Agni havia tido grandes dificuldade de conter Soma, depois que o jovem príncipe havia descoberto que Ciel estava no navio. Sua dificuldade chegou a um ponto em que ele teve de nocautear seu mestre, tudo para que ele não atrapalhasse o disfarce do jovem conde e do mordomo. Agora ele estava sentado em uma cadeira, velando o sono de seu mestre. Olhando para aquele que lhe retirou do inferno, Agni sentia-se quase que um inútil, principalmente quando se lembrava do modo como Sebastian agia diante do pequeno conde.

O laço que havia entre aqueles dois era tão poderoso, que Agni não conseguia encontrar qualquer palavra que pudesse descrevê-lo. Seu laço com Soma parecia ser feito de pó quando comparado ao que única Sebastian e Ciel.

- Me pergunto o que há na história deles, que faz com que esse laço seja tão forte – falou para si mesmo, um pouco deprimido.

- Você não deveria ficar deprimido com algo assim, Agni-san – comentou Sebastian, aparecendo atrás do mordomo indiano de forma repentina, chegando a assustá-lo.

- Sebastian-dono! – exclamou Agni se erguendo da cadeira assustado, mas depois de lembrando do príncipe que ressonava na cama, voltando a abaixar a voz – Eu não o escutei entrar.

- Sou realmente silencioso quando desejo – afirmou Sebastian, sorrindo de forma malandra, como se escondesse um pequeno segredo. – Vim ver como você estava indo para conter o príncipe Soma, mas parece que está tudo sobre controle. Acho que me preocupei sem razão dessa vez.

Agni desviou o olhar para a cama, soltando um alto suspiro. Certamente não estava indo tudo tão bem. Havia precisado usado à força para conter seu mestre, que certamente acordaria com uma forte dor de cabeça e muito mal-humorado.

- Agni-san, preciso saber poderei contar com sua ajuda – falou Sebastian, surpreendendo o mordomo indiano.

- Minha… ajuda? – indagou, encarando o mordomo negro.

- Sim. Eu sei o que está cometendo esses assassinatos e pretendo terminar com isso ainda essa noite – afirmou o demônio, fechando os punhos com força. Sebastian ainda estava muito irritado com a situação, na verdade, nos últimos minutos ele conseguia sentir o cheiro fétido daquele mancubus impregnando o navio. Era óbvio para ele, que aquela aberração o estava provocando e isso o irritava ainda mais. – Por tanto, preciso saber se você está disposto a ajudar no que for preciso.

- Ajudarei no que precisar – afirmou Agni. Ele que já havia sido considerado um demônio por seus atos no passado e até mesmo blasfemado contra os deuses, estava mais do que disposto a parar aquele louco assassino, não importando quem fosse.

- É bom saber, já que nosso oponente não pertence ao mundo mortal, talvez eu vá precisar realmente da sua ajuda – declarou Sebastian, sorrindo de lado. Em uma situação comum, onde ele poderia usar todo o seu poder, certamente aquela situação não seria mais do que um minúsculo grão de areia em seu caminho. No entanto, ele estava em um contrato, e sob as leis daquele contrato ele não poderia assumir sua verdadeira identidade e usar todo o seu poder.

Agni arregalou os olhos ao escutar aquilo.

- Sebastian-dono… o que você quer dizer com isso? – indagou, não querendo acreditar no que aquelas palavras deveriam significar.

Sebastian não conseguiu conter um sorriso ao escutar aquela pergunta. Já era esperado que alguém normal se assustasse com uma declaração como aquela.

- Nosso oponente é aquilo que os humanos chamam de demônio – declarou, vendo o horror surgir na expressão do indiano.

- Im… impossível… — murmurou, sem conseguir acreditar nas palavras ditas pelo mordomo negro.

- Eu pensava que você acreditava na existência de deuses e demônios, Agni-san – comentou Sebastian, sem conseguir a ironia em suas palavras.

Agni estava um pouco atordoado com aquilo. Ele sempre acreditou na deusa Kalli, mas saber que aquilo que estava enfrentando era um ser que não deveria viver entre humanos, o deixava realmente transtornado.

Sebastian estava prestes a continuar com o que estava falando, quando sentiu como se uma lâmina perpassasse por seu corpo. Seus olhos se arregalaram e seu sangue gelou.

- Sebastian-dono, está tudo bem? – indagou Agni, que havia percebido a mudança da expressão no rosto do mordomo do conde.

Sebastian não respondeu. Virou-se e saiu correndo pelos corredores. Sua expressão era de medo e terror. Não podia ser aquilo que estava pensando. Não poderia.

Agni se preocupou ao ver a reação daquele que considerava ser um grande amigo. Correu atrás dele, alcançando-o apenas quando já estavam no deck do navio, mas a cena que presenciou não era nada agradável.

