Akai Ito (Fio Vermelho) - Primeira Temporada

7 Capítulo 7 – Um lugar para chamar de lar


Notas iniciais
Hannah: Olá! Meu final de semana passou rápido demais... Poxa... Eu o quero de volta. Bem, para fechá-lo com chave de ouro, segue mais um capítulo de Akai... Esperamos que curtam e não deixem de comentar.
Estamos muitos felizes pelo retornar que estamos tenda da história, e isso tem nos feito escrever bem rapidinho.
Um beijo para todos e boa leitura

Capítulo 7 – Um lugar para se chamar de lar


Nanami olhava para o lobo a sua frente. Ele não entendia bem. A festa estava legal, tinha feito até mesmo um amigo, então por que estava indo embora?


Ele corou ao olhar para sua mão e vê-la envolvida na grande mão do Alfa. Ela era quente e de alguma forma sentia-se protegido estado assim com ele.


Não reparando por onde andava, pela terceira vez, o gatinho tropicou em uma pedra, e novamente foi segurado por Kensuke.


— Céus, você por acaso tem dois pés esquerdos? — Kensuke perguntou suspirando. Considerando que nunca chegariam ao destino se o loirinho continuasse a tropeçar-nos próprios pés, ele largou a mão dele, apenas o suficiente para tomá-lo em seus braços.


— Não! Coloque-me no chão. Não... — Nanami gritou. Com medo agarrou o ombro do Alfa e fechou os olhos com força. Aquela situação era tão vergonhosa.


— Quieto! Assim será mais rápido chegarmos a casa. — Kensuke disse firme. Agora ele passou a andar mais rápido. Não pode deixar de reparar que o gato era leve, mesmo pequeno, deduziu que o achava abaixo do peso. Ponderou se no castelo faziam o príncipe passar fome.


Nanami abriu a boca para resmungar novamente, mas dela nenhum som saiu. Seus olhos azuis fixaram na bela casa diante de si. Ela não era grande, mas certamente era a mais bela que já viu. Toda feita de madeira, ela tinha dois andares e grandes janelas de vidro. A frente possuía uma varanda grande que ladeava toda a casa e uma pequena escada, e nas vigas de madeira, haviam trepadeiras com pequenas flores rosa desabrochadas. E Nanami amava rosa. Apesar de ser inverno, Nanami se perguntou como tais flores estavam vivas.


— Que linda! E tem florzinhas rosa. Eu amo rosa! Quem mora aqui? — Ele perguntou admirando. Ele queria perguntar ao dono se poderia dar apenas uma olhadinha em seu interior. Era muito linda.


Kensuke deu um pequeno sorriso. — Esta é a minha casa, a construi para quando tivesse a minha própria família. — Disse com orgulho.


— Oh! Ela é linda...


— É nossa!


— Como? — Nanami olhou para ele sem entender.


— Oras, oficialmente estamos casados, logo, como meu esposo, é a minha família agora. E esta casa é nossa. Não gostou? — Kensuke perguntou subindo o pequeno lance de escadas.


— Eu... Amei! Eu nunca... — Parou antes que falasse besteira. “Nunca tive uma casa tão linda. Quem sabe eu possa ser feliz aqui!”


Kensuke deu um sorriso, o qual não foi percebido pelo outro. Sem tirar Nanami dos braços, ele abriu a porta e tomou o interior da residência. — Amanhã terá chance de explorá-la, agora temos que consumar o casamento.


— Uhh! Consumar? Como? — Nanami perguntou ingenuamente.


O lobo seguiu para o segundo piso entrando em um espécime de quarto. Era amplo e detinha o maior futon que Nanami já tinha visto na vida.


Kensuke depositara o menor sobre a espaçosa cama, arrumada com lençóis de seda pura, na cor vermelha. O viril homem retirou a sua própria camada de kimono, caminhou em sentido ao leito, pondo-se de joelho sobre a cama.


Nanami assustou e engatinhou para trás. — E... O que foi? Fiz algo errado?


— Vai me dizer que no castelo não te ensinaram o que acontece com duas pessoas quando se casam? — Kensuke perguntou com sorriso predatório nos lábios. O lobo não se importou com o olhar temeroso do menor, ao que se pôs perto dele, sentando-se sobre as pernas, e puxando a delgada cintura, fazendo Nanami ficar de joelhos, juntando o pequeno corpo ao seu, envolvendo-o em seus braços.


