-lo, Lopez. – Quinn fala, mas seus olhos ainda estão em mim.
– Seria como disputar um solo sem Rachel. – A latina brinca, puxando o punho da loira. – Não gosto de ganhar as coisas facilmente. Vamos lá.
Eu rio, vendo-as se afastar. Vou para o estacionamento, para ir embora, mas lembro que eu não vim de carro. Droga. Eu realmente não quero ir andando. Suspiro. Cogito a hipótese de ir olhar o treino das meninas. Não. Muito exposto, muito arriscado. Volto para os corredores, andando rápido. De repente, andar sem as três por perto virou algo assustador. Chego a biblioteca a salvo. Dou um pequeno sorriso para a bibliotecária e puxo um livro para mim. Olho para a mesa, mas meu pensamento vai longe...
– Rachel? – Me assusto. – Desculpe. – Ri. – O que você está fazendo aqui?
– Oh, eu... – Franzo a testa. – O treino já terminou? Eu não sabia que você entrava aqui.
– Eu não entro. Mas, te vi sentada ai e entrei. – Sorri. – Então?
– Sim, claro, eu... Bom, eu estou sem carro. Estava esperando o treino terminar para... – Limpo a garganta, envergonhada.
– Eu te levo.
– Obrigada, Britt. – Aceito a mão que ela oferece e levanto.
– O livro estava bom?
– Que livro? – Pergunto confusa. Ela levanta uma sobrancelha.
– O que você estava lendo.– Aponta, rindo.
– Ah... – Sinto minha bochecha corar. – Eu não sei, de verdade.
– Eu percebi. – Diz divertida.
Nós fomos para o carro. Ela liga o som, batendo os dedos no volante, no ritmo da música. Eu balanço a cabeça. Como ela consegue ser tão ligada assim em música? Parece que nasceu para isso. Um dia eu cheguei a pensar que eu também fosse. Bom, de um jeito diferente. Achei que minha voz era ideal, assim como seus movimentos. Solto um suspiro forte. Sinto os olhos dela sobre mim, quando o sinal fecha.
– Eu sei que você prefere falar com Santana, ela é incrível fazendo isso, apesar de fingir que não, mas se você quiser, pode conversar comigo também. – Fala suave. Eu viro para ela, confusa. – Você está pensativa, longe.
– Não é nada.
– Claro que é, Rach. – Ela encosta a cabeça no banco, olhando para frente. – Tudo bem se você não quiser falar, mas tem algo.
– Sim. – Fecho os olhos. – Sinto muito. – Ela balança a cabeça, voltando a andar.
Eu encosto no vidro do carro, vendo o movimento da rua. A verdade é que eu quero sim falar, só não sei como. Olho para as mãos, brincando com meus dedos. Subo um pouco a manga, traçando uma cicatriz no meu punho. Eu me lembro de todas elas, todos os motivos. Essa foi quando Karofsky xingou os meus pais, dizendo que minha família era coisa do inferno, pecadores. Mordo minha bochecha com tanta força, que sinto o gosto de sangue. Respiro fundo.
– Eu beijei Quinn. – Solto. Brittany sorri tranquila, sem surpresa. Eu franzo a testa. Não era essa a reação que eu esperava. Ou ela acha isso comum? Será que... – Você já sabia?
– Não. Você gostou?
– O... O que? Eu... – Tento respirar normalmente. – Por que você não parece surpresa?
– Não sei, Rach. – Dá os ombros. – E então?
– Então o que? – Me faço de desentendida. Ela ri.
– Certo. – Vira os olhos. – Por que você a beijou? – Muda a pergunta.
– Porque... Eu... – Me encolho. – Eu...
– Você não vai responder nada?
– Não sei responder. – Digo sincera. – Não tenho respostas.
– Por isso você está tão pensativa? Está procurando-as? – Fico em silêncio por alguns segundos. Ela respeita meu tempo.
– Não. – Murmuro. – Eu não estava procurando.
– Ah. – Sorri maior ainda. – Você precisa de ajuda?
Ela estaciona o carro e eu percebo que estamos na praça. Eu assinto, saindo. Nos sentamos em um banco, olhando algumas crianças correrem.
