Além da superfície.
30 Boa sorte.
Notas iniciais
Por Quinn
Rachel adormeceu em meus braços e ficou neles durante o resto da viagem. Quando chegamos, todos começaram a gritar, aliviados, animados, mas muito nervosos. A morena desperta, confusa, olhando para a janela. A vista maravilhosa do mar faz o silêncio voltar a reinar. É incrível. Vejo Santana pegar a mão de Britt e dá um beijo, carinhosa, enquanto a dançarina se derrete em seu ombro, suspirando. Rachel me olha, com o rosto um pouco inchado do sono recente. Dou um sorriso de lado, que é correspondido. A ansiedade começa a tomar conta de mim. Professor Schue já levantou, ditando as ordens e as palavras de apoio. Essa cena me traz tantas lembranças. Quantas vezes nós já passamos por isso? Quão louco é pensar que essa é nossa última chance? Bom, pelo menos para a maioria de nós. Se perdemos, será terrível. O Glee perderá o sentido. Rachel é nossa melhor voz, isso é fato. Sem ela já é um risco imenso. Sem ela, Santana e Mercedes, então? Pior ainda.
Respiro fundo, tentando não transparecer o nervosismo, mas Rachel franze a testa. Evito olhar para ela, então a morena dá os ombros, voltando a atenção para o professor e o capitão da equipe. Finn pode ter vários defeitos, mas sempre soube unir nosso grupo. Até mesmo quando ele estava brigado com quase todos, logo no inicio. O dia em que Rachel falou que Puck era o pai e os dois saíram nos socos, quase colocando tudo a perder. Eu estava grávida na nossa primeira competição. Uma sensação de melancolia me domina. Sinto um aperto em meu braço, me tirando do transe.
– Você está bem? – Sussurra.
– Sim, eu... – A encaro. Seus olhos estão preocupados. Por que eu mentiria para Rachel agora? Suspiro alto. – Estava lembrando as nossas primeiras seccionais. – A morena abre a boca e se encolhe.
– Sinto muito. – Murmura.
– Por eu estar lembrando isso? – Arqueio as sobrancelhas, sem entender.
– Foi minha culpa. Eu que...
– Ah, Rachel. – A interrompo. – Nós resolvemos isso naquele dia mesmo, lembra?
– E no que você estava pensando?
– Que estava uma loucura aquele e dia e conseguimos resolver e ganhar.
– Isso te deixa triste? — Levanta uma sobrancelha, desafiante. Eu rio, derrotada.
– Às vezes eu sinto falta... De... – Desvio o olhar. – De...
– De Beth? – Eu estremeço com sua pergunta.
– É tão louco sabe, Rach? Ela só esteve comigo enquanto estava aqui dentro. – Ponho a mão na barriga. – Mas, eu sinto falta mesmo assim. Ao menos ela estava... Perto. É besteira, eu sei, só que...
– Não é besteira. – Repreende. – Eu te admiro. Deve ser muito difícil. Tem gente que faz isso e não sente nada. – Diz, amargurada.
– Você não pode falar por Shelby.
– Nem você. – Bufa. Então, respira fundo. – De verdade, eu te admiro.
– Isso é bom. – Sorrio. – Eu acho. – Ela morde o lábio, me olhando tão fundo que eu sinto meu estomago gritar. Quando ela abre a boca para responder, uma voz nos assusta.
– Chegamos. – Professor Schue anuncia, sendo seguido de vários gritos histéricos. Rachel dá um sorriso doce, segurando minha mão. – Concentração no camarim e muito calma, gente. Nós iremos ganhar.
Mais gritos soaram, enquanto Santana virava os olhos e tentava acalmar a namorada. Eu rio, descendo do ônibus. O teatro é lindo, imenso. Vários ônibus já estão estacionados. Frio na barriga bate forte vendo todos os possíveis concorrentes entrarem. Me espreguiço, seguindo o New Directions.
– Você está nervosa? – Rachel pergunta, timidamente.