— Me solte! — O gatinho gritou. Ele não entendia o que estava acontecendo. Tudo parecia estar indo bem, mas de repente...


— Sou o seu marido. Não precisa me temer, serei gentil. — Kensuke ditou.


— N-não... Então me solte! — Falou Nanami, não entendendo a mudança no olhar e o por que do homem estar agindo daquele jeito bruto.


— Deixe-me ajudá-lo a retirar as suas roupas.


— Por que todos têm mania de mandar tirar a roupa? Tarados! — Nanami ergueu sua mão, esbofeteando o lobo com toda a força que possuía, mas, inexperiente, apenas deixou o local, levemente vermelho. Em seu desespero foi com a intenção de desferir outro tapa, mas sua mão, habilmente, foi segurada, interrompendo a continuidade do ato. — Largue-me! — Gritou se surpreendendo ao ver que seu punho fora segurado pelo outro.


Kensuke segurou firme o pulso do príncipe e o puxou para perto de si. Os dois achavam-se de joelhos sobre a cama, na penumbra que somente era quebrada pela luz da lua adentrando pelas janelas de vidro do local, emoldurando os dois corpos com sua aura misteriosa. Sem pestanejar e movido por seus mais profundos desejos, o lobo colou os seus lábios no ouvido do menor, segurando com a outra mão a cintura dele.


— Como eu dizia... Você é meu esposo, e iremos consumar o casamento... Não quero ouvir de sua boca, nada além dos gemidos mostrando que você me quer. — Falou Kensuke com sua voz grave, num tom mais baixo e sensual, unido a um sorriso malicioso desenhado em seus lábios finos.


Os olhos azuis como o mar bravio fitaram os negros de Kensuke, perdendo-se no olhar um do outro, estreitando o contato dos corpos que se moveram ansiosos, ao som das respirações ofegantes.


— Me solta! — Falou Nanami irritado, sentindo terror pela atitude do lobo que agia de forma agressiva, longe do homem gentil que dera a sua palavra de não machucá-lo.


— Hum... Então o doce pequeno príncipe, sabe provocar, mas teme assumir o que realmente quer... — Kensuke falou sensualmente, revelando um leve sarcasmo no comentário acintoso.


— O que você... Pretende... Fazer? — Nanami perguntou, com uma expressão aflita.


Não ouviu nenhuma resposta da parte do marido, apenas sentiu o apertá-lo mais junto a si. Sentiu a fragrância suave e amadeirada que o corpo maior exalava. Arregalou os olhos, antevendo o que o lobo faria a seguir.


— Quero render-me ao desejo que tem me consumido... Realizar todas as minhas fantasias com você... — Kensuke sussurrou, acariciando as costas do gato.


Sua decisão de ir lentamente foi esvaindo, sem entender, Kensuke sentiu um desejo desconhecido crescer dentro de si... Ver aqueles olhos que brilharam quando encontraram os seus, a face rubra que inspirava inocência e sedução. Mandou seu autocontrole para o inferno, deixando-se inflar pelo instinto selvagem, e desesperado.


— Não! — Nanami implorou tentando soltar-se dos braços fortes, mas sentindo que seus movimentos eram em vão, não tinha chance contra a força do outro.


Kensuke apertou mais a cintura de Nanami, deixando seus corpos mais unidos. As respirações se encontrando, as bocas próximas. O gato desnorteado sentia o hálito quente de Kensuke em seu ouvido, o corpo dele pressionando o seu. Seu coração disparou e ele esperneou, tentando se soltar. Lembrando, da experiência íntima que já havia acontecido entre eles.


— Me solta... Você me enganou! — Praguejava Nanami sem se render. Não sabia por que o outro agia assim... A sua felicidade naquela bela casa parecia tão real há poucos minutos, mas agora desmanchava diante de cada toque daquele homem.


Nanami parou de imediato de se debater, ao sentir a língua de Kensuke em sua bochecha, até que chegou a sua orelha, mordiscando-a. Tentou falar algo, mas sua voz não saiu. Antes mesmo de poder dar uma resposta, os lábios foram cobertos pelos do mais velho, que se deleitava com o sabor da boca pequena e macia do menino. Como sentira ânsia de tomá-lo novamente, viciara no sabor sublime que ele detinha.


