Além Das Lembranças
2 Uma bela tarde de chuva
Olhei para o vidro embaçado da janela. Estava chovendo, e já era quase Agosto. A chuva caía um tanto forte, isso me irritava. Eu odiava o quão cinza e e pesada as nuvens ficavam, por mais boa que fosse a sensação de ter a alma lavada depois de uma tempestade. Mas, felizmente, eu não estava triste. Não por completo. O gosto doce e gelado do beijo de Anna ainda estava em minha boca; eu conseguia sentí-lo. Porém, eu precisava de mais. Muito mais do que a remota recordação dos lábios de flor dela.
Ainda sonolento, levantei da cama. Sentia-me pesado e sem forças, então fui tomar banho. Talvez tudo fosse apenas falta da água quente e do vapor sufocante que pertencia ao chuveiro quebrado. Ou, simplesmente, necessidade dela. E, essa conclusão levou-me a seguinte decisão: após o banho relaxante, eu iria até Anna. Vestido com a blusa casual mais bonita, e com a calça mais bem-cuidada; eu bateria, assim, em sua porta.
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— Anna?! — falei alto, depois de tocar a campanhia. Não demorou muito para os barulhos de chinelos arrastados sob o chão e fechaduras sendo abertas iniciarem. Sorridente e suave, ela abriu a porta devagar, apoiando-se na parede, como uma princesa.
— Oi! — ela respondeu entusiasmada — Entre... e ignore a bagunça, por favor — pensei em beijá-la como cumprimento. Mas temi que tivesse tomando um passo ousado demais . Afinal, a noite passada fora apenas um beijo de cinco minutos. E esse beijo não nos pôs em algo sério. Na verdade, ele não pôs eu e Anna em nada.
— Sente aí, vou te trazer um café quentinho.
— Não, eu... não precisa, eu já tomei café — fiquei sem jeito com a educação espontânea de Anna. O nervosismo pela presença dela me dominava, e tinha medo que qualquer mínima atitude minha a assustasse.
— Relaxa, é só uma canequinha. E você está com frio, e fiz o café agora — respirei fundo e respondi "sim" com a cabeça.
— Então, você mora aqui faz tempo, Leonardo?— Três, quatro anos. Comecei a morar aqui quando entrei na faculdade — ela me trouxe uma caneca azul com com café dois dedos antes da borda, e sentou-se ao meu lado no sofá. — Faculdade?! Hm... de que?— Direito — dei mais uma golada no café quase fervendo. De repente, após o "hm" como resposta dela, um silêncio tomou a sala. Anna apertava o roupão quadriculado azul-escuro que vestia contra o corpo, enquanto eu tentava ignorar o momento embaraçoso admirando e reparando a decoração da casa.
— Beatles? — eu ri — Gosta de Beatles?
— Amo! Minha banda favorita, sem dúvidas.— Percebi pelas fotos...Anna se levantou e puxou minha mão.
— Tem mais no meu quarto. Vem ver...E guiado pela bela moça de cabelo escuro e longo — que estava um pouco desgrenhado —, fui até seu quarto. As paredes verde-musgo eram cobertas por centenas de fotografias, que variavam desde a infância de Anna até os dias atuais, complementados por retratos de artistas e bandas famosas. Tudo aquilo deixava o quarto com tamanho mediano aconchegante e com ar familiar.Paramos em frente a parede da esquerda, de mãos dadas. Anna apontava para mim algumas fotos e contava suas histórias, que certas vezes eram divertidas.
— E aqui... — sorriu docemente, apontando — essa é a minha favorita — Anna falava sobre uma fotografia da qual ela ainda era uma criança, e estava abraçada com um homem de óculos na praia.
— Por que?— Foi o último verão que eu e meu pai passamos juntos — ela respirou fundo.
— Depois eu só o via nas raras vezes que ele visitava eu e meus irmãos na casa da mamãe. Sentei na cama bagunçada, sem ter o que dizer. Por mais que eu já havera sentido o que Anna sentia, eu não sabia consolá-la. Afinal, isso era uma tarefa difícil. Consolar não é dizer só "não chore" ou "tudo ficará bem". É mais do que isso; é dividir a dor entre quem sofre e quem ajuda. É dar certeza que a pessoa não ficará sozinha, e que as coisas ficarão melhores no fim. Porém, eu não sabia fazer isso. Nunca soube, até porque nunca precisei.