– Estou. – Assumo, soltando o ar. — Iremos apresentar sem nossas melhores vozes. – Olho para os lados, temendo piorar o clima de ansiedade se alguém me ouvisse. – Sem você. – Sussurro.
– Eles têm você. – Aperta minha mão. – Sua voz é linda. – Sorri, sem graça. – E todos os outros são bons.
– Menos a novata. – Nos interrompem.
– Santana. – Britt repreende. – Não fale assim. Ela irá nos ajudar.
– Amor, você já ouviu a voz dela? – Pergunta, incrédula. Eu prendo o riso. – Rachel? Por favor, diga que você ouviu.
– Britt está certa, Santana. Ela vai ajudar. – Diz, incerta. A latina balança a cabeça.
– Sinto falta de você me ajudando a colocar defeitos em outros participantes.
– Só nessas horas vocês tinham opiniões parecidas. – Brittany ri. – Viravam melhores amigas.
– Eu fazia isso porque não suportava que alguém fosse melhor que eu. – Rach fala baixo, encolhendo os ombros.
– Estávamos brincando, Rach. – Santana avisa. – Quero dizer, eu realmente sinto falta desse lado seu. Sua crítica ajuda o grupo a crescer.
– Não tenho direito de criticar alguém – Zomba.
– Puta merda. – Percebo que a latina está se segurando para não brigar. Olho para Britt, alerta. Ela segura o braço da namorada. – Me solta, eu não vou bater em ninguém. – Fala irritada.
– San...
– Olha, Rachel, eu não estava criticando você, ok? – Se afasta.
– O que deu nela? – A morena me olha, confusa.
– San está nervosa também, Rachel. – Britt explica. – Eu vou encontra-la. – Nós assentimos, vendo a dançarina sumir.
– Você sabe que Santana está certa, não é? – Ela abaixa a cabeça. – Queremos te ver bem, só isso.
– Não é como se eu fizesse de proposito, certo? – Cospe. – Estou cansada de vocês me cobrarem o tempo inteiro – Olho para ela, surpresa.
– Meninos, ultimo ensaio. Todos no camarim agora. – A voz do professor Schue soa. – Eu assinto, virando.
– Quinn...
– Depois nós conversamos. Preciso ir.
Entro no quarto com todos reunidos. Nos posicionamos na medida que era possível. Ensaiar com quatro pessoas diferentes realmente nos deu um animo a mais. Kurt está mais alegre e confiante, é perceptível que está apaixonado pelo Blaine. Apesar de ser mais discreto, o novo rapaz parece corresponder. Vejo Brittany encostada na parede, com um olhar distante. Procuro a latina, mas ela não está no camarim. Me aproximo da dançarina.
– Tudo bem? – Sussurro, para não assustá-la.
– Sim. – Dá um pequeno sorriso. – Onde está Rachel?
– Lá fora. E Santana? – Britt dá os ombros. – Vocês brigaram?
– Não brigamos. – Franze a testa. – Ela está muito estressada e fica descontando em todos.
– Ela está chateada porque não vai participar, Britt.
– Eu sei, Q. Eu também estou. – Cruza os braços. – Você não acha que eu preferiria dançar e cantar com ela ao invés do Artie?
– Ah, não! Ela está com ciúmes?
– Não sei. Ela colocou ele no assunto de repente, como se procurasse motivos para brigar. – Diz frustrada.
– Não liga, Britt Britt. – Aliso o braço dela. – Deixa passar a apresentação e acabar o estresse. Ela volta logo ao normal.
Nós saímos do camarim depois que o professor Schue nos liberou. Está cada vez mais cheio. As equipes concorrentes nos olham dos pés a cabeça, tentando nos rebaixar. Brittany aponta na direção do bar. Vejo Rachel sentada, brincando com uma garrafa de água, enquanto Santana bebe um drink colorido. A dançarina suspira ao meu lado, indo em direção a namorada e abraçando-a. Sorrio ao ver a latina esconder a cabeça na curva do pescoço de Britt e murmurar alguns ‘sinto muito’.