O belo loiro sentiu as suas costas chocando-se contra o macio colchão novamente. Havia caído com tudo, por ter sido empurrado pelo lobo. Sentiu então o peso do outro sobre si, e os cabelos negros que emolduravam a pele clara, onde as mechas escuras caiam sobre os ombros de Kensuke, dando-lhe um aspecto sedutor ainda maior.


— Saia de cima de mim! — Disse Nanami apartando o beijo e falando alterado, remexendo-se, mas tal movimento apenas piorava a sua situação.


Kensuke não ouvia, continuava ensandecido de paixão. Segurou as mãos de Nanami, colocando-as acima da cabeça, ficando a fitar os olhos azuis, mergulhando dentro daquelas íris tão bonitas. Mantendo o jovem seguro, distribuía beijos pela face corada, logo depois passando para o pescoço, dando suaves chupadas, deixando a pele avermelhada e sorrindo com as pequenas marcas que deixava na pele aveludada.


— Não... — Nanami gemia sentindo o coração bater tão descompassado que não conseguia respirar direito.


— Vou fazer amor com você... De um jeito que jamais se esquecerá... — Sussurrou Kensuke no ouvido do jovem, deixando que seu hálito quente tocasse a pele sensível.


Nanami estava em choque. Uma angústia e apreensão tomavam conta de seu ser, tremia levemente, já não podia mais evitar que as lágrimas banhassem seu rosto delicado.


O jeito meigo, valente e impertinente de Nanami atiçava o desejo do lobo.


Suas mãos calejadas e fortes deslizavam por todo o corpo, tocando, apertando... Sua boca deliciava-se na pele sedosa, nos lábios inchados pela violência com que o devorava. Aos poucos sentiu que o corpo menor parava de ser debater, possivelmente rendendo aos seus toques. Deixou de sugar-lhe o pescoço, para visualizar a perfeita face, mas o que viu, o fez voltar à razão. Nanami estava com o rosto coberto de lágrimas que caiam, seu olhar da cor da ametista escurecera de medo, raiva e decepção.


Bruscamente, o lobo levantou-se, afastando-se do corpo que tremia encolhido sobre a cama. Sentiu nojo de si mesmo ao ver o menor atordoado pela atitude que tomara. A tristeza visível nos belos olhos que o encantavam e que agora se afastavam dele com um medo sombrio.


Seus olhos para o corpo menor. O kimono bagunçado deu margens para que as pernas, ombros e braços ficassem a mostra, e não passou despercebido por Kensuke os ferimentos, hematomas que marcavam a pálida pele.


— O que... Quem o machucou?


— N-não... Seu bruto... Nojento. O que pensar está fazendo? Seu tarado! — Nanami gritou ainda com lágrimas manchando sua face.


Ele sentou ajeitando o tecido em seu corpo, escondendo a sua nudez dos olhos predatórios. Mesmo que estivesse tentando não se mostrar tão vulnerável aos olhos do mais velho, estava praticamente falhando à medida que soluços cortavam o silêncio.


Kensuke estava em completa revolta, seus olhos estavam apertados e suas mãos em punhos de cada lado. — Quem fez isso com você, Nanami? Você foi... Abusado?


O gatinho tremeu ao som de sua voz grave, ele se cobriu melhor com seu próprio kimono e se enrolou em uma bola, tremendo visivelmente e ignorando as perguntas do lobo.


Kensuke ainda abriu os lábios para dizer algo mais, só que pelo jeito Nanami não viria a responder-lhe, o que lhe fez imaginar as coisas mais horríveis.


Céus! Seu irmão tinha lhe jurado que Nanami era virgem, apesar de Kensuke não ter visto com seus próprios olhos e não iria fazer agora, mas isso não explicava o porquê de todas as suas manchas e lesões visíveis em seu corpo frágil.


Nunca que imaginou que perderia a paciência tão facilmente, logo na primeira noite em que passaria com aquele que tinha sido destinado a ele. O Alfa lobo havia se preparado nesses últimos dias, tanto para receber o príncipe de Masao, assim como para esta noite em que ele pretendia ter o pequeno em seus braços e fazê-lo seu.


