Além Das Estrelas
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Aqui vai mais um capítulo!
Enjoy!
As semanas se passaram mais rápido do que Amy pôde imaginar. Quando ela se deu conta, estava a apenas um dia de seu primeiro dia na faculdade. A ansiedade aumentava a cada minuto, e ela leu e releu sua grade curricular pelo menos trinta vezes só naquela tarde.
1º semestre letivo – Dizia o documento – Física I, Física Experimental I, Cálculo Diferencial e Integral I, Computação I, Introdução à Astronomia.
Amy jamais fora a melhor aluna em física, tinha que admitir. No entanto, não desapontava. Nunca seu desempenho fora muito ruim, nada que algumas horas de estudo não resolvessem. Além disso, deveria levar em conta que poderia obter toda a ajuda necessária, afinal, era sobrinha de ninguém mais ninguém menos que Andrea Ghez.
2º semestre letivo – Ela continuou a leitura – Física II, Física Experimental II, Cálculo Diferencial e Integral II, Álgebra Linear II, Astronomia Esférica.
Será que algum dia seria uma Astrônoma tão bem sucedida quanto Andrea? Conseguiria elaborar teorias que revolucionassem o estudo dos astros e das galáxias? Que teria de se esforçar – e muito – ela não tinha dúvidas. No entanto, será que conseguiria?
3º semestre letivo: Física III, Física Experimental III, Mecânica Clássica I, Cálculo Diferencial e Integral III, Introdução à Estatística, Laboratório de Astronomia, Métodos Computacionais Astronômicos, Calculo Numérico.
4º semestre letivo: Física IV, Física Experimental IV, Física Moderna I, Mecânica Clássica I, Métodos de Física Teórica I, Astrofísica Geral.
_ Amy! _ O súbito chamado a fez sobressaltar-se. Amy olhou para trás, Ashley estava parada na soleira da porta de seu quarto. Seus cabelos loiros escuros caiam pelos ombros, soltos, e ela vestia roupas casuais. Trazia consigo uma animação contagiante, possivelmente pelo fato de estar a um dia de começar suas aulas na faculdade.
_ Oh, oi, Ash. Entre, por favor. Eu estava aqui lendo minha grade curricular…
_ Ah, é? Deixe-me ver… _ Ela então se aproximou e pegou o papel das mãos da prima. Após alguns momentos analisando o documento, Ashley fez uma careta, e resmungou algo como “gr… cálculos”. Em seguida, devolveu o papel à Amy e sentou-se em sua cama.
_ Confesso que fiquei mais animada ao ver a minha grade curricular do que a sua _ Disse ela, que havia escolhido de fato cursar Dança. _ Anatomia, História da Dança, Técnica de Dança, Fisiologia e etc…
_ Enquanto isso eu tenho Física, Cálculo, Álgebra, Mecânica e etc… _ Amy comentou, rindo. Ela imaginava como sua tia havia reagido à notícia que a filha escolhera cursar Dança, realmente. Por um momento, ficou grata por não ter tido que presenciar uma discussão sobre este assunto. De fato, ficaria muito contente em ter a prima no mesmo curso, mas apoiava sua decisão, e concordava com ela quanto ao fato de que cada um deve seguir a carreira que achasse melhor.
_ Ah, por isso não escolhi Astronomia. Eu gosto, sinceramente, de observar o céu e assistir às palestras de minha mãe. Mas não gosto desta parte, dos cálculos. Astronomia é lindo, quando estou observando o céu através de um telescópio… Mas, a partir do momento que entra essa parte complicada… Bem, aí já não é comigo.
_ Eu gosto da Astronomia por inteiro. Mas entendo seu lado, fico feliz que esteja segura de sua decisão.
_ Sim, eu não poderia estar mais satisfeita!
_ Fico feliz por você, Ashley. Espero que seja uma ótima bailarina…
_ E eu espero que você siga a tradição da família e seja uma ótima Astrônoma, assim como minha mãe é, e assim como meu pai foi. – Ashley não pôde deixar de se lembrar de seu pai, Tom LaTourrette.
As lembranças que Ashley tinha dele não eram poucas. Falecido há cinco anos, o pai dela deixara para trás uma grande ausência na vida de ambas, esposa e filha. Assim como Andrea, Tom havia sido um astrônomo renomado, e sua perda também fora lamentada por aqueles que o conheciam pela sua profissão.
_ Seu pai foi um grande Astrônomo _ Amy concordou, igualmente recordando-se do tio.
