Além da Escuridão

2 Capítulo 2 - Dia dois


Notas iniciais
"Diversão infinita nas estações internacionais Dionísio"... era um trocadilho que Antonio achava horrível... Infinito, para que explorar a imensidão do espaço, se a terra está habitável novamente...

Um barulho no meio da madrugada. Antonio salta da cama num pulo e já correndo em direção da porta, hesita, retira a arma do coldre, que está no cinto pendurado no cabideiro ao lado da porta. Segue em silêncio, outro barulho, agora de um liquido batendo sobre alguma superfície. Ao chegar na sala vê seu melhor amigo, Bernardo, bêbado, atirado no chão com uma poça de vômito por cima.

Antonio não teve a visão da cena, mas era fácil de entender como o vômito de Bernardo foi parar nas costas dele. Certamente, ele ao entrar no digitalizador, vomitou, seu corpo foi materializado antes do regurgito alaranjado, quando este foi materializado ele já estava no chão.

O amigo alcoolizado é carregado até o banheiro, o detetive tem uma certa dificuldade de carregar o corpo desacordado do seu amigo, pois Bernardo é um rapaz de um porte médio, com músculos, mas não tão definido quanto o policial, seu rosto é arredondado e no momento seu cheiro é terrível de bebida e perfume barato.

Bernardo é um rapaz rico, herdeiro da empresa subsidiária da corporação Zeus. Responsável pelo controle de dados de toda digitalização feita no mundo, a empresa foi comprada por Zeus para administrar a digitalização inventada por eles. Bern como também era chamado pelos amigos, era um talentoso ceramista, com obras e restaurações espalhadas por todo mundo. Teria toda condição de morar sozinho em uma mansão em qualquer lugar, mas gostava da companhia do seu melhor amigo, provavelmente porque Antonio tinha paciência para cuidar dele, quando a sua vida boêmia, ficava boêmia demais, como agora.

Antonio retira a roupa de Bern que ainda não demonstra ação nenhuma. Ele observa o amigo desnudo e nas suas roupas, arroz... O pensamento confuso sobre aquele alimento fica algum tempo com Antonio, enquanto a água cai sobre o corpo do bêbado e a sujeira, glitter e manchas que não é possível identificar — e aconselhável que nem identifique — são lavadas e escorrem pelo ralo.

Ainda desnudo, Bernardo é atirado na cama. Seu amigo ainda tem o trabalho de tapar com lençol, novamente observando o seu companheiro desfalecido, repara no horário, falta pouco tempo para seu despertador tocar, resolve então ir comer algo na cozinha.

Ao passar pelo sofá, Antonio liga a televisão, e o noticiário da manhã entra com uma manchete especial.

– Notícias do distrito 11, informações indicam que houve pelo menos 2 desaparecidos da estação espacial Dionísio. A assessoria de impressa da corporação Zeus disse que está analisando a situação para dar um declaração oficial. A policia investiga o caso.

Antonio prepara um sanduíche de pão integral, requeijão, alface, tomate e uma fatia de queijo e outra de presunto. Senta no banco alto e reflete sobre a notícia que acabará de ouvir. As pessoas tinham que sumir no espaço, mais uma vez ele achava que sua implicância com a ida dos humanos para fora do planeta era algo errado. A corporação Zeus certamente tinha alguma culpa no cartório.

Utilizando um botão, uma tela finíssima sai do balção e direto já conecta o detetive com o sistema do governo. Após realizar o login, procura informações sobre o caso noticiado na tevê, porém nenhum informação importante fora publicada pelos policiais do distrito 11. O pop-up aparece no centro do monitor, com um leve toque dos dedos, o pop-up se abre e o mapa mundi com as 17 divisões aparece, contudo nenhum ponto vermelho aparece na tela.

Voltando ao quarto do eu amigo, o detetive tenta acordar o fanfarrão, que não reage a nenhum estimulo, seu sono é tão profundo que ao ser tocado solta sons guturais incompreensíveis. Seu amigo era famoso além por sua empresa e por sua arte, mas também por patrocinar muitos bacanais, recados a vinho caro, nas estações Dionísio.

