Akai Ito
8 Orgulho
Notas iniciais
– O que está acontecendo aqui?
Allen e Lavi olharam atônitos para o moreno parado na porta, que os olhava com uma expressão severa. Mas a forma como ele falou deixou o albino irritado, que, com cuidado, tirou o amigo de cima de seu corpo arrumou a blusa e encarou Kanda com um semblante irritado.
– Porque deveríamos te dizer o que estava acontecendo? – A pergunta havia pegado o japonês de surpresa, mas para não dar o braço a torcer, manteve a mesma faceta.
– Porque sim. É ridículo eu chegar e ver essa situação.
– Se não queria ver, então deveria ir embora daqui, não importa o que Lavi e eu estivéssemos fazendo, isso não é do seu interesse. – Rebateu sem demora. Kanda estava lhe enfurecendo de uma forma que ele mesmo desconhecia.
– Há, e não é do meu interesse porque, moyashi? – Soltou a frase ironicamente, cruzado os braços.
– Você e eu temos alguma coisa? Eu acho que não. Então sou livre para fazer o que eu quiser com quem eu quiser.
O clima estava pesado entre eles. Lavi observava a discussão sem saber o que fazer, ele podia jurar que via fogo em volta dos dois e raios saindo de seus olhos, enquanto se encaravam de forma irritada.
– Oh, não temos? E o que foi aquele beijo no meu quarto? Você me parecia bem entregue. – Respondeu cinicamente, mas sua expressão mudou para confusa, quando viu Allen lhe olhar magoado.
– Quem foi que me largou lá, e disse que estava querendo provar a si mesmo que aqueles sonhos não te afetavam... – Sua voz não passou de um sussurro. – Se já provou isso, porque está implicando se eu e Lavi temos algo? Isso não tem nada a ver com você. – Desviou o olhar, o tom magoado não escondia o quanto estava decepcionado com o moreno.
Suspirou, e olhou para o ruivo que ainda permanecia na cama, encarando os dois. Sua expressão de assustada foi para séria, e ele encarou Allen de volta... E foi quando o Walker teve a pior ideia de sua vida.
O albino puxou Lavi pela mão, olhou para Kanda, sorriu cinicamente, enlaçou o pescoço do amigo e colou seus lábios no dele. O ruivo ficara sem reação, suas mãos foram parar na cintura mangra do mais novo com o intuito de lhe afastar, mas antes mesmo que pudesse agir sentiu Allen sair dos seus braços e um soco lhe acertar a face. Caiu no chão, ainda sem conseguir processar o que aconteceu, apenas viu o momento que um furioso japonês ia até sua pessoa caída no chão com intenções assassinas saindo por seus poros.
Conseguiu por pouco se jogar para o lado antes que um chute lhe acertasse, aos tropeços conseguiu se levantar, e corria no intuito de se trancar no banheiro, mas sentiu quando sua camisa foi puxada. “Adeus mundo.”, pensou enquanto fechava os olhos esperando o impacto... Que não veio. Olhou para trás e percebeu em choque, que Allen recebeu o soco por si.
– Você não tem o direito de fazer isso. – Sua voz saiu embarganhada pelo choro, o albino olhou para Kanda, as lágrimas que ele lutava para que não saíssem faziam com que seus olhos brilhassem. – Sai daqui Kanda. Eu não quero mais olhar pra você.
Atônito, Yuu soltou Lavi, que caiu no chão. Em silêncio saiu do quarto, batendo a porta atrás de si em um estrondo. Os dois garotos ficaram em silêncio, e quando o ruivo dirigiu seu olhar para o menor, viu que este chorava. Allen ajoelhou-se no chão, abraçando-o.
– Desculpa por te meter nisso. – Escondeu o rosto no peitoral do mais velho, fugando.
– Não se preocupe. – Acariciou os cabelos brancos do menor, sorrindo ternamente. — O Yuu é um idiota. Ignore-o, ok? Você merece coisa melhor.
– Obrigado. – Apertou ainda mais o amigo. – Só... Me deixa ficar assim mais um pouco.
Lavi não disse nada, apenas ajeitou melhor Allen entre suas pernas, e o abraçou.
