Akira - Segredos Entre céu e Inferno
4 Bruxelas
Há algumas partes vazias nas minhas lembranças. Partes ocas e deletadas na minha memória, que mesmo que eu me esforce o máximo, eu não consigo ocupa-las com nada.
Tenho doze anos e sou estranha.
Não estranha no modo de vestir, ou aquela garota tipicamente estranha da sua escola que parece se comportar estranhamente apenas para chamar a atenção para si mesmo de como é diferente de todas. Não, ninguém diria para mim que sou estranha, no máximo diriam que sou normal. Eu digo que sou estranha, por que o sou.
Eu tenho sonhos estranhos, envolta em fogo com criaturas anormais me rodeando. Tenho sonhos onde estou me banhando em sangue e me deleito com várias torturas que criaturas fazem com pessoas ao meu redor. Eu sou estranha, vejo coisas onde não há. Vejo pessoas esquisitas a minha volta, chifres em pessoas, asas em outras. O que está acontecendo comigo? Equizofrência, alucinações? Médico me receitam muitos remédios e eu os tomo. Funciona? não, mas eu gosto de toma-los para ter algo a que recorra, mesmo que a esperança seja falsa.
A última cidade em que moramos foi em Sidney, na Austrália. Era uma cidade quente, diferentemente de Bruxelas que na maior parte do tempo é fria. As pessoas cuidam da própria vida e isso é bom.
Ando pela rua, chuto um pouco de neve e tento não cair ao perder um pouco o equilíbrio por ter feito essa brincadeira boba. Me dirijo até minha casa. A escola é um saco, não tenho ninguém com quem falar. Nenhuma das garotas se aproximam de mim, Nora diz que estou em um período das trevas, onde exalo medo e as pessoas fogem de mim. Talvez ela esteja certa.
—Cheguei — Grito ao entrar em casa. Subo até meu quarto correndo e me jogo na cama. Não ouço o barulho de ninguém na casa. Onde eles estão?, penso. Geralmente sempre estão por aqui.
Fiquei um tempo deitada na minha cama, sem mover um dedo ou pensar em trocar a roupa que ainda estava um pouco molhada. Só me movi quando comecei a sentir fome, estava um pouco tonta e não sabia porque, mas era normal.
Desci até a cozinha e vi Nora sentada no sofá, lendo um livro antigo. Me aproximei dela, mas ela não se mexeu.
—O que está lendo — perguntei curiosa, tentando ver o livro.
Ela levantou os olhos e deu uma longa olhada para mim.
— Algo que está além do seu conhecimento — Ela disse pausadamente e suspirou — por enquanto — completou.
— Tudo está além do meu alcance — Reclamei com a cara fechada, indo para a cozinha.
—Traga algo para mim também — ela pediu ao me ver ir para a cozinha,
Entrei na cozinha e fucei a geladeira e resolvi fazer um sanduíche, dois se contasse o de Nora. Me entretive, fazendo o sanduíche quando percebi que o silêncio que fazia agora não era normal. Era um silêncio profundo, agonizante e assustador.Minhas mãos tremeram e senti uma coisa alisando minha perna. Me virei devagar para baixo e uma coisa vermelho escarlate, com garras e chifres e uma pele escamosas roçava minha perna. Deixei a comida cair e me afastei.
— Alucinação — falei tremendo — é só uma alucinação — Repeti, enfiando os dedos entre meus cabelos e os puxando para sentir a dor e voltar a realidade, mas não estava funcionando — alucinação..
A criatura se aproximou e percebi uma maior atrás dela, tinha patas negras em um corpo vermelho peludos com dentes afiados e garras maiores e vinha até mim.
—Nora!- grite em pânico, não conseguindo me mover e as lágrimas descendo pelo meu rosto — No..raa! -solucei e finalmente gritei em plenos pulmões.
Fechei os olhos e senti cacos de vidros rasgarem meu rosto e percebi que de algum modo, as janelas haviam se estilhaçados. Senti algo frio e molhado descer pela minha orelha e gritei mais com os olhos fechados.
—Vocês não deveriam entrar aqui- Ouvir a voz de Nora próxima. Tentei abri os olhos, mas não conseguia, senti um abraço e eu acho que desmaiei.
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