– Porcelana está amando? – Brinca, depois de quebrar o clima ruim.
– Vai ver era isso que estava faltando nele. – Britt observa – Ele está bem mais leve.
– Será que se arrumarmos alguém para Mercedes ela melhora? – Provoco, fazendo as três rirem. Respiro aliviada. – Poderíamos mandar o Finn.
– Por que não o Artie? – Santana resmunga. Nós gargalhamos, enquanto Britt e Rachel viravam os olhos.
– Poderíamos mandar o Sam. – A morena sugere.
– É uma boa ideia. – Britt concorda.
– Eu acho que alguém mais está com ciúmes. – San cantarola baixinho. Eu sorrio com a possibilidade. O apresentador começa a fazer as chamadas, pedindo para as equipes se prepararem. – Se me dão licença, vou dar boa sorte para minha namorada. – Pisca um olho.
– Boa sorte, Britt. – Rachel grita, antes de Santana leva-la para longe. – Eu... Eu sinto muito. Fui grossa com você e... – Suspira. – Não estou conseguindo controlar minhas emoções direito.
– Está tudo bem. – Encosto no balcão.
– Eu acredito que vocês querem o meu bem. Eu juro. – Diz, nervosa.
– Hey, não precisa jurar. – Sorrio de lado, segurando suas mãos. – Fico feliz por você acreditar. – Ela assente.
– Você não vai se arrumar? – Sussurra.
– Você não vai me dar boa sorte?
– Boa sorte. – Sorri, corada.
– Com esse ‘boa sorte’ talvez eu consiga o terceiro lugar. – Balanço a cabeça, brincando.
– Boa sorte. – Beija minha bochecha.
– Foi bom para um segundo lugar. – Rachel olha para os lados, rindo.
– Boa sorte, Q. – Seus lábios capturam os meus tão rápidos, que me pegam de surpresa. Eu sorrio grande.
– Se eu consigo o primeiro, vou cobrar mais que isso. – Aviso. Ela levanta a sobrancelha.
– Desde quando você ficou exigente?
– Desde que estou tento que substituir a estrela do grupo. – Ela ri. – Você acha que é pouca a responsabilidade?
– Levando em conta o seu talento? Acho que a responsabilidade é suficiente.
– Você acredita em mim?
– Do mesmo jeito que você acredita em mim. – Garante.
– Isso é muito. – Alerto.
– É o que eu espero. – Morde os lábios.
– Bom, eu... – O apresentador dá o toque de meia hora. – Eu vou entrar.
– Boa sorte outra vez. – Sorri.
Por Rachel
Vejo as equipes se posicionarem. Eu queria estar lá, com eles. Queria poder cantar outra vez. É tão estranho ver meu grupo se concentrando e não estar presente. Finn me dá um abraço, antes de começar o seu famoso discurso. A primeira apresentação foi boa, mas não o bastante. Eu mudaria muitas coisas. A dança, o solo, as músicas. Diferente da segunda, que foi excelente. Sinto meu coração apertar. Se eles perderem, a culpa é minha. Eu não ajudarei. Por minha culpa, Santana e Mercedes brigaram. O ar começa a faltar. Tento respirar fundo, mas não consigo. Levanto discretamente, saindo do auditório. Entro no banheiro, tentando puxar oxigênio, sem sucesso. O desespero aumenta, fazendo minhas mãos tremerem. Sento no chão, enrolando minhas pernas. Minha vista começa a ficar escura.
– Rachel? Rachel! – Um braço me envolve. – Ok, Rachel, respire. Está tudo bem.
– Eu preciso...
– Você quer que eu chame Quinn?
– Não! – Suplico. – Santana...
– Eu vou chama-la. Por favor, se acalme. Eu volto logo.
Dois minutos depois, a latina chega, me levantando e puxando minha cabeça para seu peito.