–*-
Kanda não havia saído exatamente naquela hora, e por uma pequena fresta pra porta, ele viu os dois abraçados no chão. “Eu sou um idiota. Realmente.” . O moreno então foi de vez para casa, passou por seus pais indo direto para o quarto, jogando-se na cama, precisava meditar e colocar as ideias no lugar, não podia continuar impulsivo como estava, mas... A culpa era toda do albino idiota, que o fazia deixar de ser ele mesmo.
Com um suspiro, ajeitou-se na cama, fechando os olhos e respirando fundo. Precisava esvaziar a mente, ou simplesmente pensar numa solução para tudo isso, mas, acima de tudo, se sentia sufocado, gostaria de conversar com sua mãe, entretanto não sabia como ela reagiria ao contar o que fizera com Allen...
.. Nem tivesse uma solução.
– Yuu. – Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir a voz de seu pai, abriu os olhos e o viu parado na porta. – Posso entrar? – Apenas confirmou, vendo-o em seguida aproximar-se e sentar ao seu lado na cama. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, até que Yusuke se pronunciou de novo. – Está... Tudo bem, filho?
– Sim... – Confuso, continuou a olhar o moreno mais velho.
– Tem certeza? Não pude deixar de notar que você tem andado estranho, nem sua mãe sabe o que você tem. – Ah, como pode esquecer do quão perceptivo seu pai era, deveria pensar que uma hora ele notaria.
– Não sei bem como te explicar pai... – Passou a mão na nuca, olhando para baixo.
– É algum problema com o Allen? – Yuu virou-se para seu pai surpreso.
– Como é que...
– Eu sei? Na festa da Yuko, eu estava no meu quarto e da sua mãe, pegando a câmera, eu vi a hora que você estava falando com o Allen. – O mais novo ficou quieto, voltando a olhar para baixo, não sabendo o que dizer. Yusuke suspirou, retornando a fala: — Não vou dizer que estou pulando de alegria ao saber que meu filho provavelmente é gay, mas... Se isso é algo que te faz feliz, se estar com Allen pode te fazer feliz, eu vou aceitar muito bem isso. Não vim lhe dar nenhuma lição de moral, mas vou te contar uma pequena história, pense nela e reflita. Ok? – Respirou fundo. — Quando eu era mais novo, minha família vivia da forma mais certinha possivel, cresci ouvindo de meus pais que mulheres tinham que ser submissas aos seus maridos, e que ser homossexual era como uma doença. Isso tudo até que conheci sua mãe.
Com um suspiro nostálgico, o mais velho olhou para o teto branco, sentindo os olhos curiosos de seu filho em sua direção.
– Pelas regras que meus pais colocaram, eu não aceitei de forma alguma que sentia algo por Yukiko, afinal, ela era uma garota de ideias formadas, grandes opiniões, que pregrava a ideia de que toda a forma e amar era válida, e acima de tudo isso, era independente. Eu jamais poderia me relacionar com ela. Tratei-a tão mal quando descobri que estava apaixonado, como se a culpa fosse dela, fui rude, sempre arrogante... Ah... – Riu um pouco. — Você realmente lembra a mim quando mais novo, principalmente no jeito... Mas sabe filho, chegou uma hora em que parei para pensar em tudo, e então vi como eu estava errado, pedi desculpas a Yukiko, que brigou tanto comigo nesse dia e me ignorou por semanas, e num belo dia ela me perdoou, desde então estamos juntos. Eu refleti, e hoje vejo como eu me arrependeria se não tivesse engolido meu orgulho e aceitado tudo isso. As vezes é necessário deixar o orgulho de lado e correr atrás do que nos faz bem. Se estar com Allen te faz sentir bem, então corra atrás dele para que não se arrependa disso no futuro. – Acariciando os cabelos de seu filho, abraçou-o em seguida, beijando a coroa de sua cabeça carinhosamente.
– Obrigado pai. – A voz saiu baixa, mas pela aproximidade Yusuke ouviu muito bem, e sorriu com isso.
– Estou aqui para isso. – Levantou-se e quando abriu a porta do quarto seu sorriso ampliou ao ver Yuko correr em sua direção enquanto gargalhava, fugindo da mãe que lhe perseguia rindo igualmente. Era em momentos como esse que Yusuke via como se arrependeria se não tivesse ido atrás da que hoje, era a mulher da sua vida.