Mas nada saiu como ele previa, vendo o menor chorar, Kensuke foi contra um desejo vago que surgiu dentro dele de repente, de abraçar o pequeno corpo e sussurrar um "tudo bem" para que ele se acalmasse.


Pena que nada disso ele conseguiria agora, ainda mais quando estava tão nervoso e prestes a explodir.


Saindo de seu quarto, ele iria dormir na sala. Não havia ninguém em casa neste momento, principalmente porque era a noite especial em que ele deveria estar lá em cima cuidando de seu esposo.



-oo0oo-



Suas mãos esfregaram os seus olhos verdes tentando limpar as lágrimas que insistiram em debulhar e atrapalhavam a sua visão.


Seguido pela escuridão dos corredores, ele correu de volta ao seu quarto, e sem se importar em fechar a porta, ele abriu o closet e tomou um kimono qualquer e uma bolsa. Sem cuidado para vestir-se perfeitamente como sempre fazia, Sayuri vestiu as três camadas de kimono, e prendeu com a faixa de seda. Vestiu as meias, calçou o tamanco e tomou uma capa preta. Ajeitando certinho sua roupa, ele colocou dentro da bolsa alguns pertences como: Cachecol, luvas, algumas das suas joias, dinheiro e comida para os gatinhos. Depois tomou um coberto azul.


Ele aproximou dos dois gatinhos em seu futon e os enrolou juntinhos, assim os ajeitou dentro de sua mochila.


— Vamos fazer um pequena viagem. Logo estarão com a mamãe! — Disse para os gatinhos, referindo-se a Nanami.


Sayuri colocou a bolsa no ombro e saiu do quarto. Ele olhou para o corredor com cuidado garantindo de que não havia nenhum guarda. Não tendo ninguém a vista, ele saiu com cuidado e apressadamente. Nada ou ninguém iria impedi-lo de salvar Nanami.


A dor apegava em sua calma, a dor da traição, não podia acreditar que seu pai havia sacrificado um inocente para salvá-lo. Não que Sayuri desejasse ser vendido como tratado de paz para a matilha de lobos, mas certamente não aceitava que seu amado amigo fosse ao matadouro.


Encolhendo diante do frio noturno, Sayuri ganhou distância pelo belo jardim oriental do palácio. Aproveitando da escuridão, ele seguiu pelo caminho conhecido que sempre usava quando fugia do castelo para ver Nanami.


Ao chegar ao limite do grande muro, ele dobrou a barra da kimono entre as pernas, ajeitou a bolsa no ombro e escalou a árvore de cerejeira. Com custo, conseguiu subir, pisou com a pontinha dos pés sobre o muro, e devido a sua agitação emocional, perdeu o equilíbrio... Por pouco não foi de encontro com o chão, mas por sorte no último instante conseguiu se equilibrar.


— Meow! — Preciosa e Lobo miaram assustados.


— Shii! Tudo bem! Vamos ficar bem. — Sayuri disse com a voz embargada. Com cuidado, conseguiu soltar-se do muro e aterrissar no chão. Se auto abraçou, olhou ao redor para garantir que não era descoberto, e voltou a correr. Usando todo o seu fôlego, ele colocou suas pernas para moverem e correu muito além de sua capacidade.


Era ciente que com a armada nos portões da cidade, não conseguiria escapar pela entrada principal, então seguiu para a brecha no grande muro que há alguns anos atrás haviam encontrado junto com Nanami, na exploração que sempre faziam.


“Me espere Nana-chan! Estou chegando” — Murmurou em pensamento, desejando que sua determinação alcançasse o seu amigo. Após alguns minutos correndo na calada, o que pareceu horas, ele chegou à porta do parque florestal, dentro da cidade, e assim foi a sua brecha de escape. Ferindo as mãos, retirou os galhos do caminho encontrando o buraco mediano, mas o suficiente para ele.


Sayuri olhou para trás, olhou as belas casas, os postes iluminados pelas lamparinas e o rugir do vento. O seu povo dormia enquanto fugia. Sabia que para um gatinho que nunca tinha saído do limite da cidade, sempre rodeado de servos e luxos, além de constantes cuidados, fugir daquela forma era como assinar sua sentença de morte, mas nada o impediria de salvar seu amado amigo.