– Obrigada, Tina. Eu cuido dela. Volte para lá, a apresentação já vai começar. – Santana avisa. – E não conte a ninguém o que aconteceu.
A asiática sussurra algo que eu não escuto direito, porque os soluços explodiram no meu peito, ecoando no banheiro. Santana passa a mão nas minhas costas, me acalmando. Escuto a ultima chamada para o New Directions entrarem e me afasto. Ela me olha, confusa e preocupada. Suspiro, lavando meu rosto na pia.
– O que aconteceu, Rachel?
– Surtei. – Murmuro.
– Por quê?
– Porque eu estou com vontade de enfiar a lamina no meu braço. – Digo, com os dentes cerrados.
– Por quê? – Insiste.
– Porque eu queria estar no palco, ok? – Meu queixo treme outra vez.
– Eu também queria. – Suspira. – Se você ficar assim, todos ficarão nervosos. Tina é uma voz muito importante e agora ela já está preocupada.
– Não está ajudando, Santana!!
– Olha só, Rachel... – Esfrega os olhos. – Eu discuti com Britt hoje, eu não vou cantar meu solo, eu tenho que aguentar Artie jogando indiretas. – Respira fundo. – Estou estressada. Eu não vou saber falar nada pra você agora porque eu não gosto de medir palavras, principalmente com minhas amigas, que me conhecem e sabem disso. Odeio quem me interpreta mal. Sei que o que está acontecendo com você é difícil, é complicado, e como eu gosto de você, abro essa exceção. Mas, hoje, sinceramente, eu não posso.
– Sinto muito. – Falo sem graça. – Eu não sei o que está acontecendo comigo.
– Nós vamos descobrir e daremos um jeito nisso. – Segura minha mão. – Confie em mim. Você está melhor?
– Sim... Obrigada.
– Ótimo. Agora vamos, minha namorada vai subir daqui a pouco e cantar para mim. – Sorri maliciosa. Eu viro os olhos e seguro o punho dela, impedindo-a. – O que foi, Berry?
– Obrigada. – Repito. – Por ser sincera. Eu também gostava de criticar com você. Me sentia próxima. E agora que você realmente está... É surreal. Às vezes, eu custo a acreditar que Santana Lopez é... minha amiga. – Franzo a testa. Ela ri, me abraçando.
– Eu sou sua amiga. Isso quer dizer que eu vou brigar, que eu vou implicar e até mesmo criticar, Rachel. Mas, tudo isso vai ser pelo seu bem. Amigos não passam a mão na cabeça o tempo inteiro. – Explica.
– Desculpa. Eu não sei o que é ter amigos direito... – Me encolho.
– Estamos aqui para te ensinar. – Garante. – Se você me fizer perder a entrada deles, vou te matar.
– Santana. – Ela vira os olhos. – Brittany te ama muito. Artie não tem chances. – Ela sorri.
– Eu sei, Rach. Eu sei. Sabe... Sam também não. – Eu franzo a testa.
– O... o que?
– VAMOS, BERRY. – Grita.
Ela me puxa de volta para o auditório. Assim que nos sentamos, o ND entra no palco. Eles estão demais. Os olhos de Quinn encontram os meus e eu vejo um sorriso discreto em seu rosto, me contagiando. Santana cutuca meu braço com o cotovelo e eu fico sem graça. Brittany dança maravilhosamente bem. A plateia fica empolgada. O solo que era de Santana foi dividido entre os meninos e ficou ótimo. A latina aplaudiu a música com orgulho. É estranho vê-la assim. Eu nunca imaginei que ela gostasse tanto assim do clube. O inicio de Control me fez estremecer. Quinn está perfeita. Sinto vontade de subir lá e... Deus, o que eu estou pensando? Balanço a cabeça, me concentrando no resto da apresentação. Todos foram bem. Blaine deu um peso especial. Os aplausos soaram forte. E eu já sabia... Ganhamos.
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