Além
1 Capítulo 1 – A Experiência
- Tem certeza de que isso é seguro?
Louise não tinha certeza. Ela só havia assistido vídeos no Youtube e lido alguns livros sobre o assunto, porém nunca havia realmente testado.
- “Vamo” tentar, né? Não temos nada a perder mesmo. Aliás, eu li as regras! Se a gente seguir direito, vai dar bom.
- Beleza então, mas eu vou te matar se eu morrer.
Louise Oliveira é uma adolescente carioca de 16 anos; naquele momento, o reflexo da chama da vela acesa por ela bruxuleava em seus olhos com tom puxado para o mel. Seus cabelos castanhos, longos e bem cacheados foram torcidos e repousavam sobre seu ombro esquerdo. Como de costume, estava vestindo uma camiseta “oversized” tamanho G da seção masculina da Riachuelo (ela AMA!) com o desenho de uma caveira segurando uma prancha de Surf. E, em seu pescoço, não podia faltar o cordão de miçangas que era de sua avó — ela fazia questão de sempre utilizar.
Desde a morte de seu pai, quando tinha apenas 11 anos, Louise desenvolveu certo interesse pelo "oculto". Começou a pesquisar sobre o tema, mergulhou no mundo de filmes do gênero Terror e Suspense e até se aprofundou em vídeos, livros e histórias de relatos "reais" de experiências sobrenaturais que eram semelhantes ao que ela passou.
...
Acordando de madrugada abruptamente após um pesadelo e abatida pelo luto, Louise decidiu se levantar da cama, pois sabia que não conseguiria dormir novamente, como vinha acontecendo nos outros dias. Era sábado e completavam seis dias da morte do Sr. Oliveira.
Sr. Oliveira, no auge de seus 54 anos, era advogado, gostava de exibir com orgulho seus cabelos grisalhos ("cada fio tem história!") e sua coleção de filmes antigos em VHS e tinha um gosto peculiar por bebidas alcoólicas variadas. Não gostava de fazer consultas de rotina para checar sua saúde e dizia sempre que "médico só serve pra te empurrar remédio e te dar dívida. Te deixa mais doente do que já tava antes!". Só visitava o Hospital quando algum ente precisava ou quando estava REALMENTE mal.
Aconteceu de tarde. Sr. Oliveira já estava reclamando de uma dor estranha no peito há mais de um dia, mas deduziu que fosse gases em consequência da feijoada que havia comido no dia anterior.
- Querida? — Falou Sr. Oliveira com tom moderado, mas não muito alto.
Não houve resposta. Sr. Oliveira estava deitado na rede da varanda, acordando de seu cochilo tradicional pós almoço. A dor em seu peito estava quase insuportável.
- Clara? CLARA? — Agora, em tom mais alto, chamou sua esposa.
- O QUE! — Respondeu a Sr.ª Oliveira.
- Não tô me sentindo muito bem, dorzinha chata de ontem ainda, pode me trazer aquele remédio de gases?
- Pera aí, já levo.
Sr.ª Oliveira — recém-completados 47 anos, era professora de Geografia e tinha o mesmo cabelo cacheado de Louise (naquele momento preso em coque), porém pintado de Louro Ivete para esconder a mudança de cor que a idade traz. Usava sempre uma estampa florida e amava ter as unhas pintadas de violeta ou marrom — estava terminando de fazer seu tradicional chá de hortelã (tinha visto em um programa de culinária que era bom para digestão) e, 5 minutos depois, foi buscar e levar o remédio para o Sr. Oliveira.
- Aqui, Augusto. — disse Sr.ª Oliveira ao ver que, aparentemente, seu marido havia cochilado novamente. Então tocou levemente em seu ombro direito.
- Augusto! O remédio que você pediu. — disse Sr.ª Oliveira, agora com um tom um pouco mais alto, porém ainda de forma delicada. Nenhuma resposta. Agora Sr.ª Oliveira já havia começado a chacoalhar o braço do Sr. Oliveira mais vigorosamente.