A alguns metros deles, estava Ciel que usava um roupão preto levemente grosso e a três metros de distância do menino, estava um homem de cabelos vermelhos longos e uma mexa branca. Seus olhos eram de um tom roxo avermelhado e o sorriso que ele dava era doentio. Quando Agni olhou mais atentamente, viu que o braço do homem estava estendido e deformado em forma de uma longa lança, perfurando o abdome de Ciel.

- Bocchan! – gritou Sebastian, correndo na direção de Ciel, a tempo de amparar a queda do corpo de seu pequeno mestre.

~*~ Alguns minutos antes… ~*~

Ciel gemeu na cama, acordando pouco depois do que Sebastian havia feito consigo. Virou-se na cama e observou o teto do quarto em que estava hospedado, mas sem realmente vê-lo. Seus pensamentos corriam soltos, enquanto repassava tudo o que já havia vivido. Para ele, mas coisas agora eram dividias em duas eram: a.S. e d.S. Antes de Sebastian e depois de Sebastian.

Sua vida antes de conhecer aquele demônio era normal. Uma mãe… um pai… uma pseudonoiva. Uma família nobre como tantas outras que residiam na Inglaterra. Se o incêndio na mansão e o assassinato de sua família não houvessem ocorrido, certamente teria uma vida completamente diferente da que tinha naquele momento. Provavelmente, estava em casa, escutando alguma história que sua lhe contaria, ou brincando com Elizabeth.

Mas o incêndio havia acontecido. Sua vida havia mudado completamente. Havia experimento o amargor da humilhação. Havia chegado ao fundo do poço e quando já não tinha mais forças… ele apareceu.

Sebastian surgiu em sua vida. Um demônio que lhe prometeu lhe dar sua vingança em troca de sua alma. Havia aceitado sem pensar duas vezes, simplesmente porque não tinha mais nada a perder. A única coisa que desejava, era dar aqueles que lhe humilharam o mesmo destino que havia tido.

No começo, tinha nojo e raiva do demônio com quem havia feito o contrato. Havia lhe dado aquele nome, simplesmente porque havia sido o nome de seu cachorro que havia morrido no incêndio da mansão. Sim. Havia pensado que seria melhor daquele jeito. Tratar Sebastian como um cão e odiá-lo para sempre. Mas não foi isso que aconteceu no final.

Sebastian se tornou seu porto seguro. Por mais que tentasse negar, era a ele que chamava quando os pesadelos daquela época negra lhe atormentavam à noite. Era Sebastian que lhe dava os únicos gestos de carinho que tinha, desde a morte de seus pais e era só dele que aceitava esse carinho.

Sebastian se tornou mais do que um mordomo. Mais do que um instrumento para conseguir sua vingança. Sebastian havia se tornado algo muito além do que um demônio, que devoraria sua alma quando o fim chegasse.

O ato que haviam cometido naquele dia, era mais do que a prova. Ciel sabia que o ter seu corpo tocado e marcado pelo demônio, era algo que ele jamais aceitaria de qualquer outra pessoa. Não se importou que seu orgulho e honra fossem esmigalhados, no momento em que pediu e gritou pelo nome do demônio. A única coisa que o atormentava no momento, era não saber o que realmente significava para o demônio.

As histórias sobre demônios que sempre havia escutado, diziam que eram seres incapazes de sentir qualquer tipo de amor. Que era seres frios, que só desejavam desviar as pessoas dos caminhos corretos. Seres que não conheciam o amor… seres incapazes de qualquer sentimento dito humano. Se fosse realmente assim… o que Sebastian sentia por ele?

Estava prestes a chamar pelo mordomo, quando escutou um grito escandaloso que havia reconhecido como o do Shinigami Grell. Ergue-se da cama e vestiu o primeiro roupão que pode encontrar, afinal, nem se dependesse de sua vida, conseguiria vestir aquela roupa de garota.

Saiu do quarto e correu na direção de onde havia escutado o grito, chegando ao deck do navio. Para sua surpresa, haviam vários corpos jogados em todos os lados, enquanto Grell corria de um para o outros, riscando em um caderno em sua mão. Obviamente o Shinigami estava fazendo seu trabalho de recolher as almas. Mas o que Ciel ficou olhando fixamente, era para um homem que estava parado no meio daqueles cadáveres.

Por sua aparecia, podia se julgar um homem suntuoso. Tinha os cabelos castanhos arruivados em um corte rente. Usava um terno risca de giz. Os olhos eram de um tom castanho dourado pelo. Tudo nele apenas indicava ser um humano comum e belo, mas Ciel tinha certa experiência, por isso sabia que não era apenas um humano. E no momento em que os olhos do homem se fixaram em si, e um sorriso maligno surgir nos lábios do homem.