– Como aconteceu? – Eu tomo o ar e explico tudo para a dançarina, sem encará-la. Descobri que conversar com ela é bem fácil também. Talvez Santana soltasse alguma brincadeira. – Você sentiu atração.
– Não sei se foi isso. Digo, Quinn é linda e tudo, mas...
– Carinho?
– Sim. Soa mais adequado.
– Ou carência? – Não respondo. – Como você se sentiu beijando-a?
– Como se não existisse mais nenhum problema em minha vida. – Sussurro.
– Pelo visto você gostou. – Brinca.
– Eu gostei. – Admito. – Mas, eu quase estraguei tudo, entende? Quinn poderia ter me expulsado de lá.
– Não acho que você corria esse risco.
– Por que não?
– Porque Quinn não é assim. Ela beijou você também, certo? – Assinto. – Se ela não quisesse, teria afastado antes.
– Talvez ela não tivesse pensando, como eu.
– Ou ela pensou bem mais que você imagina. – Dessa vez eu a olho. – Você está assustada? – Muda o rumo da conversa.
– Um pouco. – Murmuro. – Eu fiquei bem mais quando ela saiu do quarto.
– Isso não mexeu só com você, Rachel.
– Eu sei. Ela chegou... chorando. – Engulo seco. – Merda, eu sou tão...
– Pare. – Me interrompe. – Não comece com isso, estamos conversando normalmente. – Mordo o lábio, balançando a cabeça. – Por que você acha que ela chorou?
– Porque eu não deveria ter feito isso.
– Ela não pareceu tão incomodada enquanto cantava pra você. – Um sorriso espontâneo surge em meu rosto. Eu jogo o cabelo para frente, a fim de me esconder.
– Você ficou quando Santana cantava?
– Não. Claro que não. Posso ter ficado depois, mas na hora não. Eu amo Santana, você sabe disso.
– Só não sei por que vocês fogem tanto.
– Porque ela precisa assumir esses sentimentos. Ela sabe que me ama, ela tem consciência disso. Hoje, eu sei que ela tem. Antigamente, ela queria esconder isso dela mesma. Santana precisa parar de se importar com que os outros pensam. – Sorri triste. – Parece que ela está disposta a mudar. – Me encara. – Nós só precisamos olhar um pouco mais fundo.
Por Quinn
Chego em casa, ainda com a roupa do treino e vou para a garagem. Eu visto as luvas, me posicionando para bater no saco de pancadas. Pensando nas coisas que estão acontecendo, começo a aliviar toda a tensão. Bato por ter sido idiota com Rachel, colocando apelidos sem fim, tentando estragar o seu namoro, falando de suas roupas e voz. Bato por tudo que ela está passando, bato por todas suas cicatrizes e por todas as vezes que ela chora. Eu bato mais forte, por quando ela não aceita elogios, por ela não acreditar mais no seu potencial, no seu talento. Eu bato porque eu quero explodir todo mundo que a julga, por seus pais que não dão atenção o suficiente, por Finn, por Mercedes, por Shelby. Bato por ela ter se arrependido do beijo, por ter chamado de erro a coisa que eu mais queria que acontecesse esses últimos dias. Respiro fundo, cansada, sentindo o suor pingar pelo meu corpo.
– Muito bom. – Frannie me assusta. – Alguém precisava desabafar.
– Sim. – Sussurro, passando uma toalha em meu rosto. – Você me espera? Eu preciso de um banho.
– Vou deixar minhas coisas lá em cima e te espero no meu quarto, ok? – Eu assinto, indo para o banheiro.
Deixo a água levar todo o estresse para longe de mim. Me sinto cinquenta quilos mais leve. Consigo até respirar melhor. Vou para o quarto da minha irmã e deito em seu colo. Ela passa as mãos em meu cabelo molhado. Fecho os olhos, recebendo bem o carinho.
– Eu decidi. – Falo baixo.
– O que você decidiu?
– Eu vou lutar por ela. – Fran me aperta forte.
– Isso é ótimo, Q. – Não posso ver seu rosto, mas sei que ela está sorrindo. – Vai ser um pouco difícil, você sabe, certo?
– Eu não vou desistir. – Digo firme.
– É muito bom te ver falando desse jeito. – Suspira. – Você tem alguma ideia?
– Talvez. – Murmuro contra sua pele. – Santana também vai lutar por Britt.