Algo está incomodando Antonio, nunca foi fã do espaço sideral, mas depois de anos de turismo espacial, é a primeira vez que pessoas desaparecem. Desaparecimento sempre foi um caso que chamou a atenção do policial e Bern... ele deve saber de alguma coisa... Um som agudo interrompe o pensamento, é hora de trabalhar.

Ao pegar o digitalizador, o policial que se encontra formalmente uniformizado, está numa região a mais de 7 mil KM de distância da sua casa, atendendo um chamado de violência domestica. O casebre de madeira um pouco afastado do centro urbano é um local bárbaro para um crime, ao se aproximar ouve-se gritos pedindo ajuda.

Com a arma em punho, o policial arromba a porta e vê um homem de meia idade, com o antebraço descepado sentado no chão da sala cercado de sangue, o homem grita mais alto ao ver a figura de roupas negras na sua frente, porém a grande perda de sangue faz com que o homem desmaie.

– Central, temos um 24 em 10-45C na região norte do Distrito 5, coordenadas de AD5-6012. Repito central, 24 em 10-45C.

Antonio para ao lado do homem desfalecido e observa a tevê, que está dando as notícias. Uma reportagem feita provavelmente de última hora sobre as empresas Zeus, mais parecia uma propaganda improvisada, que tentavam passar para as pessoas esquecerem dos desaparecimentos da madrugada.

A mulher do homem sem a mão não estava na casa, a verificação do local não mostrava nenhum sinal dela, certamente ela se digitalizou para outro lugar, seguindo rastros de sangue no carpete da casa, o policial foi capaz de encontrar o digitalizador no quarto do casal. Nenhum sinal da mão e nem da mulher, anotado o número de série da máquina e passado para central.

Barulhos da rua, os paramédicos chegam de presa recolhendo o homem, levando-o para um helicóptero com design futurista. Infelizmente, não é possível tratar ferimento com a digitalização humana, pesquisadores japoneses tentaram reconstruir membros de ratos em laboratório que haviam sido digitalizados, mas os códigos artificialmente inseridos não correspondiam corretamente na hora da materialização. Por isso os helicópteros eram equipados com digitalizadores para o transporte imediato dos pacientes, em vias de fato Antonio sabia que os hospitais ainda estavam longe de ser a utopia imaginada e nem todos feridos ou doentes conseguiam ser tratados.

Voltou para casa, recebeu um aviso em seu capacete, antes que tivesse tempo de retirar, no visor apareceu as fotos da mulher do homem de meia idade e um relatório médico do marido. Ambos estavam mortos, o homem por que perdeu muito sangue e a mulher estava morta por que na hora da digitalização a mão descepada do marido foi digitalizada junto com ela.

A digitalização orgânica é um processo simples e complexo ao mesmo tempo, ocorria muitos acidentes com os digitalizadores, porém a culpa não é do sistema criado pela corporação Zeus e sim pelo mais uso do equipamento. A digitalização do DNA humano é a parte mais complexa e só pode ser feita de uma fonte por vez, quando o casal tentando fazer sexo durante o processo, o sistema funde os DNAs procurando informações parecidas compactando-as. Na materialização, essas informações parecidas são realocadas juntas, sem diferenciar os corpos originais. Outras matérias orgânicas não sofre essa mutação.

Retira o seu uniforme e procura Bern para fazer algumas perguntas, mas não o encontra em casa. O digitalizador apita, ao abrir, vasos de cerâmica estão colocados lado a lado e um bilhete escrito: "Guarda pra mim, chego mais tarde". Provavelmente, Bernardo está indo para Dionísio V.

Notas finais
Código policial da Terra unificada. 24 - Emergência médica 10-45C - Condição do paciente: Crítico. AD5 - Antonio Distrito 5 6012 - Número de identificação do policial.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.