— E ele...?— É, morreu. Uns dois anos depois disso — ela sentou-se ao meu lado e apoiou sua cabeça em meu ombro.— Meu pai praticamente morreu, digamos assim... depois que minha irmã caçula nasceu, ele e minha mãe se separaram. E, depois disso, ele sumiu. Não o vejo faz muitos anos.
— Então... você tem uma irmã? — Anna riu.
— Sim — sorri —. É minha melhor amiga.— Tenho dois irmãos, a Fernanda e o Felipe. A Fernanda é mais velha... e eu nunca me dei muito bem com ela. Mas sempre fui muito amiga do meu irmão.
— Entendi... — suspirei. Suavemente, Anna pôs sua mão sobre a minha, que estava apoiada na cama. Não sabia se era sem querer ou proposital, mas fiquei sem reação. Sorri de leve, como se não houvesse amanhã. Ter a mão dela — de quem eu gostava no momento — na minha, era como assistir o maravilhoso espetáculo do amanhecer. Enquanto o sorriso bobo não saía do meu rosto, e meus olhos fitavam o entrelaçar dos nossos dedos mornos, Anna encarava-me — como a primeira vez que nos encontramos. Seus olhos pareciam desejar dizer muito, mas sua boca conseguia pronunciar apenas sílabas incompletas.
— Leonardo... — ela respirou fundo para dar continuidade a frase, porém eu a interrompi.
— Por favor, me chame de Léo — disse, olhando profundamente nos olhos dela.
— Léo — Anna suspirou sorrindo —, eu não sei o que você está pensando, nem o que você está sentindo, mas... eu nunca me senti tão feliz por ter beijado um cara. Eu não sei se você vai me achar tola depois disso... — novamente, eu a interrompi, chegando mais perto de seu rosto.
— Você não tá sendo tola... eu me senti feliz assim desde a primeira vez que eu te vi.Anna sorriu forte, fazendo com que meu coração acelerasse. Sua alegria, após a noite passada, havia se tornado um golpe fatal em mim. A cada gesto delicado dela, a atração que eu sentia ia solidificando-se e implorando para tê-la em meus braços. Assim, eu podia perceber que há cada minuto que passava, eu gostava mais ainda de Anna. E que ela era a moça mais encantadora que eu conhecera.
— Eu nunca fui o tipo de garota que tinha a vida amorosa muito movimentada — gargalhando, ela dizia —, mas fico extremamente feliz que você tenha aparecido.
Dentro de mim, ocorria mais ou menos um terremoto. Queria beijá-la, mas eu tremia tanto que mal podia me mexer — caso contrário, ela notaria o quão nervoso eu ficava perto dela. Mas Anna aparentava sentir o mesmo que eu. Consegui enxergar, naqueles olhos de esmeralda, que em sua mente e coração, a aflição era recíproca. Não só a aflição; a atração também. Afinal, era ela que estava fazendo tudo aquilo acontecer — desde o beijo até eu ali, ao lado dela. E era aquela vontade de tê-la que guiou minha mão, um pouco trêmula, até sua cintura esbelta. Enquanto isso, Anna apertava minha mão com seus dedos esguios — e levemente tortos —, e se aproximava ainda mais do meu rosto. A distância entre nós era tão mínima que eu podia sentir a respiração ofegante dela.
— Eu... eu também... — disse gaguejando.
Por surpresa, Anna me presenteou com seus lábios de pétala. Um beijo ainda mais doce que o primeiro; deixou-me em um estado além de mim, como se tivesse em transe, e que não havia mais universo fora daquele quarto. Aquilo me assustava — até porque eu jamais tivera gostado de alguém tanto quanto estava gostando de Anna. Era estranho não conseguir especificar o que era, como era ou porque era que eu sentia algo por ela. A única coisa que podia afirmar com determinação era que eu estava maluco. Completamente.
Minhas mãos envolveram sua cintura — eu sabia que deveria ter o mínimo de masculinidade e atitude no segundo beijo. Misturando delicadeza com ousadia, nossas línguas se encontravam ainda mais no calor do espaço. Eu estava me perdendo na pele de porcelana de Anna, mas simultaneamente, eu sabia exatamente onde estava. Deixei ela me guiar — e também apartar a mínima separação que nossos corpos mantinham um do outro.
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