- Sinto o cheiro de um demônio em você – declarou ele, dando uma gargalhada. – Parece que alguém foi marcado recentemente.

Ciel estreitou os olhos. Aquele era o demônio sobre o qual Sebastian havia lhe contado.

- Você é o mancubus que tem matado as mulheres para se alimentar – declarou, não se intimidando pela presença do demônio. Vivia com um demônio por quase quatro anos, não tinha como se intimidar aquele a sua frente.

- Hm… parece que alguém fez o dever de casa – zombou o demônio, erguendo a mão e passando-a sobre os cabelos.

Quase como mágica, a aparecia do demônio se modificou. Seus cabelos se tornaram longos, em um tom vermelho, exceto por uma mecha grossa branca em sua franja. Seus olhos adquiriram o tom roxo avermelhado. Suas unhas se mostraram negros e longas, enquanto sua roupa também havia mudado. Agora ele usava uma camisa sem mangas, parecendo ser de couro negro, com vários adornos de metal. A calça era do mesmo material, rasgadas em vários pontos e seus pés eram encobertos por botas militares de couro verde-escuro.

- Você também deve ser delicioso, já que um demônio pareceu se alimentar muito bem do seu corpo – comentou o mancubus, sorrido de forma psicótica. – Certamente parece ser muito mais apetitoso do que aquelas mulheres que eu devorei.

- Hunf… sinto muito, mas eu não vou ser sua próxima refeição – declarou Ciel, com um sorriso presunçoso nos lábios. – Sebas…!

Antes que Ciel pudesse chamar o nome do mordomo demônio, sentiu uma dor dilacerando em seu abdome, quando olhou para baixo, viu que o braço do mancubus havia se transformado em um lança, perfurando seu corpo.

Segundos após ter seu corpo perfurado, sentiu a lança sendo puxada e não conseguiu ter mais forças para se conservar em pé. Bambeou para trás, escutando o grito de Sebastian e sendo amparado pelo mordomo.

Abriu os olhos de forma lenta, sentindo que estava perdendo suas forças lentamente. Viu o rosto de seu mordomo… Sebastian sempre havia sido um mestre em esconder suas expressões e dissimular sentimentos, mas Ciel podia afirmar que, naquele momento, tudo o que transpassava pelo rosto do demônio era real.

Medo. Desespero. Raiva.

- Me… meireida… — murmurou com dificuldade, olhando para o demônio a sua frente. – Faça… faça o que for preciso… e… e mate esse… mancubus…

Sebastian escutou a ordem e viu Ciel fechar os olhos em seguida. A raiva queimou em seu corpo, como nunca antes havia queimado antes. Uma raiva que nunca havia sentido. A raiva foi grande o bastante para que o selo do contrato se rompesse naquele segundo, fazendo com que chamas negras surgissem e envolvessem seu corpo e o do menino em seus braços.

O mancubus olhava a cena e pouco a pouco sua expressão de prazer e zombo se desfazia, assumindo uma de desespero e pavor.

As chamas negras queimaram o corpo humano que Sebastian usava, fazendo com que sua verdadeira aparecia fosse revelada. As assas de penas negras surgindo e batendo para afastar o fogo. Sua roupa se tornando de um material mais fino do que a seda, em um tom completamente negro. Uma calça lisa e uma camisa com adornos em cinza chumbo, apenas um tom mais claro do que a roupa, tudo coberto por um sobretudo negro. Suas unhas negras ficaram mais longas e seus olhos adquiriram o tom vermelho demoníaco que realmente tinham. Seus cabelos se mostraram realmente longos, lisos e parecendo ser de um negro muito mais denso do que em sua forma humana. As presas haviam crescido em sua boca, enquanto a mantinha aberta, liberando pequenas dozes de ar.

Seu olhar se ergueu para o mancubus a sua frente, que parecia finalmente ter percebido quem era o demônio que havia acabado de irritar. Tarde demais para se arrepender. Tarde demais para fugir.

Sebastian olhou para o menino inconsciente em seus braços. Sabia que ele ainda estava vivo, mas não resistira por muito tempo. Tocou a face infantil e proferiu as palavras para aceitar a ultima ordem que recebeu sob o contrato.

- Yes… my lord…

Notas finais
Nossa.... alguém mais ficou sem folego além de mim nesse capítulo?
Meu coração ta batendo que nem loco até agora '-'
Juro que não havia planejado chegar a isso, mas quando notei, já tinha escrito. Na verdade, eu esperava enrolar um pouco mais e não colocar o Ciel em perigo assim, mas acabou saindo =P
Agora quero saber o que vocês acharam ^^
bjj
=*