Eduarda jogou com força o amontoado de papeis em cima do piano o que fez com que todas aquelas folhas voassem e caíssem desordenadas pelo chão.
— Precisamos repassar estes sons. — Disse Aiyra, estava começando a ficar irritada com tudo aquilo, irritada principalmente com o modo arrogante que a menina era.
— Eu já treinei, não preciso mais! — Eduarda desceu do palco em um pulo, os cachos ruivos da menina voavam enquanto ela andava apressada para a saída do auditório.
— Caramba Eduarda, é hoje da pra focar só um pouquinho?
— Caramba Aiyra! — Imitou a menina em tom de deboche. — Eu já não preciso. Treina você!
— Pra que infernos você se inscreve... — De nada adiantava falar. A menina já tinha saído porta a fora.
Aiyra teve de juntar os papeis controlando a respiração. Odiava aquela menina por mais que soubesse que não se devia odiar ninguém. Odiava o modo como ela lhe tratava, odiava a prepotência que ela tinha. E odiava.... Bem ela odiava que a menina fosse mais querida que ela pelos outros.
Eduarda era um exemplo de péssimo aluno, um exemplo de péssimo filho e uma amiga questionável. Mas as pessoas ficavam perto dela, davam tudo que ela pedisse. Tudo bem que ela era bonita... muito bonita. Mas dar o papel de figurante para uma menina deste jeito... Era muita falta de noção mesmo!
Tinham quase cinquenta sons no musical, e a figurante é a que participava da maioria deles. Sendo assim ela devia melhor que ninguém saber todas as letras. Mas Aiyra duvidava muito que ela soubesse da metade. Ao contrario de Aiyra que tinha decorado ( e escrito ) o roteiro todo.
"Talvez eu deva ser assim também" Pensou em quanto juntava e enfiava todos aqueles papeis na sua mochila de baleias. Depois de terminar, ela já tinha se acalmado e nem dava mais tanta importância assim pra menina. Ela devia estar indo pro almoço que estavam dando. Depois que terminassem o auditório seria um tumulto de figurantes, maquiadores e alunos que queriam participar e agora arrumavam cenários de papel machê. Mas felizmente tinha o palco só pra si naquele momento, e ficar ali em cima dele parada e em silencio a enchia com uma satisfação que não podia descrever.
"Um dia isso vai estar cheio, e eu vou estar bem aqui, no meio" Mas ainda faltava algum tempo pra isso. Esse era seu ultimo ano de ensino médio, e por isso ia fazer dar certo, ia fazer ser notada. Mesmo que ela fosse a rainha de copas, e não a Alice. Andou até o espelho que ficava perto da saída (a ultima olhada, era como chamavam ele) e via uma menina linda. Não tão linda quanto a Eduarda magra, ruiva e com olhos verdes. Mas era linda, as vezes parecia que eram pessoas diferentes na frente do espelho, os dias em que ela era essa menina bonita, e em outros que mais parecia um cara em situação de rua.
Ela não era magra, tinha corpo. Uma cintura fina, quadris largos e nenhum busto mesmo. "Isso poderia complicar um pouco sua vida" pensou "mas nada que um bojo ou dez mil dólares não resolvam. Tinha a pele castanho acobreada, olhos grandes e escuros, um nariz pequeno e seus cabelos caiam em cachos pelas costas como uma cascata. Não era nenhuma Priyanka Chopra da vida, mas um dia com dinheiro e maquiagem quem sabe seria algo parecido. Estava se olhando tão fixamente no espelho que só notou que tinha algo estranho quando ouviu um barulho nas cadeiras. Alguém tinha voltado antes para o cenário e lhe tirado da viagem imaginaria em que estava, era uma pena.
Aiyra olhou ao redor mas não pode ver nada, e achou aquilo muito estranho porque tinha absoluta certeza que o barulho havia vindo dali. Notou que Eduarda tinha esquecido a bolsa de materiais em cima de uma das cadeiras, e como a boa samaritana que era, quando estava saindo ( não pretendia ficar ali dentro com mais alguem, não tinha a menor graça assim.) Mas quando levantou a pequena bolsa de couro branca, algo saltou de dentro dela. Se assustou e caiu de bunda no chão duro de madeira. Mas não era nenhum bicho para sua sorte, e sim um pequeno relógio.
Aiyra nunca tinha visto um daqueles pessoalmente, não um verdadeiro ( usavam no teatro por vezes algumas falsificações) e de certo nunca um feito de ouro como aquele era. Era uma peça linda, mas confusa. Afinal, para que serviam dois relógios juntos? O pequeno circulo que cabia perfeitamente na palma de sua mão estava preso por uma delicada correntezinha de ouro com outro igual se não pelos números. Enquanto um deles era normal com números gregos marcando as horas, o outro que parecia estragado e tinha alguns higrógrafos... seria chinês? Aiyra pensou.