“Me perdoa...” — Sayuri clamou em pensamentos. Ajeitou a barra do kimono azul florido que vestia, acariciou a cabeça dos gatinhos que estavam para fora da bolsa, e entrou na fenda do muro.


Em seus estudos como príncipe, já tinha visto o mapa da região e sabia qual caminho seguir para chegar ao Vilarejo Akai, dos Were Ôkami. Sabia dos perigos que teria de enfrentar e que não dava para simplesmente chegar e dizer que veio salvar Nanami. Precisava de um plano, mas teria todo o caminho para pensar. Mas no momento tudo que importava era ganhar distância antes que seu pai ou irmãos descobrissem que havia fugido e enviasse as tropas atrás dele.



-oo0oo-



A noite se passou com uma chuva de pesadelos, Nanami acordou assustado em um grito mudo. Até mesmo o sono havia lhe atormentado depois do que passara a noite, e agora Nanami mais uma vez fez beicinho para chorar sua dor.


A tortura havia começado oficialmente, sendo assim ele tinha que parar de lutar e aceitar as coisas de frente.


Suas esperanças haviam saído pela janela no momento em que Kensuke havia lhe forçado a fazer coisas estranhas.


Por que todo mundo cismava com esse negócio de querer ficar nu? Devia ser uma coisa de lobo, e Nanami desgostou porque ele era muito, muito vergonhoso. E ninguém iria querer ver o seu traseiro pálido.


Bem, ele precisava agora de um café da manhã. Seu estômago rosnou em fome e Nanami pulou para os seus pés.


Será que o Alfa estava mesmo pensando que Nanami tinha sido abusado? "Fala sério!" Riu internamente, não podia ser.


Ajeitando seu kimono, percebeu que havia uma portinha no quarto que denominou sendo o banheiro. Nanami correu para lá e cuidou de suas necessidades básicas, até um curto banho para lhe manter limpo. Pena que ele iria usar praticamente o mesmo kimono que o da noite passada.


Cuidadosamente, o gatinho pulou para o corredor e percebeu todo o silêncio da casa. Talvez Kensuke tivesse saído por ter ficado muito bravo! Isso fez Nanami se sentir mais solto. Então pulando em seus pés, ele correu pelo corredor e então desceu as escadas à procura da cozinha.


Assim que encontrou o local, por todas aquelas panelas e aquela variedade de frutas sobre as cestas e a mesa, Nanami correu para comer tudo o que poderia. Primeiro, ele olhou para todos os lados se perguntando se alguém iria vê-lo. Certificando-se de que realmente estava sozinho, Nanami passou a devorar um par de maças e cachos de uva que estavam sobre a mesa. — Humm, delicioso! Que fome!


Quando estava terminando, Nanami ouviu passos, logo que ele se escondeu atrás de uma porta, junto com um montinho de frutas que ele segurava e mastigava. Então viu Kensuke entrar junto com outra pessoa.


Perguntou-se quem seria esse outro, que só pela voz suave imaginava que fosse alguém muito gentil e bondoso.


— O que é tão importante para me chamar em sua casa logo em sua lua de mel? Não me diga que ele adoeceu ou algo assim? — Havia uma tonalidade de humor em sua voz. Nanami continuou prestando atenção.


— Ah... Eu preciso de um grande favor seu, e eu gostaria que, por favor, guarde segredo. É um assunto muito importante e se caso se espalhar, seria um grande problema para minha reputação. — Kensuke parecia sério, Nanami não podia ver nada de onde estava, mas ele escutava perfeitamente.


— Um segredo? Você é o Alfa, o meu dever é manter todos os seus assuntos sob sigilo, sabe que nunca diria nada. Além disso, é um grande amigo meu, nunca faria nada para prejudicá-lo ou ao seu esposo. — Parecia muito sincero


— Eu sei... — Ele engoliu em seco. — Nós não consumamos a noite de núpcias.


— O que?! Mas por quê?


— É o que estou te dizendo... Não foi porque eu não quis. Tinha tudo para dar certo, mas...


— Mas? — Encorajou-o.


