Akairo No Nensho
4 Capítulo 4
O sorriso que todos davam eram mentiras bem ensaiadas. Os olhares carinhosos eram apenas encenações. Ciel também era um bom ator, que podia fingir seus sorrisos e seus olhares inocentes. Talvez fosse por isso que ele soubesse distinguir tão bem aquelas encenações mal feitas.
Soltou um suspiro cansado. Não suportava mais aquele mundo. Sua vingança, apesar de ainda deseja-la, já não lhe apetecia mais como antes. Era um prato que estava demorando demais para ser preparado pelo chefe, e ele já estava tentado a chamar mais uma vez o garçom e pedir outra coisa. Ele só não sabia como fazê-lo.
- Minha doce lady não deveria estar sozinha aqui – sussurrou Sebastian, se aproximando pro trás de Ciel e o envolvendo pela cintura, fazendo com que seus corpos se aproximassem um pouco mais. – Algo está lhe preocupando?
- Betsu ni… — murmurou, não poderia jamais dizer seus pensamentos aquele demônio, pois no momento em que o fizesse, sabia que Sebastian o deixaria para trás. E isso era algo que ele não desejava. Ciel se negava a perder a única pessoa que jamais lhe enganaria. A única pessoa que não encenava sorrisos e olhares. — Descobriu alguma coisa? – perguntou sussurrando baixo.
- Infelizmente, nada de revelador – respondeu o mordomo, olhando com atenção para seu pequeno mestre. Ele sabia, como ninguém, diferenciar as mentiras e as verdades que Ciel falava. – O nome da garota era Alexandra Stonking. Filha de um arquiduque com investimentos em exportação de tecidos. Segundo o que descobri, Lady Alexandra estava nesse navio escondida do pai, pois ela gostaria de viver uma aventura de amor antes de se ver presa a um homem que não amava.
- No final, sua aventura de amor terminou com sua morte – suspirou Ciel, desvencilhando-se dos braços de Sebastian e se aproximando da grade de proteção do deck do navio, se apoiando nela e observando a paisagem. – Amor… esse é um sentimento traiçoeiro, não é mesmo?
- De todas as emoções humanas, certamente esse é o mais traiçoeiro de todos – concordou Sebastian, soltando uma leve risada. – Ao mesmo tempo em que pode trazer felicidade para algumas pessoas, pode trazer dor, tristeza e morte para outras.
- Madame Red também foi morta por esse sentimento – comentou, relembrando da morte de sua tia. – Assim como Cecilie.
Sebastian olhou atentamente para seu bocchan. O contrato que os unia era um elo que os ligaria até que o fim chegasse. Por ele, Sebastian faria todos os desejos de seu mestre uma realidade. Foi por esse desejo que reconstruiu a mansão Phantomhive. Foi por ele que cumpriu cada pedido tolo e desejos infantis. Mas havia um tipo de desejo que ele jamais seria capaz de cumprir.
- A morte de Lady Cecilia ainda o perturba? – indagou, sabendo que aquilo era uma realidade.
- Um pouco – admitiu, soltando um pequeno suspiro triste, se virando para encarar Sebastian. – Ela era… uma boa amiga.
- Para você considera-la uma amiga, certamente faz com que Lady Cecilie seja muito especial – comentou Sebastian, vendo o menor lhe lançar um olhar irritado. – Especial o bastante para sentir a morte dela, mais do que sentiu a morte de Madame Red. Ainda mais especial para usar o nome dela como um disfarce. Lady Cecilie era a única que via você como realmente é, não é mesmo?
Ciel virou o rosto, um pouco envergonhado daquela verdade. Sim, uma verdade. Lady Cecilie Mountbatten, filha do Conde Mountbatten, era uma das poucas pessoas que Ciel considerava importante. Haviam se conhecido em uma festa em que Sebastian o obrigou a ir. Lá conheceu a gentil e sonhadora Cecilie, três anos mais velha. Depois daquilo, os dois se tornaram amigos e viviam por conversar em sua mansão em pequenos encontros amigáveis. Lembrava-se, envergonhado, da cena que Elizabeth havia feito ao encontrados no jardim tomando chá ao som de violino.
Cecilie era uma pessoa que Ciel quis proteger, mas que acabou sendo morta. Lembrava-se das queixas dela, sobre ter que se casar com o Barão Austren, que tinha duas vezes sua idade. Ela queria viver o amor de um conto de fadas, e seu desejo só lhe trouxe a morte.
- Talvez eu deva supor que ela foi um dos seus amores – comentou Sebastian, tentando disfarçar o ciúme com a ironia.
- Não seja idiota – rosnou Ciel, sentindo sua face corar com aquela suposição. – Eu gostava de Cecilie… ela lembrava um pouco a minha mãe. Apenas isso.
Sebastian ficou sério ao escutar aquilo. Ciel tentava esconder, mas o mordomo via muito além. Ele via a insegurança e a incerteza nos olhos do seu pequeno conde.
- Bocchan, talvez… — Sebastian sabia que suas palavras pesariam muito na balança do destino, mas estava disposto a falar, no entanto não pode.
Naquele momento, uma dama de companhia veio correndo na direção dos dois. Ela tinha os cabeços castanhos longos, presos em uma trança comportada. Os olhos cor-de-mel repletos de pavor e medo.
- Lady Cecilie? – chamou ela, olhando com medo para Ciel.
- Sim, algo errado? – indagou Ciel, lembrando-se de fazer sua voz soar mais feminina.
- Rápido… Maylene…
Ciel não deixou que ela terminasse. Apenas escutar o nome da empregada, foi o bastante para ele entender que alguma coisa havia acontecido com ela. Segurou a saia do vestido e correu na direção de onde a dama de companhia havia vindo, Sebastian em seu encalço.