–*-
Foi embora da casa de Lavi quase no fim da tarde, e quando chegou a sua residência, encontrou Mana concentrado em seu notebook no sofá, bagunçou os cabelos castanhos compridos apenas para pirraçar, e saiu rindo para seu quarto. Jogou-se então em sua cama, sentia-se cansado físico e psicologicamente, a discussão com Kanda fora estressante, e permanecia magoado com o outro. Mas não daria o braço a torcer, não mesmo. Afinal, ainda tinha seu orgulho.
Bufou, se sentindo irritado novamente, agarrou o travesseiro, apertando-o em seus braços.
– Esse... BAKANDA! – Jogou o travesseiro na parede, queria alguma forma de tirar essa raiva de dentro de si.
Largou-se de qualquer jeito na cama novamente, um bico se fazia presente em seus lábios enquanto suas sobrancelhas estavam franzidas. Fechou os olhos, respirando fundo. “Acalme-se Allen, acalme-se. Pense na deliciosa comida do Mana.”. Ficou algum tempo largado na cama, até que levantou-se, pegando seu pijama e rumando ao banheiro. Não demorou no banho, queria apenas deitar em sua cama e não ver mais ninguém, e além do mais, o dia seguinte era segunda-feira, tinha aula, e só de pensar nisso desanimava.
Deixou a toalha pendurada na cadeira do computador, indo ao quarto de Mana, vendo-o mexer em algo no guarda-roupa, sentado na cama que ficava de ao lado deste. Jogou-se então no colchão macio.
– Pai...
– Hm?
– Posso dormir com você hoje? – Começou a brincar com a barra da camiseta do castanho, que virou-se em sua direção ao ouvir o pedido.
– Faz tempo que não pede isso... Até achei que não gostava mais. – Mana riu, bagunçando os cabelos brancos. – Pode sim filho. Bem, eu só vou tomar banho, vai arrumar a cama que eu já venho deitar com você.
– Ah! Diga pro tio Neah dormir na minha cama! – Gritou quando o viu sair do quarto.
Ficou mais um tempo deitado, até que criou coragem para sair da cama e arruma-lá, indo para seu quarto arrumar seu material, pegando seu celular e levando-o consigo até o quarto de Mana, deitou na cama sob os cobertores, suspirando em agrado. Alguns minutos depois mana apareceu, usando apenas uma calça de moletom, tendo os compridos cabelos castanhos solto em suas costas. Deitou-se ao lado de Allen, ficando de frente para o menor que lhe abraçou, afundado o rosto em seu peito, não tardando a senti-lo mexer em suas madeixas.
– Eu já disse que eu amo seu cabelo pai? – Sua voz saiu abafada, pois não saiu da posição em que estava, mas Mana ouviu muito bem, rindo em seguida.
– Sim... Desde criança você diz isso. – Acariciou as costas de seu filho.
– Nem pense em cortar seu cabelo, se não eu vou ficar muito bravo. – Dessa vez Mana não aguentou e gargalhou. Allen realmente era uma figura.
– Certo, Allen... Ah. – Passou a mão nos olhos. – Viu? Eu choro de rir com você.
– Não sei onde tá a graça. – Fez bico, contrariado.
– Você é uma fofura, filho.
– Para de tirar com a minha cara, pai! – Deu alguns tapas no mais velho, que apenas ria da situação.
– Venha cá, Allen, vamos dormir agora. Amanhã você acorda cedo. – Ainda contrariado, voltou a posição que estava. – Boa noite, filho.
– Boa noite, pai...
–*-
“- Vocês não estão se falando de novo? – Perguntou Lenalee, sentando-se ao lado do albino no refeitório.
– Quem?
– Você e Kanda....
– Quem é Kanda? – Sua voz falsamente inocente mostrava o quão irritado estava com o moreno, que por acaso estava sentado na mesa ao lado. Lenalee suspirou, passando a mão na testa.
– Qual foi a razão dessa vez? – Questionou ao achar que era mais uma briguinha infantil entre eles, mas mudou de ideia ao ver que Allen encarava sua comida sem realmente vê-la, seu semblante mostava algo como dor e tristeza.
– Eu... Não quero falar sobre isso.
Voltou a comer, mantendo a boca ocupada para não responder a nenhuma pergunta sobre sua briga com o japonês. Quando terminou, viu que a morena não saiu de seu lado, esperando apenas o momento em que terminasse para lhe arrastar para seu quarto.
– Você não sai daqui até me dizer o que aconteceu. – Sentou-se de frente para a porta.