- Augusto! Não dormiu de noite não, é? AUGUSTO.
E nada.
- Augusto? AUGUSTO! MEU DEUS! MARIANA CORRE AQUI PELO AMOR DE DEUS!
Mariana era a filha mais velha do casal Oliveira. Tinha 17 anos (bem próxima de completar 18), cabelos lisos escuros bem semelhantes aos de sua avó paterna. Estava vestindo sua tradicional blusa branca com estampa de gatinho e usando seu iPod que havia ganhado no Natal passado.
- Tá me chamando, mãe?
- PELO AMOR DE DEUS LIGA PRA EMERGÊNCIA!
Quando a ambulância chegou, já era tarde demais. Augusto Oliveira havia deixado sua esposa e suas duas filhas.
...
Louise acendera as luzes do corredor — onde uma delas, a mais próxima da cozinha, estava queimada há duas semanas. O corredor era longo, pois também dava entrada ao banheiro e aos quartos da Sr.ª Oliveira e de Mariana. Suas paredes tinham cor branca e estavam lotadas de fotos da família, tiradas em eventos comemorativos e viagens. O chão era de madeira e já estava começando a ficar desbotado devido à má manutenção deste.
Ao se aproximar da cozinha, a menina estranhou o fato da casa estar tão fria. Era início de dezembro e o tempo estava bem firme na cidade do Rio de Janeiro.
Adentrando o cômodo, pegou um copo d'água e já estava planejando voltar ao quarto, pegar seu edredom e ir para a sala assistir televisão até o amanhecer. O micro-ondas indicava que eram 3:22 da manhã naquele momento.
No momento que se direcionou à porta da cozinha, todas as luzes da casa apagaram. De longe, pôde-se ouvir o telefone apitando, indicando que toda energia da casa acabara.
"Ótimo" – Pensou Louise enquanto tateava a parede para não se perder na escuridão.
A casa estava mais fria que antes, ao ponto de dar calafrios e Louise desejava chegar ao seu quarto o mais rápido possível para buscar seu edredom.
Porém, ela parou.
Da porta da cozinha, Louise olhou para a direção de seu quarto e percebeu que ele estava sendo iluminado por uma luz branca e fria, bem diferente das duas lâmpadas de cor quente utilizadas para iluminar este ambiente.
Seu coração disparou.
"Será que é a luz da rua? Não, a luz do poste é laranja." – Pensou. Ela deu dois passos pra trás e olhou pela janela da cozinha. Não parecia que a vizinhança havia sido afetada pela queda de energia.
Tomada pela curiosidade, porém com certo receio, Louise foi em direção ao seu quarto. O frio estava insuportável.
Chegando em seu quarto, a menina paralisou. Havia um homem lá.
Era uma visão amedrontadora: Estava sentado em sua cama, com o rosto virado para a parede, e balançava o corpo para frente e para trás, sem parar, de forma ritmada. Vestido com uma bata longa de cor preta, era envolto por uma névoa turva e emanava a luz branca e fria que iluminava o quarto.
Louise não conseguia se mexer. Não conseguia falar, não conseguia gritar. Sentia as lágrimas escorrendo em seu rosto, porém não havia nada que pudesse fazer. Estava paralisada de completo horror.
O homem parou de se mexer e a luz que emanava ficou mais forte. Parecia que o ambiente iria congelar. Alguns segundos depois (que na cabeça de Louise foram horas), o homem lentamente virou-se em direção a ela.
Ela não conseguia acreditar. Era seu pai? Havia muitas semelhanças: o cabelo grisalho quase invisível por causa da luz, o formato do rosto... este homem, tão parecido com o Sr. Oliveira, estava sorrindo para ela.
Contudo, Louise logo percebeu que havia algo diferente: não era o mesmo sorriso que estava acostumada a ver por tantas vezes. O sorriso era frio, não transparecia emoção nem calor humano. A face de seu pai estava diferente, parecia deformada, com o aspecto levemente torto para o lado esquerdo.
- P-pai?
A figura sumiu. As luzes imediatamente se reacenderam.
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