— Eu estou seriamente desconfiando de que Nanami foi abusado antes de vir para cá. Havia hematomas e manchas por todo o corpo. Poderia verificar isso pra mim? — Era notável o desgosto na voz do Alfa.


Nanami se lamentou por isso e quis chorar em como ele se sentiu desprezível.


Mesmo que ele não tivesse desejado nada daquilo, não foi espernear ou se debater que fizeram Kensuke recuar. Ele somente ficou assustado em como seu corpo era horrível, Nanami apostava que a imagem havia ferido os olhos do outro. Sentiu-se tão feio.


— Isso não pode ser Kensuke, Chizuru teve o trabalho de se certificar de que Nanami era bom para você. Como ele não te contou algo assim?


— Olhe Shou, eu vou ter que dar uma palavrinha com Chizuru sobre isso. Será que pode ir até o meu quarto e verificar Nanami, por favor?


— Claro... — Antes mesmo que tentasse dizer algo mais, Shou fez um sinal de silêncio para o Alfa, e só então ambos perceberam um leve som de mastigar vindo de trás das portas da dispensa.


Kensuke a abriu e Nanami deixou cair algumas frutas quando se assustou.


— E-Eu....


— Estava nos espiando Nanami? — Kensuke parecia realmente incomodado por isso.


— Eu... Eu só estava comendo, não espiei nada, eu juro. — Defendeu-se lançando as mãos para frente e abanando para Kensuke. O mesmo ficou com seu rosto vermelho.


— Olha só se não é o pequeno príncipe Neko de Masao. — Shou apareceu entre eles com um belo sorriso para Nanami, tentando aliviar a situação.


Kensuke bufou. — Estou indo para falar com Chizuru, volto em uma hora. — E saiu porta afora.


Nanami congelou no lugar, olhando para Shou. Ele parecia mais um gatinho assustado depois do susto que levou. Por um momento ele pensou que Kensuke fosse lhe dar uma surra, ele parecia bravo, muito bravo.


— Não pense besteiras. Kensuke nunca seria idiota o bastante para te machucar. Ele é um grande Alfa, e realmente assustador e intimidante às vezes. Mas pode acreditar, ele tem um lindo coração.


Nanami não acreditou no ‘lindo coração’ de Kensuke. Ele estava mais para grande lobo mal devorador de gatinhos! Isso o fez tremer levemente.


— Vamos voltar para o quarto novamente? Eu sou o curandeiro da matilha e preciso te examinar.


— E-Examinar? — Nanami engoliu em seco. — Para que? Eu não fui abusado, eu juro! Eu estou muito bem. — De repente ele se lembrou de outro detalhe. — Não vou precisar ficar nu de novo não é? — Se lembrava do pequeno exame de Chizuru, em que o mesmo havia lhe obrigado a ficar nu.


— Preciso que fique nu se tenho que lhe examinar. — Shou sorriu amavelmente para ele.


Nanami não se sentiu tão intimidado, afinal além do curandeiro ser muito bonito, ele parecia muito sincero também.


Eles entraram no quarto e Shou trancou a porta. — Você ouviu toda a conversa não é? Não precisa se envergonhar.


Nanami olhou tremendo, mas ele fez como foi dito e retirou peça por peça de sua roupa. Shou estava em silêncio e sério a partir de quando olhou para a pele pálida de Nanami.


— Deite-se no futon. — Assim o fez, e Shou abriu sua maleta médica.


— Do-Doutor... — Nanami sempre odiou médicos, mas raramente foi atendido por um. Praticamente adoecia e ficava de cama por dias, mas se não fosse Sayuri, Nanami simplesmente ficaria na cama até que melhorasse ou não. — Eu juro, estou muito bem.


— Sim, provavelmente essas marcas já não doem mais. — Shou sorriu para ele quebrando a expressão séria de poucos segundos atrás. — Tem algumas mais recentes... Outras bem antigas e que provavelmente não foram tratadas. — Em seguida olhou nos profundos olhos azul céu do pequeno. — Você poderia me contar a verdade? O que houve realmente com você?


Nanami quase contou realmente a verdade, mas ele apertou seus lábios para evitar fazer esta besteira. Afinal era a vida de Sayuri em risco, e Nanami faria qualquer coisa para proteger seu melhor amigo.