Ashley assentiu lentamente, deixando-se levar pelas memórias, agora se recordando muito mais do lado afetivo do pai. Cinco anos haviam sido o suficiente para ela reviver certos momentos sem perigo de cair em uma aflição muito grande, mas ainda não haviam suprido a terrível falta paterna que Ashley momentaneamente sentia. Todavia, ela não deixava de sorrir ao se lembrar de seu pai; os momentos alegres imperavam sobre a tristeza reavivada nela.
_ Sinto falta dele. _ A prima admitiu _ Especialmente agora, que vou entrar para a faculdade… É um momento especial na minha vida no qual eu gostaria que ele estivesse presente. Tenho certeza que ele me apoiaria independente de minha escolha. – ela falou desejosa de que seu pai pudesse intervir nas opiniões de sua mãe.
_ Sim, ele apoiaria. _ Amy respondeu, cautelosa. Não queria entrar no assunto sobre a discordância entre a prima e a tia. _ Ele estaria orgulhoso de você.
_ É… Mas acho que ele morreu pensando que eu seguiria seus passos. Ele me apoiaria independente de minha escolha, mas acho que, no fundo, ele desejava que eu fizesse Astronomia. _Ela disse_ Assim como minha mãe ainda deseja.
_Ela vai acabar aceitando. Quando ela perceber que você está feliz com sua escolha e não poderia estar melhor, ela ficará feliz por você e te apoiará.
_Assim espero. _Acrescentou apenas, encarando os próprios pés.
_Mas, me diga… Está animada para o primeiro dia? _Amy perguntou, tentando desviar do assunto.
_Estou um pouco ansiosa, na verdade.
_Um pouco? Ah, que ótimo. _Ela disse, com certo tom sarcástico _ Parece então que o meu coração aqui é o único que está quase saindo pela boca a todo o momento.
_Eu disse “um pouco” porque sou modesta. _Ashley brincou _ Acho que não conseguirei dormir esta noite _Acrescentou, mas desta vez falava sério.
_Tampouco eu _Amy respondeu, guardando sua grade curricular na primeira gaveta da escrivaninha.
A noite que se sucedeu foi uma das piores, tanto para Ashley quanto para Amy. A primeira, por não conseguir de fato pegar no sono, vestiu sua sapatilha de ballet, ligou o rádio em um volume não muito alto, colocou um CD de músicas clássicas e dançou até o dia começar a clarear. Mas sua ansiedade também a atrapalhou na dança.
Já Amy, que também estava sofrendo de insônia àquela noite, devido à ansiedade, ficou horas e horas a observar o céu através da janela totalmente aberta de seu quarto, mas, cedo ou tarde, acabou caindo no sono.
Quando acordou, na manhã seguinte, ainda era bem cedo. O som no quarto de Ashley ainda estava ligado, e pôde ser ouvido por Amy quando ela adentrou o corredor. Quando se aproximou do quarto da prima, ela pôde ver que esta dormia, ainda com a roupa de ballet, em uma poltrona próxima à cama. Provavelmente adormecera durante uma pausa entre uma das danças.
Fechando a porta do cômodo e dando meia volta para voltar ao seu quarto a fim de se vestir devidamente, Amy levou um grande susto ao dar de cara com Andrea.
_Oh, Amy, desculpe-me, não quis assustá-la. _Ela disse. Seus cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo no alto da cabeça, ela vestia um jeans claro de cós alto, e também um casaco de lã laranja por cima de blusa azul marinho. Além disso, trazia nas mãos uma caneca verde com algo que aparentava ser café.
_Tudo bem… _Ela respondeu. _Eu precisava mesmo de algo para despertar definitivamente.
_Oh, sim. Por falar nisso, o que faz acordada esta hora? Ainda é muito cedo para ir para Yale
Ao ouvir a última palavra, o estômago de Amy revirou.
_Não consegui dormir bem a noite passada, acordei de repente esta manhã e não consegui permanecer deitada por muito tempo.
_Entendo _Andrea disse, sorrindo e bebericando um pouco de café. _Não se preocupe, ansiedade é normal no primeiro dia.
_Sim, mas no meu caso, eu acho que esta ansiedade vai durar a semana toda.
A tia riu, e logo depois lhe ofereceu café, que Amy recusou.
_Não se esqueça de se alimentar. _Ela recomendou _Eu tenho que terminar alguns projetos pendentes, mas creio que terminarei a tempo de dar uma carona a você e à Ashley.
_Ah, sim, obrigada, Andrea.
_Por falar nela, ela já está acordada?
_Ainda não, acabei de checar. _Disse Amy. Ela queria evitar que a tia abrisse a porta e encontrasse Ashley na situação em que estava. Afinal, ela poderia não gostar de saber que a filha não dormira direito para dançar ballet, e que acabara caindo no sono em um local inadequado e com roupas incapazes de lhe proporcionar um sono tranquilo e confortável: o necessário para se ter um dia produtivo.