Foi então que ela ouviu o barulho novamente, e desta vez a pessoa que arrumava o cenário parecia ter o quebrado de vez, o barulho foi alto e ecoou no chão de madeira. Mas foi perto. Se virou com o coração assustado procurando a fonte daquele estrondo, e não foi nem um pouco difícil de achar. Um homem velho que com toda certeza não era um aluno a olhava fixamente a alguns metros de distancia. na sua frente todas as cadeiras pareciam ter sido esmagadas a força e se encontravam reviradas e retorcidas, o problema é que aquelas cadeiras eram de metal.

Quando o homem deu um passo em sua direção, Aiyra deu cinco para trás. E quando o homem começou a correr, ela fez o mesmo sem pensar duas vezes. Antes pensou em ser educada e pedir como estava o dia e se estava tudo bem, agora ela só tinha um pensamento, fugir. Não conseguia gritar, parecia se que sua garganta tinha se fechado. Por mais que ela quisesse, o homem tinha dois metros de altura, ela sozinha não poderia nunca fazer algo contra ele. Correu o máximo que pode, e estava perto da saída do auditório quando por burrice decidiu olhar para trás. Ele estava logo ali, com um olhar faminto a menos de um metro dela. E como nos filmes em que ela tanto almejava participar, ela caiu. Caiu como uma idiota, e deu com sua testa em uma das ultimas cadeiras antes da saída. sentiu o mundo girar a sua frente, a pancada tinha sido muito feia ela sabia disso, caiu com tudo no chão e viu o pequeno relógio escapar de sua mão. "Era muito caro, quem sabe ele não quisesse só o roubar" ela pensou em seu desespero. Mas não era isso. Ele segurou com força um de seus tornozelos e a puxou para si, estava a arrastando, mas para onde? Aiyra não queria descobrir. Tentou se segurar em uma das cadeiras enquanto era puxada pelos corredores se debatendo. Mas logo na primeira que tentou fazer isto estava quebrada, e quando segurou com força no pé da cadeira sentiu sua mão rasgar. Devia estar doendo, a cabeça devia estar doendo, ela devia estar gritando. Mas porque nenhuma dessas coisas estava acontecendo!?
Tomou um gole de coragem e se virou para ver os olhos famintos do homem fixados nela e soube naquele momento com 200% de certeza que ela não ia sair viva dali.
Chutou com toda a sua força o rosto do homem, e seu tenis duro foi o suficiente para que ele soltasse um rugido de incomodação ( não dor, ela devia ter uns 100kg a menos que ele) mas ainda assim ele soltou sua perna para por a mão na cara que sangrava. Aiyra aproveitou para correr, se arrastou por alguns segundos e quando chegou no pequeno relogio ela se levantou o agarrando com força. Porque fez isso, ela não sabe dizer. Mas parecia que devia o pegar então o pegou. Segurou com força o pequeno relogio em sua mão dolorida e correu.
Correu por uns dez segundos, mas parecia que nada estava indo como deveria naquele dia e logo ela se sentiu tão tonta e pesada que não conseguiu se mexer. O mundo estava ficando branco, cada vez mais branco e brilhante a ponto de ela não poder ver nem o próprio corpo. Seus braços e pernas estavam pesados, e ela não conseguia se mover. Era uma sensação caustrofóbica com toda certeza. Mas duraria pouco, queria se agredir por ser tão idiota. Mais uns metros, mais uns metros e teria chegado no refeitorio, mas não, ela teve de desmaiar antes.
Aos poucos começou a ouvir o pequeno relogio, o som baixinho dos ponteiros se mexendo pareciam entrar e ecoar na sua cabeça. E eles foram ficando mais altos a cada segundo até que fosse insuportável.
antes não parecia em nada um desmaio, o que via nos filmes era escuro e mole, você caia e dormia. Segundo todos os filmes que ela já tinha visto o que acontecia é que ela estava morrendo.
Aiyra estava com medo, apavorada e assustada. O brilho, o som, o corpo. Mas se fosse para o homem a ter pego, era melhor ter morrido assim sem dor e nem violencia. Uma morte quase em paz ela suspirou.
Só que Aiyra começou a cair, não como se por vontade propria mas como se estivesse em queda livre. Sentia o corpo voltando ao normal, o barulho sumiu por completo e quando a claridade diminuiu a ponto de ela poder abrir os olhos, tudo o que viu foi mato a alguns metros. Ela estava caindo, literalmente e não metaforicamente. Podia ver as arvores se aproximando cada vez mais. E então ela caiu de vez no chão de terra.
Doeu, mas o que mais doia era ter que entender o que raios estava acontecendo.

Notas finais
Sou toda ouvidos! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.