— Foi quando caí da colina e saí rolando. E-E os outros foi das vezes que cai. Eu sou bem desastrado. Não diga a Ken, por favor. — Nanami fingiu um draminha e era óbvio que Shou não acreditou, mas ele preferiu deixar como estava.


Foi quando suas pernas foram abertas de repente e Shou teve a indecência de olhar em seu buraquinho rosa. Nanami gritou para ele e deu-lhe um cascudo em sua cabeça. — Hei, estou apenas verificando!


— Não é para olhar ai! — Nanami estava corado a mil tons de rosa e quando percebeu, cobriu seu rosto com os braços.


— Tudo bem. Ao menos tive tempo de ver que realmente é virgem. Isso comprova que não foi abusado realmente. Ken vai gostar de saber disso.


— U-Uh. — Essa foi à única resposta do gatinho.


— Pode se vestir. — Shou levantou-se e foi até o criado-mudo, encontrando a caixinha de presente que Nanami havia ganhado de Ken na hora do casamento. — Ainda não abriu seu presente de casamento?


Só então Nanami deu um pulo lembrando-se de tal. — Oh sim! — Ele esteve empolgado em segundos, mas tentou disfarçar isso e se fazer de indiferente. — Não deve ser nada demais.


— Abra. Eu preciso colocá-lo em você.


Nanami olhou pra o moreno. O curandeiro era apenas um pouco mais alto que ele, bem considerando a diferença de idade. Shou devia ter seus 21 anos, os olhos violetas e os cabelos negros e bem lisos presos em uma longa trança, já Nanami não tinha mais do que 13 anos.


Shou era gracioso e lindo, e isso levou ao loirinho acreditar que ele teria várias aos seus pés. E não pode evitar pensar se Kensuke gostava ou já se interessou pelo curandeiro.


Com cuidado, Nanami pegou a pequena caixa e a abriu. Os seus olhos arregalaram quando ele visualizou a preciosa joia deitada sobre a almofada vermelha. Colocando a caixa sobre o futon, com cuidado e certo medo, ele tocou a pequena esfera. Ficou encantado com ela. Ao que tudo indicava era um brinco, mas o que realmente o chamou atenção era o pingente em forma de sino de gato.


— Gostou? — Shou perguntou com um sorriso.


— Ele é... Kawaii! É tão lindo e perfeito... Eu nunca ganhei nada assim... Eu tenho esse cordão... — Pegou o coração de quartzo com a mão livre. — Que ganhei dos meus pais... — Nanami disse. Na sua euforia, não reparou que disse algo estranho – pelo fato de um ‘príncipe’ nunca ter ganhado uma joia — mas Shou resolveu ignorar. Igualmente reparou na coloração daquele pingente azul, e ficou curioso, parecia ter uma espécie de magia sobre ele.


— Ken-sama foi às terras do Sul para encontrar. Ao saber que casaria com um Were Neko, ele queria algo que o fizesse lembrar-se de sua origem. Ele ficará feliz em saber que acertou. — Shou disse cálido.


— Oh! É melhor deixar guardado... Não quero perder... — Nanami disse temeroso. Aquele pequeno brinco se tornou especial para si, e não queria perder de maneira alguma.


— Ele foi feito para usar! Este sino é o símbolo de seu acasalamento com Kensuke e tradição dos lobos, que o superior entregue ao seu esposo um presente como símbolo de seu respeito, cuidado e fidelidade. Não usar, seria como recusar Kensuke como seu marido. — Shou disse colocando-se de joelhos ao lado de Nanami. Com cuidado ele pegou o brinco e retirou uma agulha da maleta.


— Para que essa agulha? Eu não estou doente? — Nanami indagou sem entender. Por insisto ele ser encolheu com medo.


— Ahaha! — Shou deu uma bela risada cristalina. Ele tinha adorado o gatinho, Nanami era ingênuo e puro, e dava para perceber que tinha um grande coração. — A agulha é para fazer um pequeno furo para o brinco. Prometo que não doerá. Mas agora, pode deixar suas orelhas neko surgirem?