_Oh, é melhor eu acordá-la, então. Não quero que ela se atrase. _Andrea disse, dando um passo à frente em direção à porta do quarto de Ashley.
_Não! _Amy exclamou, bloqueando a passagem. _Para que acordá-la? A senhora mesmo disse que ainda é cedo para ir para Yale!
_Ashley quase nunca consegue acordar sozinha, e, além disso, é muito lenta para se arrumar e tomar café-da-manhã. É melhor que seja acordada logo de uma vez.
_Oh, não se preocupe com isso. A disse que tem projetos a terminar. Não se preocupe com Ashley, eu posso acordá-la.
_Oh, Amy, você faria isso? _Ela perguntou, parecendo aliviada.
_Sim, cuidarei para que ela não se atrase, não se preocupe.
_Muito obrigada! Será de grande ajuda… Ashley não tem reagido bem à minha presença ultimamente, desde a briga que tivemos outro dia. _Ela contou.
Amy não soube o que responder.
_Ela insiste com esta história de ballet, mesmo sabendo que as chances de um bom futuro nesta carreira são muito remotas. Mesmo tendo eu a avisando, ela continua teimando em cursar Dança.
_Bem, Dança não é tão ruim assim… _Amy disse, fazendo com que a tia lhe lançasse um olhar interrogativo. _Poderia ser pior. _Acrescentou, um pouco sem jeito.
_De fato poderia. Acho que eu não suportaria se ela decidisse fazer fotografia ou algo do tipo… E olhe que esta ideia já lhe passou pela cabeça. A minha sorte é que naquela época ela era mais influenciável, então eu consegui tirar essa ideia absurda de sua cabeça.
Amy permaneceu calada. Discordava da tia, mas não queria expor seu ponto de vista. Não tinha a intenção de apoiar alguma das duas, e, assim, possivelmente gerar alguma desavença com a outra. Além disso, não queria se meter em uma briga entre mãe e filha.
_O que eu quero dizer é que Ashley é muito inteligente, e tem um dom especial para matemática e química… Na verdade, para todas as exatas, no geral. Você não tem ideia de como é ruim vê-la desperdiçar esse talento com algo como dança, uma carreira da qual ela não tirará nenhum proveito se quer.
_Talvez ela mude de ideia _Disse Amy.
_Oh, pelos céus, eu espero que sim. Ela poderia ser uma astrônoma brilhante… Ou uma física brilhante, uma engenheira química… Qualquer coisa que escolhesse, ela se sairia muito bem, eu tenho certeza. Mas ela insiste em desperdiçar seu talento com dança.
_Eu entendo seu ponto de vista, Andrea.
_Oh, mas chega disso… Eu devo estar aborrecendo você, não é? Desculpe-me. _Ela disse, bebendo mais um gole de café.
_Oh, de modo algum.
_Bem, eu vou terminar os projetos, agora. Se precisar de algo, estarei em meu escritório.
_Sim, obrigada, Andrea.
Andrea então seguiu na direção oposta, rumo a seu escritório, no final do corredor. Assim que ela fechou a porta, Amy entrou no quarto de Ashley a fim de acordar a prima.
O quarto de Ashley estava na semi escuridão, e Amy se apressou em abrir as cortinas cor creme que impediam a passagem da luz. Ashley, adormecida, nem sequer notou a mudança repentina na iluminação; continuou dormindo. O quarto da prima de Amy era espaçoso, ao menos o bastante para que ela pudesse praticar Ballet. A decoração era toda em tons claros, e os móveis não passavam do essencial.
A primeira providência que Amy tomou após abrir as cortinas foi desligar a música, pois, embora relutasse em deixar de ouvir a doce melodia clássica de Claire de Lune, sabia que não seria bom se ela chegasse aos ouvidos de sua tia.
Ashley pareceu relutante em despertar, no entanto, após alguma insistência da parte de Amy, ela acabou acordando. Seus olhos estavam um pouco vermelhos e ela parecia estar lutando para mantê-los abertos.
_Bom dia, Ashley. Hora de acordar.
Ela olhou para o relógio, bufou, e disse:
_Está brincando comigo, não é? Só temos que estar na faculdade daqui a três horas!
_Sim, é cedo, eu sei. Mas fui informada por sua mãe que você costuma ser um pouco lenta para se vestir e tomar café… Então, eu disse que lhe acordaria.
_Oh, por favor! _Ela exclamou _Eu não sou lerda!