– Sério? Isso é perfeito. Vocês podem se ajudar.
– Estamos nos ajudando. – Sorrio lembrando a nossa apresentação. – O que você acha que eu deva fazer?
– Além de chegar na casa dela mais tarde, deitar e abraça-la? – Brinca. Eu viro a cabeça, para olhá-la. – Você sabe, eu não estava falando sério.
– Mas, soa bem. – Levanto uma sobrancelha. Ela gargalha.
– Soa mesmo. – Morde o lábio. – Você poderia ligar antes, saber se seus pais estão em casa e... – Eu pego meu celular, discando seu número. – Nossa, você é apressada.
– Shhhh... – Calo-a. Ela bota a mão na boca, em sinal de silêncio. Está chamando.
– Hey... – Sua voz doce ecoa. Eu sorrio boba, esquecendo de responde-la. Fran bate em meu braço.
– Oh, hey. – Acho minha voz. Merda, o que eu falo? Minha irmã vira os olhos. – Como você está?
– Estou bem. – Sussurra. – E você?
– Também. – Faço uma careta. – Com quem você voltou pra casa, Rach? – Pergunto, lembrando que ela tinha ido comigo.
– Com Brittany. – Responde para o meu alívio. – Nós... Conversamos.
– Foi bom? – Britt às vezes fala demais.
– Sim. Digamos que eu... Estava precisando.
– O que aconteceu? Você está bem mesmo? Alguém te maltratou? Oh, Deus, foi enquanto estávamos no treino, certo? – Sinto uma mão em meu ombro, me acalmando. Eu respiro fundo. – Desculpe. – Sussurro. Ela ri um pouco.
– Eu já disse que você está estranha?
– Já. – Resmungo. – Você não vai me contar?
– Contar o que?
– Porque você estava precisando conversar.
– Ah. – Silêncio. – Sério que você está me perguntando isso? – Eu paraliso, me bronqueando. – Quinn?
– Seus pais estão em casa? – Mudo de assunto.
– Leroy está. Por quê? – Ok, e agora?
– Queria saber se você estava sozinha. – Dou os ombros, embora ela não possa vez.
– Por incrível que pareça, não. – Ri sarcástica.
– Que bom, então. – Suspiro. – Rach, eu vou ter que desligar agora. Fran está me chamando. – Minha irmã franze a testa. – Nos falamos amanhã.
– Boa noite, Q. – Eu sorrio, lembrando a noite passada.
– Boa noite, R. – Desligo. – Leroy está lá.
– Ótimo. Coloque um pijama na bolsa e sua roupa para amanhã. – Ela me apressa. – O que foi?
– Será que ele não vai estranhar? Nós estávamos brigadas.
– Ele sabe que Rachel passou a noite aqui ontem?
– Deve saber.
– Então, não tem problema. Arrume as coisas e vá jantar. Eu te levo.
Eu sorrio e beijo a bochecha de Frannie, correndo para o meu quarto. Jogo tudo depressa na mochila e desço para comer algo. Não como tão rápido, esperando ficar mais tarde. Olho o relógio. 22:30hrs. Só espero não ser chutado pelo seu pai de lá. Fran dirige para a casa da morena e estaciona na frente.
– Vou esperar aqui, se você entrar, vou embora. – Avisa.
Eu assinto e saio. Respiro fundo, antes de tocar a campainha, como quase todas às vezes. Leroy abre, confuso, mas não chateado. Suspiro, aliviada.
– Boa noite, Sr. Leroy. – Tento ser firme. – Rachel... Está?
– Boa noite, Quinn. – Afasta, me dando passagem. Dou sinal para minha irmã sair. – Ela já está dormindo.
– Tem algum problema se eu subir? Nós tínhamos combinado, mas eu acabei me atrasando. – Minto.
– Claro, você sabe o caminho.
– Obrigada.
Eu subo e abro a porta de seu quarto, lentamente. Vejo seu corpo pequeno, encolhido debaixo da coberta. Tiro a sandália, sem fazer zoada e deito do seu lado, puxando-a para mim. Ela resmunga sonolenta.
– Q? – Sussurra. Eu sorrio.
– Boa noite, Rach. – Me aconchego em seus cabelos. Ela se encaixa mais em mim.
– Durma bem.
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