Os dois chegaram até uma pequena cozinha usada pelas damas de companhias, onde havia muitas pessoas bloqueando a passagem. Com dificuldade, Ciel abriu caminho entre as pessoas, para então se deparar com uma cena que não havia imaginado.
Sebastian surgiu atrás de seu mestre, olhando a cena completamente surpreso. Jogada no chão, estava Maylene com o peito coberto de sangue. Via o modo como ela respirava com dificuldade, como se estivesse lutando para se manter viva por mais alguns minutos. Ao lado de seu corpo estavam as duas pistolas que ela sempre carregava por debaixo da saia. Ela havia tentado se defender e lutado como uma serva dos Phantomhive.
- Maylene! – gritou Ciel, correndo em direção a empregada e se abaixando.
Ela abriu os olhos, vendo a expressão de seu mestre. Forçou um sorriso naquele momento.
- Gomensai… bocchan… — sussurrou ela, fraca demais para produzir palavras mais altas. – Eu realmente… sou uma… serva… horrível… não sirvo para… nada…
Ciel ficou em pânico naquele momento. Viu Maylene tossir e cuspir pequenas quantidades de sangue. Era grave. Seu olhar se dirigiu a Sebastian, perguntando em silêncio se ele era capaz de fazer alguma coisa. O olhar do demônio foi claro: ele não poderia salvá-la.
- Bocchan… — chamou Maylene, fazendo com que o olhar o menor se voltasse para ela. – Tome… cuidado… ele… ele não é… humano…
Ciel olhou enquanto via Maylene morrer a sua frente. Não lhe foi permitido fazer nada. Suas pequenas mãos apertaram a saia de seu vestido, sujo pelo sangue. Seus olhos arderam, mas as lágrimas não caíram. Já fazia muito tempo que ele não sabia o que era chorar, por isso nem mesmo uma lágrima deixou seus olhos.
Sebastian se aproximou por trás, segurando Ciel pelos ombros e o puxando para seus braços. A brincadeira havia terminado naquele momento. Sebastian estava começando a se irritar demais agora. Seus olhos se fixaram na empregada morta. Maylene era habilidosa o suficiente para matar qualquer um que fosse humano, por mais forte que ele fosse. Mas quando se tratava de inumanos, ela jamais teria alguma chance. O que significava que suas suspeitas estavam certas.
- Sebastian-dono.
Sebastian ergueu os olhos para ver quem o havia chamado, deparando-se com Agni junto com o príncipe Soma parados em meio à multidão. O olhar dos dois indianos era de puro horror. Humanos que não conheciam aquele mundo negro, sempre se espantavam com coisas assim.
- Está tudo bem – afirmou Sebastian, mesmo sentindo que o corpo de seu mestre tremia contra o seu. – Agni, apenas fique de olho em Soma. O jogo ficou mais perigoso – falou a última parte em um sussurro baixo, que apenas os dois indianos puderam escutar. – My lady, vamos sair daqui – sussurrou, guiando Ciel para fora daquele lugar.
oOo
Sebastian levou Ciel de volta para o quarto, mas no momento em que abriu a porta, foi surpreendido por uma coisa vermelha que saltou em sua direção. Mas graças a sua velocidade privilegiada, conseguiu desviar, fazendo com que a ‘coisa’ batesse contra a parede. Deveria estar surpreso, mas não estava. A ‘coisa’ era Grell. Parece que ele era o Shinigami responsável por buscar as almas das pessoas que morreram e morreriam naquele navio.
- Ah… Sebby-chan tão tímido – gemeu Grell, saltando novamente na direção do mordomo que mais uma vez desviou com precisão.
- O que faz nesse quarto, Grell? — indagou o demônio, olhando com nojo para o Shinigami.
- Ara… eu vim fazer uma visitinha para o meu amorzinho – respondeu ele, piscando na direção de Sebastian, só agora notando a ‘bela dama’ nos braços do mordomo. – QUEM É ELA?! – gritou, apontando para Ciel.
Sebastian soltou um suspiro e olhou para seu bocchan, que parecia um pouco mais irritado. Pelo menos não estava mais depressivo, pensou sorrindo de lado. Para alguma coisa a presença de Grell parecia ter servido.
- Hein! Quem é ela?! Você por acaso está me traindo?! – gritou o Shinigami, apontando nervosamente para Ciel.
Ciel ergueu os olhos azuis enfurecidos para o Shinigami, fazendo com que ele então percebesse pela marca do contrato no olho do garoto, lhe respondendo quem era ‘ela’.
- Sebastian, coloque esse traste para fora do quarto – ordenou, se desvencilhando dos braços do mordomo e se afastando um pouco.
- Perfeitamente – afirmou Sebastian, se dirigindo até Grell e o pegando como se fosse um trapo imundo e o jogando pela porta, para então fechá-la.
Os gritos de indignação do Shinigami se fez ouvir através da porta, mas que foram prontamente ignorados por aqueles que permaneceram no cômodo.
Sebastian olhou para seu pequeno mestre. O vestido, que antes era de um lido tom azul-bebê, agora estava com grandes manchas vermelhas. Aquele teria de ir fora, pensou o mordomo, soltando um suspiro. Seria uma pena.
- Meireida… — sussurrou Ciel, mas alto o bastante para que o demônio escutasse, virando-se para encará-lo da forma mais decidida que podia. – Faça qualquer coisa para que eu pare de pensar!
Sebastian sentiu uma vibração passar por seu corpo ao escutar aquela ordem. Os olhos chorosos e o ar decidido. Sorriu de forma diabólica, se curvando diante de seu pequeno mestre.
- Yes, my lord!
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