_Eu não estou dizendo que você é lerda, Ash. _Disse Amy, rindo. _Mas você poderia me agradecer por eu tê-la impedido de entrar no quarto e te ver assim. _Ela indicou com a cabeça as roupas e a sapatilha de ballet.
Ashley olhou para o próprio corpo, e só então pareceu lembrar-se de que estivera dançando e caíra no sono.
_Maldição!
Amy riu-se da situação da prima.
_Digo, me desculpe.
_Pelo quê?
_O quê?
_Você pediu desculpas…
_Ah, é? Oh, eu não sei o que falo quando estou com sono… O que quis dizer foi obrigada… eu acho.
Amy riu ainda mais.
_Tudo bem.
_Aposto como minha mãe encheu os seus ouvidos reclamando de mim. _Ashley disse, enquanto desamarrava as sapatilhas apertadas.
_Na verdade, ela só fez alguns comentários. – Amy comentou evitando ser muito específica.
_Oh, imagino que comentários. – Ashley retrucou sarcástica.
_Ashley, não seja maldosa, ela é sua mãe.
_Pior ainda. Não sei o porquê de ela continuar a reclamar tanto… Achei que a sua chegada e a notícia de que você cursaria Astronomia a tinha deixado satisfeita. Já que a filha não será Astrônoma, pelo menos a sobrinha será. _Disse ela, um tanto agressiva. _Oh, não… Não que você seja uma substituta nem nada, não foi isso o que eu quis dizer _Acrescentou, desta vez em um tom mais calmo.
_Tudo bem, não achei que tivesse sido. _Amy respondeu, apenas.
_Oh, como eu fico idiota quando estou sonolenta… Me desculpe.
_Não se preocupe… Bem, eu vou lhe dar licença para você se trocar. Não demore!
_Ok.
_É sério, Ashley, não demore! Não podemos chegar atrasadas… Não no primeiro dia. Me ouviu?
_Aham…
Amy então se retirou do quarto, deixando-a sozinha para se trocar. Entretanto, ela duvidou que a prima tivesse de fato lhe dado alguma atenção.
Amy poderia facilmente afirmar que as horas que se seguiram, desde o café-da-manhã até o momento em que Andrea finalmente informou-lhe de que estava indo para a faculdade, haviam sido as mais longas de toda sua vida. Entretanto, os minutos que passou dentro do carro, a caminho de Yale, na companhia da tia e da prima, pareceram tão longos que poderiam ter durado dias.
Quando finalmente chegaram à faculdade, Andrea deixou Amy e a filha próximas a uma aglomeração de estudantes e logo partiu para seu escritório.
Apenas uma pequena parcela da faculdade era visível de onde Andrea deixara as duas. Amy tinha certeza de que o campus era muito mais extenso, pelo o que pudera ver só ao entrar ali. A multidão que as cercava não era de modo algum relaxante, pelo contrário, só ajudava a inspirar o crescente nervosismo dentro das duas. Para piorar a situação, nem um rosto conhecido sequer estava por ali, e todos pareciam já saber exatamente aonde seguir. Amy momentaneamente ficou em dúvida da direção a qual tomar, quando, para seu alívio, ouviu uma voz conhecida:
- Amy! – era Thomas. Ele abriu caminho pelo fluxo incessante de alunos e chegou ao lado dela e de Ashley. – Como vai? Primeiro dia aqui, deve estar se sentindo um tanto nervosa...
- Oi, Thomas! Na verdade, não, não estou... – ela deu um sorriso nervoso, e, percebendo o quão vazias suas palavras soaram, completou – Só um pouco...
- Relaxe, Amy. – Thomas riu, mas amavelmente completou – Você até já conhece um veterano, tem por tia alguém que trabalha aqui...
Amy sorriu em resposta, assentindo. Porém, resolveu trocar de assunto para esconder seu embaraço e nervosismo, que não haviam sido completamente aplacados com as palavras de Thomas, e se apressou em apresentar a prima.
– Thomas, essa é Ashley, minha prima.
Os dois trocaram rápidos cumprimentos, mas Ashley afirmou que não se demoraria ali; o seu curso deveria ser num lugar completamente diferente ao de sua prima.
Amy encarou Ashley, dizendo:
_Boa sorte
_Igualmente. Te vejo no almoço.
_Sim, espero que sim. _Amy respondeu, dando alguns passos em direção à Thomas. Ela perdeu a prima de vista em apenas alguns segundos de caminhada.
Thomas soltou uma risadinha ao encarar a novata. Sua ansiedade estava claramente expressa em seu rosto quando ela adentrou o local que seria seu segundo lar durante os próximos anos de sua vida.
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