— Ah tah... — Nanami murmurou envergonhado. Ele fechou os olhos se concentrando. Para outros gatos poderia se fácil tomar a meia-forma, mas para o loirinho nunca foi. Ele sempre considerou quebrado, já que era difícil tomar meia-forma, e nem mesmo podia mudar para seu animal.


Não tardou, e as orelhas e rabo branquinho surgiram. Shou olhou encantado, e sentiu ganas de apertar aquele gatinho. Nanami era lindo e gracioso, e se Kensuke não cuidasse bem dele, muitos outros tomariam o gatinho dele.


— Vou se rapidinho! — Shou disse tranquilo. — Você gosta de doces?


— Ah sim, Sayuri sempre levava para mim! Gosto principalmente das rosas, saber eu amo rosa... E uma cor muito linda. — Nanami disse empolgado, tanto que nem sentiu quando Shou furou sua orelha direita, apenas com o sininho tinindo que ele reparou. — Já?


— Sim! Quer ver? — O moreno perguntou e tomou um espelho. O mesmo tinha estrutura e cabo de prata com detalhes de pequenas flores, era muito lindo. — Veja! Ficou perfeito! — Disse mostrando para Nanami a própria imagem dele.


— Oh! Eu... — Nanami corou fortemente. Ele ficou olhando para o sininho e balançou a cabeça para ouvir o tinido, tanto que quando Shou foi se afastar, Nanami segurou a mão dele. — N-não!


— Que ficar com o espelho? — Perguntou, recebendo um aceno de cabeça da parte do loirinho. — Pode ficar! Descanse um pouco, passou por muita emoção recentemente. Foi um prazer conhecê-lo e qualquer dia desses vá tomar chá comigo. — Ele deu um beijinho na testa de Nanami e saiu do quarto, o deixando entretido com o espelho e seu presente.


Shou fechou a porta de correr e tela estampada atrás de si, e seguiu para o primeiro piso da bela casa. Quando alcançou a varanda da casa, ele viu o Alfa sentando na borda da varanda.


— Ei, tudo bem? — Shou perguntou sentando ao lado do amigo e colocando a maleta no colo. Ele olhou para a neve que cobria todo o chão ao redor da casa. No momento, não nevava, mas nem por isso deixava de estar frio.


— Sim, não... Acabei discutindo com Chizuru! — Kensuke disse sério.


— Anda muito nervoso, nunca é bom falar as coisas quando está estressado. Acho que dever desculpas a ele depois. — Disse Shou.


Kensuke encarou o amigo. Ele tinha Shou como irmãozinho. Os quatro: Ryo, Seiji, Shou e ele haviam crescido juntos. Dos quatro, Shou era um Ninshin e sempre chamou a proteção dos amigos. — Tem certeza? — Perguntou temeroso. Não queria ter errado, algo que estava fazendo muito ultimamente.


Shou afirmou com a cabeça: — Ele é virgem, mas o corpo tem 30% de feridas ou cicatrizes. Segundo ele, se machucou na floresta quando fugiu, mas acho que tem mais nisso. Há feridas antigas. — Shou disse sombrio.


Kensuke fechou os olhos. Ele não queria ter essa sensação, mas ele sentia que havia muita coisa por trás dessas histórias, coisas que não haviam sido contadas. Mesmo que Nanami houvesse sido entregue como o príncipe de Masao, o pequeno não tinha nada de realeza, ao menos que referia a ações, educação e falas. Ele era lindo, mais que qualquer príncipe de outra tribo que tinha visto, mas suas atitudes não condiziam com o título.


— Obrigado!


— De nada, eu adorei ele, muito fofo! Ah, coloquei o brinco e ele amou. Agora tenho que ir! Deixei Minki dormindo, e já viu, meu pequenino acorda faminto. — Shou disse levantando-se. Ele deu um aperto no ombro do Alfa e saiu rumo ao vilarejo, especificamente a sua casa.


Shou foi embora, e Kensuke continuou no mesmo lugar. Ele não sabia como encarar o seu esposo. Nanami parecia tão frágil, como se qualquer palavra sua fosse quebrá-lo. Teria que apreender rápido, pois não estava para simplesmente ignorar o pequeno gatinho.


Continua...



Notas finais
Miky-san:

Obrigada por ler!
Espero que tenham gostado! Próximo domingo tem mais!
Beijinhos ♥