– Lenalee... – Allen suspirou cansado, deitando na cama da outra frustrado. – Tá certo. Você sabe que eu e o Kanda... Bem, temos um relacionamento, mas... Ele tem andado tão estranho comigo e eu não sei o que fazer! Nós poder fazer, sabe, “aquelas coisas”, mas logo ele me enxota do quarto como se eu fosse um qualquer. Isso ta me machucando demais, e hoje quando fui aborda-lo sobre o assunto, ele disse que não era da minha conta. Obviamente eu não aceitei isso como resposta e discutimos. No final ele disse que estava terminando qualquer coisa que tivessemos e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
– Ahh... – Lenalee não acreditava que Kanda fez uma coisa dessa. Suspirou, olhou em seguida para Allen, que se mostrava ainda mais chateado. – Já pensou... Em realmente desistir disso? – Para sua surpresa, o albino apenas riu em escarnio.
– Já... Mas... Kanda é o único que consegue me manter são. Ele é... a...”
– A única pessoa que eu mais amo, viva. – Acordou dizendo essas palavras, nem percebendo exatamente quando abriu os olhos.
Sentia o típico aperto no peito ao ter esse tipo de sonho novamente. Era definitivo, não gostava. Odiava acordar com essa vontade de chorar e nunca mais levantar da cama. Bufou, decidido a levantar; olhou a hora em seu celular, faltava apenas dez minutos para seu despertador tocar, então não se incomodou em saiu do quarto, indo ao banheiro em seguida. Lavou o rosto, logo após encarou sua imagem no espelho.
Allen realmente gostaria de saber mais sobre seus sonhos; o que eles eram realmente, se eram reais; e se fossem, porque então sonhava com isso.
Secou o rosto, afastando esses pensamentos e foi para a cozinha, sentindo o cheiro do café. Logo viu Neah e Mana conversando, sentados à mesa.
– Bom dia... – Cumprimentou-os, recebendo de Neah um acenas e de Mana um sorriso.
– Bom dia, filho! Pensei que dormiria mais... Sei como ama dormir na minha cama. Já até imaginei que teria que te tirar de lá com chutes. – Brincou.
– Ah... Foi aqueles sonhos de novo... – Passou a mão no cabelo, sentando-se ao lado Neah.
– Um pesadelo? – perguntou seu tio.
– Hm, quase isso...
Comeram em silêncio, até que Tyki apareceu, bocejando e reclamando, dizendo que queria continuar a dormir. E quando se sentou, Mana e ele começaram a conversar algo referente à escola, que o albino fez questão de ignorar. Após comer tudo que tinha direito, Allen foi escovar os dentes e se trocar, e quando já estava pronto, ficou na sala a espera de Tyki.
Abriu a porta de sua casa, rindo do moreno que tropeçou no final da escada, mas ao olhar para frente deparou-se com Kanda, que também estava saindo de casa nesse momento. Estacou, encarando o japonês que também parecia surpreso ao vê-lo.
– Shounen? Aconteceu algo? – O português pendurou-se no ombro de Allen, e então viu o japonês revoltado logo a frente, compreendendo então o porque do outro travar na porta. – Ignore, hm? – Sussurrou em sua orelha, coisa que o fez despertar. – Vamos, vamos. Ou quer que cheguemos atrasados?
O clima até a escola estava tenso, nem Allen e nem Kanda se procunciavam, ou faziam questão de acelerar o passo até a escola, fazendo com que se evitassem, como se fosse um jogo que ambos não queriam perder. “Esses dois são realmente competitivos... E orgulhosos.”, pensou Tyki, revirando os olhos e contendo a vontade de rir.
Ao chegarem, Tyki teve que se separar, indo para a sala dos professores, mas quando viu Lavi, não resistiu em passar a mão nos cabelos ruivos, e sussurrar em sua orelha:
– Fique de olho naqueles dois por mim... E me conte tudo. – Em partes fez isso por estar curioso e querer dizer isso em segredo, a outra parte era porque amava ver as reações daquele coelhinho, que corou e apenas acenou com a cabeça em concordância.
Olhou para trás antes de virar uma das esquinas, vendo que Allen e Kanda continuavam a se ignorar, virando a cara um para o outro, fingindo que não se existiam, mas....
“Esses dois realmente... São feitos um para o outro.”, pensou, rindo consigo mesmo.
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